<?xml version="1.0" encoding="ISO-8859-1"?><article xmlns:mml="http://www.w3.org/1998/Math/MathML" xmlns:xlink="http://www.w3.org/1999/xlink" xmlns:xsi="http://www.w3.org/2001/XMLSchema-instance">
<front>
<journal-meta>
<journal-id>0009-6725</journal-id>
<journal-title><![CDATA[Ciência e Cultura]]></journal-title>
<abbrev-journal-title><![CDATA[Cienc. Cult.]]></abbrev-journal-title>
<issn>0009-6725</issn>
<publisher>
<publisher-name><![CDATA[Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência]]></publisher-name>
</publisher>
</journal-meta>
<article-meta>
<article-id>S0009-67252003000200003</article-id>
<title-group>
<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Para melhor conhecer nossa biodiversidade]]></article-title>
</title-group>
<contrib-group>
<contrib contrib-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Rodrigues]]></surname>
<given-names><![CDATA[Miguel Trefaut]]></given-names>
</name>
</contrib>
</contrib-group>
<aff id="A">
<institution><![CDATA[,  ]]></institution>
<addr-line><![CDATA[ ]]></addr-line>
</aff>
<pub-date pub-type="pub">
<day>00</day>
<month>04</month>
<year>2003</year>
</pub-date>
<pub-date pub-type="epub">
<day>00</day>
<month>04</month>
<year>2003</year>
</pub-date>
<volume>55</volume>
<numero>2</numero>
<fpage>04</fpage>
<lpage>05</lpage>
<copyright-statement/>
<copyright-year/>
<self-uri xlink:href="http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=S0009-67252003000200003&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri><self-uri xlink:href="http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?script=sci_abstract&amp;pid=S0009-67252003000200003&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri><self-uri xlink:href="http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?script=sci_pdf&amp;pid=S0009-67252003000200003&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri></article-meta>
</front><body><![CDATA[ <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v55n2/tp7.gif"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="CENTER"><b><font size=5>P<SMALL>ara Melhor Conhecer nossa biodiversidade    <br>   </SMALL></font></b><b><i>Miguel Trefaut Rodrigues</i></b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b><font size=5>H</font></b>&aacute; muito t&ecirc;m me preocupado as consequ&ecirc;ncias    de algumas das medidas oficiais tomadas para proteger nossa biodiversidade.    Ao lado de um ineg&aacute;vel impacto positivo, elas t&ecirc;m influ&iacute;do    negativamente no desempenho cient&iacute;fico do pa&iacute;s e deixado de abranger    parcela importante do p&uacute;blico a que se destinam. Na condi&ccedil;&atilde;o    de l&iacute;der mundial em diversidade biol&oacute;gica, o Brasil deve dispor    de leis eficientes para proteg&ecirc;-la, desde que razo&aacute;veis e compat&iacute;veis    com o avan&ccedil;o do conhecimento cient&iacute;fico. Tais normas devem assim    ser elaboradas ap&oacute;s ampla consulta &agrave; comunidade cient&iacute;fica,    o setor da sociedade respons&aacute;vel pela gera&ccedil;&atilde;o do conhecimento    nesta &aacute;rea.</p>     <p>Vejo, com apreens&atilde;o, que na s&eacute;rie de medidas provis&oacute;rias    publicadas visando controlar a utiliza&ccedil;&atilde;o do patrim&ocirc;nio    gen&eacute;tico brasileiro, a comunidade cient&iacute;fica n&atilde;o foi suficientemente    consultada. N&atilde;o &eacute; assim que poderemos chegar ao Brasil que todos    sonhamos.</p>     <p>Embora o pa&iacute;s seja l&iacute;der em diversidade biol&oacute;gica, falta    muita investiga&ccedil;&atilde;o para alcan&ccedil;armos um conhecimento mais    real&iacute;stico sobre a diversidade de nossa fauna e flora, sobre as doen&ccedil;as    de nossas plantas e animais e, por exemplo, para conhecer a infinita riqueza    de informa&ccedil;&atilde;o que nos reserva a ontogenia de nossas esp&eacute;cies.    Precisamos trabalhar muito, com as mais variadas t&eacute;cnicas, para conhecer    um pouco melhor nossa biota, e corremos contra o tempo. Temos consci&ecirc;ncia    de que &aacute;reas naturais que est&atilde;o sendo desmatadas podem alojar    esp&eacute;cies que se v&atilde;o para sempre eliminando, tamb&eacute;m definitivamente,    informa&ccedil;&atilde;o biol&oacute;gica essencial &agrave; compreens&atilde;o    de muitos processos vitais. Este &eacute; um dos motores insistentes do zo&oacute;logo,    do bot&acirc;nico e, entre outros, do biom&eacute;dico, preocupados em conhecer    e descrever a diversidade biol&oacute;gica do pa&iacute;s. Fazem-no, pois sabem    de sua import&acirc;ncia para ajudar a compreender e reconstruir a hist&oacute;ria    biol&oacute;gica do planeta para podermos planejar o crescimento sustentado    de um mundo mais justo.</p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v55n2/15508q1.gif"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&Eacute; neste quadro de amplo desconhecimento sobre a diversidade biol&oacute;gica    do pa&iacute;s que deve ser compreendido o papel das medidas provis&oacute;rias,    cristalizadas pelo decreto 3945, de 28 de setembro de 2001 e reafirmadas pela    resolu&ccedil;&atilde;o 001, de 8 de julho de 2002 do Conselho de Gest&atilde;o    do Patrim&ocirc;nio Gen&eacute;tico (CGEN). Pretende-se regular a utiliza&ccedil;&atilde;o    dos recursos biol&oacute;gicos, fiscalizando a bioprospec&ccedil;&atilde;o e    repartir os benef&iacute;cios de sua utiliza&ccedil;&atilde;o.</p>     <p>O enorme avan&ccedil;o, com a implementa&ccedil;&atilde;o de dispositivos legais    apropriados, foi anulado pelos entraves impostos &agrave; atua&ccedil;&atilde;o    da comunidade cient&iacute;fica brasileira envolvida com pesquisa b&aacute;sica.</p>     <p>Por falta de di&aacute;logo, os crit&eacute;rios a cumprir pela nova legisla&ccedil;&atilde;o    paralisam e engessam a investiga&ccedil;&atilde;o cient&iacute;fica relacionada    ao melhor conhecimento de nossa biodiversidade. N&atilde;o quero me deter aqui    sobre os efeitos das medidas provis&oacute;rias anteriores que paralisaram boa    parte das atividades de pesquisa e de p&oacute;s-gradua&ccedil;&atilde;o em    zoologia e bot&acirc;nica deste pa&iacute;s, nos &uacute;ltimos dois anos. Os    protestos de toda parte deveriam ter sido ouvidos e tomados como li&ccedil;&atilde;o;    n&atilde;o o foram. Aprenderemos um dia a calcular esse preju&iacute;zo a partir    das horas de pesquisa desperdi&ccedil;adas por profissionais qualificados, a    partir da perda de recursos p&uacute;blicos, do desgaste da imagem do pa&iacute;s    no exterior e do custo de informa&ccedil;&atilde;o gen&eacute;tica para sempre    desaparecida causada por entraves burocr&aacute;ticos. N&atilde;o resta d&uacute;vida    de que o pre&ccedil;o &eacute; muito elevado!</p>     <p>A partir da &uacute;ltima edi&ccedil;&atilde;o da medida, todo e qualquer projeto    de pesquisa cient&iacute;fica que acesse o patrim&ocirc;nio gen&eacute;tico    de qualquer esp&eacute;cie nativa deve obter as autoriza&ccedil;&otilde;es devidas    do CGEN. Projetos detalhados, formul&aacute;rios, acordos, curr&iacute;culos,    datas exatas de viagem acompanhadas de seus itiner&aacute;rios, fontes de financiamento,    credenciamento de institui&ccedil;&otilde;es com tradi&ccedil;&atilde;o secular,    autoriza&ccedil;&atilde;o de propriet&aacute;rios e uma infinidade de outros    documentos devem agora ser enviados para credenciar institui&ccedil;&otilde;es    e pesquisadores para que acessem, a qualquer n&iacute;vel, o patrim&ocirc;nio    gen&eacute;tico de nosso pa&iacute;s e produzam conhecimento sobre ele. N&atilde;o    houve, na promulga&ccedil;&atilde;o da medida, qualquer discrimina&ccedil;&atilde;o    afeita &agrave; pesquisa b&aacute;sica. Trata-se indiscriminadamente aquele    que descreve a fauna, flora ou as doen&ccedil;as do pa&iacute;s que desconhecemos    e o que quer pesquisar nossa biodiversidade com fins de explora&ccedil;&atilde;o    comercial.</p>     <p>Preocupa-me o caos e o atraso que a medida causar&aacute; ao desenvolvimento    da pesquisa. A malha burocr&aacute;tica criada &eacute; de tal ordem que s&oacute;    pode ter sido concebida por quem nunca enfrentou, com a freq&uuml;&ecirc;ncia    necess&aacute;ria, as dificuldades e a imprevisibilidade da pesquisa de campo    num Brasil que desconhece o conforto das grandes cidades. A abrang&ecirc;ncia    da medida &eacute; de tal ordem que nos transporta ao Brasil pr&eacute;-1808;    voltamos a fechar os portos &agrave;s na&ccedil;&otilde;es amigas! Pior, fechamo-los    tamb&eacute;m &agrave;queles em quem o Estado investe maci&ccedil;amente para    que conhe&ccedil;amos melhor nossa diversidade biol&oacute;gica. As exig&ecirc;ncias    atuais para colabora&ccedil;&atilde;o internacional j&aacute; est&atilde;o fazendo    com que nossos parceiros voltem os olhos para outros pa&iacute;ses.</p>     <p>Ao inv&eacute;s do foco da atividade fiscalizadora estar centrado na bioprospec&ccedil;&atilde;o    visando explora&ccedil;&atilde;o comercial, ultimada por registro de patentes,    fiscalizar-se-&atilde;o todos os cientistas brasileiros. N&atilde;o &eacute;    preciso muito esfor&ccedil;o para verificar que o desperd&iacute;cio de recursos    p&uacute;blicos &eacute; enorme. Gasta-se energia e capacidade intelectual com    quem n&atilde;o &eacute; alvo direto da medida, ao inv&eacute;s de concentrar    os esfor&ccedil;os na fiscaliza&ccedil;&atilde;o das atividades ilegais que    se procura coibir. N&atilde;o posso deixar de pensar que existem melhores maneiras    de gastar as horas de trabalho dos cientistas e t&eacute;cnicos deste pa&iacute;s,    ou, em &uacute;ltima an&aacute;lise, de utilizar mais adequadamente o dinheiro    p&uacute;blico.</p>     <p>Lamento que as regras venham penalizar pesquisadores que, h&aacute; anos, v&ecirc;m    dando a conhecer a diversidade biol&oacute;gica que desconhecemos. &Eacute;    este tipo de ci&ecirc;ncia b&aacute;sica, sem fins lucrativos, que gera a informa&ccedil;&atilde;o    para o trabalho dos t&eacute;cnicos em sa&uacute;de, pol&iacute;tica e legisla&ccedil;&atilde;o    ambiental do pa&iacute;s. Por ser urgente e imprescind&iacute;vel, ela precisa    de agilidade e n&atilde;o pode estar sob a &eacute;gide de tais medidas. Mant&ecirc;-la    atrelada &agrave;s mesmas regras que a pesquisa que ultima bioprospec&ccedil;&atilde;o    comercial, representar&aacute; sua asfixia e enorme perda para o pa&iacute;s.</p>     <p>Nos dias atuais, o avan&ccedil;o do conhecimento tornou obrigat&oacute;rio    o seq&uuml;enciamento g&ecirc;nico para identificar esp&eacute;cies, conhecer    suas rela&ccedil;&otilde;es de parentesco e investigar a origem e o desenvolvimento    de processos biol&oacute;gicos altamente complexos. Para os zo&oacute;logos    e bot&acirc;nicos, acessar ou seq&uuml;enciar o material gen&eacute;tico de    algumas esp&eacute;cies n&atilde;o &eacute; uma pr&aacute;tica comercial, mas    um recurso moderno para identificar esp&eacute;cies desconhecidas e reconhecer    processos evolutivos e de desenvolvimento ainda n&atilde;o identificados. Muita    pesquisa b&aacute;sica na &aacute;rea de bioqu&iacute;mica, fisiologia e biologia    molecular tamb&eacute;m acessa material gen&eacute;tico, mas objetiva resolver    problemas e processos biol&oacute;gicos, talvez cruciais para o destino da humanidade,    sem qualquer preocupa&ccedil;&atilde;o comercial imediata.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Para surpresa da comunidade cient&iacute;fica, agora permanentemente fiscalizada    com tais medidas, n&atilde;o h&aacute; interfer&ecirc;ncia do CGEN nas transa&ccedil;&otilde;es    comerciais envolvendo a fauna e a flora nativa. Milhares de peixes ornamentais,    plantas, madeiras e outros produtos naturais a partir dos quais se pode acessar    seu patrim&ocirc;nio gen&eacute;tico, continuam a ser exportados, sem fiscaliza&ccedil;&atilde;o    alguma. Se quisermos construir um pa&iacute;s s&eacute;rio, precisamos ser minimamente    coerentes e buscar o di&aacute;logo com os setores qualificados da sociedade    para tentar equacionar esses problemas. Sinceramente, n&atilde;o me parece que    os crimes que se pretende coibir tenham origem na comunidade universit&aacute;ria    honesta deste pa&iacute;s que se dedica &agrave; pesquisa b&aacute;sica.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v55n2/15508f1.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>Fa&ccedil;o um especial apelo ao novo governo para que reverta esse quadro,    a partir do di&aacute;logo entre a comunidade cient&iacute;fica e os &oacute;rg&atilde;os    ambientais e legislativos do pa&iacute;s. Se n&atilde;o acreditarmos na nossa    comunidade cient&iacute;fica, que vive hoje franca expans&atilde;o, estaremos    condenados a ocupar um lugar med&iacute;ocre entre as na&ccedil;&otilde;es do    futuro.</p>     <p>A cada hectare de paisagem natural derrubado perdemos muita informa&ccedil;&atilde;o    que se extingue com a fauna e flora que a acompanha, muitas vezes superior &agrave;quela    hoje depositada na totalidade das bibliotecas do planeta. Como pa&iacute;s megadiverso    temos obriga&ccedil;&atilde;o moral de minimizar essas perdas. Devemos todos    dar o melhor de n&oacute;s, trabalhando em prol da melhoria do conhecimento,    de uma fiscaliza&ccedil;&atilde;o mais adequada, do uso sustentado e da reparti&ccedil;&atilde;o    de benef&iacute;cios da diversidade biol&oacute;gica brasileira. Para tal, precisamos    de uma legisla&ccedil;&atilde;o &aacute;gil e eficiente, que n&atilde;o prejudique    o avan&ccedil;o do conhecimento, permitindo-nos explorar e conservar adequadamente    nossa maior riqueza.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><i><b>Miguel Trefaut Rodrigues</b> &eacute; professor titular do Instituto    de Bioci&ecirc;ncias e ex-diretor do Museu de Zoologia da USP.</i> </p>      ]]></body>
</article>
