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</front><body><![CDATA[ <p><font size=5>A<small>PRESENTA&Ccedil;&Atilde;O</small></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><B><font size="4">U<small>M MUNDO FEITO (QUASE COMPLETAMENTE) DE SOFTWARE </small></font></B></p>     <p>Silvio Lemos Meira</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b><font size=5>E</font></b>ste N&uacute;cleo Tem&aacute;tico de <i>Ci&ecirc;ncia    e Cultura</i> &eacute; sobre software, o mais novo meio de armazenamento de    conhecimento da curta hist&oacute;ria da humanidade. Parte de uma linhagem que    come&ccedil;a com DNA, passa por c&eacute;rebros, ferramentas e livros (e outros    registros est&aacute;ticos), software tem vantagens competitivas fundamentais    sobre todos os outros: &eacute; abstrato, muito male&aacute;vel (em rela&ccedil;&atilde;o    aos outros meios) e execut&aacute;vel. Codificado em <i>bits</i>, pode ser transferido,    na Era da Informa&ccedil;&atilde;o, em fra&ccedil;&otilde;es de segundo para    qualquer lugar do planeta e para fora dele, e pode "rodar" em variados tipos    de plataforma, desde telefones celulares a sistemas de controle de autom&oacute;veis    e elevadores at&eacute; gigantescos computadores capazes de simular ecologias    inteiras e, claro, o PC sobre a mesa de trabalho do leitor.</p>     <p>Esta abertura est&aacute; dividida em quatro partes, interligadas, que v&atilde;o    da nossa rela&ccedil;&atilde;o com tecnologias at&eacute; trabalho e software    na sociedade da informa&ccedil;&atilde;o. O objetivo destes textos, que est&atilde;o    dispon&iacute;veis com todos os seus links em <i><a href="http://www.meira.com">www.meira.com</a></i>,    &eacute; estabelecer o contexto para o N&uacute;cleo Tem&aacute;tico: onde,    por que e como estamos trilhando os caminhos de tecnologias da informa&ccedil;&atilde;o    e para onde eles nos levam -ou poderiam levar, se o mundo ao redor, principalmente    aqui no Brasil, estivesse mais disposto a mudar, mais r&aacute;pido.</p>     <p>A primeira parte, "O futuro era melhor no passado", &eacute; sobre a rela&ccedil;&atilde;o    da humanidade com as tecnologias da informa&ccedil;&atilde;o, e de como sempre    esperamos algo muito melhor do que a tecnologia pode nos dar, at&eacute; porque    as previs&otilde;es de futuro s&atilde;o sempre muito mais auspiciosas do que    a realidade futura as provar&aacute;. A segunda, "No caos, a receita do sucesso",    discute o problema tecnol&oacute;gico e econ&ocirc;mico de desenvolvimento de    sistemas de informa&ccedil;&atilde;o, as aplica&ccedil;&otilde;es que fazem    a sociedade moderna funcionar. O problema, a&iacute;, &eacute; que s&oacute;    28% dos projetos de software terminam bem, o que d&aacute; uma id&eacute;ia    do que ainda precisa ser resolvido para que o desenvolvimento de sistemas seja    eficiente e eficaz, apesar dos significativos avan&ccedil;os, em qualidade e    produtividade, da &uacute;ltima d&eacute;cada.</p>     <p>A terceira parte, "Santa Rita de C&aacute;ssia, padroeira dos sistemas de informa&ccedil;&atilde;o",    continua o tema anterior, tratando o caso do software do Space Shuttle, sem    d&uacute;vida um dos melhores (e mais caros) sistemas do mundo, ainda assim    com os problemas sobre os quais discorremos no texto. Antes de apresentar os    artigos restantes do n&uacute;cleo, a quarta parte trata de "Trabalho, emprego,    software e economia da informa&ccedil;&atilde;o", onde discutimos um pouco do    que &eacute; (e poder&aacute; vir a ser) a sociedade da informa&ccedil;&atilde;o,    qual o papel de software na mesma e como o Brasil est&aacute; deixando passar    uma das maiores oportunidades da hist&oacute;ria, porque os novos empreendimentos,    principalmente de software, est&atilde;o amarrados a um contexto legal completamente    anacr&ocirc;nico e cuja revis&atilde;o parece muito dif&iacute;cil hoje. Finalmente,    segue-se uma pequena apresenta&ccedil;&atilde;o de cada um dos artigos e seus    autores.</p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>O <small>FUTURO ERA MELHOR NO PASSADO</small></b> Daqui a cinq&uuml;enta    anos os computadores ser&atilde;o invis&iacute;veis. O que n&atilde;o significa    que ser&atilde;o feitos de alguma subst&acirc;ncia transparente, mas que estar&atilde;o    de tal forma embutidos nos objetos que nos cercam, e no meio ambiente, que n&atilde;o    mais conseguiremos nos preocupar com os "computadores"... Em muito menos tempo,    haver&aacute; centenas de bilh&otilde;es, talvez dezenas de trilh&otilde;es    de dispositivos <i>on-line</i>, em tempo real: desde a porta da sua casa e a    casa como um todo, at&eacute; sua camisa e seus &oacute;culos. Falando nisso,    deficientes visuais que tenham um olho muito melhor do que o outro poder&atilde;o    decidir trocar o olho "ruim" por algo mais sofisticado, como um sistema &oacute;tico    adaptativo ou mesmo uma vis&atilde;o infravermelha... rob&oacute;tica, claro.    Em cem anos, n&atilde;o haver&aacute; nem como pensar que os rob&ocirc;s da    &eacute;poca tentariam tomar-nos o mundo, porque n&atilde;o haver&aacute; mais    "n&oacute;s", pelo menos como nos entendemos hoje. A cada (r)evolu&ccedil;&atilde;o    da rob&oacute;tica, da biologia, da medicina, dos implantes, n&atilde;o haver&aacute;    como n&atilde;o querermos ter um pouco das novas possibilidades fazendo parte    das nossas vidas, de sua melhoria de qualidade, parte dos nossos corpos. O que    tornar&aacute; nossos corpos f&iacute;sicos cada vez mais l&oacute;gicos, mais    simb&oacute;licos, mais tecnol&oacute;gicos. Para todos os que se assustaram    com o par&aacute;grafo anterior, quantos carregam tecnologia como &oacute;culos    (sistemas passivos para melhoria de qualidade de vis&atilde;o), n&atilde;o t&ecirc;m    um dente obturado, usam rel&oacute;gio (seu outro "clock"...), t&ecirc;m um    pino de tit&acirc;nio no joelho ou, melhor ainda, falam, tecnologia desenvolvida    de forma &uacute;nica pela nossa esp&eacute;cie? Pois... o futuro faz uso das    mesmas licen&ccedil;as do passado, po&eacute;ticas ou n&atilde;o (...s&oacute;    uso porque &eacute; necess&aacute;rio, sen&atilde;o...) para nos abrir novas    e infinitas possibilidades de intera&ccedil;&atilde;o e magnifica&ccedil;&atilde;o    da presen&ccedil;a humana no universo. Incluindo tudo o que for preciso para    nossa sa&iacute;da, organizada, da Via L&aacute;ctea, gal&aacute;xia que se    encontra em rota de colis&atilde;o com Andr&ocirc;meda... apesar do impacto    n&atilde;o ser esperado pelos pr&oacute;ximos sete bilh&otilde;es de anos. Mas    que vai acontecer, vai. Estamos vivendo num curioso instant&acirc;neo do espa&ccedil;o-tempo,    como todos antes de n&oacute;s viveram. Mas a percep&ccedil;&atilde;o da crise    de sobreviv&ecirc;ncia que nosso planeta enfrenta tem criado situa&ccedil;&otilde;es    interessantes, magn&iacute;ficas e, tamb&eacute;m, rid&iacute;culas. Nossa rela&ccedil;&atilde;o    com o ambiente tem sido de amor ou &oacute;dio. Uns, destroem sem pensar. Outros,    preservam sem pensar. Dia desses, estive numa conversa sobre a "preserva&ccedil;&atilde;o"    de um conjunto de dunas, o que era para ser entendido como estabiliza&ccedil;&atilde;o    das ditas. Ora, se dunas s&atilde;o coisas m&oacute;veis por excel&ecirc;ncia,    paralis&aacute;-las, por conseguinte, &eacute; interferir destrutivamente no    meio. Mas o que se queria, de fato, era "preservar" uma beleza natural criada    por um conjunto de dunas que havia chegado at&eacute; o lugar onde estavam...    algo como achar que a foto ou o filme s&atilde;o mais desej&aacute;veis, definitivas    e melhores do que a realidade, como se o mapa de Borges fosse o mundo nele representado...</p>     <p>Nossa percep&ccedil;&atilde;o do presente parece partir do princ&iacute;pio    de que "no passado, o futuro era melhor". Tomamos as promessas do passado, comparamos    com o presente e nos for&ccedil;amos a achar que tudo poderia ser muito melhor.    Em inform&aacute;tica, este &eacute; certamente o caso, apesar do gigantesco    progresso que experimentamos nas cinco d&eacute;cadas da computa&ccedil;&atilde;o    eletr&ocirc;nica. Mas, nas &uacute;ltimas semanas, v&aacute;rios peda&ccedil;os    de inform&aacute;tica que eu costumo usar entraram em pane -e alguns deles me    deixaram em p&acirc;nico. O carro de "Kakinhas" se "desprogramou" (segundo a    concession&aacute;ria) e passou a limitar a for&ccedil;a do motor a uns cinco    p&ocirc;neis. Quase n&atilde;o andava. O roteador da rede banda larga do meu    pr&eacute;dio se "desconfigurou" (segundo o provedor) e fiquei mais de dois    dias sem acesso, al&eacute;m de ter que testar (com aux&iacute;lio do <i>call    center</i>) todo o servi&ccedil;o e seus <i>links</i>, coisa que dificilmente    seria feita por algu&eacute;m sem conhecimentos de computa&ccedil;&atilde;o,    mesmo com ajuda remota de um t&eacute;cnico. Um dos elevadores do pr&eacute;dio    "pipocou" (segundo o porteiro...) porque a umidade "derrotou" a "placa", ou    seja, porque entrou &aacute;gua no computador de bordo do bicho. E, claro, meu    celular foi clonado -o que significa que algu&eacute;m "programou" outro aparelho    com seus dados e fez milhares de reais em liga&ccedil;&otilde;es para a &Aacute;frica:    perdi meu velho n&uacute;mero e tive que mandar <i>e-mail</i> para um monte    de gente, avisando... tudo porque estamos usando coisas sobre as quais ainda    n&atilde;o temos, nem n&oacute;s nem os que nos fornecem os produtos e servi&ccedil;os,    controle efetivo. E isso, claro, sem mencionar quantas vezes meu <i>laptop</i>    e seus programas falham, todo dia.</p>     <p>O c&ocirc;mico alem&atilde;o Karl Valentin, autor da frase que d&aacute; t&iacute;tulo    a este texto (<i>Die zukunft war fr&uuml;her auch besser</i>) estava certo.    E a gente at&eacute; pode explicar porque. Muito pouco do que usamos, hoje,    em inform&aacute;tica (computa&ccedil;&atilde;o, comunica&ccedil;&atilde;o e    controle), est&aacute; no estado de maturidade tecnol&oacute;gica e social equivalente    aos buj&otilde;es de g&aacute;s que, simpl&iacute;ssimos, ainda "pipocam" de    verdade aqui e ali. O mundo da inform&aacute;tica ainda est&aacute; em acelerada    constru&ccedil;&atilde;o, mudando de uma gera&ccedil;&atilde;o para outra no    m&aacute;ximo a cada dois anos, e nos sujeitando a todos os caprichos e demandas    de servidores que n&atilde;o conseguem apenas nos servir: nos obrigam a muito    mais, a participar intensamente de seu processo de desenvolvimento. Sim, pois    quase tudo o que nos cai &agrave;s m&atilde;os, hoje, &eacute; digital e "beta",    ou seja, algo melhor do que um prot&oacute;tipo, mas que os fabricantes orgulhosamente    chamam de primeira gera&ccedil;&atilde;o. Dez gera&ccedil;&otilde;es depois,    sempre nos perguntamos como &eacute; que us&aacute;vamos aquelas "gambiarras"...    quando dever&iacute;amos nos lembrar de como a vida teria sido t&atilde;o pior    sem a maioria delas.</p>     <p>N&oacute;s, usu&aacute;rios, reclamamos do presente, porque ouvimos promessas    de um futuro, no passado, muito melhores do que o que temos hoje. Mas constru&iacute;mos,    com fabricantes e provedores, um imagin&aacute;rio do qual queremos participar    desde o come&ccedil;o. A vis&atilde;o do futuro &eacute; nossa tamb&eacute;m,    at&eacute; porque somos sujeitos inteligentes e ativos do que usamos. Muitos    poucos querem continuar com seus celulares anal&oacute;gicos, nem que seja porque    as baterias duram menos. Ningu&eacute;m quer um carro a carburador. Ou n&atilde;o    quer acesso mais r&aacute;pido, mais cores na tela, mais espa&ccedil;o no disco,    tudo o que possa vir a ser associado a qualidade, apesar de quase tudo ser s&oacute;    quantidade. E maiores dificuldades na utiliza&ccedil;&atilde;o de tecnologias    que n&atilde;o est&atilde;o prontas. A pergunta do dia, ent&atilde;o, &eacute;:    seriam tais dificuldades maiores mesmo, ou o s&atilde;o apenas na apar&ecirc;ncia?</p>     <p>No in&iacute;cio dos anos 80, na Idade da Pedra da Rede, os <i>modems</i> eram    imensos e externos aos computadores, cada provedor (BBS) resolvia se configurar    de um jeito, e o simples ato de "entrar na rede" (usando Kermit!) era precedido    de malabarismos impens&aacute;veis hoje, coisa de viciados em rede, inating&iacute;veis    para mortais comuns. Isso, l&aacute; no come&ccedil;o, para usar 1200 <i>bits</i>    por segundo e transferir texto em ASCII. Em compara&ccedil;&atilde;o, qual a    import&acirc;ncia relativa, hoje, de um roteador que, vez em quando, se "desconfigura",    mas tem uma performance mais de 100 vezes superior por um d&eacute;cimo do pre&ccedil;o?    Melhorando 1.000 vezes a rela&ccedil;&atilde;o entre o custo e o benef&iacute;cio    da minha experi&ecirc;ncia como usu&aacute;rio?</p>     <p>A rela&ccedil;&atilde;o da humanidade com a tecnologia data do come&ccedil;o    da vida inteligente no planeta e nunca nos deixamos dominar por ela; e continuaremos    a controlar as pr&oacute;ximas gera&ccedil;&otilde;es de qualquer tipo de tecnologia    que venhamos a desenvolver. Mas sempre quisemos mais, sempre estivemos insatisfeitos    e sempre tivemos aqueles, dentre n&oacute;s, mais aptos e alertas aos perigos    de termos tecnologia demais e humanidade de menos. &Eacute; por isso que &eacute;    poss&iacute;vel acreditar que a inform&aacute;tica, nesses 50 anos de sua efetiva    utiliza&ccedil;&atilde;o pela sociedade, vem trazendo, e a cada vez mais gente,    desenvolvimento e n&atilde;o, puramente, progresso. E tudo indica que o futuro    ser&aacute;, pelo menos, melhor do que o passado...</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>N<small>O CAOS, A RECEITA DO SUCESSO</small></b> Ao entrar no restaurante,    a <i>hostess</i> lhe informa, gentil e sorridente, dos resultados de uma pesquisa    sobre os trinta mil &uacute;ltimos pedidos realizados na casa. Em n&uacute;meros    redondos, 28% dos pratos servidos eram o que os fregueses haviam pedido, chegaram    no tempo previsto e pelo pre&ccedil;o do card&aacute;pio. Em 49% dos casos,    alguma coisa deu errado no prato, no pre&ccedil;o, no prazo ou numa combina&ccedil;&atilde;o    de todos. Teve gente que pediu bacalhau e recebeu tapioca, pelo mesmo pre&ccedil;o,    tempos depois. Em muitos casos, as discuss&otilde;es quase chegaram &agrave;s    vias de fato; em pelo menos um, o cliente sacou uma 9000S e queria mandar o    <i>chef</i> direto para o banquete celestial. Enfim, nos outros 23% dos pedidos,    os pratos e os clientes n&atilde;o se encontraram nunca; &agrave;s vezes porque    os primeiros demoraram tanto que os clientes desistiram; noutras, porque o <i>chef</i>    veio &agrave; mesa, mais de uma vez, para aumentar o pre&ccedil;o; noutras,    porque o cliente descobriu que o prato ia chegar, mas seria muito diferente    do pedido. Em suma, sua chance de sair dali realmente satisfeito &eacute; de    28%; a pergunta que a <i>hostess</i> lhe faz &eacute;... "Posso levar-lhe &agrave;    mesa, senhor?" Voc&ecirc; iria ou n&atilde;o?</p>     <p>Nunca vi nenhuma recep&ccedil;&atilde;o assim, em restaurante nenhum. At&eacute;    porque a vasta maioria deles tem um recorde melhor do que este. Mas n&atilde;o    acho que entraria num buraco, por mais chique que fosse, onde minha chance de    ser bem servido, comer bem e pagar o combinado fosse uma em quatro. E n&atilde;o    acho que haja tantos <i>gastro-masoquistas</i> por a&iacute;, a ponto de manter    restaurantes do tipo acima abertos. S&oacute; que os n&uacute;meros dizem respeito    a projetos de software e s&atilde;o do Standish Group, empresa que realiza,    desde 1994, um levantamento bastante sofisticado sobre projetos de software    realizados em empresas norte-americanas. O campo &eacute; f&eacute;rtil, pois    o gasto anual americano em projetos de aplica&ccedil;&otilde;es de software    chega a US$275 bilh&otilde;es, com mais de 200 mil projetos em andamento. O    Standish Group levantou a hist&oacute;ria de 30 mil desses projetos desde 1994    e, para alguns deles, realizou estudos detalhados. Os dados e as conclus&otilde;es    revelam o tamanho dos problemas que ainda existem em desenvolvimento de software,    bem como o tamanho da oportunidade para quem tentar e conseguir resolv&ecirc;-los.</p>     <p>A situa&ccedil;&atilde;o vem melhorando, e de forma muito significativa em    alguns aspectos. Em 1994, o aumento m&eacute;dio de pre&ccedil;o nos projetos    chegava a 189%, tendo ca&iacute;do para 45% em 2000. Uma senhora queda, diga-se    n&atilde;o t&atilde;o de passagem assim, que reflete o aumento da preocupa&ccedil;&atilde;o,    aten&ccedil;&atilde;o e da compet&ecirc;ncia mundial em rela&ccedil;&atilde;o    ao desenvolvimento de software, que est&aacute; passando a ser a ferramenta    mais b&aacute;sica e fundamental dos processos econ&ocirc;micos e sociais. &Eacute;    quase imposs&iacute;vel se passar um dia sem sofrer o efeito de algum tipo de    sistema de informa&ccedil;&atilde;o; para nosso bem, portanto, &eacute; bom    que eles funcionem, a contento, no prazo e no pre&ccedil;o que, por exemplo,    o supermercado combinou. Sen&atilde;o, sempre pagaremos uma parte do preju&iacute;zo,    seja em aumento de pre&ccedil;os e/ou piores servi&ccedil;os, ou em diminui&ccedil;&atilde;o    de competi&ccedil;&atilde;o, pois software de m&aacute; qualidade, fora do prazo    ou muito caro (ou os tr&ecirc;s, vez por outra) pode ser fal&ecirc;ncia certa.    Um dos casos mais rumorosos pode ter destru&iacute;do, em 1996, um dos maiores    distribuidores de medicamentos dos EUA, a FoxMeyer Drug Co., que faturava US$5    bilh&otilde;es por ano. Os liquidantes processaram a SAP e a Andersen Consulting    (hoje Accenture), pedindo uma compensa&ccedil;&atilde;o de US$ 1 bilh&atilde;o,    processo que dever&aacute; ser julgado este ano, correndo o risco de criar jurisprud&ecirc;ncia    nos EUA.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Alguns cr&iacute;ticos acham que as companhias "n&atilde;o aprendem com fracassos    anteriores", mas o fato &eacute; que o estado da pr&aacute;tica de constru&ccedil;&atilde;o    de software vem mudando, e para muito melhor, nos &uacute;ltimos 15 anos. Segundo    dados do mesmo estudo do Standish Group, o atraso m&eacute;dio dos projetos    de software caiu de 222% do tempo inicialmente previsto, em 1994, para 63% em    2000; em 1994, apenas 61% da funcionalidade prevista era entregue, em m&eacute;dia,    n&uacute;mero que subiu para 67%. Pode n&atilde;o ser essas coisas todas saber    que sua encomenda de software, se estiver na m&eacute;dia, custar&aacute; 45%    mais caro do que o contratado, ter&aacute; um atraso de 63% sobre o prazo previsto    para entrega e n&atilde;o ter&aacute; 33% das funcionalidades encomendadas.    Mas h&aacute; de se convir (compare acima) que houve um progresso gigantesco.</p>     <p>Construir software n&atilde;o &eacute; uma atividade simples; o problema que    se trata &eacute; normalmente o da replica&ccedil;&atilde;o virtual de processos,    sistemas e, na maioria das vezes, institui&ccedil;&otilde;es e redes delas.    Fazer com que o item cujo estoque caiu abaixo do m&iacute;nimo seja encomendado    e reposto na prateleira do supermercado &eacute; muito f&aacute;cil... desde    que todos os processos, sistemas e institui&ccedil;&otilde;es envolvidos sejam    individualmente entendidos e se entendam entre si. Na maioria dos casos, &eacute;    muito dif&iacute;cil, em projetos complexos, de porte e de longo prazo, manter    a institui&ccedil;&atilde;o est&aacute;tica, esperando que o projeto se complete.    Na pr&aacute;tica, os requisitos que um grande sistema tem que atender v&atilde;o    mudando &agrave; medida em que ele vai sendo constru&iacute;do, como se seu    pedido para a cozinha do restaurante fosse sendo mudado enquanto est&aacute;    sendo preparado: o <i>chef</i> come&ccedil;a fazendo seu sirigado com arroz    de frutos do mar e, na hora em que o prato chega, seu pedido j&aacute; era javali    ao barolo. N&atilde;o d&aacute;.</p>     <p>Grandes sistemas s&atilde;o como o que talvez tenha falido a FoxMeyer: a encomenda    custou US$35 milh&otilde;es. Segundo o Standish Group, a taxa de sucesso para    projetos acima de US$10 milh&otilde;es, que tipicamente envolvem quinhentas    ou mais pessoas por per&iacute;odos de tr&ecirc;s anos ou mais, &eacute; estatisticamente    zero! Para projetos de at&eacute; US$750 mil, que tipicamente envolvem seis    pessoas por seis meses, a taxa de sucesso &eacute; 55%. Para projetos pequenos    ("micro-projetos"), que custam at&eacute; US$250 mil e duram de tr&ecirc;s a    quatro semanas, taxas de sucesso de 70% podem ser esperadas depois de alguma    pr&aacute;tica e h&aacute; raz&otilde;es para se pensar que, havendo um processo    t&atilde;o afinado quanto a cozinha dos melhores restaurantes, as taxas de sucesso    possam chegar perto dos 100%.</p>     <p>A receita do Standish Group -Chaos: a recipe for success - (e de outros, como    Donald Reifer) para o sucesso inclui envolvimento e apoio dos executivos e usu&aacute;rios,    gerentes de projeto experientes, objetivos claros e escopo reduzido. Estes poucos    itens, bem cuidados, seriam respons&aacute;veis por 70% das chances de sucesso    de projetos de software. A receita &eacute; mais simples do que parece: gasta    muito esfor&ccedil;o, envolvimento de todas as pessoas-chave das institui&ccedil;&otilde;es,    educa&ccedil;&atilde;o cont&iacute;nua e implanta&ccedil;&atilde;o de m&eacute;todos    e processos claros e efetivos. A mudan&ccedil;a &eacute; de longo prazo, mas    &eacute; para sempre e come&ccedil;a por quem contrata. Se for voc&ecirc;, comece    por perguntar, da pr&oacute;xima vez, pelos m&eacute;todos e processos de quem    voc&ecirc; vai contratar. Ou ent&atilde;o apele para filosofia...</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>S<small>ANTA</small> R<small>ITA</small> <small>DE</small> C<small>&Aacute;SSIA,    PADROEIRA DOS SISTEMAS DE INFORMA&Ccedil;&Atilde;O</small></b> Mais hora menos    hora, &eacute; capaz de algu&eacute;m descobrir que quem derrubou o Space Shuttle    Columbia foi o software embarcado na nave. N&atilde;o que o software, em si,    tenha arrancado placas de isolamento t&eacute;rmico ou tocado fogo no Columbia.    Mas o "sistema" pode muito bem ter embicado a espa&ccedil;onave de tal forma,    contra a atmosfera terrestre, que a estrutura n&atilde;o resistiu e a coisa    deu no que deu. Ou podem descobrir que foi a falta de software que causou o    desastre: se (por exemplo) ca&iacute;ram placas cer&acirc;micas, porque tal    fato n&atilde;o foi denunciado pelos sistemas de supervis&atilde;o da nave?    Cada placa, se &eacute; t&atilde;o cr&iacute;tica como parece, deveria ser individualmente    monitorada e sua aus&ecirc;ncia ou disfun&ccedil;&atilde;o deveria, imediatamente,    arrepiar cabelos em muitos, da tripula&ccedil;&atilde;o ao controle de v&ocirc;o,    passando pelos fabricantes. Claro que o Columbia pode ter sido atingido por    um raio c&oacute;smico e o software, afinal, n&atilde;o teria ajudado a derrubar    a nave... a menos que... estivesse faltando, no Shuttle um radar para detectar    tais fen&ocirc;menos, que certamente seria em boa parte software, caso em que...</p>     <p>Nas &uacute;ltimas d&eacute;cadas, come&ccedil;amos a informatizar o mundo.    Quase todos os sistemas com os quais lidamos no nosso dia-a-dia dependem, fundamentalmente,    de hardware e software para seu funcionamento apropriado. Mais ainda, o software    que "roda" nesses objetos agrega muito pouco aos mesmos, quando considerado    isoladamente. Informatizar uma geladeira, tornando-a capaz de avisar (num monitor,    na porta) que o compressor est&aacute; com problemas, &eacute; muito pouco,    pois s&oacute; cria mais um problema na vida do dono, que tem que se preocupar    em chamar a assist&ecirc;ncia, etc, etc. Uma geladeira informatizada de verdade    teria que fazer o diagn&oacute;stico, entrar em contato com a f&aacute;brica,    descobrir o que precisa ser feito e por que e, a&iacute;, o sistema de informa&ccedil;&atilde;o    da f&aacute;brica (na verdade, da assist&ecirc;ncia t&eacute;cnica) entraria    em contato com o feliz propriet&aacute;rio de t&atilde;o gentil objeto, para    discutir o melhor hor&aacute;rio para uma visita que iria consertar... o que    ele nem sabe, ainda, que est&aacute; quebrado ou para quebrar. Quem detecta    o problema, na geladeira, &eacute; software e hardware, nela. Quem resolve o    problema, para o usu&aacute;rio, &eacute; a opera&ccedil;&atilde;o, coordenada,    de v&aacute;rios sistemas de informa&ccedil;&atilde;o.</p>     <p>&Agrave; medida em que tornamo-nos cada vez mais dependentes de servi&ccedil;os    muito sofisticados, (que t&ecirc;m que ser muito simples, tamb&eacute;m) mais    cr&iacute;tica &eacute; a presen&ccedil;a de sistemas de informa&ccedil;&atilde;o    nas nossas vidas. Se f&ocirc;ssemos completamente dependentes de servi&ccedil;os    informatizados, certamente haveria um mundo virtual, paralelo a este nosso,    real, que simularia, atrav&eacute;s dos seus sistemas de informa&ccedil;&atilde;o,    tudo o que precisamos fazer aqui na Terra (e, depois, pelo mundo afora). Nossas    necessidades, detectadas l&aacute;, resultariam em a&ccedil;&otilde;es, aqui,    resolvendo nossos menores e maiores problemas. Arretado, n&atilde;o? Agora pense    na complexidade de "virtualizar" tudo o que fazemos e precisamos ter para faz&ecirc;-lo.    Para come&ccedil;ar a discuss&atilde;o, por que n&atilde;o partir do Columbia?    Se este tipo de nave, na realidade se o conjunto de processos dos quais o correto    funcionamento da nave depende fosse realmente informatizado, at&eacute; mesmo    o desastre da Challenger, que explodiu na decolagem, poderia ter sido evitado.</p>     <p>Para quem n&atilde;o se lembra, o primeiro desastre de um Shuttle, em 1986,    se deveu a problemas com an&eacute;is de veda&ccedil;&atilde;o nos <i>boosters</i>,    os foguetes auxiliares do lan&ccedil;ador do Shuttle. A NASA tinha dados sobre    a eros&atilde;o dos chamados <i>O-rings</i> dos foguetes, que poderiam ter levado    &agrave; conclus&atilde;o de que, mais v&ocirc;o menos v&ocirc;o, um <i>booster</i>    iria explodir. Mas os dados sobre os an&eacute;is foram descartados pelo "sistema    de informa&ccedil;&atilde;o" da NASA, que n&atilde;o era, para este caso, software,    mas os analistas que decidiam se era ou n&atilde;o seguro continuar voando com    aquele tipo de problema. Se houvesse um modelo apropriado da nave, se os dados    tivessem sido corretamente inseridos neste modelo, possivelmente teria sido    poss&iacute;vel descobrir que o risco era muito maior do que o publicado pela    NASA antes do acidente.</p>     <p>Enquanto a administra&ccedil;&atilde;o acreditava que a possibilidade de falha    era de uma em cem mil, a engenharia tinha raz&otilde;es para crer que entre    um e dois, a cada cem lan&ccedil;amentos, poderiam falhar. O famoso adendo ao    relat&oacute;rio do comit&ecirc; que investigou a trag&eacute;dia, escrito pelo    f&iacute;sico Robert Feynman termina por dizer que "...<i>para uma tecnologia    de sucesso, a realidade deve ter preced&ecirc;ncia sobre rela&ccedil;&otilde;es    p&uacute;blicas, porque a natureza n&atilde;o pode ser enganada."</i> Em 1995,    a melhor estimativa para falha no Shuttle era de uma a cada 145 miss&otilde;es,    o que &eacute; um risco muito grande. No adendo ao relat&oacute;rio do primeiro    desastre, Feynman comenta a seriedade com a qual o processo de desenvolvimento    do software do Shuttle &eacute; tratado -o que &eacute; verdade desde o in&iacute;cio    do projeto. No Challenger, no entanto, o software era muito pequeno, cerca de    250 mil linhas de c&oacute;digo. Windows XP, que faz funcionar os PCs sobre    nossas mesas, tem 50 milh&otilde;es de linhas de c&oacute;digo, 200 vezes mais    do que o Shuttle de 1986 investigado por Feynman.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Os grupos que fazem o software do Shuttle est&atilde;o entre os melhores do    mundo e boa parte do seu trabalho envolve negociar demandas e especifica&ccedil;&otilde;es    do que o software embarcado no Shuttle tem que fazer e manter a maior parte    da mir&iacute;ade de solicita&ccedil;&otilde;es... fora da espa&ccedil;onave.    N&atilde;o que v&aacute; rodar noutro lugar, na Terra. Fora no sentido de nem    ser feita, de jeito nenhum. Para que se garanta a qualidade do que &eacute;    feito, de forma a minimizar o risco do software, literalmente, derrubar a nave.    Desde o princ&iacute;pio do programa, o lan&ccedil;amento e a reentrada na atmosfera    terrestre s&atilde;o feitos por software. Mas o que significaria informatizar    a nave a ponto de ter sensores e atuadores em todos seus pontos cr&iacute;ticos,    talvez aliados a software embarcado que pudesse controlar tudo isso e a um simulador    de v&ocirc;o virtual, capaz de replicar, em Terra, o v&ocirc;o que o Shuttle    estivesse fazendo, l&aacute; em cima? Para "informatizar a nave" em condi&ccedil;&otilde;es    pr&oacute;ximas da realidade de cada v&ocirc;o, a NASA talvez tivesse que usar    um Earth Simulator, o mega computador japon&ecirc;s capaz de 35 trilh&otilde;es    de opera&ccedil;&otilde;es por segundo, rodando um modelo computacional do Space    Shuttle, e n&atilde;o de qualquer um. Cada um &eacute; diferente -os dados do    modelo teriam que representar o estado do Columbia, se dele quis&eacute;ssemos    ter uma simula&ccedil;&atilde;o.</p>     <p>A&iacute; &eacute; onde entra Santa Rita de C&aacute;ssia, que compartilha    com S&atilde;o Judas Tadeu o patroc&iacute;nio das causas imposs&iacute;veis.    O software do Shuttle, desenvolvido sobre um hardware bem entendido, que n&atilde;o    muda h&aacute; 20 anos, tem cerca de 500 mil linhas de c&oacute;digo (1/100    do tamanho de Windows XP), escritas por um time de menos de tr&ecirc;s centenas    de pessoas, a um custo de US$ 750 milh&otilde;es. Astron&ocirc;mico, se considerarmos    as raz&otilde;es entre o tamanho, o tempo e o custo. Razo&aacute;vel, quando    se considera a complexidade do projeto e a necessidade de seguran&ccedil;a e    corretude do sistema. Ainda assim, estima-se que, com as ferramentas atuais,    se o software do Shuttle tivesse 10 milh&otilde;es de linhas, haveria cerca    de 100 erros cr&iacute;ticos, capazes de comprometer o desempenho e a seguran&ccedil;a    do sistema. O software do Shuttle &eacute; um dos mais bem projetados, escritos    e controlados do mundo. E, ainda assim, o sistema de informa&ccedil;&atilde;o    do qual ele faz parte precisa, a cada segundo, da intercess&atilde;o de Santa    Rita de C&aacute;ssia, pois o software &eacute; muito menos do que o sistema    que muitos pensam que o software, sozinho, implementa... Por isso que dever&iacute;amos    pedir ao Vaticano a nomea&ccedil;&atilde;o imediata da "Santa das causas imposs&iacute;veis"    para "Padroeira dos sistemas de informa&ccedil;&atilde;o"...</p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v55n2/15525q1.gif"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>T<small>RABALHO, EMPREGO, SOFTWARE E ECONOMIA DA INFORMA&Ccedil;&Atilde;O</small></b></p>     <p><i>..."Os baixos sal&aacute;rios nacionais devem-se &agrave; baixa produtividade    do pa&iacute;s. E n&atilde;o por os patr&otilde;es serem mais canalhas em Portugal    do que noutro s&iacute;tio qualquer.... Os americanos acham que o trabalho &eacute;    uma riqueza que deve ser multiplicada. Os europeus preferem olhar para o emprego,    preservando-o com elevados subs&iacute;dios aos desempregados. Os portugueses    sempre protegeram os que t&ecirc;m emprego mas n&atilde;o querem trabalhar,    desprezando os que procuram trabalho e n&atilde;o arranjam emprego".</i> O trecho    acima &eacute; parte de um artigo de S&eacute;rgio Figueiredo, no <i>Correio    da Manh&atilde;</i>, de Lisboa, em 18/11/2002. Poderia ser sobre o Brasil, a    menos das cita&ccedil;&otilde;es a Portugal e aos portugueses.</p>     <p>E tais conversas s&atilde;o ordem do dia, l&aacute;, porque Portugal est&aacute;    discutindo uma revis&atilde;o de sua legisla&ccedil;&atilde;o trabalhista, numa    tentativa de criar mais flexibilidade nas contrata&ccedil;&otilde;es, para aquecer    o mercado de trabalho nacional. Mas h&aacute; greves gerais no horizonte: uns    parecem n&atilde;o entender que o mercado de trabalho precisa ter liquidez,    pessoas indo de um emprego para outro, de forma eficaz e eficiente do ponto    de vista dos custos para os empregadores, mantido um conjunto razo&aacute;vel    de garantias para os trabalhadores.Os sindicatos n&atilde;o querem nada com    isso; e olha que Portugal tem um dos piores cen&aacute;rios de emprego e renda    da Europa e poucas chances de melhorar enquanto sua legisla&ccedil;&atilde;o    trabalhista for t&atilde;o senil quanto a brasileira. N&oacute;s, obviamente,    estamos em pior situa&ccedil;&atilde;o, &agrave; falta de uma Europa a nos ajudar,    cobrindo custos educacionais e subvencionando nossa improdutividade.</p>     <p>Isso num mundo em que o trabalho bra&ccedil;al, repetitivo, de baixa qualidade,    est&aacute; se extinguindo. Estudos da George Washington University apontam    para 10% dos postos de trabalho na ind&uacute;stria em 2015 e para fazendas    autom&aacute;ticas em 2020. Pouca surpresa, pois os servi&ccedil;os sa&iacute;ram,    no s&eacute;culo passado, de um para tr&ecirc;s quartos das principais economias.    E parte significativa dos novos servi&ccedil;os n&atilde;o resulta da cl&aacute;ssica    liga&ccedil;&atilde;o entre um capitalista detentor dos meios e um trabalhador    explorado por um patr&atilde;o desalmado, aquele precisando da tutela do Estado    e este perseguido quase como se fosse um criminoso.</p>     <p>O trabalho da economia da informa&ccedil;&atilde;o j&aacute; &eacute; muito    diferente do que pensam os sindicatos e os governos de pa&iacute;ses perif&eacute;ricos    e suas pol&iacute;ticas isoladas, retr&oacute;gradas e compensat&oacute;rias.    Sistemas opressivos de "prote&ccedil;&atilde;o" aos empregados (que t&ecirc;m    emprego, claro) servem apenas para esconder a incompet&ecirc;ncia dos estados    em assuntos de educa&ccedil;&atilde;o e fomento ao mercado, ao empreendedorismo    e &agrave; inova&ccedil;&atilde;o. A falta dos quatro &uacute;ltimos, combinada    com a for&ccedil;a do primeiro, &eacute; exatamente o que se precisa para que    continuemos como sempre estivemos: al&eacute;m de altas taxas de desemprego    e de poucos empregos de qualidade, manter-nos-&atilde;o &agrave; beira das revolu&ccedil;&otilde;es    pelas quais v&ecirc;m passando o mundo moderno, do qual acabamos comprando quase    tudo que realmente importa, desde processos triviais at&eacute; a "carga" tecnol&oacute;gica    (express&atilde;o usada por Jared Diamond) que n&atilde;o conseguimos, por pura    e simples incompet&ecirc;ncia, desenvolver.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>O trabalho da economia da informa&ccedil;&atilde;o &eacute; baseado em redes    de agrega&ccedil;&atilde;o de valor onde uns se especializam em an&aacute;lise    de mercado, outros em marketing e vendas, ainda outros em distribui&ccedil;&atilde;o,    uns em m&eacute;todos e processos, ou em marcas e reputa&ccedil;&otilde;es e,    finalmente, nos que efetivamente realizam um servi&ccedil;o, que pode terminar    na constru&ccedil;&atilde;o de objetos f&iacute;sicos em algum lugar do mundo.    Como as pessoas n&atilde;o s&atilde;o especialistas em tudo e nenhum neg&oacute;cio    tem demanda perene pelas mesmas habilidades, nada seria mais interessante, para    todos os lados, que houvesse condi&ccedil;&otilde;es para que fossem criados    mercados de trabalho reais e din&acirc;micos. Pode n&atilde;o desej&aacute;vel    (ou poss&iacute;vel) "testar" redes din&acirc;micas de trabalho numa economia    nacional qualquer, como um todo, mas certamente &eacute; vi&aacute;vel faz&ecirc;-lo    em desenvolvimento de software e sistemas de informa&ccedil;&atilde;o, uma das    &aacute;reas onde os trabalhadores n&atilde;o s&atilde;o pobres desprotegidos    e onde o Brasil precisa de uma competitividade internacional muito maior.</p>     <p>F&aacute;bricas de software vivem de projetos sazonais, que podem necessitar    dos mais variados tipos de compet&ecirc;ncias, projeto a projeto. O desenvolvimento    de sistemas de informa&ccedil;&atilde;o, por sua vez, depende de m&eacute;todos,    processos, instrumentos e ferramentas usados pelos engenheiros de software que,    por sua vez, est&atilde;o num ou noutro projeto em fun&ccedil;&atilde;o de suas    compet&ecirc;ncias pessoais. Ningu&eacute;m encontra especialistas em sistemas    embarcados em avi&otilde;es trabalhando em automa&ccedil;&atilde;o de vendas.    As empresas que sobrevivem, na economia de software, s&atilde;o as que combinam    infra-estrutura, m&eacute;todos, processos e pessoas com vendas e servi&ccedil;os,    parte de uma complexa receita onde se deve equilibrar qualidade, produtividade,    custo e pre&ccedil;o. E isto &eacute; cada vez mais dif&iacute;cil no Brasil,    principalmente face &agrave; competi&ccedil;&atilde;o internacional de pa&iacute;ses    como &Iacute;ndia, China e Bangladesh, mas n&atilde;o s&oacute;. R&uacute;ssia    e Irlanda, entre outros, est&atilde;o na primeira divis&atilde;o do campeonato.</p>     <p>Ou come&ccedil;amos a testar, e com urg&ecirc;ncia, novas redes pessoais e    institucionais de produ&ccedil;&atilde;o de software e sistemas de informa&ccedil;&atilde;o    em geral, com incentivo e apoio daqueles que hoje trabalham justamente para    "enquadrar" as empresas de software como se fossem simples montadoras de produtos    f&iacute;sicos ou come&ccedil;aremos, muito em breve, a exportar, em grande    escala, trabalho sofisticado e potencialmente bem remunerado. Desenvolvimento    de software depende de educa&ccedil;&atilde;o e pr&aacute;tica, &eacute; um    tipo de servi&ccedil;o moderno que pode, com relativa facilidade, ser contratado    em qualquer lugar do mundo, desde que se administre, razoavelmente, os processos    envolvidos.</p>     <p>A boa not&iacute;cia &eacute; que um conjunto de padr&otilde;es internacionais    para processo de software est&aacute; come&ccedil;ando a ser usado por muitas    companhias em muitos pa&iacute;ses. Regi&otilde;es onde, por sinal, a disponibilidade    de engenheiros de software &eacute; significativamente maior do que no Brasil,    e a um custo muito, muito menor. A m&aacute; not&iacute;cia &eacute; que a "globaliza&ccedil;&atilde;o"    nacional, conduzida no mais das vezes pela exporta&ccedil;&atilde;o do controle    de companhias locais, est&aacute; come&ccedil;ando a exportar, tamb&eacute;m,    trabalho intelectual que gera benef&iacute;cios muito maiores do que empregos    e sal&aacute;rios. F&aacute;bricas de software s&atilde;o criadouros naturais    de pr&aacute;ticas e processos que formam, sempre, novas empresas ao seu redor    e o fazem por muito tempo, mesmo depois que, por uma raz&atilde;o ou por outra,    encerram suas atividades. Ou seja, estamos exportando, para a &Iacute;ndia e    R&uacute;ssia, parte da nossa pr&oacute;pria capacidade de competir na economia    da informa&ccedil;&atilde;o.</p>     <p>Ao congelar rela&ccedil;&otilde;es ultrapassadas de emprego cujo trabalho pode    ser exportado de forma eficaz e eficiente, como &eacute; o caso de desenvolvimento    de software, estamos tentando parar o tempo e nos isolando, cada vez mais remotamente,    da competi&ccedil;&atilde;o. Talvez fosse hora de experimentar, em software,    para ver se conseguimos transformar um rombo (crescente) de um bilh&atilde;o    de d&oacute;lares na balan&ccedil;a comercial em super&aacute;vit e esperan&ccedil;a    de dias melhores. Antes que, tamb&eacute;m em software, sejamos apenas o pa&iacute;s    do futuro cada vez mais distante, como muitos portugueses tamb&eacute;m est&atilde;o    come&ccedil;ando a se sentir.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>O<small>S ARTIGOS E AUTORES DESTE</small> N<small>&Uacute;CLEO</small> T<small>EM&Aacute;TICO</small></b>    O primeiro artigo, de Jorge Fernandes, trata da pr&aacute;tica de software,    desde sua concep&ccedil;&atilde;o at&eacute; o uso. O status epistemol&oacute;gico    de software, claro, n&atilde;o &eacute; um dos aspectos j&aacute; resolvidos    pelo conjunto de teorias que trata do problema; os leitores familiares com software    e com seu ciclo de vida poder&atilde;o se surpreender com o tipo de abordagem    usado no artigo, muito mais para hol&iacute;stico (ou sist&ecirc;mico) do que    para tecnol&oacute;gico. Fernandes, doutor em inform&aacute;tica pela UFPE,    &eacute; graduado em biologia pela UFRN (onde &eacute; professor) e uma das    mais coerentes e criativas das vozes dissonantes do <i>status quo</i> de pesquisa    e desenvolvimento de software no pa&iacute;s.</p>     <p>O segundo texto, de Ana Cavalcanti, trata de refinamento, um dos poucos aspectos    do que poderia chamar uma "teoria geral para o desenvolvimento de software"    que tem seu rigor e formalismo mais ou menos resolvidos e utiliz&aacute;veis    na pr&aacute;tica -isso porque boa parte das "teorias" para desenvolvimento    de software n&atilde;o consegue passar no teste pr&aacute;tico de agregar qualquer    valor ao desenvolvimento de sistemas reais. Refinamento &eacute; o correspondente    te&oacute;rico metodol&oacute;gico ao "bom senso" e &agrave;s "regras do polegar"    que s&atilde;o usadas por programadores no seu dia-a-dia e &eacute; exatamente    seu sucesso, como teoria, que nos permite imaginar que, com o tempo, um n&uacute;mero    cada vez maior de facetas do ciclo de vida de software possa ser contemplado    com fundamentos te&oacute;ricos-metodol&oacute;gicos pr&aacute;ticos. Ana Cavalcanti    &eacute; PhD pela University of Oxford e leciona, hoje, na University of Kent    at Canterbury.</p>     <p>Jos&eacute; Palazzo Oliveira &eacute; doutor em inform&aacute;tica pelo Institut    National Polytechnique de Grenoble e professor titular da UFRGS e, em seu artigo,    trata do papel dos sistemas de informa&ccedil;&atilde;o na sociedade, incluindo    uma discuss&atilde;o sobre os "inclu&iacute;dos e exclu&iacute;dos" do processo    de informatiza&ccedil;&atilde;o da economia e, conseq&uuml;entemente, do todo    social. As possibilidades e os desafios da nova era, habilitada por software    em quase todo canto, s&atilde;o o tema central do discurso de Palazzo, que trata    do tema no sentido amplo, onde sistemas de informa&ccedil;&atilde;o t&ecirc;m    software na sua base mas s&atilde;o muito mais que software no seu todo.</p>     <p>Erat&oacute;stenes Ara&uacute;jo, por sua vez, discute as oportunidades para    o Brasil no setor de software, tanto do ponto de vista da capacita&ccedil;&atilde;o    e do mercado locais como da demanda e das exig&ecirc;ncias do mundo. Ara&uacute;jo,    mestre em inform&aacute;tica pelo IME e coordenador da &aacute;rea de capacita&ccedil;&atilde;o    empresarial e empreendedorismo da sociedade Sofrex, trata h&aacute; mais de    uma d&eacute;cada dos problemas de competitividade das empresas nacionais de    software e servi&ccedil;os de inform&aacute;tica, e nos d&aacute;, em seu texto,    uma contribui&ccedil;&atilde;o fundamental para o entendimento dos problemas    do setor de software no pa&iacute;s, hoje.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Finalizando, o artigo de Vanderlei Perez Canhos, diretor do Centro de Refer&ecirc;ncia    em Informa&ccedil;&atilde;o Ambiental (CRIA), de Campinas, SP, oferece uma vis&atilde;o    geral da evolu&ccedil;&atilde;o da inform&aacute;tica para biodiversidade, enquanto    o texto de Renato Toi, diretor da empresa VentureLabs e consultor do Softex,    trata do empreendedorismo em software.</p>     <p>Nossa inten&ccedil;&atilde;o, neste n&uacute;cleo tem&aacute;tico, foi a de    aliar vis&otilde;es sobre a pr&aacute;tica e a teoria associadas ao ciclo de    vida de software, sobre os sistemas resultantes na economia e sobre as possibilidades,    para software e para o Brasil, na economia mundial de software. O futuro pode    n&atilde;o ser melhor do que era no passado, mas uma coisa &eacute; certa: quase    nada, nele, existir&aacute; sem software. O novo sistema operacional do mundo,    baseado em redes, na ubiq&uuml;idide da comunica&ccedil;&atilde;o e na pervasividade    das intera&ccedil;&otilde;es mediadas por sistemas de informa&ccedil;&atilde;o,    vem sendo escrito h&aacute; cinq&uuml;enta anos e levar&aacute; o restante da    hist&oacute;ria da humanidade para ficar pronto. &Agrave; medida em que digitalizamos    n&atilde;o s&oacute; nossas transa&ccedil;&otilde;es comerciais mas quase todo    o patrim&ocirc;nio hist&oacute;rico, art&iacute;stico e cultural do planeta,    pode ser que o legado final da Terra n&atilde;o seja, apenas, a di&aacute;spora    definitiva, mas a codifica&ccedil;&atilde;o, execut&aacute;vel, de quase tudo    o que aconteceu desde que computadores e software apareceram para mudar, de    uma vez por todas, o que nos somos e como nos entendemos.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><i><b>Silvio Lemos Meira</b> &eacute; professor titular de engenharia de software    da Universidade Federal de Pernambuco e cientista-chefe do Centro de Estudos    e Sistemas Avan&ccedil;ados do Recife (Cesar).</i></p>      ]]></body>
</article>
