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</front><body><![CDATA[ <p align="center"><img src="/img/fbpe/cic/v55n1/tp14.gif"></p>     <p align="center">&nbsp;</p>     <p><b><font size="4">D<small>ESAFIOS CIENT&Iacute;FICOS E AMBIGUIDADES ADMINISTRATIVAS</small></font></b></p>      <p>Luiz Hildebrando Pereira da Silva</p>      <p>&nbsp;</p>      <p><b><font size=5>N</font></b>este n&uacute;cleo tem&aacute;tico de <i>Ci&ecirc;ncia    e Cultura</i>, conhecidos e competentes pesquisadores em parasitologia discorrem    sobre o estado da arte, a evolu&ccedil;&atilde;o de conhecimentos e as pesquisas    em curso sobre os parasitas e sobre malef&iacute;cios que eles provocam como    agentes ou como vetores de doen&ccedil;as humanas e animais. Deixando aos especialistas    as informa&ccedil;&otilde;es de detalhe sobre os parasitas selecionados, iremos    abordar aspectos gerais relativos ao progresso na pesquisas em doen&ccedil;as    parasit&aacute;rias e sobre vetores (ecto-parasitas) de doen&ccedil;as infecciosas    e parasit&aacute;rias. Iremos analisar, em particular, ambig&uuml;idades que    dominam certos centros de decis&atilde;o de institui&ccedil;&otilde;es acad&ecirc;micas,    sobre a natureza e a import&acirc;ncia da pesquisa nessa &aacute;rea.</p>      <p>A primeira ambig&uuml;idade consiste no questionamento sobre a prioridade das pesquisas nessas disciplinas, em fun&ccedil;&atilde;o da queda na incid&ecirc;ncia de causas infecciosas na morbidade e na mortalidade registradas no pa&iacute;s. Seria, segundo alguns, o momento de inverter prioridades nas &aacute;reas de pesquisa biom&eacute;dica, favorecendo as doen&ccedil;as degenerativas e neoplasias, que se tornam (quantitivamente) dominantes nas estat&iacute;sticas do pa&iacute;s. Efetivamente, a diminui&ccedil;&atilde;o relativa da morbidade e mortalidade por causas infecciosas &eacute; uma realidade. Ela prov&eacute;m da evolu&ccedil;&atilde;o demogr&aacute;fica, associada a melhoria de saneamento b&aacute;sico, al&eacute;m dos progressos nos meios de controle e combate &agrave;s doen&ccedil;as infecciosas e parasit&aacute;rias: vacinas, antibi&oacute;ticos e quimioter&aacute;picos, inseticidas etc. A figura do Jeca Tatu de Monteiro Lobato, anemiado pelo amarel&atilde;o (ancilostom&iacute;ase) pertence ao passado. Entretanto, nas &aacute;reas rurais do norte e nordeste do pa&iacute;s, as grandes endemias como a mal&aacute;ria, as arboviroses e zoonoses (muitas ainda mal identificadas), as leishmanioses, a esquistossomose, as micoses cut&acirc;neas e profundas, a hansen&iacute;ase, as doen&ccedil;as diarr&eacute;icas infantis e outras s&atilde;o ainda patologias dominantes. O mesmo se v&ecirc; nas periferias das grandes cidades, com a tuberculose, as infec&ccedil;&otilde;es de origem h&iacute;drica e outras. Em &aacute;reas urbanas de todo o pa&iacute;s, mesmo aquelas beneficiadas por saneamento b&aacute;sico, o v&iacute;rus da dengue, transmitido pelo mosquito <i>Aedes</i>, vem provocando epidemias com altos n&iacute;veis de morbidade e mortalidade. Em &aacute;reas rurais reservadas ao ecoturismo tem-se observado a transmiss&atilde;o da febre amarela, a partir de reservat&oacute;rios primatas e de mosquitos silvestres. Em regi&atilde;o rural considerada extremamente saneada, como os arredores de Campinas e o campus da Escola de Agronomia de Piracicaba, tem havido transmiss&atilde;o de <i>ricketsias</i>, agente da febre maculosa, transmitida por carrapatos. Os reservat&oacute;rios da infec&ccedil;&atilde;o foram identificados como sendo as capivaras que se reproduzem em liberdade nas v&aacute;rzeas dos rios tribut&aacute;rios do Piracicaba. Seria portanto ilus&oacute;rio julgar que estamos nos livrando dos parasitas e dos agentes infecciosos transmitidos por artr&oacute;podos. Na verdade, verifica-se no pa&iacute;s uma evolu&ccedil;&atilde;o dos ecossistemas relacionados com as modifica&ccedil;&otilde;es no meio ambiente introduzidas pelo homem. Velhas doen&ccedil;as infecciosas desaparecem e novas emergem enquanto outras, mais velhas ainda, reemergem. Ilus&oacute;rio ainda pensar que o "progresso" levar&aacute; ao desaparecimento dessas patologias. Sem falar na epidemia de AIDS, que se estende internacionalmente, h&aacute; outros exemplos recentes em pa&iacute;ses avan&ccedil;ados: a costa leste dos Estados Unidos, em virtude do "progresso" das comunica&ccedil;&otilde;es &aacute;reas, foi invadido em 1999 pelo West Nile Virus, agente origin&aacute;rio da &Aacute;frica de uma encefalite humana propagada por mosquitos culic&iacute;deos (os pernilongos comuns) infectando aves e mam&iacute;feros silvestres que se transformam em reservat&oacute;rios da infec&ccedil;&atilde;o. O v&iacute;rus disseminou-se na costa leste americana, se estendeu agora para a Fl&oacute;rida, ganhou a Am&eacute;rica Central e &eacute; esperado, sem d&uacute;vida, para breve provocando casos humanos de infec&ccedil;&atilde;o no Brasil.</p>      <p>O "progresso" na ind&uacute;stria alimentar, com o aproveitamento de carca&ccedil;as para produ&ccedil;&atilde;o de farinhas na alimenta&ccedil;&atilde;o do gado bovino na Europa, provocou o drama da vaca louca, com numerosos casos humanos de encefalite espongiforme provocado por um novo agente infeccioso &#150; o <i>prion</i>. O pre&ccedil;o a pagar pelas sociedades humanas para manter os agentes infecciosos e seus vetores sob controle &eacute; o de uma permanente vigil&acirc;ncia e um esfor&ccedil;o constante de estudos e an&aacute;lise, mantendo um n&iacute;vel elevado de pesquisa cient&iacute;fica e tecnol&oacute;gica capaz de realizar essa vigil&acirc;ncia e de criar ou atualizar m&eacute;todos de controle.</p>      <p>Uma segunda fonte de ambig&uuml;idade diz respeito &agrave; "qualidade" das pesquisas que se realizam em rela&ccedil;&atilde;o &agrave;s patologias infecciosas e parasit&aacute;rias. Desenvolve-se, mesmo em certos meios, a id&eacute;ia de que as pesquisas nessas disciplinas s&atilde;o apenas descritivas (uma vez que j&aacute; se conheceria tudo sobre bases cient&iacute;ficas dessas patologias) sem acrescentar novos conhecimentos cient&iacute;ficos.</p>      <p>Deve-se dizer, para come&ccedil;ar, que as boas pesquisas em epidemiologia    est&atilde;o longe de ser apenas descritivas. O caso das doen&ccedil;as por    <i>prion</i> e, em particular, da encefalite espongiforme bovina (doen&ccedil;a    da vaca louca) &eacute; um bom exemplo. Foi baseado em dados epidemiol&oacute;gicos    que Gajdusek, nos anos 1950-60, deduziu a origem infecciosa do "kuru" e sua    transmiss&atilde;o pelo canibalismo. O kuru, patologia de natureza neurodegenerativa,    era observada em comunidades humanas da Nova Guin&eacute;. Sua lenta evolu&ccedil;&atilde;o    sugeriu a hip&oacute;tese do "v&iacute;rus lento" como agente etiol&oacute;gico.    Foram ainda dados epidemiol&oacute;gicos que fizeram convergir as interpreta&ccedil;&otilde;es    sobre as origens "infecciosas" do <i>scrapie</i>, doen&ccedil;a neurodegenerativas    de carneiros e das doen&ccedil;a humanas de Creutzfeldt-Jakob e a s&iacute;ndrome    de Gerstmann-Straussler-Scheinker, consideradas anteriormente como de origem    gen&eacute;tica. As bases infecciosas dessas patologias, unificando sua etiologia    e depois, al&eacute;m delas, a da encefalopatia espongiforme bovina, s&oacute;    se confirmaram a partir dos anos 70 com a transmiss&atilde;o experimental por    inocula&ccedil;&atilde;o a roedores e primatas. Finalmente, apenas nos anos    80-90, com o desenvolvimento da biologia molecular, conseguiu-se eliminar a    contradi&ccedil;&atilde;o entre as caracter&iacute;sticas gen&eacute;ticas e    infecciosas dessas patologias, pela identifica&ccedil;&atilde;o da prote&iacute;na    <i>prion</i> (PrP), agente infeccioso desprovido de &aacute;cidos nucl&eacute;icos.    As bases de patogenicidade das doen&ccedil;as provocadas por <i>prions</i>,    foi proposta por Prusiner (pr&ecirc;mio Nobel de 1996). V&ecirc;-se, assim,    que as investiga&ccedil;&otilde;es epidemiol&oacute;gicas permitiram prever    com mais de 40 anos a natureza infecciosa dessas patologias e orientaram, desde    ent&atilde;o, as pesquisas de identifica&ccedil;&atilde;o dos mecanismos envolvidos.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/fbpe/cic/v55n1/14849q1.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>      <p>Nesta edi&ccedil;&atilde;o de <i>Ci&ecirc;ncia e Cultura</i> os leitores poder&atilde;o ter a comprova&ccedil;&atilde;o da potencialidade de pesquisas epidemiol&oacute;gicas recentes bem conduzidas. Elas envolvem a utiliza&ccedil;&atilde;o de metodologias atualizadas nas &aacute;reas da imunologia e da biologia molecular e investimentos de tempo e trabalho no terreno. No caso de mal&aacute;ria, permitiram identificar mecanismos de transmiss&atilde;o em &aacute;reas end&ecirc;micas da Amaz&ocirc;nia, a partir de reservat&oacute;rios humanos de infec&ccedil;&otilde;es assintom&aacute;ticas (ver artigo de Erney P. Camargo). No caso da leishmaniose, permitiram identificar a dissemina&ccedil;&atilde;o da transmiss&atilde;o em &aacute;reas urbanas. Em ambos os casos, esses achados epidemiol&oacute;gicos implicam na reformula&ccedil;&atilde;o de metodologias de controle.</p>      <p>Mas, no que diz respeito &agrave; qualidade das pesquisas em parasitologia e a contribui&ccedil;&atilde;o que elas t&ecirc;m dado ao conhecimento cient&iacute;fico de base, h&aacute; outra ambig&uuml;idade. Consideram alguns que o parasitologista pesquisa apenas como um laboratorista para fazer diagn&oacute;stico, usando o microsc&oacute;pio e identificando parasitas intestinais ou hemoparasitas. Na verdade, as pesquisas em parasitologia v&ecirc;m adquirindo um alto grau de sofistica&ccedil;&atilde;o, a partir da revolu&ccedil;&atilde;o da biologia molecular nos anos 1970-80, adquirindo mesmo uma posi&ccedil;&atilde;o de vanguarda na explora&ccedil;&atilde;o dos fen&ocirc;menos vitais, com enorme repercuss&atilde;o sobre o conhecimento b&aacute;sico em biologia e nas disciplinas biom&eacute;dicas de modo geral.</p>      <p>Nos artigos deste n&uacute;cleo tem&aacute;tico, os diferentes autores abordam v&aacute;rios exemplos desses tipos de pesquisa mas nos permitimos aqui avan&ccedil;ar alguns exemplos.</p>      <p>O primeiro deles &eacute; relativo a <b>ivermectina</b>. Um produto isolado    empiricamente nos anos 1980 &shy;&shy; a <b>avermecin</b>, produzida por <i>Streptomyces    avermetilis</i> &#150; mostrou uma forte a&ccedil;&atilde;o contra nemat&oacute;ides.    Estabelecida a natureza qu&iacute;mica desse antibi&oacute;tico &#150; uma lactona    macrol&iacute;tica &#150; sintetizaram-se an&aacute;logos e foi assim produzido    um de hidroderivado, a ivermectina, com menor toxicidade. Verificou-se, ent&atilde;o,    que o mecanismo de a&ccedil;&atilde;o da droga era o de inibir a jun&ccedil;&atilde;o    neuromuscular produzindo paralisia em nemat&oacute;ides e insetos. A ivermectina    vem sendo utilizada como droga de escolha na oncocercose desde 1987, produzindo    efeitos sensacionais de redu&ccedil;&atilde;o da incid&ecirc;ncia na &Aacute;frica    Ocidental. Um novo passo foi dado mais recentemente: foram identificadas e clonadas    as sub-unidades de receptor do canal do cloro (glutamato-dependente) de <i>Caenorhabditis    elegans</i>. P&ocirc;de-se, ent&atilde;o, identificar a sub-unidade alvo da    ivermectina e produzir a respectiva mol&eacute;cula recombinante sob forma sol&uacute;vel.    A ind&uacute;stria farmac&ecirc;utica disp&otilde;e, assim, de um sistema sol&uacute;vel    para teste em tubo de ensaio de an&aacute;logos inibidores da jun&ccedil;&atilde;o    neuromuscular e numerosos produtos v&ecirc;m sendo identificados. A ind&uacute;stria    farmac&ecirc;utica tem, hoje, metas priorit&aacute;rias de identifica&ccedil;&atilde;o    de mediadores neuronais e neuromusculares e de seus respectivos inibidores para    uso em neurologia e psiquiatria, a descoberta da ivermectina representa um avan&ccedil;o    de grande utilidade na orienta&ccedil;&atilde;o das pesquisas dos hom&oacute;logos    ativos em mam&iacute;feros e no homem.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/fbpe/cic/v55n1/14849q2.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Um segundo exemplo refere-se aos avan&ccedil;os na identifica&ccedil;&atilde;o dos mecanismos de diferencia&ccedil;&atilde;o dos linf&oacute;citos T da fam&iacute;lia CD4+ em linhagens TH1 e TH2 que tem grande interesse em imunologia humana. Os estudos experimentais em camundongos sobre resposta imune na leishmaniose tegumentar por <i>Leishmania major</i> mostraram a diferen&ccedil;a gen&eacute;tica entre linhagens de animais sens&iacute;veis (as les&otilde;es evoluem progressivamente) e resistentes (as les&otilde;es cicatrizam). Mostrou-se que nas linhagens resistentes, as c&eacute;lulas T-CD4+ secretam citocinas inflamat&oacute;rias, particularmente IFN-g, que ativa os macr&oacute;fagos que destroem ent&atilde;o os parasitas fagocitados; ao contr&aacute;rio, nas linhagens sens&iacute;veis, as c&eacute;lulas T-CD4+ secretam a citocina IL-4 que inibe a ativa&ccedil;&atilde;o dos macr&oacute;fagos, permitindo a prolifera&ccedil;&atilde;o dos parasitas em seu interior. Esses resultados foram importantes para definir as fam&iacute;lias de T-CD4+ -TH1 e T-CD4+-TH2. Experi&ecirc;ncias de <i>knock-out</i> dos genes IL-4 e IFN-g confirmaram o papel essencial dos produtos desses genes na diferencia&ccedil;&atilde;o dos linf&oacute;citos T- CD4+ para uma ou outra das vias. Julgava-se que um produto do parasita seria respons&aacute;vel pela indu&ccedil;&atilde;o da via de diferencia&ccedil;&atilde;o TH2, favor&aacute;vel a ele. Os circuitos parecem ser mais complexos, dependendo do parasita e de seu inseto vetor. Sabe-se que a diferencia&ccedil;&atilde;o para TH1 depende de citocina IL-12, secretada pelos macr&oacute;fagos e c&eacute;lulas dendr&iacute;ticas da pele. Pesquisas recentes da equipe de J.M. Ribeiro no National Institute of Health mostraram que o fleb&oacute;tomo (inseto vetor da leishmaniose), ao picar o hospedeiro, injeta saliva com produtos anticoagulantes juntamente com as leishmanias, e um dos produtos &#150; uma prote&iacute;na de 15 kD &#150; curiosamente induz resposta imune protetora contra a <i>Leishmania</i> em camundongos. O mecanismo de a&ccedil;&atilde;o dos anticorpos contra a prote&iacute;na 15 kD est&aacute; sendo estudado e a prote&iacute;na poderia ser usada como vacina. Pode ser um inibidor da IL-12 ou talvez de citocinas respons&aacute;veis pela mobilidade e atra&ccedil;&atilde;o dos macr&oacute;fagos para o s&iacute;tio da picada onde as leishmanias v&atilde;o ser fagocitadas e se multiplicar.</p>      <p>Os progressos da biologia molecular e mais recentemente da gen&ocirc;mica, com o seq&uuml;enciamento de genomas de parasitas e vetores, v&ecirc;m abrindo grandes possibilidades de avan&ccedil;os na compreens&atilde;o dos mecanismos de patogenicidade dos parasitas e de seus vetores e abrem caminho, igualmente, para a identifica&ccedil;&atilde;o de alvos espec&iacute;ficos para novos medicamentos e novas vacinas. Recentemente foi divulgado o resultado do projeto de seq&uuml;enciamento do genoma de <i>Anopheles gambiae</i>, com 278 megabases, principal vetor de mal&aacute;ria na &Aacute;frica e do <i>Plasmodium falciparum</i>, causador da forma mais grave de mal&aacute;ria. Est&atilde;o igualmente em curso projetos de seq&uuml;enciamento dos genomas de v&aacute;rios outros parasitas como <i>Onchocerca volvulus</i> (<i>filarias</i>), <i>Schistosoma mansoni</i>, <i>Toxoplasma gondii</i>, <i>Strongyloides stercoralis</i> e <i>Trypanosoma cruzi</i>. As informa&ccedil;&otilde;es abertas, assim, &agrave; comunidade cient&iacute;fica permitir&atilde;o identificar novos alvos e novos poss&iacute;veis mecanismos de controle das parasitoses e das mol&eacute;stias infecciosas transmitidas por artr&oacute;podos.</p>      <p>Um magn&iacute;fico exemplo da potencialidade das novas metodologias derivadas da era gen&ocirc;mica encontra-se nos trabalhos da equipe de Jacobs Lorena da Case Western University, Ohio, USA, na produ&ccedil;&atilde;o de mosquitos transg&ecirc;nicos refrat&aacute;rios a infec&ccedil;&atilde;o por <i>Plasmodium falciparum</i>. Em um primeiro tempo, utilizando bancos de bacteri&oacute;fagos e a t&eacute;cnica de <i>Phage display</i>, foram selecionados fagos h&iacute;bridos reconhecendo receptores nas gl&acirc;ndulas salivares; mostrou-se, em seguida, que os pept&iacute;deos correspondentes desses fagos h&iacute;bridos inibiam a intera&ccedil;&atilde;o dos esporozoitas com as gl&acirc;ndulas salivares; seq&uuml;&ecirc;ncias de nucleot&iacute;deos foram sintetizados codificando esses pept&iacute;deos e clonados em plasm&iacute;deos; as seq&uuml;&ecirc;ncias codificando os pept&iacute;deos foram integradas em genes do anofelino codificando prote&iacute;nas secretadas na cavidade celom&aacute;tica do mosquito no momento da alimenta&ccedil;&atilde;o (os esporozoitos, para ganhar e invadir as gl&acirc;ndulas salivares atravessam o celoma). Por manipula&ccedil;&otilde;es gen&eacute;ticas esses genes foram introduzidos nas linhagens germinativas do mosquito. Produziu-se, assim, um mosquito transg&ecirc;nico que, ao alimentar-se, secreta pept&iacute;deos no celoma que bloqueiam a penetra&ccedil;&atilde;o dos esporozoitas nas gl&acirc;ndulas salivares. A possibilidade de utilizar tais transg&ecirc;nicos para controle de mal&aacute;ria ainda &eacute; remota (necessita-se que eles substituam a popula&ccedil;&atilde;o de mosquitos originais). Tais manipula&ccedil;&otilde;es gen&eacute;ticas s&atilde;o, entretanto, exemplos de potencialidade das novas metodologias que poder&atilde;o ser empregadas, por exemplo, na manipula&ccedil;&atilde;o de c&eacute;lulas-tronco da linhagem hematopoi&eacute;tica humana para corrigir defeitos gen&eacute;ticos seguindo-se a reintrodu&ccedil;&atilde;o das c&eacute;lulas corrigidas na circula&ccedil;&atilde;o dos doadores originais.</p>      <p>As pesquisas em parasitologia assumem, assim, posi&ccedil;&otilde;es de vanguarda e &eacute; de se esperar que a utiliza&ccedil;&atilde;o desses novos conhecimentos cient&iacute;ficos, associados aos meios j&aacute; dispon&iacute;veis de controle, vir&atilde;o refor&ccedil;ar a luta pela melhoria da sa&uacute;de e do bem estar das popula&ccedil;&otilde;es nas &aacute;reas mais afetadas por essas patologias. Ao mesmo tempo, esses avan&ccedil;os no conhecimento ter&atilde;o certamente um efeito multiplicador no desenvolvimento das pesquisas em outras &aacute;reas das ci&ecirc;ncias da vida e da sa&uacute;de.</p>      <p>&nbsp;</p>      <p><i><b>Luiz Hildebrando Pereira da Silva</b> &eacute; diretor do Centro de Pesquisa em Medicina Tropical, Porto Velho, Rond&ocirc;nia.</i></p>      <p>&nbsp;</p>      <p>&nbsp;</p>      <p><b>Refer&ecirc;ncias Bibliogr&aacute;ficas</b></p>      <!-- ref --><p>Ito, J. et al. "Transgenic anopheline mosquitoes impaired in transmission of    a malaria parasite". <i>Nature</i>; 417:452. 2002.<!-- ref --><p>Morel, C.M. et al. "The mosquito genome &shy; a breakthrough por public health". <i>Science</i>; 298:79. 2002.<!-- ref --><p>Valenzuela, J.G. et al. "A vaccine agains leishmaniasis with a salivary product of Phlebotomus". <i>J Exp Med</i>; 194:321. 2001.<!-- ref --><p>Richards Jr., F. et al. "Onchocerchiasis today; status and challenges". <i>Trends in Parasitology</i>; 17: 558. 2001.<!-- ref --><p>Alpers, M. &amp; Gajdusek, D.C. "Changing pattersn of kuru: epidemiological changes..." <i>Am J Trop Med Hyg</i> ;14: 852. 1965.<!-- ref --><p>Prusiner, S.B. "Molecular Biology and genetics of prion diseases". Philos Trans    R <i>Soc Bio Sci</i>; 343: 447. 1994. ]]></body><back>
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