<?xml version="1.0" encoding="ISO-8859-1"?><article xmlns:mml="http://www.w3.org/1998/Math/MathML" xmlns:xlink="http://www.w3.org/1999/xlink" xmlns:xsi="http://www.w3.org/2001/XMLSchema-instance">
<front>
<journal-meta>
<journal-id>0009-6725</journal-id>
<journal-title><![CDATA[Ciência e Cultura]]></journal-title>
<abbrev-journal-title><![CDATA[Cienc. Cult.]]></abbrev-journal-title>
<issn>0009-6725</issn>
<publisher>
<publisher-name><![CDATA[Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência]]></publisher-name>
</publisher>
</journal-meta>
<article-meta>
<article-id>S0009-67252003000100014</article-id>
<title-group>
<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Quase-cristais: do descrédito à tecnologia]]></article-title>
</title-group>
<contrib-group>
<contrib contrib-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Belisário]]></surname>
<given-names><![CDATA[Roberto]]></given-names>
</name>
</contrib>
</contrib-group>
<aff id="A">
<institution><![CDATA[,  ]]></institution>
<addr-line><![CDATA[ ]]></addr-line>
</aff>
<pub-date pub-type="pub">
<day>00</day>
<month>01</month>
<year>2003</year>
</pub-date>
<pub-date pub-type="epub">
<day>00</day>
<month>01</month>
<year>2003</year>
</pub-date>
<volume>55</volume>
<numero>1</numero>
<fpage>16</fpage>
<lpage>17</lpage>
<copyright-statement/>
<copyright-year/>
<self-uri xlink:href="http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=S0009-67252003000100014&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri><self-uri xlink:href="http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?script=sci_abstract&amp;pid=S0009-67252003000100014&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri><self-uri xlink:href="http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?script=sci_pdf&amp;pid=S0009-67252003000100014&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri></article-meta>
</front><body><![CDATA[ <p align="center"><img src="/img/fbpe/cic/v55n1/tp5.jpg"></p>     <p align="center">&nbsp;</p>      <p align="center"><img src="/img/fbpe/cic/v55n1/14843f1.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>E<small>NTREVISTA</small></p>      <p><b><font size="4">Quase-cristais: do descr&eacute;dito &agrave; tecnologia</font></b></p>     <p>&nbsp;</p>      <p>O f&iacute;sico Dan Shechtman, do Instituto Tecnol&oacute;gico Technion, em Haifa, Israel, &eacute; conhecido por ter descoberto os quase-cristais em 1982, o que lhe valeu o pr&ecirc;mio Wolf de F&iacute;sica de 1999 (o mais importante depois do Nobel). A descoberta dos quase-cristais rompeu um paradigma na cristalografia, a parte da f&iacute;sica que lida com cristais (ver box). Shechtman esteve no Rio de Janeiro por ocasi&atilde;o da 27&ordf; Assembl&eacute;ia Geral do Conselho Internacional para Ci&ecirc;ncia (ICSU), de 20 a 28 de setembro de 2002, e concedeu esta entrevista exclusiva para a <i>Ci&ecirc;ncia e Cultura</i>, onde fala das dificuldades iniciais para convencer a comunidade cient&iacute;fica da sua descoberta.</p>      <p>&nbsp;</p>      <p><b>C<small>I&Ecirc;NCIA E</small> C<small>ULTURA</small></b> <i>Por que se    demorou tanto para descobrir os quase-cristais?</i></p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>D<small>AN</small> S<small>HECHTMAN</small></b> Bem, primeiro, porque se    precisava trabalhar com metais n&atilde;o-tradicionais. Bem n&atilde;o-tradicionais.    O que eu fiz. Segundo, os quase-cristais vieram a ser descobertos por microscopia    eletr&ocirc;nica [a t&eacute;cnica mais usada para cristais &eacute; difra&ccedil;&atilde;o    por raios-X]. Isso porque esses materiais, no in&iacute;cio, eram muito pequenos,    da ordem de micr&ocirc;metros [um micr&ocirc;metro &eacute; igual a um mil&eacute;simo    de mil&iacute;metro]. O que eu fiz. Terceiro, voc&ecirc; tinha que ser muito    persistente em acreditar no que voc&ecirc; estava fazendo, e proteger suas id&eacute;ias    contra as de cientistas muito famosos do <i>establishment</i>, que diziam: "Dan,    isto n&atilde;o pode ser"...</p>      <p>&nbsp;</p>      <p><i>Por que esse ceticismo dos cientistas?</i></p>      <p><b>S<small>HECHTMAN</small></b> Bem, quando eu descobri os quase-cristais,    vi simetrias rotacionais. E uma das simetrias rotacionais que vi foi a simetria    de rota&ccedil;&atilde;o 5 [simetria na qual o objeto parece o mesmo ap&oacute;s    girar 1/5 de volta completa]. Essa simetria era bem conhecida, e n&atilde;o    poderia existir em cristais. No primeiro momento, pensei que era um acidente,    algum tipo de erro cient&iacute;fico que eu tinha que resolver &shy; e se tratava    de uma estrutura muito complexa. Mas eu insisti em analis&aacute;-lo e, por    dois anos, todos os meus colegas disseram: "Oh, Dan, isso n&atilde;o pode ser",    e eu dizia: "Bem, voc&ecirc;s sabem, eu sou um bom microscopista eletr&ocirc;nico",    e examinei todos os erros poss&iacute;veis, porque havia feito uma quantidade    razo&aacute;vel de experimentos com microscopia eletr&ocirc;nica e sabia que    aquilo n&atilde;o era um resultado esp&uacute;rio.</p>      <p>&nbsp;</p>      <p><i>Como essa situa&ccedil;&atilde;o se reverteu?</i></p>      <p><b>S<small>HECHTMAN</small></b> Dois anos depois, em 1984, no Technion, outro    pesquisador, Ilan Blech, na &eacute;poca professor do instituto, juntou-se a    mim e sugeriu um modelo para explicar a observa&ccedil;&atilde;o. Ent&atilde;o    enviamos o artigo para publica&ccedil;&atilde;o. O primeiro n&atilde;o foi publicado,    mas o segundo foi, e ent&atilde;o toda a comunidade juntou for&ccedil;as. Nem    todos estavam convencidos, incluindo muitos cientistas famosos. Um deles era    Linus Pauling, qu&iacute;mico, laureado duas vezes com o Nobel. Ele nunca acreditou    e teve muitos seguidores, que diziam que, se Linus Pauling falava "N&atilde;o    pode ser", ent&atilde;o n&atilde;o podia ser. Mas a comunidade de seguidores    cresceu, Linus Pauling morreu, e hoje milhares de pessoas ao redor do mundo,    cientistas bem estabelecidos, estudam quase-cristais.</p>     <p>&nbsp;</p>      <p><i>Foi dif&iacute;cil para o senhor, como cientista, manter suas convic&ccedil;&otilde;es nessa situa&ccedil;&atilde;o?</i></p>      <p><b>S<small>HECHTMAN</small></b> Sim, e vou dizer o porqu&ecirc;. Quando descobri    os quase-cristais, meu grau no Technion era professor-assistente. O per&iacute;odo    era entre 1982 e 1984. Esse era um cargo de baixa hierarquia. Se meus resultados    fossem um disparate, eu podia estar colocando minha carreira em risco. Portanto,    era atemorizante. Al&eacute;m disso, eu estudei numa dire&ccedil;&atilde;o contr&aacute;ria    &agrave; de cientistas muito bem estabelecidos e era obviamente embara&ccedil;oso    dizer-lhes: "voc&ecirc; est&aacute; errado e eu estou certo". Ent&atilde;o,    passaram-se anos, mas o n&uacute;mero de adeptos da teoria cresceu constantemente,    at&eacute; que toda a comunidade juntou for&ccedil;as para afirmar a descoberta.</p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>      <p><i>J&aacute; existem aplica&ccedil;&otilde;es tecnol&oacute;gicas para os quase-cristais?</i></p>      <p><b>S<small>HECHTMAN</small></b> Toda aplica&ccedil;&atilde;o tecnol&oacute;gica    de qualquer material depende de suas propriedades. As principais s&atilde;o    as seguintes: os quase-cristais s&atilde;o materiais met&aacute;licos, mas agem    quase como isolantes para eletricidade e condu&ccedil;&atilde;o de calor. Segundo,    esses materiais s&atilde;o muito duros e resistem &agrave; fric&ccedil;&atilde;o    e ao desgaste. Tamb&eacute;m n&atilde;o furam facilmente, como o teflon, de    forma que as pessoas usam-nos para recobrir frigideiras e panelas &shy; mas,    ao contr&aacute;rio do teflon, se voc&ecirc; os raspa com uma faca, eles n&atilde;o    se soltam, n&atilde;o se desgastam. Em uma outra aplica&ccedil;&atilde;o, importante    e muito &uacute;til, se voc&ecirc; cria um material e, no seu interior, voc&ecirc;    tem part&iacute;culas muito pequenas de quase-cristais, ent&atilde;o voc&ecirc;    pode aumentar dramaticamente as propriedades daquele material. Um exemplo &eacute;    o a&ccedil;o comercial produzido na Su&eacute;cia sob patente por uma companhia    chamada Sandvik (<i><a href="http://www.steel.sandvik.com">http://www.steel.sandvik.com</a></i>).    Eles produzem comercialmente um a&ccedil;o inoxid&aacute;vel extremamente forte    e duro, que &eacute; usado em hospitais e barbeadores el&eacute;tricos. Outros    usos: se voc&ecirc; adiciona pequenas bolinhas de quase-cristais em pl&aacute;stico,    ent&atilde;o esse pl&aacute;stico n&atilde;o se desgastar&aacute; t&atilde;o    facilmente. Por exemplo, muitos aparelhos t&ecirc;m engrenagens de pl&aacute;stico    &shy; por exemplo, ventiladores e batedeiras &shy; se voc&ecirc; adiciona quase-cristais    em p&oacute; neles, ent&atilde;o eles n&atilde;o se desgastam e duram por muitos    anos.</p>     <p align="right">&nbsp;</p>     <p align="right"><i><b>Roberto Belis&aacute;rio</b></i></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/fbpe/cic/v55n1/14843q1.jpg"></p>      ]]></body>
</article>
