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</front><body><![CDATA[ <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v55n2/tp5.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>E<small>NTREVISTA</small></p>     <p><b><font size="4">Museus devem divulgar ci&ecirc;ncia com emo&ccedil;&atilde;o</font></b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>Emo&ccedil;&atilde;o &eacute; a palavra de ordem para o diretor do Museu da    Ci&ecirc;ncia de Barcelona, Jorge Wagensberg. Segundo ele, a emo&ccedil;&atilde;o    &eacute; elemento fundamental para transmitir conhecimento cient&iacute;fico    para o p&uacute;blico, j&aacute; que ela n&atilde;o imp&otilde;e barreiras sociais    ou econ&ocirc;micas. A nova museologia pregada por ele e sua equipe deve ser    antes de tudo universal e incluir, n&atilde;o apenas os elementos de uma exposi&ccedil;&atilde;o,    mas tamb&eacute;m a arquitetura, conte&uacute;dos, comunica&ccedil;&atilde;o,    objetos e equipe. Em visita ao Grupo de Estudos acerca das id&eacute;ias de    Evolu&ccedil;&atilde;o e Progresso do Departamento de Hist&oacute;ria da USP,    em dezembro de 2002, Wagensberg, que &eacute; f&iacute;sico, falou &agrave;    <i>Ci&ecirc;ncia e Cultura</i>.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v55n2/15517f1.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><i>O que os museus brasileiros de ci&ecirc;ncia, devem fazer para atrair mais    visitantes?</i></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>J<small>ORGE</small> W<small>AGENSBERG</small></b> A palavra [chave] 'muse&iacute;stica'    &eacute; a emo&ccedil;&atilde;o. A museologia moderna deve ter alguns elementos    emblem&aacute;ticos que fiquem na mem&oacute;ria coletiva do cidad&atilde;o.    O problema &eacute; fazer isso, sem perder o rigor cient&iacute;fico. Uma das    nossas hip&oacute;teses de trabalho &eacute; que a audi&ecirc;ncia de um museu    &eacute; universal, n&atilde;o depende da idade, da forma&ccedil;&atilde;o cultural    ou do n&iacute;vel econ&ocirc;mico de seus visitantes, nem do lugar onde est&aacute;    situado. Um bom museu est&aacute; baseado em emo&ccedil;&otilde;es, e as emo&ccedil;&otilde;es    s&atilde;o iguais para os jovens, para qualquer pessoa. O museu para os adultos    tamb&eacute;m deve ser <i>hands-on</i> [toque], <i>minds-on</i> [reflex&atilde;o]    e <i>heart-on</i> [emo&ccedil;&atilde;o]. Tem que haver tamb&eacute;m uma interatividade    mental, mais importante que a manual. N&oacute;s queremos que se fa&ccedil;a    uma nova museologia.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><i>Qual a import&acirc;ncia da divulga&ccedil;&atilde;o cient&iacute;fica?</i></p>     <p>Se o cidad&atilde;o tiver opini&atilde;o cient&iacute;fica, seguramente os    pol&iacute;ticos a conhecer&atilde;o, o que &eacute; bom pois pol&iacute;ticos,    em geral, n&atilde;o conversam com a comunidade cient&iacute;fica. Em um sistema    democr&aacute;tico, eles s&atilde;o pressionados pela opini&atilde;o p&uacute;blica,    pelo voto. Por isso, os cientistas devem transferir seus conhecimentos ao eleitor,    e o eleitor aos pol&iacute;ticos. Assim, o museu n&atilde;o &eacute; apenas    um centro para crian&ccedil;as, mas um centro para adultos, um lugar de encontros.    Essa &eacute; minha cr&iacute;tica aos museus norte-americanos que t&ecirc;m,    exceto poucas exce&ccedil;&otilde;es, uma grande tend&ecirc;ncia a fazer museus    para crian&ccedil;as.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><i>&Eacute; importante o trabalho de educa&ccedil;&atilde;o nos museus?</i></p>     <p>A prioridade do museu &eacute; o est&iacute;mulo, n&atilde;o a educa&ccedil;&atilde;o,    embora ela n&atilde;o esteja proibida. Uma visita dura 3 horas, n&atilde;o h&aacute;    tempo de educar mas, sim, para mudar a atitude diante da educa&ccedil;&atilde;o.    &Eacute; importante que, na sa&iacute;da, o visitante tenha muito mais perguntas    do que ao entrar. O museu deve mudar a atitude do espectador. Creio que &eacute;    um erro tentar converter o museu em escola. Seus recursos devem ser para despertar    a curiosidade. &Eacute; um mal-entendido se pensar que a ci&ecirc;ncia &eacute;    uma forma de conhecimento especialmente dif&iacute;cil. A ci&ecirc;ncia, por    defini&ccedil;&atilde;o, &eacute; a forma de conhecimento m&aacute;ximo que    existe e qualquer cientista &eacute; capaz de transmitir o essencial de uma    id&eacute;ia cient&iacute;fica a qualquer cidad&atilde;o. A ci&ecirc;ncia &eacute;    objetiva, intelig&iacute;vel e dial&eacute;tica. A ci&ecirc;ncia que n&atilde;o    se pode transmitir n&atilde;o &eacute; ci&ecirc;ncia.</p>     <p><i>Como combinar conte&uacute;do cient&iacute;fico e atra&ccedil;&atilde;o    na divulga&ccedil;&atilde;o cient&iacute;fica?</i></p>     <p>Os melhores est&iacute;mulos para transmitir o conhecimento cient&iacute;fico    s&atilde;o os mesmos que fazem com que os cientistas investiguem, fa&ccedil;am    a pesquisa. A ci&ecirc;ncia &eacute; uma fonte imensa de bons est&iacute;mulos.    O trabalho principal do divulgador &eacute; averiguar quais s&atilde;o estes    est&iacute;mulos do cientista e convert&ecirc;-los em divulga&ccedil;&atilde;o.    Creio que as grandes revistas de divulga&ccedil;&atilde;o cient&iacute;fica,    na verdade, s&atilde;o feitas por bons jornalistas e n&atilde;o cientistas.    A tend&ecirc;ncia do cientista &eacute; escrever tudo que sabe, com muito rigor.    Ele se preocupa com a opini&atilde;o que seus colegas v&atilde;o dar. Acaba    confundindo o rigor cient&iacute;fico com o rigor <i>mortis</i>. Mas as boas    revistas, como <i>La recherche</i>, est&atilde;o sendo feitas por 4 ou 5 jornalistas    muito bem conectados com a comunidade cient&iacute;fica. &Agrave;s vezes, detalhes    que o cientista nem sequer lembra, para o muse&oacute;logo ou o divulgador isso    &eacute; justamente o que far&aacute; com que o cidad&atilde;o venha ao museu    ou compre a revista. No entanto, tamb&eacute;m existem problemas, inclusive    em revistas cient&iacute;ficas importantes, como a <i>Nature e Science</i>,    que fazem o que se chama de <i>press release</i> e criam armadilhas. N&atilde;o    dizem mentiras, mas escrevem as coisas de maneira que a imprensa se equivoca.</p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><i>O museu tem um car&aacute;ter multidisciplinar. Como que o senhor encara    a especializa&ccedil;&atilde;o do conhecimento nas universidades?</i></p>     <p>Antigamente, o problema era menor porque nas faculdades de ci&ecirc;ncias todos    os cientistas interagiam. Parece fr&iacute;volo, mas acho que &eacute; um problema    de cafeteria. Ultimamente, cada departamento faz seu pr&oacute;prio caf&eacute;,    a especializa&ccedil;&atilde;o &eacute; tremenda. J&aacute; os museus t&ecirc;m    o centro de gravidade oposto, porque a prioridade do museu n&atilde;o &eacute;    o tema, mas sim a realidade. A prioridade &eacute; o fen&ocirc;meno, e para    entend&ecirc;-lo se usa f&iacute;sica, matem&aacute;tica, qu&iacute;mica. Talvez,    pelos museus tratarem da realidade, eles sejam um bom lugar para estimular a    interdisciplinaridade dos alunos e dos professores. Creio, tamb&eacute;m, que    as universidades deveriam criar lugares de encontro para as pessoas conversarem.    A conversa&ccedil;&atilde;o &eacute; uma atividade puramente cient&iacute;fica,    porque experimentar &eacute; conversar com a natureza, a reflex&atilde;o &eacute;    a conversa consigo mesmo, a conversa com os colegas.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><i>Para o senhor, ent&atilde;o, a ci&ecirc;ncia deve estar inserida nas conversas    entre amigos?</i></p>     <p>A ci&ecirc;ncia aspira entrar no cotidiano. Se h&aacute; uma partida de futebol,    os jornais v&atilde;o falar sobre isso durante 7 dias; se h&aacute; uma pe&ccedil;a    de teatro ou um concerto, h&aacute; cr&iacute;tica. Agora, ningu&eacute;m comenta    uma exposi&ccedil;&atilde;o de ci&ecirc;ncia em um museu. Isso &eacute; muito    grave, porque conhecimento sem cr&iacute;tica &eacute; mais grave que cr&iacute;tica    sem conhecimento. H&aacute; uma enorme contradi&ccedil;&atilde;o: justamente    a ci&ecirc;ncia, que &eacute; sobre o que menos se conversa e menos se critica,    &eacute; a forma de conhecimento que influi cada dia mais na vida da comunidade.    No momento que conversarmos sobre ci&ecirc;ncia, significar&aacute; que estamos    em um momento muito bom.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="RIGHT"><i><b>Germana Barata</b></i></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v55n2/15517q1.jpg"></p>      ]]></body>
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