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</front><body><![CDATA[ <p align="center"><img src="/img/fbpe/cic/v54n2/14822f1.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>Ao longo dos quase sessenta anos em que se constituiu, a poesia de Drummond    veio oferecendo uma sucess&atilde;o muito variada de formas, temas, humores    e perspectivas. Essa diversidade resulta das diferentes impress&otilde;es e    percep&ccedil;&otilde;es que o poeta, como qualquer um de n&oacute;s, vai experimentando    nos embates com a vida e consigo mesmo. Tanto melhor para os leitores que um    artista dessa envergadura l&iacute;rica seja capaz de historiar, de forma t&atilde;o    aguda e sens&iacute;vel, suas rela&ccedil;&otilde;es mais din&acirc;micas com    o mundo: as formas alcan&ccedil;adas e os tempos acolhidos expressam muito da    hist&oacute;ria profunda de cada um de n&oacute;s.</p>     <p>A poesia drummondiana deve ser compreendida e interpretada na pluralidade dos    <b>sentimentos do tempo</b> que o poeta experimentou e traduziu. O que se costuma    identificar como "fases" de Drummond talvez seja melhor compreendido se associarmos    o dinamismo dos humores e dos processos po&eacute;ticos &agrave;s varia&ccedil;&otilde;es    de expectativa que o poeta incorpora nas suas rela&ccedil;&otilde;es com o tempo    que passa.</p>     <p>Num primeiro momento, o jovem Drummond modernista parece se comprazer com o    humor gaiato ou a dura ironia que marcam suas impress&otilde;es mais diretas    do cotidiano. O desajustamento de homem t&iacute;mido e <b><i>gauche</i></b>    torna-se chave essencial de sua poesia: o poeta historia sua perplexidade em    meio ao atropelo das sensa&ccedil;&otilde;es m&uacute;ltiplas e descont&iacute;nuas.    &Eacute; o tempo do desencontro entre os impactos provocadores da vida moderna    e o desejo &iacute;ntimo, entre envergonhado e ressentido, das experi&ecirc;ncias    plenas, idealizadas: <i>A tarde talvez fosse azul / n&atilde;o houvesse tantos    desejos</i> &#150; confessa o poeta no "Poema de sete faces". A culpa pela imobilidade    pessoal &eacute; dolorosa e faz sofrer, mas vinga-se de si mesma respondendo    a tudo com uma autoconsci&ecirc;ncia implac&aacute;vel, num jogo paradoxal entre    os limites emocionais da timidez e a rigorosa interpreta&ccedil;&atilde;o dos    fatos que atingem o sujeito.</p>     <p>Ao tempo da Segunda Guerra, as sombras da trag&eacute;dia mundial impelem Drummond    a explorar em si mesmo mais do que o fundo pessoal de ironias, ressentimentos    ou sublima&ccedil;&otilde;es: trata-se agora de interpelar sua condi&ccedil;&atilde;o    de poeta maduro e de homem c&uacute;mplice da Hist&oacute;ria, desafiado a senti-la    e a express&aacute;-la nas formas densas, reflexivas e abertas que tomar&atilde;o    os poemas de <i>Sentimento do mundo</i> e <i>A rosa do povo</i>. A tarefa essencial    imp&otilde;e-se agora como investiga&ccedil;&atilde;o do alcance dos s&iacute;mbolos    po&eacute;ticos mais pessoais e como avalia&ccedil;&atilde;o das for&ccedil;as    do indiv&iacute;duo no seu empenho de tomar partido. O novo embate dram&aacute;tico    da poesia de Drummond d&aacute;-se entre a desconfian&ccedil;a da insufici&ecirc;ncia    do discurso l&iacute;rico e a confian&ccedil;a, que se deseja objetiva, no horizonte    pol&iacute;tico do socialismo. Poemas como "O elefante" e "A flor e a n&aacute;usea"    historiam esse embate.</p>     <p>No p&oacute;s-guerra, nos anos cinzentos do rescaldo da trag&eacute;dia e da    potencializa&ccedil;&atilde;o de novos &oacute;dios ideol&oacute;gicos, o tempo    dos <b>acontecimentos</b>, propriamente ditos, esvazia-se para o poeta: Drummond    se retrai para o mais fundo de sua consci&ecirc;ncia negativa, movendo-se numa    esp&eacute;cie de tempo m&iacute;tico dissolvente, carregado de impasses e ang&uacute;stias.    Nessa formid&aacute;vel solid&atilde;o, o indiv&iacute;duo expressar&aacute;    em tom eleg&iacute;aco suas incompatibilidades com o mundo e consigo mesmo,    dotando seus poemas de uma ret&oacute;rica da mesma altura dos enigmas que costumam    se interpor entre o homem e o seu desejo de conhecimento absoluto. Creio que    est&atilde;o nos livros da d&eacute;cada de 50, sobretudo em <i>Claro enigma</i>,    os ritmos e os s&iacute;mbolos reflexivos mais belos e dolorosos que a consci&ecirc;ncia    po&eacute;tica moderna produziu em l&iacute;ngua portuguesa.</p>     <p>Com <i>Li&ccedil;&atilde;o de coisas</i>, de 1962, o poeta sessent&atilde;o    faz uma esp&eacute;cie de balan&ccedil;o dos temas e estilos j&aacute; freq&uuml;entados,    experimenta ludicamente os limites de formas mais ousadas e abre um novo veio    po&eacute;tico &#150; o das mem&oacute;rias antigas -, de onde extrair&aacute;    os in&uacute;meros poemas que compor&atilde;o a trilogia dos <i>Boitempo</i>.    Nesta, as imagens do passado j&aacute; n&atilde;o se representam em transfigura&ccedil;&otilde;es    tensas ou dram&aacute;ticas, valendo mais pela vitalidade narrativa e pela for&ccedil;a    de atualiza&ccedil;&atilde;o daquelas remotas percep&ccedil;&otilde;es que impressionaram    o antigo menino e adolescente. Mais generoso consigo mesmo, o poeta envelhecido    alimenta-se da mem&oacute;ria autobiogr&aacute;fica que &eacute;, sempre, uma    visada concreta da hist&oacute;ria social.</p>     <p>Com <i>Farewell</i>, o livro p&oacute;stumo, a despedida amarga de Drummond:    no limiar da morte, ele contempla melancolicamente o corpo gasto, arruinado,    e reconhece como definitivamente vencidos os tantos movimentos nervosos que    o esp&iacute;rito empreendeu ao longo do tempo. S&uacute;mula sombria e comovente    de uma longa caminhada, essa &uacute;ltima poesia fecha-se a si mesma no c&iacute;rculo    de uma vida, voltando a reconhecer na long&iacute;nq&uuml;a Itabira de ferro    e pedra as ra&iacute;zes de uma condi&ccedil;&atilde;o c&oacute;smico-mineira.    Na imin&ecirc;ncia do fim, as m&uacute;ltiplas contradi&ccedil;&otilde;es das    experi&ecirc;ncias da vida parecem amenas diante da contradi&ccedil;&atilde;o    m&aacute;xima, que &eacute; a do Tempo anunciando que o tempo j&aacute; acabou:    <i>Quero a &uacute;ltima ra&ccedil;&atilde;o do v&aacute;cuo/ a &uacute;ltima    dana&ccedil;&atilde;o, par&aacute;grafo pen&uacute;ltimo / do estado &#150; menos    que isso &#150; de n&atilde;o ser</i>.</p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p align="right"><i><b>Alcides Villa&ccedil;a</b>     <br>   &eacute; professor de Literatura Brasileira da USP</i></p>      ]]></body>
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