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</front><body><![CDATA[ <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v55n2/tb17.gif"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b><font size="4">S<small>ISTEMAS DE INFORMA&Ccedil;&Atilde;O E SOCIEDADE</small></font></b></p>     <p>Jos&eacute; Palazzo Moreira de Oliveira</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><i>Os Sistemas de Informa&ccedil;&atilde;o, cada vez mais disseminados na sociedade    podem determinar uma profunda mudan&ccedil;a na estrutura e nas a&ccedil;&otilde;es    desenvolvidas pelas pessoas e organiza&ccedil;&otilde;es. Este artigo coloca    em evid&ecirc;ncia essas modifica&ccedil;&otilde;es enfatizando os aspectos    ligados &agrave; distribui&ccedil;&atilde;o da informa&ccedil;&atilde;o e &agrave;s    possibilidades da&iacute; decorrentes. S&atilde;o analisadas as perspectivas    sociais e individuais advindas do acesso global aos Sistemas de Informa&ccedil;&atilde;o    e as conseq&uuml;&ecirc;ncias da exclus&atilde;o digital de importantes setores    da humanidade.</i></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>Os Sistemas de Informa&ccedil;&atilde;o (SI), baseados em Tecnologias de Informa&ccedil;&atilde;o    (TI) computacionais, constituem-se em subsistemas envolvidos no desempenho de    fun&ccedil;&otilde;es t&eacute;cnicas ou administrativas que com a difus&atilde;o    da Internet, passaram a fazer parte da vida e do trabalho dos indiv&iacute;duos.    O sucesso ou o fracasso de qualquer SI est&aacute; mais ligado &agrave; qualidade    de sua integra&ccedil;&atilde;o ao ambiente social do que &agrave; perfei&ccedil;&atilde;o    t&eacute;cnica da TI utilizada. O est&aacute;gio de desenvolvimento do SI &eacute;    caracterizado n&atilde;o somente pela tecnologia utilizada, mas, principalmente,    pelos m&eacute;todos de trabalho decorrentes do emprego desta tecnologia. &Eacute;    preciso ter presente que <i>a um dado est&aacute;gio tecnol&oacute;gico corresponde    sempre um ambiente cultural</i>. O desenvolvimento do ambiente cultural, incorporando    as novas tecnologias aos h&aacute;bitos, &eacute; um processo demorado que requer    um lento amadurecimento. A simples implanta&ccedil;&atilde;o de novas tecnologias,    sem a correspondente transforma&ccedil;&atilde;o do comportamento, tende ao    insucesso da inova&ccedil;&atilde;o.</p>     <p>Percebe-se a grande depend&ecirc;ncia entre as TI e a estrutura do trabalho    pela observa&ccedil;&atilde;o da realidade: um determinado ambiente social gera    necessidades que n&atilde;o podem ser supridas pela tecnologia dispon&iacute;vel,    uma nova TI permite a implanta&ccedil;&atilde;o de outros m&eacute;todos de    trabalho ou de a&ccedil;&atilde;o que influenciam o ambiente e o pr&oacute;prio    comportamento dos envolvidos. Estas modifica&ccedil;&otilde;es geram, por sua    vez, novas necessidades e estimulam o surgimento de avan&ccedil;os tecnol&oacute;gicos.    Este processo &eacute; auto-alimentado at&eacute; que o volume de transforma&ccedil;&otilde;es    gere uma nova fase no contexto social.</p>     <p>A fase p&oacute;s-industrial, em que estamos ingressando, &eacute; caracterizada    pela enorme flexibilidade dos SI. Os dados s&atilde;o mantidos em bancos de    dados dispersos pela rede e o acesso aos mesmos &eacute; realizado atrav&eacute;s    da Web. Este acesso pode ser realizado por unidades port&aacute;teis conectadas    por linhas telef&ocirc;nicas ou por comunica&ccedil;&atilde;o m&oacute;vel.    A conseq&uuml;&ecirc;ncia disto &eacute; que os desenvolvimentos explosivos    da inform&aacute;tica e das telecomunica&ccedil;&otilde;es est&atilde;o propiciando    uma das mais espetaculares transforma&ccedil;&otilde;es nas estruturas sociais.    Ao lado do enorme crescimento da quantidade de informa&ccedil;&otilde;es dispon&iacute;veis,    as novas tecnologias de computadores, de telecomunica&ccedil;&otilde;es e de    banco de dados em linha s&atilde;o os elementos que desencadearam a atual transforma&ccedil;&atilde;o    da sociedade. Uma iniciativa do ex-presidente norte-americano, Clinton, acelerou    ainda mais este processo: esta iniciativa foi o conceito de <i>Information Superhighways</i>:</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><i>"A acelera&ccedil;&atilde;o da introdu&ccedil;&atilde;o de um eficiente    sistema de comunica&ccedil;&atilde;o de alta velocidade pode ter o mesmo efeito    no desenvolvimento da economia e no desenvolvimento social dos U.S. que teve    o investimento p&uacute;blico nas ferrovias no s&eacute;culo XIX. Este sistema    pode fornecer uma ferramenta cr&iacute;tica ao redor da qual muitas oportunidades    novas de neg&oacute;cios podem se desenvolver".</i></p>     <p>Esta &eacute; a vis&atilde;o de uma sociedade afluente e aberta percebendo    a possibilidade econ&ocirc;mica desta nova fronteira. Neste racioc&iacute;nio,    foram analisados apenas os aspectos econ&ocirc;micos. Em uma implanta&ccedil;&atilde;o    maci&ccedil;a de uma nova tecnologia a mais importante modifica&ccedil;&atilde;o    ocorre na estrutura da sociedade e no inter-relacionamento dos agentes sociais,    a&iacute; inclu&iacute;dos os agentes econ&ocirc;micos. Uma an&aacute;lise puramente    econ&ocirc;mica &eacute; uma simplifica&ccedil;&atilde;o radical e perigosa    para o entendimento do processo global.</p>     <p>Hoje, em diversos pa&iacute;ses com economia avan&ccedil;ada, empresas est&atilde;o    deslocando seus escrit&oacute;rios principais para bairros mais distantes do    centro. Estes deslocamentos s&atilde;o apoiados pelos governos ou prefeituras    locais que n&atilde;o s&oacute; t&ecirc;m fornecido incentivos fiscais, como    adaptado seus planos diretores e realizado modifica&ccedil;&otilde;es no sistema    vi&aacute;rio para suportar os novos fluxos de tr&aacute;fego. Em uma pr&oacute;xima    etapa, a descentraliza&ccedil;&atilde;o pode aumentar consideravelmente. A aceita&ccedil;&atilde;o    desta nova concep&ccedil;&atilde;o de trabalho permite o desenvolvimento de    uma nova organiza&ccedil;&atilde;o: a difus&atilde;o. Nesta estrutura uma pessoa    executa as suas atividades no local que lhe &eacute; pessoalmente mais adequado    ou agrad&aacute;vel. &Eacute; poss&iacute;vel, neste est&aacute;gio, o desenvolvimento    de uma forma totalmente nova de a&ccedil;&atilde;o: o tele-trabalho ou a tele-a&ccedil;&atilde;o    (para incluirmos aquelas atividades tradicionalmente n&atilde;o consideradas    como trabalho mas importantes socialmente). Esta, por exemplo, &eacute; uma    transforma&ccedil;&atilde;o que ultrapassa, em muito, os meros limites de uma    an&aacute;lise econ&ocirc;mica.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v55n2/15528q1.gif"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>A queda dos custos da tecnologia e a conseq&uuml;ente dissemina&ccedil;&atilde;o    da inform&aacute;tica e das redes de comunica&ccedil;&atilde;o &eacute; o elemento    b&aacute;sico para permitir o acesso &agrave; informa&ccedil;&atilde;o a amplos    setores da comunidade. O aumento do n&iacute;vel de conhecimento fortalece a    participa&ccedil;&atilde;o e a produtividade das pessoas. Esta &eacute; a transforma&ccedil;&atilde;o    essencial que estamos presenciando neste in&iacute;cio de s&eacute;culo.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>A<small>S POSSIBILIDADES E DESAFIOS</small></b> A imagem que procurei esbo&ccedil;ar    mostra a apari&ccedil;&atilde;o de um ambiente social bastante diferente do    que est&aacute;vamos habituados durante a maior parte da hist&oacute;ria. A    tele-inform&aacute;tica e o processamento da informa&ccedil;&atilde;o por computadores    pessoais torna poss&iacute;vel uma independ&ecirc;ncia muito grande para os    indiv&iacute;duos. O trabalho em locais fixos, que materializa a id&eacute;ia    de um grupo unido, passa a dar lugar ao trabalho em pequenos escrit&oacute;rios    ou mesmo em casa. O acesso a grandes bancos de dados e de informa&ccedil;&otilde;es    passa a ser fato comum. Do ponto de vista estritamente individual, os SIs na    Web alteram completamente a inser&ccedil;&atilde;o social das pessoas. Ao lado    das indiscut&iacute;veis vantagens, aparecem alguns problemas que devem ser    ponderados como o isolamento, a falta do aprendizado social por conviv&ecirc;ncia    em um grupo ou a perda de tempo em atividades acess&oacute;rias como a leitura    de imensos correios eletr&ocirc;nicos.</p>     <p>Como participantes diretos do processo nos &eacute; muito dif&iacute;cil prever    todas as suas conseq&uuml;&ecirc;ncias. Entretanto podemos vislumbrar um comportamento    mais individual, cr&iacute;tico e independente das pessoas. A compara&ccedil;&atilde;o    entre o comportamento de sociedades dos pa&iacute;ses centrais e dos pa&iacute;ses    perif&eacute;ricos permite perceber a mudan&ccedil;a que a posse da informa&ccedil;&atilde;o    por grandes parcelas da popula&ccedil;&atilde;o pode causar. A informa&ccedil;&atilde;o    dispon&iacute;vel e integrada na vida di&aacute;ria cria um comportamento mais    participativo e cr&iacute;tico.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><b>O C<small>ONTROLE</small></b> Este comportamento &eacute; essencial para    quebrar o atual modelo resultante da evolu&ccedil;&atilde;o do sistema industrial.    A sociedade industrial moderna apresenta caracter&iacute;sticas que a tornam    profundamente opressora do cidad&atilde;o. A primazia dos interesses econ&ocirc;micos    sobre os sociais, a identifica&ccedil;&atilde;o do Estado com os interesses    econ&ocirc;micos de grandes grupos levam a uma profunda distor&ccedil;&atilde;o    dos valores humanos. A dicotomia existente, nos per&iacute;odos anteriores da    evolu&ccedil;&atilde;o, entre as empresas e o Estado tende a diminuir. O Estado,    que tradicionalmente deveria ter poderes normativos isentos, passa a identificar-se    com certos grupos de empresas evolu&iacute;das tecnologicamente.</p>     <p>Um exemplo flagrante deste fato &eacute; a atual discuss&atilde;o e altera&ccedil;&atilde;o    profunda do conceito de direto autoral. Este conceito foi forjado para salvaguardar    o trabalho do autor e garantir sua justa remunera&ccedil;&atilde;o. Atualmente    este conceito est&aacute; sendo totalmente deformado para proteger interesses    de grandes corpora&ccedil;&otilde;es. Por exemplo, hist&oacute;rias recolhidas    da tradi&ccedil;&atilde;o europ&eacute;ia como <i>A bela e a fera</i>, o <i>Gato    de botas</i> e a hist&oacute;ria medieval do <i>Lobo mau</i> foram apropriadas,    sem nenhum pagamento, e transformadas em produto intelectual, com o benepl&aacute;cito    do governo interessado. Nesse momento cria-se uma discuss&atilde;o sobre direitos    autorais (autorais?) de at&eacute; 99 anos! O que era p&uacute;blico transforma-se    em fonte inesgot&aacute;vel de lucro para o primeiro que se apropriar de uma    id&eacute;ia p&uacute;blica. O mesmo est&aacute; se passando com o acervo cultural    da humanidade, pouco a pouco sendo privatizado. Outro aspecto restritivo &eacute;    o constante cerceamento da liberdade de pesquisa em diversas &aacute;rea das    TIs, como criptografia, seguran&ccedil;a de acesso a dados e outras, sob a desculpa    da garantia de direitos sobre processos industriais.</p>     <p>Isto tudo &eacute; decorr&ecirc;ncia de um fato j&aacute; identificado em 1967,    por John Kenneth Galbright em seu livro <i>Novo estado industrial</i>. A tecnoestrutura    do governo, associada &agrave; necessidade de planifica&ccedil;&atilde;o do    mercado (desejada pelo planejamento industrial), torna muito t&ecirc;nues as    separa&ccedil;&otilde;es anteriormente existentes entre a iniciativa privada    e o Estado. Esta identifica&ccedil;&atilde;o tem por objetivo a satisfa&ccedil;&atilde;o    das necessidades do <i>Estado industrial</i>:</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><i>"De fato, o sistema industrial acha-se inextricavelmente associado com o    Estado. Em muitos respeitos, a companhia amadurecida &eacute; uma ramifica&ccedil;&atilde;o    do Estado e este, em importantes mat&eacute;rias, um instrumento do sistema    industrial".</i></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><i>Em uma an&aacute;lise do comportamento das sociedades industriais, Galbright    estuda o comportamento antag&ocirc;nico desta sociedade para com os valores    que transcendem o puramente econ&ocirc;mico. Estuda, tamb&eacute;m, a manipula&ccedil;&atilde;o    do mercado para que se adapte aos interesses da sociedade industrial.</i></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v55n2/15528q2.gif"></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p>Esse &eacute; o primeiro grande desafio. Se por um lado os Sistemas de Informa&ccedil;&atilde;o    atuais permitem um amplo acesso a informa&ccedil;&otilde;es, a m&iacute;dias    digitais e ao conhecimento, o interesse de manter no dom&iacute;nio privado    o conhecimento est&aacute; levando &agrave; privatiza&ccedil;&atilde;o do conhecimento    e da pesquisa. A privatiza&ccedil;&atilde;o da pesquisa est&aacute; tornando    muitos resultados de trabalhos de investiga&ccedil;&atilde;o indispon&iacute;veis    para a comunidade acad&ecirc;mica. A rea&ccedil;&atilde;o, prevista por Galbright,    surge como uma preocupa&ccedil;&atilde;o de expressivos grupos de pesquisa expondo    e discutindo o problema. A tend&ecirc;ncia de muitos pesquisadores, de esconder    ou retardar ao m&aacute;ximo seus trabalhos cient&iacute;ficos, dado o interesse    comercial nos eventuais resultados, tem preocupado cientistas do Instituto de    Tecnologia de Massachusetts, MIT, e da Associa&ccedil;&atilde;o Americana para    o Progresso da Ci&ecirc;ncia, a ponto de organizarem uma confer&ecirc;ncia para    discutir o assunto. A confer&ecirc;ncia <i>Secrecy in science</i> se realizou    no dia 29 de mar&ccedil;o de 1999, no MIT, em Cambridge, EUA. Este mesmo problema    foi tratado no caderno especial do <i>The economist</i>, de 23 de setembro de    2000, onde as conseq&uuml;&ecirc;ncias da restri&ccedil;&atilde;o do acesso    ao conhecimento s&atilde;o analisadas:</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><i>"Nos anos 1400 muitas das inova&ccedil;&otilde;es, que provocaram posteriormente    a revolu&ccedil;&atilde;o industrial na Gr&atilde;-Bretanha no s&eacute;culo18,    j&aacute; estavam dispon&iacute;veis. Mas, ent&atilde;o, o progresso tecnol&oacute;gico    reverteu-se, pois os administradores mantiveram controles t&atilde;o estritos    nas novas tecnologias que estas n&atilde;o puderam se difundir. Isto &eacute;    um alerta de que os frutos da revolu&ccedil;&atilde;o da TI n&atilde;o podem    ser considerados como garantidos".</i></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>A<small> EFICI&Ecirc;NCIA E A DIFUS&Atilde;O</small></b> O aumento da efici&ecirc;ncia    do processamento e das comunica&ccedil;&otilde;es produziu uma redu&ccedil;&atilde;o    espantosa dos pre&ccedil;os. A queda dos pre&ccedil;os foi muito maior do que    nas revolu&ccedil;&otilde;es tecnol&oacute;gicas anteriores. O pre&ccedil;o    das primeiras m&aacute;quina a vapor era apenas menor do que a energia hidr&aacute;ulica.    Em 1850, o pre&ccedil;o da energia do vapor havia ca&iacute;do para apenas 50%    do seu valor em 1790. Por outro lado uma liga&ccedil;&atilde;o telef&ocirc;nica    de tr&ecirc;s minutos entre Nova York e Londres, que custava mais de US$300,00    em 1930, a pre&ccedil;os do ano de 2000, caiu para apenas US$ 0,40 e o custo    da computa&ccedil;&atilde;o tem sido reduzido em 35% ao ano (<i>The economist</i>).</p>     <p>Essa redu&ccedil;&atilde;o radical nos custos de processamento e das comunica&ccedil;&otilde;es    provocou uma expans&atilde;o vertiginosa das TI na sociedade. As transforma&ccedil;&otilde;es    causadas s&atilde;o t&atilde;o grandes que podem ser classificadas como uma    revolu&ccedil;&atilde;o. A an&aacute;lise dos componentes tecnol&oacute;gicos    n&atilde;o &eacute; suficiente para a compreens&atilde;o, em profundidade, do    mecanismo da revolu&ccedil;&atilde;o da informa&ccedil;&atilde;o. Na evolu&ccedil;&atilde;o    das sociedades humanas h&aacute; per&iacute;odos de r&aacute;pida transforma&ccedil;&atilde;o,    intercalados entre per&iacute;odos de lenta evolu&ccedil;&atilde;o. Essas transforma&ccedil;&otilde;es    produzem modifica&ccedil;&otilde;es r&aacute;pidas nas estruturas sociais e    alteram completamente velhos h&aacute;bitos e costumes. Devido a estas caracter&iacute;sticas,    s&atilde;o chamadas de "revolu&ccedil;&otilde;es tecnol&oacute;gicas". A humanidade    passou por v&aacute;rias revolu&ccedil;&otilde;es tecnol&oacute;gicas ao longo    de sua evolu&ccedil;&atilde;o. Este conceito &eacute; elaborado por Darcy Ribeiro    no livro <i>O processo civilizat&oacute;rio</i>:</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><i>"Empregamos o conceito de revolu&ccedil;&atilde;o tecnol&oacute;gica para    indicar que a certas transforma&ccedil;&otilde;es prodigiosas no equipamento    de a&ccedil;&atilde;o humana sobre a natureza, ou de a&ccedil;&atilde;o b&eacute;lica,    correspondem altera&ccedil;&otilde;es qualitativas em todo o modo de ser das    sociedades {...} A sucess&atilde;o destas revolu&ccedil;&otilde;es tecnol&oacute;gicas    n&atilde;o nos permite, todavia, explicar a totalidade do processo evolutivo    sem apelo ao conceito complementar do processo civilizat&oacute;rio, porque    n&atilde;o &eacute; a inven&ccedil;&atilde;o original ou reiterada de uma inova&ccedil;&atilde;o    que gera conseq&uuml;&ecirc;ncias, mas sua propaga&ccedil;&atilde;o sobre diversos    contextos socioculturais e sua aplica&ccedil;&atilde;o a diferentes setores    produtivos."</i></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>O desenvolvimento das TI constitui-se em um elemento de transforma&ccedil;&atilde;o    radical no relacionamento do homem com o seu meio cultural. A difus&atilde;o    dessas tecnologias, nos mais diferentes contextos socioculturais e suas aplica&ccedil;&otilde;es    na produ&ccedil;&atilde;o, permitem caracterizar o desencadeamento de uma revolu&ccedil;&atilde;o    tecnol&oacute;gica. Os Sistemas de Informa&ccedil;&atilde;o, utilizando as TI    modernas, s&atilde;o pervasivos, totalmente globais, estimuladores da inova&ccedil;&atilde;o    e abertos. Essas caracter&iacute;sticas abrem um leque imenso de possibilidades    e de desafios.</p>     <p>Sua caracter&iacute;stica <i>pervasiva</i> aumenta a efici&ecirc;ncia de todas    as atividades humanas. A redu&ccedil;&atilde;o do custo permite, nos pa&iacute;ses    e setores afluentes da sociedade, ganhos de produtividade. Pesquisadores como    n&oacute;s percebem facilmente o grande aumento da produtividade com a possibilidade    de acesso a publica&ccedil;&otilde;es cient&iacute;ficas atrav&eacute;s do portal    da Capes, da troca de mensagens e artigos com colegas atrav&eacute;s de todo    o mundo ou da orienta&ccedil;&atilde;o de alunos via ICQ ou <i>chats</i>. Essas    possibilidades existem, tamb&eacute;m, para o setor de servi&ccedil;os. Pela    primeira vez uma revolu&ccedil;&atilde;o tecnol&oacute;gica pode aumentar radicalmente    a produtividade desse setor permitindo o acesso e o processamento de informa&ccedil;&atilde;o    no momento e local necess&aacute;rios. O mais importante &eacute; que o usu&aacute;rio    da informa&ccedil;&atilde;o n&atilde;o necessita de intermedi&aacute;rios para    o acesso e a interpreta&ccedil;&atilde;o da informa&ccedil;&atilde;o.</p>     <p>A Internet permite o desenvolvimento de Sistemas de Informa&ccedil;&atilde;o    com acesso mundial aos dados. Estes sistemas s&atilde;o <i>totalmente globais</i>,    pois n&atilde;o imp&otilde;e qualquer limita&ccedil;&atilde;o de lugar ou de    tempo para o acesso &agrave;s informa&ccedil;&otilde;es. Uma pequena ou m&eacute;dia    empresa tem a possibilidade de oferecer ou comprar produtos globalmente. Um    esfor&ccedil;o importante no sentido da inclus&atilde;o das PME no mercado mundial    est&aacute; sendo desenvolvido pelo programa ETO (Electronic Trade Opportunities)    da ONU.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>A<small>S EXCLUS&Otilde;ES</small></b> Os leitores deste artigo constituem-se    em uma elite cultural, fortemente integrada mundialmente e, em grande parte,    conectada (neologismo indicando algu&eacute;m com acesso &agrave; Rede). Para    n&oacute;s, muitas vezes, &eacute; dif&iacute;cil perceber que essa realidade    n&atilde;o &eacute; geral, muito pelo contr&aacute;rio, caracteriza parcelas    muito limitadas da popula&ccedil;&atilde;o. Os grandes desafios apresentados    pelos Sistemas de Informa&ccedil;&atilde;o modernos s&atilde;o ligados &agrave;    exclus&atilde;o. Exclus&atilde;o econ&ocirc;mica, exclus&atilde;o digital e    exclus&atilde;o intelectual entre outras. Vamos discutir as conseq&uuml;&ecirc;ncias    destas exclus&otilde;es.</p>     <p>A <i>exclus&atilde;o econ&ocirc;mica</i> pode ser de grupos desprivilegiados    em na&ccedil;&otilde;es ricas ou emergentes, ou mesmo de na&ccedil;&otilde;es    inteiras. Ainda hoje dois bilh&otilde;es de pessoas n&atilde;o t&ecirc;m acesso    &agrave; eletricidade, &eacute; poss&iacute;vel discutir-se inser&ccedil;&atilde;o    mundial para estas pessoas? Mesmo em lugares onde existe uma infraestrutura    b&aacute;sica, o pre&ccedil;o do acesso &agrave; informa&ccedil;&atilde;o &eacute;    exorbitante para grande parte da popula&ccedil;&atilde;o. No Brasil, hoje, um    computador custa cerca de um ano de sal&aacute;rio m&iacute;nimo, a liga&ccedil;&atilde;o    &agrave; Internet cerca de um ter&ccedil;o de sal&aacute;rio por m&ecirc;s.    O risco dos Sistemas de Informa&ccedil;&atilde;o modernos e distribu&iacute;dos    &eacute; aumentar a disparidade entre os grupos dos quartis econ&ocirc;micos    superiores e inferiores.</p>     <p>A <i>exclus&atilde;o digital</i>, no seu sentido estrito, trata da limita&ccedil;&atilde;o    das pessoas em acessar e utilizar os Sistemas de Informa&ccedil;&atilde;o computacionais.    Deve ser percebida a separa&ccedil;&atilde;o desta exclus&atilde;o da anterior.    Uma pessoa n&atilde;o &eacute; exclu&iacute;da digitalmente s&oacute; por n&atilde;o    possuir recursos financeiros suficientes. Muitas pessoas que podem suportar    os custos de acesso &agrave; informa&ccedil;&atilde;o n&atilde;o t&ecirc;m a    compet&ecirc;ncia t&eacute;cnica necess&aacute;ria para tanto. Alguns dados    indicam que perto de 30% dos cidad&atilde;os dos Estados Unidos s&atilde;o funcionalmente    iletrados, sabem ler e escrever, mas n&atilde;o s&atilde;o capazes de interpretar    os documentos administrativos corriqueiros. Quantos, no mundo, ser&atilde;o    digitalmente iletrados?</p>     <p>A <i>exclus&atilde;o intelectual</i> deve ser analisada em conjunto com a exclus&atilde;o    digital, mas &eacute; de solu&ccedil;&atilde;o mais dif&iacute;cil. Se considerarmos    a distribui&ccedil;&atilde;o do n&iacute;vel intelectual da popula&ccedil;&atilde;o    mundial distribu&iacute;do segundo uma curva de Gauss, teremos o mesmo n&uacute;mero    de pessoas com maior capacidade intelectual que o n&uacute;mero de pessoas com    possibilidades mais reduzidas. Os Sistemas de Informa&ccedil;&atilde;o, a&iacute;    inclu&iacute;dos os de navega&ccedil;&atilde;o, recupera&ccedil;&atilde;o e    classifica&ccedil;&atilde;o de informa&ccedil;&otilde;es, s&atilde;o projetados    pelos segmentos intelectualmente (pelo menos nos aspectos t&eacute;cnicos) mais    qualificados. O que se passar&aacute; com aqueles abaixo de 1/2 ou mesmo 1 desvio    padr&atilde;o da m&eacute;dia? Os Sistemas de Informa&ccedil;&atilde;o atuais    podem ser utilizados por toda a popula&ccedil;&atilde;o? Se hoje a maior parte    do trabalho nos pa&iacute;ses centrais est&aacute; no setor de servi&ccedil;os,    o que se passar&aacute; com os menos qualificados intelectualmente? Isto &eacute;    mais s&eacute;rio se considerarmos que as profiss&otilde;es menos exigentes    intelectualmente est&atilde;o sendo eliminadas pelas TI.</p>     <p>Resumindo, as exclus&otilde;es limitam as possibilidades oferecidas pelas TI    a uma parcela restrita da humanidade. &Eacute; preciso que tomemos consci&ecirc;ncia    desse problema e que, extrapolando as conclus&otilde;es de Domenico de Masi    em <i>O futuro do trabalho</i>, consigamos propor uma alternativa para todos.    &Eacute; preciso que os resultados positivos dos Sistemas de Informa&ccedil;&atilde;o    sejam transferidos mais eq&uuml;itativamente. Este &eacute; o papel dos governos,    dos pesquisadores e intelectuais, das atividades de voluntariado e de ONGs.</p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><b>C<small>ONCLUS&Atilde;O</small></b> Estamos no limiar de uma nova era de    possibilidades e desafios. A &uacute;nica &eacute;poca, na hist&oacute;ria da    humanidade, que ofereceu uma transforma&ccedil;&atilde;o cultural t&atilde;o    forte foi o per&iacute;odo do Renascimento. O principal fator cultural do Renascimento    foi a difus&atilde;o da imprensa, levando os livros religiosos e cl&aacute;ssicos    a um grande n&uacute;mero de pessoas. As id&eacute;ias da cultura cl&aacute;ssica    voltaram a se difundir e, depois dos Anos Negros, oxigenaram a cria&ccedil;&atilde;o    art&iacute;stica e cultural. Em conseq&uuml;&ecirc;ncia novas possibilidades    se abriram, a economia prosperou, aumentou a liberdade e a civiliza&ccedil;&atilde;o    moderna apareceu. Agora, com a difus&atilde;o do acesso e do processamento da    informa&ccedil;&atilde;o <i>Um mundo novo &eacute; poss&iacute;vel</i>. O choque,    previs&iacute;vel, ocorre entre os que defendem a estrutura tradicional e hier&aacute;rquica    de acesso a informa&ccedil;&atilde;o e os que defendem a abertura e a liberdade.    Esta liberdade poss&iacute;vel, se viabilizada, permitir&aacute; imensas possibilidades    de crescimento econ&ocirc;mico e cultural.</p>     <p>Nessa perspectiva, as pr&oacute;ximas d&eacute;cadas ser&atilde;o fundamentais    para o nascimento de nova estrutura social, onde cada indiv&iacute;duo ter&aacute;    uma maior participa&ccedil;&atilde;o no processo decis&oacute;rio. Isto ser&aacute;    causado, em grande parte, pela difus&atilde;o dos Sistemas de Informa&ccedil;&atilde;o    mundiais. &Eacute; imprescind&iacute;vel que as possibilidades oferecidas pelo    processamento da informa&ccedil;&atilde;o sejam administradas por pessoas plenamente    conscientes das implica&ccedil;&otilde;es sociais desta mesma tecnologia. Uma    das possibilidades das TI &eacute; o desenvolvimento do Terceiro Setor que,    gra&ccedil;as a uma maior flexibilidade e rapidez de a&ccedil;&atilde;o, podem    agir congregando seus aderentes, via a rede, de forma mais eficaz e com menos    influ&ecirc;ncia da tecnoestrutura.</p>     <p>Se falharmos &eacute; bom lembrar dos lemas escritos na fachada do Minist&eacute;rio    da Verdade, citados por George Orwell no seu livro <i>1984</i>, "Guerra &eacute;    paz, liberdade &eacute; escravid&atilde;o, ignor&acirc;ncia &eacute; for&ccedil;a".</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><i><b>Jos&eacute; Palazzo Moreira de Oliveira</b> &eacute; professor titular    do Instituto de Inform&aacute;tica da UFRGS</i></p>      ]]></body>
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