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</front><body><![CDATA[ <p><font size="4">Hist&oacute;ria</font></p>      <p><font size=5>U<small>MA REVOLTA POPULAR CONTRA A VACINA&Ccedil;&Atilde;O</small></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/fbpe/cic/v55n1/14861f1.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>      <p>No in&iacute;cio do s&eacute;culo XX, o Rio de Janeiro j&aacute; era lindo, mas a falta de saneamento b&aacute;sico e as p&eacute;ssimas condi&ccedil;&otilde;es de higiene faziam da cidade um foco de epidemias, principalmente febre amarela, var&iacute;ola e peste. Estas pragas tropicais deram &agrave; capital do pa&iacute;s o triste apelido de "t&uacute;mulo de estrangeiros". Com medidas impopulares e pol&ecirc;micas, Oswaldo Cruz, al&eacute;m de ter sido o respons&aacute;vel pela estrutura&ccedil;&atilde;o da sa&uacute;de p&uacute;blica no Brasil, foi quem saneou o Rio, apesar da oposi&ccedil;&atilde;o da m&iacute;dia e da manifesta&ccedil;&atilde;o popular, que ficou conhecida como "Revolta da Vacina".</p>      <p>A popula&ccedil;&atilde;o da cidade revoltou-se contra o plano de saneamento, mas, sobretudo, com a remodela&ccedil;&atilde;o urbana feita pelo presidente Rodrigues Alves (1902-1906), que decidiu modernizar a cidade e tomar medidas dr&aacute;sticas para combater as epidemias. Corti&ccedil;os e casebres, que compunham in&uacute;meros quarteir&otilde;es dos bairros centrais, foram demolidos, e deram lugar a grandes avenidas e ao alargamento das ruas, seguindo o modelo de urbaniza&ccedil;&atilde;o dos grandes bulevares parisienses. A popula&ccedil;&atilde;o local foi desalojada, refugiando-se em barracos nos morros cariocas ou em bairros distantes na periferia. As favelas come&ccedil;aram a se expandir.</p>      <p>Nesse cen&aacute;rio, h&aacute; exatos cem anos, Oswaldo Cruz assumia a Diretoria Geral de Sa&uacute;de P&uacute;blica (DGSP), cargo que, na &eacute;poca, equivalia ao de ministro da Sa&uacute;de. Enquanto o prefeito Pereira Passos realizava o "Bota Abaixo", como ficou conhecida a reforma da cidade, Oswaldo Cruz transformou o Rio em um gigantesco laborat&oacute;rio de combate &agrave;s doen&ccedil;as, implantando m&eacute;todos revolucion&aacute;rios.</p>      <p>Em 1904, a cidade foi assolada por uma epidemia de var&iacute;ola. Oswaldo Cruz mandou ao Congresso uma lei que reiterava a obrigatoriedade da vacina&ccedil;&atilde;o, j&aacute; institu&iacute;da em 1837, mas que nunca tinha sido cumprida. Ciente da resist&ecirc;ncia da opini&atilde;o p&uacute;blica, montou uma campanha em moldes militares. Dividiu a cidade em distritos, criou uma pol&iacute;cia sanit&aacute;ria com poder para desinfetar casas, ca&ccedil;ar ratos e matar mosquitos.</p>      <p>Com a imposi&ccedil;&atilde;o da vacina&ccedil;&atilde;o obrigat&oacute;ria, as brigadas sanit&aacute;rias entravam nas casas e vacinavam as pessoas &agrave; for&ccedil;a. Isso causou uma repulsa pela maneira como foi feita. A maioria da popula&ccedil;&atilde;o ainda desconhecia e temia os efeitos que a inje&ccedil;&atilde;o de l&iacute;quidos desconhecidos poderia causar no corpo das pessoas. Setores de oposi&ccedil;&atilde;o ao governo gritaram contra as medidas autorit&aacute;rias. Quase toda a imprensa ficou contra Oswaldo Cruz, ridicularizando seus atos com charges e artigos.</p>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p>A indigna&ccedil;&atilde;o levou ao motim popular, que explodiu em 11 de novembro de 1904, conhecido como a "Revolta da Vacina". Carro&ccedil;as e bondes foram tombados e incendiados, lojas saqueadas, postes de ilumina&ccedil;&atilde;o destru&iacute;dos e apedrejados. Pelot&otilde;es dispararam contra a multid&atilde;o. Durante uma semana, as ruas do Rio viveram uma guerra civil. Segundo a pol&iacute;cia, o saldo negativo foi de 23 mortos e 67 feridos, tendo sido presas 945 pessoas, das quais quase a metade foi deportada para o Acre, onde foi submetida a trabalhos for&ccedil;ados.</p>      <p>Para o historiador S&eacute;rgio Lamar&atilde;o, da Universidade Federal Fluminense, "conduzida de forma arbitr&aacute;ria, sem os necess&aacute;rios esclarecimentos &agrave; popula&ccedil;&atilde;o, a campanha da vacina obrigat&oacute;ria canalizou um crescente descontentamento popular. Deve ser entendida como uma conseq&uuml;&ecirc;ncia do processo de moderniza&ccedil;&atilde;o excludente concentrado, no tempo e no espa&ccedil;o &shy; desencadeado pela reforma do prefeito Passos &shy; e n&atilde;o, como foi considerada pelas autoridades, como uma rea&ccedil;&atilde;o explosiva da massa ignorante ao progresso e &agrave;s inova&ccedil;&otilde;es".</p>      <p>Duas produ&ccedil;&otilde;es recentes abordam esse epis&oacute;dio. Uma delas &eacute; o filme <i>Sonhos tropicais</i>, longa-metragem de estr&eacute;ia do diretor paulista Andr&eacute; Sturm ambientado no Rio de Janeiro do in&iacute;cio do s&eacute;culo XX. A sa&uacute;de p&uacute;blica vem &agrave; tona na trama do filme, mostrando a precariedade de condi&ccedil;&otilde;es da cidade. Sua narrativa &eacute; baseada na obra hom&ocirc;nima do escritor ga&uacute;cho Moacyr Scliar, que trata da biografia de Oswaldo Cruz, situando a a&ccedil;&atilde;o do primeiro ministro da Sa&uacute;de moderno do Brasil e contextualizando o momento hist&oacute;rico para a medicina.</p>      <p>O cd-rom <i>Circuito Mau&aacute;: Sa&uacute;de, Gamboa e Santo Cristo</i>,    dirigido por Eliane Costa, recebeu o Prix M&ouml;bius Am&eacute;rica Latina    e foi finalista no Prix M&ouml;bius International des Multim&eacute;dias, um    dos maiores eventos multim&iacute;dia do mundo, realizado na Cit&eacute; des    Sciences, em Paris. O cd-rom faz um passeio pela regi&atilde;o portu&aacute;ria    carioca, no contexto da hist&oacute;ria da cidade, e cont&eacute;m mais de 250    fotografias, 18 clips de v&iacute;deo, mapas, m&uacute;sicas e entrevistas.    Traz tamb&eacute;m uma cole&ccedil;&atilde;o de ilustra&ccedil;&otilde;es e    caricaturas encontradas em jornais do in&iacute;cio do s&eacute;culo XX, al&eacute;m    de textos escritos por pesquisadores e especialistas convidados.</p>     <p>&nbsp;</p>      <p align="right"><i><b>Mayla Yara Porto</b></i></p>       ]]></body>
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