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</front><body><![CDATA[ <p><font size="4">Literatura</font></p>     <p><font size=5>A <small>VERS&Atilde;O FRANCESA DE </small><i>O</i><small><i>S    SERT&Otilde;ES</i></small></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>A aventura de traduzir <i>Os sert&otilde;es</i> de Euclides da Cunha para o    franc&ecirc;s foi a seguinte: Antoine Seel, "normalien" brilhante, dominando    perfeitamente o portugu&ecirc;s, e eu pr&oacute;prio, assin&aacute;vamos, em    conjunto, os artigos que o jornal <i>Le Monde</i> publicava sobre literatura    brasileira. No in&iacute;cio dos anos de 1980, as tradu&ccedil;&otilde;es para    o franc&ecirc;s de fic&ccedil;&atilde;o escrita no Brasil se multiplicavam,    e isso justificava uma colabora&ccedil;&atilde;o regular, especializada na quest&atilde;o.    Eu conseguira mesmo que o jornal publicasse duas p&aacute;ginas inteiras sobre    a situa&ccedil;&atilde;o da literatura no Brasil. Foi essa nossa presen&ccedil;a    nas p&aacute;ginas do <i>Le Monde</i> que levou a editora Gallimard nos convidar,    a Antoine Seel e a mim, para traduzirmos <i>Mem&oacute;rias do c&aacute;rcere</i>,    de Graciliano Ramos. Depois desse trabalho feito, a editora Metaili&eacute;    nos prop&ocirc;s um contrato para <i>Os sert&otilde;es</i>, de Euclides da Cunha.</p>     <p>Est&aacute; claro que n&oacute;s prev&iacute;amos que as dificuldades seriam    muito maiores que no caso da escrita l&iacute;mpida de Graciliano Ramos. Nesta,    os problemas maiores situavam-se &agrave; volta do car&aacute;ter el&iacute;ptico,    concentrado, cheio de anacolutos, das frases sem verbo: era preciso proceder    a um desbaste na tend&ecirc;ncia que a l&iacute;ngua francesa possui em explicitar.    Mas, uma vez encontrado o tom, era ir em frente, como uma locomotiva nos trilhos.</p>     <p>No caso de Euclides da Cunha, os problemas eram opostos. Primeiro, uma inveross&iacute;mil    riqueza de vocabul&aacute;rio, onde palavras arcaicas se sucedem a termos cient&iacute;ficos    raros, a regionalismos, a neologismos muito singulares e de dif&iacute;cil compreens&atilde;o.    Em seguida, havia o estilo admir&aacute;vel, mas retorcido, complexo, onde frases    longu&iacute;ssimas dividem o mesmo par&aacute;grafo com outras enxutas, &agrave;s    vezes de uma palavra s&oacute;. H&aacute; em Euclides uma lembran&ccedil;a de    latinista: como no discurso ciceroniano, a ordem indireta muitas vezes impera,    dispondo o verbo em posi&ccedil;&otilde;es esdr&uacute;xulas, dentro do percurso    sinuoso que tra&ccedil;am ora&ccedil;&atilde;o e par&aacute;grafo.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/fbpe/cic/v54n2/14826f1.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>Havia uma tradu&ccedil;&atilde;o francesa, anterior, datada de 1947, feita    com amor por Sereth Neu. Mas ela ca&iacute;ra numa armadilha que n&oacute;s    quer&iacute;amos evitar. Transpusera para o franc&ecirc;s as longas frases,    cheias de meandros, dando-lhes clareza, picando-as com ponto final; escolhera    sempre a ordem direta; evitara as palavras raras. Isso revela, por sinal, a    for&ccedil;a criadora do estilo de Euclides da Cunha, que n&atilde;o &eacute;    apenas um ornamento, mas um constituinte vigoroso de sua for&ccedil;a liter&aacute;ria    e de seu pensamento. &Eacute; f&aacute;cil constatar: a primeira tradu&ccedil;&atilde;o,    no in&iacute;cio da obra, na parte intitulada "A Terra", dava uma irresist&iacute;vel    impress&atilde;o de um ins&iacute;pido manual de geografia.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Como vencer, no entanto, a passagem de uma l&iacute;ngua para a outra, sem    enfraquecer por demais o original? O partido foi de obedecer, quando fosse poss&iacute;vel,    &agrave;s estruturas retorcidas e n&atilde;o hesitar diante de um vocabul&aacute;rio    raro, arcaico, t&eacute;cnico. Apenas nos recusamos a neologismos. Tomamos o    partido de um gloss&aacute;rio, que foi inserido no fim da edi&ccedil;&atilde;o,    onde se encontravam os regionalismos, respeitados, sem nenhuma tentativa de    aproximar o texto de equival&ecirc;ncias aproximativas. No resultado final,    est&aacute; claro, permanece, para n&oacute;s, a consci&ecirc;ncia que se trata    de um eco, talvez enfraquecido, mas que buscou conservar a din&acirc;mica torturada    do original.</p>     <p>Uma outra dificuldade, &eacute; que n&atilde;o existia, e n&atilde;o existe    at&eacute; hoje, uma edi&ccedil;&atilde;o comentada da obra. Ora, em <i>Os sert&otilde;es</i>,    o n&uacute;mero de cita&ccedil;&otilde;es te&oacute;ricas &eacute; muito grande    e elas s&atilde;o determinantes. Muitas, presentes na cultura do tempo, s&atilde;o    para n&oacute;s, hoje, por demais obscuras. Eram essenciais para Euclides da    Cunha, por&eacute;m. Assim, o &uacute;ltimo cap&iacute;tulo do livro, feito    de uma &uacute;nica frase, esp&eacute;cie de v&oacute;rtice para onde, aos poucos,    a obra fora se reduzindo do geral ao particular, diz o seguinte: "&Eacute; que    ainda n&atilde;o existe um Maudsley para as loucuras e os crimes das nacionalidades..."    Quem &eacute; esse Maudsley? Que leitor pode responder, de imediato, &agrave;    quest&atilde;o? Era preciso, pensamos, construir um conjunto de notas que explicasse    essas refer&ecirc;ncias te&oacute;ricas. Por sinal, algo semelhante ocorrera    com <i>Mem&oacute;rias do c&aacute;rcere</i>. N&atilde;o se tratava, aqui, de    refer&ecirc;ncias eruditas, mas de um enxame de personagens reais que participaram,    de longe ou de perto, da trajet&oacute;ria do autor, personagens que era necess&aacute;rio    identificar para apresent&aacute;-los ao leitor. Neste sentido, as edi&ccedil;&otilde;es    francesas possuem um aparato de informa&ccedil;&otilde;es ausente de qualquer    edi&ccedil;&atilde;o brasileira.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="right"><i><b>Jorge Coli</b>     <br>   &eacute; historiador de arte e professor da Unicamp</i></p>      ]]></body>
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