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</front><body><![CDATA[ <p align="center"><img src="/img/fbpe/cic/v55n1/tp7.gif"></p>     <p align="center">&nbsp;</p>     <p align="center"><b><font size=5>S<small>ISTEMA &Uacute;NICO DE INCLUS&Atilde;O    SOCIAL</small>    <br>   </font><i>Marcio Pochmann</i></b></p>     <p align="center">&nbsp;</p>     <p align="center">&nbsp;</p>     <p><b><font size=5>N</font></b>os pa&iacute;ses desenvolvidos, a sociedade salarial    foi consolidada a partir do s&eacute;culo XX, a partir de dois processos civilizat&oacute;rios    do capitalismo. De uma parte, a estrutura&ccedil;&atilde;o do mercado de trabalho    permitiu a predomin&acirc;ncia dos contratos de emprego assalariado e, de outra,    a constitui&ccedil;&atilde;o de uma distribui&ccedil;&atilde;o secund&aacute;ria    da renda nacional favoreceu a amplia&ccedil;&atilde;o do rendimento do trabalho    no excedente econ&ocirc;mico.</p>     <p>Com isso, o modo de produ&ccedil;&atilde;o capitalista, pela primeira vez na    Hist&oacute;ria, possibilitou que determinados segmentos das classes trabalhadoras    passassem a viver sem estarem subordinados &agrave; din&acirc;mica das for&ccedil;as    de mercado. Mais precisamente foram os casos de crian&ccedil;as e adolescentes    com menos de 16 anos que puderam ficar afastados do mercado de trabalho para    elevar a escolaridade, assim como doentes, deficientes f&iacute;sicos e mentais,    idosos, entre outros.</p>     <p>Essa condi&ccedil;&atilde;o de conten&ccedil;&atilde;o da depend&ecirc;ncia    das for&ccedil;as de mercado somente se mostrou poss&iacute;vel com a instala&ccedil;&atilde;o    de uma estrutura secund&aacute;ria de distribui&ccedil;&atilde;o da renda, necess&aacute;ria    para transgredir a reparti&ccedil;&atilde;o simples da renda entre o trabalho    e o capital. Com o Estado de Bem Estar Social absorvendo parcelas significativas    do excedente econ&ocirc;mico gerado, por interm&eacute;dio de fundos p&uacute;blicos    oriundos das reformas fundi&aacute;rias, tribut&aacute;rias e sociais, o capitalismo    de consumo de massa foi atingido. O pleno emprego, a estabilidade ocupacional    e a difus&atilde;o do cr&eacute;dito foram elementos estrat&eacute;gicos das    sociedades salariais modernas.</p>     <p>Nas economias n&atilde;o desenvolvidas, n&atilde;o houve a constitui&ccedil;&atilde;o    plena de sociedades salariais, dada a condi&ccedil;&atilde;o de estrutura&ccedil;&atilde;o    incompleta do mercado de trabalho e da aus&ecirc;ncia de uma efetiva distribui&ccedil;&atilde;o    secund&aacute;ria da renda. No Brasil, verificou-se entre as d&eacute;cadas    de 1930 e 1970 a presen&ccedil;a de um ciclo virtuoso da industrializa&ccedil;&atilde;o    nacional, acompanhado da r&aacute;pida e descontrolada urbaniza&ccedil;&atilde;o,    o que permitiu haver um movimento rumo &agrave; estrutura&ccedil;&atilde;o do    mercado de trabalho.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>De outro lado, contudo, as reformas cl&aacute;ssicas do capitalismo contempor&acirc;neo    n&atilde;o foram realizadas (agr&aacute;ria, tribut&aacute;ria e social), possibilitando    a consolida&ccedil;&atilde;o de uma sociedade apartada entre os inclu&iacute;dos    pelo mercado de trabalho organizado, com pol&iacute;ticas sociais de garantia    de uma certa cidadania regulada, e os exclu&iacute;dos, mais conhecidos como    despossu&iacute;dos do progresso econ&ocirc;mico. Assim, o bolo cresceu sem    distribui&ccedil;&atilde;o justa da renda nacional gerada.</p>     <p>No per&iacute;odo recente, a partir de 1981, a economia nacional registrou    estagna&ccedil;&atilde;o da renda <i>per capita</i> e forte oscila&ccedil;&atilde;o    na produ&ccedil;&atilde;o. Aliado a isso, o pa&iacute;s passou pela implanta&ccedil;&atilde;o    de um novo modelo econ&ocirc;mico ap&oacute;s 1990, quando o papel do Estado    foi reformulado, seja na atua&ccedil;&atilde;o como empres&aacute;rio (privatiza&ccedil;&atilde;o    do setor produtivo estatal), seja na regula&ccedil;&atilde;o da concorr&ecirc;ncia    intercapitalista (abertura comercial, produtiva, financeira e tecnol&oacute;gica)    e do trabalho (desregulamenta&ccedil;&atilde;o das rela&ccedil;&otilde;es de    trabalho e flexibiliza&ccedil;&atilde;o do mercado de trabalho).</p>     <p>Nesse cen&aacute;rio, o mercado de trabalho apontou para o sentido de sua desestrutura&ccedil;&atilde;o    (desemprego elevado, desassalariamento das ocupa&ccedil;&otilde;es e amplia&ccedil;&atilde;o    do trabalho prec&aacute;rio). Em contrapartida, algumas medidas de prote&ccedil;&atilde;o    social e de garantia de renda foram implementadas, como a amplia&ccedil;&atilde;o    da aposentadoria para o trabalhador rural e do seguro desemprego, o Estatuto    da Crian&ccedil;a e do Adolescente, a bolsa escola, entre outros.</p>     <p>A revers&atilde;o da situa&ccedil;&atilde;o atual de forte exclus&atilde;o    social &eacute; poss&iacute;vel, urgente e necess&aacute;ria. Tecnicamente &eacute;    realiz&aacute;vel. Precisa, no entanto, da supera&ccedil;&atilde;o de dois grandes    problemas de dif&iacute;cil resolu&ccedil;&atilde;o. De um lado, o problema    da conforma&ccedil;&atilde;o de um novo padr&atilde;o de financiamento capaz    de alavancar o crescimento econ&ocirc;mico sustentado, com a necess&aacute;ria    eleva&ccedil;&atilde;o da produ&ccedil;&atilde;o interna, do n&iacute;vel geral    de empregos e das divisas internacionais. Sem isso, o Brasil pode vir a consolidar    uma terceira d&eacute;cada perdida.</p>     <p>De outro lado, o problema da constru&ccedil;&atilde;o de uma verdadeira estrat&eacute;gia    nacional de inclus&atilde;o social, portadora de novos mecanismos institucionais    e de gest&atilde;o p&uacute;blica, capaz de superar o atual padr&atilde;o de    pol&iacute;ticas sociais e do trabalho fundado na setorializa&ccedil;&atilde;o    das a&ccedil;&otilde;es, na desarticula&ccedil;&atilde;o dos programas, na focaliza&ccedil;&atilde;o    de clientelas e na falta de integra&ccedil;&atilde;o operacional. At&eacute;    o momento, o resultado disso tem sido a baixa efic&aacute;cia das pol&iacute;ticas    sociais e do trabalho para romper com o ciclo estrutural de produ&ccedil;&atilde;o    da exclus&atilde;o social no Brasil (pobreza, desigualdade de renda e desemprego).</p>     <p>Dois condicionantes do atraso no enfrentamento da quest&atilde;o social precisam    ser resolvidos: o padr&atilde;o de financiamento e o n&iacute;vel de prote&ccedil;&atilde;o    social a ser assegurado a todos. Embora n&atilde;o seja suficiente, o volume    do gasto social alcan&ccedil;a quantias n&atilde;o desprez&iacute;veis no Brasil.</p>     <p>Por isso &eacute; fundamental rever e simultaneamente ampliar as bases do financiamento    do gasto com as pol&iacute;ticas sociais e do trabalho. Da mesma forma, necessita-se    procurar fazer mais e melhor do mesmo recurso existente, elevando a efetividade,    a efic&aacute;cia e a efici&ecirc;ncia das pol&iacute;ticas p&uacute;blicas    nacionais. A constitui&ccedil;&atilde;o de um verdadeiro or&ccedil;amento unificado    da seguridade social, envolvendo tamb&eacute;m a problem&aacute;tica do trabalho    no Brasil, com garantia de verbas "carimbadas", representaria um grande avan&ccedil;o    ao quadro atual.</p>     <p>Nesse sentido, cabe lan&ccedil;ar a proposta de constitui&ccedil;&atilde;o    de um Sistema &Uacute;nico de Inclus&atilde;o Social, &agrave; exemplo do j&aacute;    conhecido e exitoso SUS (Sistema &Uacute;nico de Sa&uacute;de). Ele &eacute;    capaz de compreender um conjunto amplo de a&ccedil;&otilde;es verticais nas    tr&ecirc;s esferas governamentais (uni&atilde;o, estados e munic&iacute;pios),    permitindo o desenvolvimento de um novo modelo de gest&atilde;o de controle    centralizado e execu&ccedil;&atilde;o descentralizada, com a intersetorializa&ccedil;&atilde;o,    a articula&ccedil;&atilde;o e a integra&ccedil;&atilde;o de um amplo e inovador    conjunto das pol&iacute;ticas p&uacute;blicas orientadas para o enfrentamento    do complexo quadro da quest&atilde;o social no Brasil.</p>     <p>Mas a supera&ccedil;&atilde;o do atual modelo de pol&iacute;tica social e do    trabalho exige uma inovadora metodologia de a&ccedil;&atilde;o governamental,    capaz de identificar o cidad&atilde;o na sua totalidade, n&atilde;o de maneira    parcial e setorializado. Como exemplo, observar, no plano do governo federal,    como as pol&iacute;ticas de garantia de renda s&atilde;o operadas de forma fragmentada    e pulverizada em diversos organismos e minist&eacute;rios (bolsa escola na Educa&ccedil;&atilde;o,    bolsa alimenta&ccedil;&atilde;o na Sa&uacute;de, bolsa de erradica&ccedil;&atilde;o    do trabalho infantil na Previd&ecirc;ncia, seguro desemprego e qualifica&ccedil;&atilde;o    profissional no Trabalho etc.), com a promo&ccedil;&atilde;o de elevado e injustificado    "custo meio" (diversos cadastramentos e banco de informa&ccedil;&otilde;es,    atividades s&oacute;cio-educativas, exig&ecirc;ncias espec&iacute;ficas de sele&ccedil;&atilde;o,    acompanhamento dos benefici&aacute;rios, muitas vezes sem avalia&ccedil;&atilde;o    e monitoramento).</p>     <p align="center">&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p align="center"><img src="/img/fbpe/cic/v55n1/14832q1.gif"></p>     <p align="center">&nbsp;</p>     <p>No Brasil, o chamado "custo meio" de implementa&ccedil;&atilde;o e desenvolvimento    das pol&iacute;ticas p&uacute;blicas varia, em m&eacute;dia, de 38% a 51% do    total dos recursos aplicados. Tudo isso acrescentando a contabiliza&ccedil;&atilde;o    da reprodu&ccedil;&atilde;o de certa concorr&ecirc;ncia entre as diferentes    esferas governamentais, assim como a setorializa&ccedil;&atilde;o, desarticula&ccedil;&atilde;o    e desintegra&ccedil;&atilde;o das a&ccedil;&otilde;es sociais e do trabalho    no plano dos governos estaduais e municipais.</p>     <p>Sem a articula&ccedil;&atilde;o e integra&ccedil;&atilde;o das a&ccedil;&otilde;es,    o objetivo da inclus&atilde;o social geralmente termina n&atilde;o sendo alcan&ccedil;ado,    pois dificilmente h&aacute; condi&ccedil;&otilde;es de identifica&ccedil;&atilde;o    plena das clientelas atendidas com um ou mais programas. Quando s&atilde;o assistidas    com um determinado programa n&atilde;o h&aacute; integra&ccedil;&atilde;o com    outro, o que inviabiliza a operacionaliza&ccedil;&atilde;o sist&ecirc;mica de    uma estrat&eacute;gia de inclus&atilde;o social, sem falar na aus&ecirc;ncia    de pol&iacute;ticas p&uacute;blicas para diversos segmentos social e economicamente    exclu&iacute;dos.</p>     <p>Apenas o pagamento de uma bolsa de garantia de renda a uma fam&iacute;lia carente    n&atilde;o permite, necessariamente, a plena inclus&atilde;o, pois pode haver    pessoas com problemas psicol&oacute;gicos, de sa&uacute;de, de depend&ecirc;ncia    qu&iacute;mica, de baixa escolaridade, al&eacute;m dos problemas de moradia,    transporte, saneamento b&aacute;sico, entre tantas outras condi&ccedil;&otilde;es    de exclus&atilde;o social. Assim, a oferta de uma a&ccedil;&atilde;o governamental    isolada, n&atilde;o &eacute; suficiente para a ruptura do ciclo estrutural de    pobreza no Brasil.</p>     <p>Nesse sentido, a promo&ccedil;&atilde;o da intersetorialidade no conjunto dos    programas governamentais poderia ser alcan&ccedil;ada por meio de um comando    &uacute;nico, garantindo maior &ecirc;xito na gest&atilde;o de a&ccedil;&otilde;es    multivariadas tanto no sentido horizontal de um mesmo n&iacute;vel de governo    (sa&uacute;de, educa&ccedil;&atilde;o, assist&ecirc;ncia, trabalho, etc.) como    no sentido vertical entre as v&aacute;rias esferas de governo (Uni&atilde;o,    estados e munic&iacute;pios). Como resultado imediato, obt&eacute;m-se a dr&aacute;stica    redu&ccedil;&atilde;o do custo meio de implementa&ccedil;&atilde;o e desenvolvimento    das pol&iacute;ticas p&uacute;blicas, permitindo fazer mais e melhor do mesmo    recurso existente, ao mesmo tempo que torna o processo de inclus&atilde;o social    poss&iacute;vel no Brasil.</p>     <p>Dessa forma, a constitui&ccedil;&atilde;o de um sistema &uacute;nico de gest&atilde;o,    capaz de operar descentralizadamente por meio de a&ccedil;&otilde;es intersetorializadas,    articuladas e integradas, o ciclo estrutural da pobreza passa a ser rompido    efetivamente. E assim, o pa&iacute;s pode vir a seguir uma nova rota de inclus&atilde;o    social.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><i><b>Marcio Pochmann</b> &eacute; professor licenciado do Instituto    de Economia e pesquisador do Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho    (CESIT) da Universidade Estadual de Campinas, secret&aacute;rio municipal do    Desenvolvimento, Trabalho e Solidariedade de S&atilde;o Paulo.</i></p>      ]]></body>
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