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</front><body><![CDATA[ <p><font size=5>A<small>PRESENTA&Ccedil;&Atilde;O</small></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b><font size="4">E<small>MBORA TENHA AVAN&Ccedil;ADO MUITO EM SUA SAGA CONTRA    AS DOEN&Ccedil;AS INFECCIOSAS, A HUMANIDADE AINDA N&Atilde;O CONSEGUIU ELIMIN&Aacute;-LAS</small></font></b></p>      <p>Erney Plessmann Camargo</p>     <p>&nbsp;</p>      <p><b><font size=5>O</font></b> homem herdou de seus ancestrais muitas doen&ccedil;as    infecciosas. Outras, como a AIDS ou a ebola, ele foi adquirindo ao longo do    tempo, enquanto se livrava de algumas poucas, como a var&iacute;ola. Muitas    doen&ccedil;as, que eram terr&iacute;veis, abrandaram-se, seja por se tornarem    cur&aacute;veis, como a s&iacute;filis, seja por serem preven&iacute;veis, como    a poliomielite.</p>      <p>Alguns dos agentes infecciosos, como piolhos, chatos, sarna, mi&iacute;ases, vermes do aparelho digestivo e dos tecidos cut&acirc;neos (dracunculose) s&atilde;o velhos conhecidos da homem, estando devidamente registrados nos tabletes da Mesopot&acirc;mia, nos papiros eg&iacute;pcios e na pr&oacute;pria B&iacute;blia. Por&eacute;m, alguns dos agentes patog&ecirc;nicos mais importantes, por serem microsc&oacute;picos como bact&eacute;rias, protozo&aacute;rios, fungos e v&iacute;rus, tiveram que aguardar at&eacute; o s&eacute;culo XIX para nos serem apresentados, embora fossem nossos convivas h&aacute; dezenas de milhares de anos.</p>      <p>A luta da humanidade contra as doen&ccedil;as &eacute; t&atilde;o velha como sua hist&oacute;ria. No in&iacute;cio das hostilidades o homem utilizou a magia, uma vez que doen&ccedil;as tinham obviamente causas sobrenaturais. Da&iacute; o apelo a divindades mediada por xam&atilde;s, curandeiros, pitonisas e po&ccedil;&otilde;es m&aacute;gicas, recurso que prevalece at&eacute; hoje em redutos obscurantistas. Apesar do fasc&iacute;nio m&aacute;gico, o homem foi aprendendo que higiene e limpeza podiam ser muito mais eficazes que dan&ccedil;as e exorcismos para a promo&ccedil;&atilde;o da sa&uacute;de. Dessa forma, medidas de higiene acabaram fazendo parte de rituais de purifica&ccedil;&atilde;o e de preceitos de religi&otilde;es antiq&uuml;&iacute;ssimas, sem falar na B&iacute;blia, matriz do juda&iacute;smo, cristianismo e islamismo.</p>      <p>O homem tamb&eacute;m aprendeu muito com seus infort&uacute;nios. A peste negra ou bub&ocirc;nica do s&eacute;culo XIV, que matou 25% da popula&ccedil;&atilde;o europ&eacute;ia, gerou os princ&iacute;pios do isolamento de pacientes e quarentena para tentar restringir o alastramento da doen&ccedil;a, medidas infelizmente contrabalan&ccedil;adas por prociss&otilde;es de penitentes e flagelantes que s&oacute; contribu&iacute;am para disseminar a peste. A mesma peste voltaria a Londres no s&eacute;culo XVII matando quase 20% de sua popula&ccedil;&atilde;o, mas, ao mesmo tempo, trazendo a cria&ccedil;&atilde;o de hospitais e enfermarias junto a tentativas primitivas de assepsia e purifica&ccedil;&atilde;o do ar respirado. Finalmente, com a revolu&ccedil;&atilde;o industrial, nasceram as leis e servi&ccedil;os de higiene e sa&uacute;de p&uacute;blica. Mais tarde, na esteira da descoberta dos agentes causadores de doen&ccedil;as e de seus mecanismos de transmiss&atilde;o, nasceram os institutos destinados a estudar e controlar as doen&ccedil;as infecciosas.</p>      <p>Embora tenha avan&ccedil;ado muito em sua saga contra as doen&ccedil;as infecciosas, a humanidade ainda n&atilde;o conseguiu elimin&aacute;-las. Elas continuam existindo, embora em n&iacute;veis de preval&ecirc;ncia (n&uacute;mero de casos por n&uacute;mero de pessoas) variadas para diferentes popula&ccedil;&otilde;es, mas sempre maior nos pa&iacute;ses subdesenvolvidos. Essas doen&ccedil;as, sempre presentes em uma dada popula&ccedil;&atilde;o, s&atilde;o chamadas de end&ecirc;micas. Quando seu n&iacute;vel de preval&ecirc;ncia ultrapassa os valores habituais (dentro de uma certa flutua&ccedil;&atilde;o anual) a doen&ccedil;a torna-se epid&ecirc;mica. Por sinal, endemia (do grego endo+demo) quer dizer isso mesmo: doen&ccedil;as que sempre existem dentro de uma popula&ccedil;&atilde;o, s&atilde;o end&oacute;genas, nativas. Por exemplo, existem cerca de 600-900 casos por ano de mal&aacute;ria nos EUA, onde a doen&ccedil;a &eacute; end&ecirc;mica, mas de baix&iacute;ssima preval&ecirc;ncia: ~0,3 casos por 100 mil habitantes ou 0,003 casos/1.000). No Rio Grande do Norte (ver artigo sobre mal&aacute;ria) em 1930 haviam ~ 280 casos de mal&aacute;ria para uma popula&ccedil;&atilde;o total de 250 mil habitantes (preval&ecirc;ncia de 1 caso para mil habitantes). Embora a preval&ecirc;ncia fosse mais alta que a atual preval&ecirc;ncia americana, a doen&ccedil;a ainda assim era end&ecirc;mica, at&eacute; que nos anos seguintes os n&uacute;meros subissem para 200 casos para mil habitantes, caracterizando uma epidemia de grandes propor&ccedil;&otilde;es. Por sinal, epidemia quer dizer isso mesmo, doen&ccedil;as que, de repente, se imp&otilde;em a uma popula&ccedil;&atilde;o, que "v&ecirc;m de fora" e cuja preval&ecirc;ncia supera os valores habituais. &Agrave;s vezes, as epidemias se alastram por v&aacute;rias regi&otilde;es geogr&aacute;ficas e ent&atilde;o se tornam pandemias. A &uacute;ltima grande pandemia, de tr&aacute;gicas conseq&uuml;&ecirc;ncias, foi a gripe espanhola de 1918 que causou, em todo o mundo, um n&uacute;mero muito maior de mortes (20 milh&otilde;es) que a 1&ordf; Grande Guerra (8.5 milh&otilde;es).</p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>O que relataremos neste n&uacute;mero de <i>Ci&ecirc;ncia e Cultura</i> &eacute; apenas um dos segmentos da saga da humanidade contra as doen&ccedil;as infecciosas.</p>      <p>No artigo de abertura, s&atilde;o apresentados aspectos cient&iacute;ficos, sociais e pol&iacute;ticos dessa saga. Mais que isso, &eacute; apresentado tamb&eacute;m o enorme universo de agentes patog&ecirc;nicos e dos seus mecanismos de transmiss&atilde;o.Os artigos subseq&uuml;entes, por autores com grande viv&ecirc;ncia pessoal nos temas que abordam, cuidam apenas de endemias brasileiras causadas por parasitas. As causadas por v&iacute;rus ou bact&eacute;rias, bem como as doen&ccedil;as emergentes ser&atilde;o tema de futuras edi&ccedil;&otilde;es de <i>Ci&ecirc;ncia e Cultura</i>.</p>      <p>Escolhemos primeiro as endemias parasit&aacute;rias porque foi sobre estas que a ci&ecirc;ncia brasileira deu uma contribui&ccedil;&atilde;o maior e original. Otto Wucherer, Piraj&aacute; da Silva, Viana Martins, Adolfo Lutz e Carlos Chagas foram respons&aacute;veis por descobertas absolutamente originais sobre nossas principais endemias. Lutz, Oswaldo Cruz, Ezequiel Dias, Ren&eacute; Rachou, Evandro Chagas, Manoel Ferreira, Paulo Antunes, Mario Pinotti, Am&iacute;lcar Viana Martins e Samuel Pessoa engajaram-se na luta contra as endemias ou como administradores ou como combatentes no front da luta.</p>      <p>Esses e outros nomes recebem a justa homenagem deste n&uacute;mero de <i>Ci&ecirc;ncia e Cultura</i>.</p>      <p>&nbsp;</p>      <p><i><b>Erney Plessmann Camargo</b> &eacute; professor titular de parasitologia    do Instituto de Ci&ecirc;ncias Biom&eacute;dicas da USP e diretor do Instituto    Butantan.</i></p>       ]]></body>
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