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</front><body><![CDATA[ <p align="center"><img src="/img/fbpe/cic/v54n2/tp8.gif"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b><font size="4">O <small>TEMPO NO CINEMA E AS NOVAS TECNOLOGIAS</small></font></b></p>     <p>Maria Dora Mour&atilde;o</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b><font size=5>A</font></b> hist&oacute;ria do cinema nos mostra que o modelo    de linguagem narrativo cl&aacute;ssico institu&iacute;do por Griffith <a name="top1"></a><a href="#back1">(1)</a>,    predominou no decorrer da evolu&ccedil;&atilde;o da produ&ccedil;&atilde;o cinematogr&aacute;fica.    Um cinema com estrutura narrativa linear e naturalista, demonstrando respeito    pela imagem captada pela c&acirc;mera. No entanto, desde os prim&oacute;rdios,    o cinema tamb&eacute;m se preocupou em desenvolver g&ecirc;neros a partir dos    quais pudesse expressar suas v&aacute;rias possibilidades de linguagem. Assim,    ao lado dos irm&atilde;os Lumi&egrave;re <a name="top2"></a><a href="#back2">(2)</a>,    produtores de filmes com estruturas narrativas relativamente simples, temos    Georges M&eacute;li&egrave;s <a name="top3"></a><a href="#back3">(3)</a> que,    fascinado pela ent&atilde;o nova tecnologia, transforma seus filmes em verdadeiras    experi&ecirc;ncias de linguagem usando efeitos de imagem como substitui&ccedil;&atilde;o    de objetos a partir de interrup&ccedil;&otilde;es da c&acirc;mera ou sobre-impress&atilde;o    feita com a pr&oacute;pria c&acirc;mera, os chamados <i>trick effects</i>. O    objetivo &eacute; sempre o de criar uma ilus&atilde;o pr&oacute;xima &agrave;    id&eacute;ia da magia.</p>     <p>M&eacute;li&egrave;s adapta seu conhecimento de teatro ao cinema. Ele constr&oacute;i    cen&aacute;rios para seus filmes, de forma a nos dar a sensa&ccedil;&atilde;o    de multicamadas e de profundidade de campo no mesmo plano, o corte evidenciando    a continuidade temporal e a manuten&ccedil;&atilde;o do mesmo espa&ccedil;o.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/fbpe/cic/v54n2/14810q1.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Se para alguns te&oacute;ricos, dentre os quais destacamos Andr&eacute; Bazin    <a name="top4"></a><a href="#back4">(4)</a>, o cinema deveria exprimir a realidade    do mundo registrando a espacialidade dos objetos e o espa&ccedil;o que eles    ocupam, sem uso de artif&iacute;cios e respeitando sua unidade; para outros    te&oacute;ricos como S. M. Eisenstein <a name="top5"></a><a href="#back5">(5)</a>,    por exemplo, o cinema est&aacute; baseado na montagem, que surge como necessidade    ideol&oacute;gica uma vez que organiza os c&oacute;digos para transform&aacute;-los    em um meio de express&atilde;o cinematogr&aacute;fica. Dessa maneira, aquele    cinema baseado na simples a&ccedil;&atilde;o d&aacute; lugar a um cinema de    id&eacute;ias.</p>     <p>Nessa perspectiva, &eacute; na montagem que encontramos a imagem do tempo uma    vez que, o tempo cinematogr&aacute;fico sendo uma representa&ccedil;&atilde;o    indireta, depende da organiza&ccedil;&atilde;o das imagens e sons para que ele    se constitua.</p>     <p>Quando Orson Welles realiza <i>Cidad&atilde;o Kane</i> (<i>Citizen Kane</i>    - 1940) e, logo a seguir, surgem os filmes do neo-realismo italiano no per&iacute;odo    do p&oacute;s-guerra, j&aacute; se elaborava importante altera&ccedil;&atilde;o    na tradi&ccedil;&atilde;o narrativa e de representa&ccedil;&atilde;o Griffthiana    em favor de um percurso que, pode-se dizer, vai do naturalismo ao realismo.    Em Orson Welles temos a mistura de estilos diferentes (do jornal&iacute;stico-documental    ao expressionismo), a no&ccedil;&atilde;o de fragmento (o filme constitu&iacute;do    por blocos narrativos e seq&uuml;&ecirc;ncias independentes), a preocupa&ccedil;&atilde;o    em registrar o tempo interior da a&ccedil;&atilde;o em sua integridade (plano-sequ&ecirc;ncia),    o desenrolar de duas a&ccedil;&otilde;es diferentes no mesmo plano (profundidade    de campo), a narrativa em espiral fechando-se num c&iacute;rculo em oposi&ccedil;&atilde;o    &agrave; linearidade teleol&oacute;gica de causa-efeito.</p>     <p>Com as novas tecnologias, ampliam-se os recursos para se praticar e desenvolver    essas novas formas de realismo, ou, se quisermos, de realidades. O tempo cinematogr&aacute;fico    rompe definitivamente seus la&ccedil;os com a no&ccedil;&atilde;o de continuidade    temporal.</p>     <p>Peter Greenaway &eacute; um dos que tem procurado estabelecer, por exemplo,    o desenvolvimento do tempo narrativo em simultaneidade. Cada realidade a ser    mostrada &eacute; composta por m&uacute;ltiplas camadas anteriores e, ao mesmo    tempo, temos a fus&atilde;o/s&iacute;ntese de v&aacute;rias a&ccedil;&otilde;es    acontecendo simultaneamente. Tudo ao mesmo tempo, aqui e agora. Num mesmo momento,    sobrepostos, s&atilde;o vistos planos gerais e detalhes de uma mesma cena, janelas    que se abrem para comentar a cena ou introduzir uma outra.</p>     <p>A leitura/vis&atilde;o de um filme n&atilde;o se processa apenas no n&iacute;vel    plano da horizontalidade, mas tamb&eacute;m na verticalidade e na profundidade,    assim como se antevia em M&egrave;li&eacute;s e se configurou em Orson Welles.</p>     <p>Em <i>O livro de Pr&oacute;spero</i> (<i>Prospero's Book</i> - 1991), adapta&ccedil;&atilde;o    de <i>A Tempestade</i> (<i>The tempest</i>) de William Shakespeare, Greenaway    utiliza as novas t&eacute;cnicas de maneira extremamente sofisticada e rompe    definitivamente com o que ele chama de "cinema conservador". Utilizar&aacute;    no filme "algo de televis&atilde;o, algo de cinema e algo de pintura".</p>     <p>A &uacute;nica possibilidade de mostrar com toda a for&ccedil;a dram&aacute;tica    o del&iacute;rio imaginativo de Pr&oacute;spero, a maneira intrincada como armava    seus planos para manipular as pessoas, o jogo temporal entre passado, presente    e futuro, era a utiliza&ccedil;&atilde;o da multiplicidade de telas, recurso    amplamente facilitado pelas novas tecnologias.</p>     <p>A mesma multiplicidade de telas ser&aacute; novamente a base narrativa de seu    filme <i>O livro de cabeceira</i> (<i>The pillow book</i> - 1996). Indo al&eacute;m    na quest&atilde;o temporal, neste filme rompe os limites entre passado e presente    ao trabalhar com as v&aacute;rias temporalidades no mesmo plano. H&aacute; uma    profus&atilde;o de acontecimentos que transcorrem ao mesmo tempo, aproximando-se    cada vez mais do processo que nossa mente desenvolve para registrar os fatos.</p>     <p>Nossa mente &eacute; capaz de registrar simultaneamente milhares de imagens    e sons, sendo que tendemos a priorizar aquilo que nosso foco de aten&ccedil;&atilde;o    determina.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Cada vez mais as novas t&eacute;cnicas permitem que o cinema proceda de maneira    semelhante, chegando ao que Eisenstein desejava: "o cinema deve ser materializa&ccedil;&atilde;o    do pensamento em movimento".</p>     <p>A interpreta&ccedil;&atilde;o visual da realidade deixa de ser somente figurativa    e de sentido &uacute;nico, passando a ser espelhamento de v&aacute;rias part&iacute;culas    elementares que coexistem e se fundem.</p>     <p>O surgimento do v&iacute;deo, primeiro anal&oacute;gico e depois digital, nos    coloca diante de uma ineg&aacute;vel transforma&ccedil;&atilde;o das imagens    e da temporalidade das mesmas. N&atilde;o deixando de ser representa&ccedil;&atilde;o,    o v&iacute;deo, diferente do cinema, &eacute; detentor de uma instantaneidade    que nos aproxima do tempo real, aproxima&ccedil;&atilde;o esta permitida a partir    da analogia, evidenciada pelo v&iacute;deo, entre o movimento e o tempo.</p>     <p>Se para atingir a id&eacute;ia de <b>tempo real</b> o cinema tem que, necessariamente,    articular imagens e sons atrav&eacute;s de uma estrutura de montagem onde o    conceito de continuidade narrativa, mesmo que de maneira velada, deve estar    sempre presente no momento do corte; o v&iacute;deo &eacute; capaz de trabalhar    as a&ccedil;&otilde;es de maneira simult&acirc;nea, sem ter que recorrer ao    corte propriamente dito.</p>     <p>A montagem cl&aacute;ssica permite, a partir do paralelismo de imagens articuladas    pelo corte, criar a sensa&ccedil;&atilde;o do <b>enquanto isso</b>. O plano    cinematogr&aacute;fico se constitui como uma unidade espa&ccedil;o-temporal,    elemento primordial da linguagem cinematogr&aacute;fica. J&aacute; o v&iacute;deo    permite dissimular a no&ccedil;&atilde;o de come&ccedil;o e fim de um plano,    dissolvendo dessa maneira, a unidade espa&ccedil;o-temporal. Mesmo a trucagem    cinematogr&aacute;fica mais sofisticada n&atilde;o havia conseguido, at&eacute;    esse momento, criar imagens superpostas com tanta riqueza dram&aacute;tica.</p>     <p>As novas formas de representa&ccedil;&atilde;o correspondem a uma nova rela&ccedil;&atilde;o    do ser humano com a realidade. O pensamento contempor&acirc;neo est&aacute;    moldado por uma complexidade que o diferencia radicalmente da estrutura de pensamento    linear dominante antes da revolu&ccedil;&atilde;o tecnol&oacute;gica. A evolu&ccedil;&atilde;o    da inform&aacute;tica e o avan&ccedil;o das telecomunica&ccedil;&otilde;es determinaram    uma mudan&ccedil;a radical nas rela&ccedil;&otilde;es do homem com seu pr&oacute;prio    mundo e, conseq&uuml;entemente, consigo mesmo. &Eacute; necess&aacute;rio estabelecer    novos padr&otilde;es de discuss&atilde;o de conhecimento.</p>     <p>N&atilde;o podemos mais falar em imagens simples, a imagem-v&iacute;deo cria    uma nova linguagem, uma <b>nova forma de utopia</b> como diz Raymond Bellour    <a name="top6"></a><a href="#back6">(6)</a>, capaz de permitir, a partir da    integra&ccedil;&atilde;o com outras formas de express&atilde;o (cinema, fotografia,    pintura), sua organiza&ccedil;&atilde;o em um sistema pr&oacute;prio.</p>     <p>Podemos dizer, ainda, que est&aacute; surgindo uma outra esp&eacute;cie de    <b>realismo</b>, a imagem captada por uma c&acirc;mera (v&iacute;deo ou cinema)    n&atilde;o passa de mat&eacute;ria-prima, para posterior manipula&ccedil;&atilde;o    atrav&eacute;s das t&eacute;cnicas digitais.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><i><b>Maria Dora Mour&atilde;o</b> &eacute; professora livre-docente do Departamento    de Cinema, R&aacute;dio e TV da Escola de Comunica&ccedil;&otilde;es e Artes    da USP.</i></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Notas</b></p>     <p><a name="back1"></a><a href="#top1">1</a> David W. Griffith, fundador do cinema    narrativo cl&aacute;ssico americano realizou entre 1908 e 1913 (Per&iacute;odo    Biograph) mais de 400 curtas-metragens. Entre 1914 e 1931 realizou 32 longas    metragens, dentre eles os mais conhecidos s&atilde;o <i>Nascimento de uma na&ccedil;&atilde;o</i>    (<i>Birth of a nation</i> &#150; 1914/1915) e <i>Intoler&acirc;ncia</i> (<i>Intolerance</i>    &#150; 1915/1916).</p>     <p><a name="back2"></a><a href="#top2">2</a> Irm&atilde;os Louis e Auguste Lumi&egrave;re,    respons&aacute;veis pela inven&ccedil;&atilde;o do cinemat&oacute;grafo Lumi&egrave;re    (1895), sistema de proje&ccedil;&atilde;o de filmes, e pela realiza&ccedil;&atilde;o    do que foi, provavelmente, o primeiro filme de atualidades da hist&oacute;ria    do cinema a ser apresentado publicamente: <i>A chegada do trem &agrave; esta&ccedil;&atilde;o    de Ciotat</i> (<i>Arriv&eacute;e d&acute;un train en gare &agrave; la Ciotat</i>    - 1895).</p>     <p><a name="back3"></a><a href="#top3">3</a> Georges M&egrave;li&eacute;s, realizador    que se insere no per&iacute;odo do chamado "primeiro cinema", seus filmes cheios    de truques e criadores de ilus&otilde;es s&atilde;o considerados como os precursores    do uso de possibilidades c&ecirc;nicas no cinema, em oposi&ccedil;&atilde;o    aos irm&atilde;os Lumi&egrave;re vistos como os que institu&iacute;ram o cinema    documental. Dentre os seus filmes mais conhecidos, destacamos <i>Viagem para    a lua</i> (<i>Le voyage dans la lune</i> &#150; 1902).</p>     <!-- ref --><p><a name="back4"></a><a href="#top4">4</a> Andr&eacute; Bazin, cr&iacute;tico    de cinema e um dos criadores da c&eacute;lebre revista <i>Cahiers du Cinema</i>    desenvolveu entre os anos 40 e 50, em palestras e artigos, um pensamento sobre    a hist&oacute;ria do cinema, principalmente a partir da an&aacute;lise de filmes    e de uma reflex&atilde;o cr&iacute;tica sobre a montagem cinematogr&aacute;fica.    Ver <i>O cinema - Ensaios</i> de Andr&eacute; Bazin, Editora Brasiliense, S&atilde;o    Paulo, 1991.<!-- ref --><p><a name="back5"></a><a href="#top5">5</a> Sergei M. Eisenstein, um dos mais    importantes realizadores da hist&oacute;ria do cinema, representante maior da    vanguarda sovi&eacute;tica no per&iacute;odo da revolu&ccedil;&atilde;o socialista,    sistematiza uma teoria com o objetivo de demonstrar que a montagem se imp&otilde;e    como princ&iacute;pio de linguagem cinematogr&aacute;fica. N&atilde;o a montagem    do ponto de vista t&eacute;cnico, mas como princ&iacute;pio que rege a constru&ccedil;&atilde;o    de um filme. Destacamos dentre seus filmes, <i>Encoura&ccedil;ado Potemkin</i>    (1925). Ver <i>A forma do filme</i> e <i>O sentido do filme</i> de Sergei Eisenstein,    Jorge Zahar Editor, Rio de Janeiro, 1990.<!-- ref --><p><a name="back6"></a><a href="#top6">6</a> Raymond Bellour, cr&iacute;tico e    te&oacute;rico franc&ecirc;s, um dos fundadores da revista de cinema <i>Traffic</i>,    al&eacute;m de ser brilhante na an&aacute;lise de filmes, destaca-se pela reflex&atilde;o    sobre o surgimento do v&iacute;deo e as novas formas de arte como a instala&ccedil;&atilde;o    e o CD-Rom. Ver <i>Entre-imagens: foto, cinema e v&iacute;deo</i> de Raymond    Bellour, Papirus Editora, S&atilde;o Paulo, 1997. ]]></body><back>
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