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</front><body><![CDATA[ <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v55n2/tb17.gif"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b><font size="4">O<small>PORTUNIDADES E DESAFIOS PARA O DESENVOLVIMENTO DE    UMA IND&Uacute;STRIA DE SOFTWARE NACIONAL</small></font></b></p>     <p>Erat&oacute;stenes Edson Ramalho de Ara&uacute;jo</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>I<small>NTRODU&Ccedil;&Atilde;O</small></b> Por muito tempo, os investimentos    tradicionais e o crescimento do emprego podiam explicar em maior parte o desenvolvimento    econ&ocirc;mico observado em v&aacute;rios pa&iacute;ses. Os fatores restantes,    considerados residuais, eram chamados de "fatores t&eacute;cnicos" e visualizados    por muitos como uma "caixa preta"(1).</p>     <p>Entretanto, a partir das &uacute;ltimas d&eacute;cadas do s&eacute;culo XX,    o desenvolvimento dos pa&iacute;ses foi bombardeado por novos fatores e causas    que passaram a determinar os novos padr&otilde;es do crescimento econ&ocirc;mico    mundial. Tal desenvolvimento esteve especialmente vinculado &agrave; contribui&ccedil;&atilde;o    das novas tecnologias e como elas interagem com as mudan&ccedil;as nos campos    da inova&ccedil;&atilde;o, do capital humano e da reestrutura&ccedil;&atilde;o    das organiza&ccedil;&otilde;es industriais. Isto apareceu, por exemplo, com    o avan&ccedil;o e uso dessas tecnologias em atividades industriais e a exig&ecirc;ncia    de habilidade e conhecimentos mais intensivos, rapidamente evoluindo para necessidades    de forma&ccedil;&atilde;o de m&atilde;o-de-obra com as novas habilidades, enquanto    as velhas ficam obsoletas. Um segundo exemplo &eacute; a taxa fenomenal de crescimento    de produtos de alta tecnologia no mercado internacional.</p>     <p>Ao mesmo tempo em que esse crescimento se dava, avan&ccedil;os em Tecnologias    de Informa&ccedil;&atilde;o e Comunica&ccedil;&atilde;o - TICs tornaram poss&iacute;vel    difundir e acessar informa&ccedil;&otilde;es em uma velocidade e em uma escala    nunca vista antes, tornando vital o encadeamento da ind&uacute;stria com a ci&ecirc;ncia    para os dinamismos locais, regionais e nacionais das estruturas de produ&ccedil;&atilde;o.    A organiza&ccedil;&atilde;o de empreendimentos e do local de trabalho est&aacute;    sendo renovado com a chegada de novas ferramentas e modos inovadores de fazer    coisas. Os pa&iacute;ses que obtiveram um aumento do PIB nos anos 1990 geralmente    registraram mais pessoas em empregos, acumularam mais capital, particularmente    em TICs, e melhoraram a qualidade m&eacute;dia de sua m&atilde;o-de-obra.</p>     <p>Desde 1991, os Estados Unidos vem aumentando sua taxa de investimento em neg&oacute;cios.    Entretanto, n&atilde;o &eacute; s&oacute; a quantidade de investimentos que    se tornou respons&aacute;vel pelo crescimento de sua economia, mas tamb&eacute;m    a sua qualidade. As inova&ccedil;&otilde;es tecnol&oacute;gicas introduzidas    foram importantes para dar qualidade aos investimentos nos neg&oacute;cios.    Em contraste com os anos da d&eacute;cada de 1980, os investimentos em TICs    durante os anos 90 t&ecirc;m sido o componente mais din&acirc;mico dos investimentos    em neg&oacute;cios, representando at&eacute; metade de todo novo investimento    em alguns pa&iacute;ses. A queda de pre&ccedil;os no setor atraiu os investimentos    para TICs ao inv&eacute;s de serem aplicados em outros ativos. Nos EUA, por    exemplo, os pre&ccedil;os dos computadores, ca&iacute;ram cerca de 14% entre    dezembro de 1990 e dezembro de 2000 (2).</p>     <p>Os dados dispon&iacute;veis para os pa&iacute;ses em desenvolvimento mostram    que investimento em TICs subiu de menos de 15% do total de investimento no setor    de neg&oacute;cios, no in&iacute;cio dos anos 1980, para algo entre 15% e 35%    em 1999. De forma mais ampla, os &uacute;ltimos resultados de pesquisas conduzidas    pelo IDC, cobrindo 55 pa&iacute;ses e 98% dos gastos mundiais em TIC, atestam    este otimismo:</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><img src="/img/revistas/cic/v55n2/tb18.gif"> O mercado mundial do setor saltou de US$ 2,3 trilh&otilde;es    em 2000 para US$ 2,4 trilh&otilde;es em 2001, apesar da recess&atilde;o econ&ocirc;mica    nos Estados Unidos e em outros pa&iacute;ses.</p>     <p><img src="/img/revistas/cic/v55n2/tb18.gif"> O acesso a Internet continua crescendo. Chegaram    ao mundo digital, em 2001, mais 123 milh&otilde;es de usu&aacute;rios, totalizando    cerca de 522 milh&otilde;es de pessoas na comunidade <i>on-line</i>.</p>     <p><img src="/img/revistas/cic/v55n2/tb18.gif"> O <i>e-business</i> n&atilde;o est&aacute; morto    embora seu crescimento seja lento. O total de lojas <i>on-line</i> cresceu cerca    de 40% em 2001. Gastos em <i>business-to-business</i> avan&ccedil;aram em cerca    de 83% e em <i>business-to-consumer</i> aproximadamente 64%.</p>     <p><img src="/img/revistas/cic/v55n2/tb18.gif"> Nos pa&iacute;ses estudados, a m&eacute;dia de    crescimento do setor foi de 5% entre 2000-2001. Embora haja na&ccedil;&otilde;es    com crescimento abaixo da m&eacute;dia, existem outras com altas taxas de crescimento,    como &eacute; o caso da China com 27%, aproximadamente 4,5 vezes a taxa dos    Estados Unidos.</p>     <p>Igualmente importante, s&atilde;o os dados relativos &agrave; acumula&ccedil;&atilde;o    de capital em software(4). No per&iacute;odo 1995-99, esta acumula&ccedil;&atilde;o    de capital respondeu por um ter&ccedil;o de todo o capital investido em TICs    (5). Isto foi alcan&ccedil;ado em todos os pa&iacute;ses desenvolvidos com exce&ccedil;&atilde;o    do Jap&atilde;o (6). Nos Estados Unidos, o melhor exemplo deste fato, no per&iacute;odo    1995-99, os investimentos em software estiveram em taxas 4 vezes superiores    ao valor do per&iacute;odo 1980-85.</p>     <p>Uma explica&ccedil;&atilde;o para a onda de investimento em software &eacute;    o r&aacute;pido aparecimento e difus&atilde;o de novas tecnologias de prop&oacute;sito    geral como a Internet. O que &eacute; novo comparado a outras tecnologias &eacute;    que a Internet prov&ecirc; uma infra-estrutura para novas formas de neg&oacute;cios    eletr&ocirc;nicos. O desenvolvimento da Internet propiciou v&aacute;rias ondas    de investimentos complementares, criando novos v&iacute;nculos e se auto-refor&ccedil;ando.    Seguindo a <i>primeira onda</i> de investimentos em infra-estrutura de comunica&ccedil;&atilde;o,    existe uma <i>segunda onda</i> de investimento em aplica&ccedil;&otilde;es (software)    e, ent&atilde;o, uma <i>terceira onda</i> caracterizada pelo desenvolvimento    <i>on-line</i> de atividades. Por sua vez, o crescimento de atividades <i>on-line</i>    gera demanda por nova infra-estrutura de tecnologia e aplica&ccedil;&otilde;es,    e o ciclo se realimenta. Por exemplo, novas aplica&ccedil;&otilde;es de multim&iacute;dia    exigem melhorias cont&iacute;nuas em tecnologia de hardware e software inovadores,    permitindo o uso de v&iacute;deo-confer&ecirc;ncia, anima&ccedil;&atilde;o e    m&uacute;sica. A <a href="#figura1">figura I-I</a> mostra a contribui&ccedil;&atilde;o    da acumula&ccedil;&atilde;o do capital em software nos Estados Unidos e sua    rela&ccedil;&atilde;o com o per&iacute;odo de desenvolvimento da Internet.</p>     <p align="center"><a name="figura1"></a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v55n2/15529f1.gif"></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Esses investimentos responderam por 0.2 e 0.5 pontos percentuais acima do crescimento    no PIB no per&iacute;odo 1980-95. Entre 1995 e 1999, esta contribui&ccedil;&atilde;o    aumentou de 0.3 a 0.9 pontos percentuais ao ano, com os Estados Unidos, Austr&aacute;lia    e a Finl&acirc;ndia recebendo o maior impulso (5). No Brasil a participa&ccedil;&atilde;o    do software no PIB saltou de 0,2% em 1991 para 0,7% em 2001.</p>     <p>Em entrevista nas p&aacute;ginas amarelas da revista <i>Veja</i> (7), o historiador    americano David Landes, autor de <i>A riqueza e a pobreza das na&ccedil;&otilde;es</i>    afirma que: "estamos assistindo a uma mudan&ccedil;a profunda. Os pa&iacute;ses    que tiveram a oportunidade de n&atilde;o apenas usar mas tamb&eacute;m de melhorar    as novas tecnologias estar&atilde;o em posi&ccedil;&atilde;o de vantagem na    Nova Economia. Foi essa capacidade que salvou os Estados Unidos depois de anos    de estagna&ccedil;&atilde;o. Os Estados Unidos apostaram na import&acirc;ncia    do que chamamos de software. O hardware &eacute; muito importante. Mas creio    que em longo prazo &eacute; o software que vai dominar. Qualquer um pode aprender    como fazer um computador. Ou voc&ecirc; pode importar uma f&aacute;brica de    hardware - correndo o risco de que ela se mude para o vizinho se ele oferecer    trabalho mais barato... Por isso, &eacute; na &aacute;rea do software que os    novos pa&iacute;ses devem fazer suas apostas atualmente."</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>O<small> MERCADO</small></b> Apesar das TICs terem provocado grandes mudan&ccedil;as    e evolu&ccedil;&otilde;es em diversas regi&otilde;es do mundo, a classifica&ccedil;&atilde;o    dos mercados regionais continua inalterada desde 1999. Os Eestados Unidos continuam    na lideran&ccedil;a com US$ 295 bilh&otilde;es de gastos com software em 2001,    de acordo com dados da WITSA (8). Embora esta posi&ccedil;&atilde;o n&atilde;o    esteja amea&ccedil;ada, a participa&ccedil;&atilde;o das regi&otilde;es no mercado    est&aacute; se alterando. A Am&eacute;rica do Norte perdeu 1% do mercado mundial    nos &uacute;ltimos tr&ecirc;s anos, enquanto &Aacute;sia e Europa Oriental tiveram    crescimento. Os gastos totais com software em 2001 foram de US$ 621,8 bilh&otilde;es,    25,7% dos gastos em TICs. Em 1993 eram de US$ 267,8 bilh&otilde;es e 19,8% respectivamente.</p>     <p>Na Am&eacute;rica Latina o Brasil &eacute; l&iacute;der. No mundo, ocupa o    d&eacute;cimo lugar com 1,16% do mercado. Em 2001 os disp&ecirc;ndios do setor    somaram US$ 7,2 bilh&otilde;es, valor tr&ecirc;s vezes maior que os disp&ecirc;ndios    em 1993. Acima do Brasil est&atilde;o os seguintes pa&iacute;ses: Estados Unidos    com 47,56% do mercado mundial, seguidos de Jap&atilde;o com 10,62%, Alemanha    com 6,71%, Reino Unido com 6,62%, Fran&ccedil;a com 5,69%, Canad&aacute; com    2,95%, It&aacute;lia com 2,53%, Holanda com 1,71% e Austr&aacute;lia com 1,32%.</p>     <p>Mesmo considerando a recess&atilde;o econ&ocirc;mica nos Estados Unidos e em    outros pa&iacute;ses ocorrida nos &uacute;ltimos dois anos (2001-2002), o mercado    de software mant&eacute;m crescimento invej&aacute;vel. Segundo as principais    empresas mundiais de consultoria, esse mercado dever&aacute; manter taxas de    crescimento superiores a 15% a.a., acima de outros segmentos que comp&otilde;em    as TICs(9). A estrat&eacute;gia e o posicionamento de grandes empresas tamb&eacute;m    apostam nessa dire&ccedil;&atilde;o. Desde 24 de junho de 2002 (10), as bolsas    de valores de todo o mundo passam a classificar a IBM como uma companhia de    software e servi&ccedil;os, ao inv&eacute;s de empresa de hardware. A IBM informou    que servi&ccedil;os e software hoje representam mais de 55% das vendas totais    da empresa e perto de 65% dos lucros.</p>     <p>Ainda segundo as empresas de consultoria, as aplica&ccedil;&otilde;es de software    e servi&ccedil;os de Internet v&atilde;o conduzir o mercado de Tecnologia da    Informa&ccedil;&atilde;o (TI) nos pr&oacute;ximos tr&ecirc;s a cinco anos. Em    2001, a ind&uacute;stria apostou grande parte de suas fichas nos servi&ccedil;os    <i>wireless</i> de terceira gera&ccedil;&atilde;o (3G). Um dos estudos da PricewaterhouseCoopers    (11), que fez uma previs&atilde;o do mercado de tecnologia entre 2002 e 2004,    revelou que o foco agora est&aacute; nos softwares para adicionar valor aos    usu&aacute;rios. A pesquisa destacou, por exemplo, um grande crescimento no    mercado de aplicativos especializados em an&aacute;lise e colabora&ccedil;&atilde;o,    portais e informa&ccedil;&otilde;es em tempo real. Um outro atrativo mais recente    dessa ind&uacute;stria &eacute; o processo de terceiriza&ccedil;&atilde;o que    vem acontecendo nas grandes empresas, mesmo em aplica&ccedil;&otilde;es consideradas    cr&iacute;ticas. Segundo &uacute;ltimos levantamentos das empresas de consultoria,    este mercado (<i>outsourcing</i>) vem crescendo a taxas superiores a 20% a.a.,    notadamente nos EstadosUnidos.</p>     <p>Do lado da oferta, os Estados Unidos tamb&eacute;m lideram o mercado. Nos pa&iacute;ses    que integram a Organiza&ccedil;&atilde;o para Coopera&ccedil;&atilde;o Econ&ocirc;mica    e Desenvolvimento (OECD), as exporta&ccedil;&otilde;es alcan&ccedil;aram, em    2000, cerca de US$ 47 bilh&otilde;es contra US$ 36 bilh&otilde;es de importa&ccedil;&otilde;es.    Tal mercado gerou oportunidades que foram bem aproveitadas por pa&iacute;ses    como a &Iacute;ndia, Irlanda e Israel para o desenvolvimento de uma ind&uacute;stria    local de software competitiva a n&iacute;vel mundial. No Brasil as importa&ccedil;&otilde;es    est&atilde;o pr&oacute;ximas de US$ 1,1 bilh&atilde;o (12), representando atualmente    um grande problema em termos de sua balan&ccedil;a comercial externa.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>O B<small>RASIL</small></b> Segundo dados da WITSA, o Brasil &eacute; o    nono mercado consumidor da ind&uacute;stria de TICs. Este setor movimentou,    em 2001, um total de US$ 50 bilh&otilde;es, 2,1% do mercado mundial, contra    US$ 15,4 bilh&otilde;es e 1,1% respectivamente em 1993.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Como elemento propulsor dessa ind&uacute;stria, at&eacute; 1990, prevaleceu    no pa&iacute;s a pol&iacute;tica de reserva de mercado para o segmento de inform&aacute;tica    (automa&ccedil;&atilde;o, software e componentes), institu&iacute;da pela Lei    7.232/84. Esta pol&iacute;tica caracterizava-se pela proibi&ccedil;&atilde;o    de atua&ccedil;&atilde;o de empresas de capital estrangeiro em determinados    segmentos do mercado, pela anu&ecirc;ncia pr&eacute;via para as importa&ccedil;&otilde;es    dos bens de inform&aacute;tica e pelo controle de cotas de importa&ccedil;&atilde;o.    Al&eacute;m disso, havia incentivos &agrave; produ&ccedil;&atilde;o nacional    de produtos estrat&eacute;gicos: redu&ccedil;&atilde;o do imposto de renda,    do imposto sobre importa&ccedil;&atilde;o dos insumos e isen&ccedil;&atilde;o    do IPI na venda de produtos finais. Isto permitiu o surgimento de empresas locais    que chegaram a ocupar uma expressiva fatia do mercado nacional, pr&oacute;xima    de 50%. Com o final da reserva de mercado, no in&iacute;cio da d&eacute;cada    de 1990, essa pol&iacute;tica foi substitu&iacute;da por uma de incentivos &agrave;    produ&ccedil;&atilde;o interna sem restri&ccedil;&otilde;es ao capital estrangeiro    nem &agrave;s importa&ccedil;&otilde;es.</p>     <p>Essa pol&iacute;tica foi institu&iacute;da pela Lei 8.248/91. Esta Lei concedia    diversos benef&iacute;cios e, em contrapartida, as empresas deveriam investir    em atividades de P&amp;D no Brasil, 5% do seu faturamento bruto no mercado interno    decorrente da comercializa&ccedil;&atilde;o de bens e servi&ccedil;os de inform&aacute;tica    (deduzidos os tributos decorrentes de tais comercializa&ccedil;&otilde;es).    Tamb&eacute;m deveriam agregar valor local ao produto, definido pelo Processo    Produtivo B&aacute;sico (13).</p>     <p>A pol&iacute;tica proporcionou atra&ccedil;&atilde;o de elevado volume de investimentos    externos diretos, fazendo com que o Brasil possua atualmente no seu parque industrial    unidades produtivas das principais empresas do setor no mundo. A Lei 8.248/91    foi modificada, em 2001, pela Lei 10.176/01 que mant&eacute;m o mesmo esp&iacute;rito    da lei anterior, mas modifica percentuais dos investimentos em P&amp;D.</p>     <p>Durante todo esse per&iacute;odo, a pol&iacute;tica privilegiou o hardware.    A ind&uacute;stria de software foi beneficiada de forma indireta com a institucionaliza&ccedil;&atilde;o,    no MCT, do Programa Nacional de Software para Exporta&ccedil;&atilde;o, posteriormente    denominado de Programa para Promo&ccedil;&atilde;o da Excel&ecirc;ncia do Software    Brasileiro - Softex.</p>     <p>O programa Softex alcan&ccedil;ou resultados importantes para o Brasil. Expandiu    o desenvolvimento de software em v&aacute;rias partes do pa&iacute;s, concentrada    at&eacute; ent&atilde;o na regi&atilde;o Sudeste, por meio da cria&ccedil;&atilde;o    de Agentes Regionais promotores do desenvolvimento do setor. As empresas associadas    ao programa, aproximadamente 1.100, est&atilde;o espalhadas em 22 cidades de    12 estados da federa&ccedil;&atilde;o. Essas empresas, em sua maioria, est&atilde;o    focadas no desenvolvimento de produtos e na produ&ccedil;&atilde;o de software    customiz&aacute;vel, voltadas para o mercado interno. Esta op&ccedil;&atilde;o    se d&aacute;, entre outros motivos, porque o mercado nacional &eacute; atraente    e oferece oportunidades de neg&oacute;cios mais imediatas, como veremos a seguir.    O programa tamb&eacute;m contribuiu para o crescimento das exporta&ccedil;&otilde;es    de software, de US$ 1 milh&atilde;o em 1990 para US$ 100 milh&otilde;es em 2001.</p>     <p>As circunst&acirc;ncias vividas pela economia nacional nos &uacute;ltimos anos,    com a aplica&ccedil;&atilde;o de v&aacute;rios planos econ&ocirc;micos na d&eacute;cada    de 1980 e at&eacute; meados dos anos 90, fez com que o setor financeiro se tornasse    um dos grandes compradores de software, cerca de R$ 3 bilh&otilde;es em 2001.    Isto proporcionou o surgimento de empresas l&iacute;deres nesse mercado e que    j&aacute; expandem seus neg&oacute;cios no exterior. Igualmente importantes    s&atilde;o as compras governamentais, aproximadamente R$ 2 bilh&otilde;es em    2001, no &acirc;mbito federal. Projetos de grande envergadura s&atilde;o <i>cases</i>    mundiais, tais como o sistema da Receita Federal (Imposto de Renda), as elei&ccedil;&otilde;es    eletr&ocirc;nicas e as solu&ccedil;&otilde;es para o governo eletr&ocirc;nico.    Essas oportunidades t&ecirc;m sido importantes para o surgimento de empresas    nacionais maduras, tanto do ponto de vista de neg&oacute;cios como no de desenvolvimento    de tecnologia, pois tais sistemas exigem dom&iacute;nio de tecnologias sofisticadas.</p>     <p>N&atilde;o menos importantes, est&atilde;o as demandas do setor privado, principalmente    aquelas voltadas para gest&atilde;o empresarial: ERP, CRM, SCM, EDM, bem como    as que s&atilde;o derivadas das empresas de telecomunica&ccedil;&otilde;es,    especialmente as de telefonia m&oacute;vel.</p>     <p>Solu&ccedil;&otilde;es e aplica&ccedil;&otilde;es <i>desktop/pc</i> voltadas    para micro e pequenas empresas e usu&aacute;rios residenciais mais sofisticados    s&atilde;o tamb&eacute;m boas oportunidades. Estima-se que, em 2006, o Brasil    ter&aacute; cerca de 42 milh&otilde;es de usu&aacute;rios na Internet, representando    um enorme potencial para presta&ccedil;&atilde;o de servi&ccedil;os nas &aacute;reas    de <i>e-commerce, e-government</i> e <i>e-entertainment</i>. Em 2002, servi&ccedil;os    de banda larga geraram receitas de US$ 130 milh&otilde;es e atingiram 695 mil    assinantes de ADSL, <i>cable modem</i>, FWA e sat&eacute;lite.(14)</p>     <p>Uma outra &aacute;rea que promete trazer boas oportunidades &eacute; a de softwares    educacionais, especialmente se o governo conseguir implantar infra-estrutura    de TI voltada para educa&ccedil;&atilde;o &agrave; dist&acirc;ncia nas escolas    p&uacute;blicas de n&iacute;vel secund&aacute;rio.</p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v55n2/15529q1.gif"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>Na &aacute;rea de terceiriza&ccedil;&atilde;o, pesquisa realizada pelo Yankee    Group (15), no final de 2002, com 504 empresas espalhadas por diversas regi&otilde;es    do Brasil, de m&eacute;dio a grande porte e em v&aacute;rios segmentos de atua&ccedil;&atilde;o,    mapeou o mercado de <i>outsourcing</i> de Tecnologia da Informa&ccedil;&atilde;o(TI)    no pa&iacute;s. A pesquisa revelou que 30% das companhias entrevistadas terceirizam    a manuten&ccedil;&atilde;o de suas redes, 16% fazem isso para atividades de    gerenciamento de redes, 13% para help desk, 11% fazem <i>outsourcing</i> de    aplicativos e 8% j&aacute; fazem <i>outsourcing</i> completo de TI. Os setores    de transporte e manufatura s&atilde;o os campe&otilde;es brasileiros de <i>outsourcing</i>    de TI. A pr&aacute;tica de terceirizar fun&ccedil;&otilde;es de TI tamb&eacute;m    &eacute; forte nas &aacute;reas de bens de consumo e empresas altamente dependentes    de tecnologia, como as operadoras de telecomunica&ccedil;&otilde;es.</p>     <p>Pelo lado da oferta, o Brasil, segundo dados do Plano Anual de Servi&ccedil;os    do Instituto Brasileiro de Geografia Estat&iacute;stica (IBGE) registrou, em    2000, 14.891 empresas e 144.466 empregados. Os dados pesquisados enfocam as    empresas que lidam com o desenvolvimento de programas de software, de solu&ccedil;&otilde;es    e aplicativos , processamento de dados, atividades de banco de dados, servi&ccedil;os    de transmiss&atilde;o de dados, voz e imagens e hospedagem de <i>sites</i>.    As consultorias ficaram de fora deste censo.</p>     <p>Os dados da pesquisa revelam ainda que, em m&eacute;dia, cada empresa tinha    9,7 empregados e receita de R$ 598,9 mil. Isso representa R$61,7 mil por pessoa    ocupada, a quem foram pagos, em m&eacute;dia, 7,6 sal&aacute;rios m&iacute;nimos    por m&ecirc;s. Tamb&eacute;m nesse aspecto, o estudo do IBGE revela que h&aacute;    uma grande concentra&ccedil;&atilde;o de m&atilde;o-de-obra qualificada nas    grandes empresas que empregam mais de 100 pessoas. S&oacute; que esse perfil    corporativo engloba apenas 0,8% do total.</p>     <p>O estudo revelou ainda que as empresas com at&eacute; cinco pessoas representam    88% do total do mercado. No entanto, elas ocupam 17,1% do pessoal envolvido    na atividade; pagam 6,0% da massa salarial e arrecadam apenas 6,9% da receita.</p>     <p>Entretanto, apesar desse expressivo mercado interno, o Brasil ainda n&atilde;o    encontrou o caminho que o levasse a uma conquista significativa de outros mercados    e o projetasse internacionalmente como um dos principais <i>players</i> da ind&uacute;stria    mundial de software, a exemplo do que aconteceu, na &uacute;ltima d&eacute;cada,    com sua ind&uacute;stria aeron&aacute;utica. A inser&ccedil;&atilde;o da ind&uacute;stria    de software nacional no mercado mundial &eacute; um belo desafio para a na&ccedil;&atilde;o    e h&aacute; condi&ccedil;&otilde;es b&aacute;sicas para enfrent&aacute;-lo,    bastando para isto sua determina&ccedil;&atilde;o para executar uma pol&iacute;tica    mais agressiva, mais articulada e mais consistente para o setor, que inclua    o governo, a iniciativa privada, o setor educacional e de pesquisa e desenvolvimento    e investidores.</p>     <p>Como o Brasil tem mantido grande potencial de expans&atilde;o da demanda, pode-se    realizar o desenvolvimento dessa ind&uacute;stria, dividindo o atendimento &agrave;    demanda entre a expans&atilde;o da produ&ccedil;&atilde;o interna e o aumento    das importa&ccedil;&otilde;es, com as vistas voltadas sempre para o duplo objetivo:    o mercado interno e exporta&ccedil;&otilde;es. Com isso, cria-se no pa&iacute;s    uma base s&oacute;lida para o setor e evita-se o descompasso vivido at&eacute;    o momento: grande expans&atilde;o do seu uso, do lado do consumo, e baixo crescimento    do lado da produ&ccedil;&atilde;o. O resultado desse descompasso &eacute; conhecido:    o crescimento assustador do d&eacute;ficit da balan&ccedil;a comercial do setor,    US$$ 1 bilh&atilde;o (16). As importa&ccedil;&otilde;es quadruplicaram nos &uacute;ltimos    cinco anos - provavelmente n&atilde;o ir&atilde;o diminuir num futuro pr&oacute;ximo.    At&eacute; o final da d&eacute;cada, pode chegar a US$ 6 bilh&otilde;es o que    colocaria o pa&iacute;s em uma situa&ccedil;&atilde;o extremamente vulner&aacute;vel    sob este aspecto. Assinale-se, ent&atilde;o, a natureza estrat&eacute;gica e    conseq&uuml;entemente a aten&ccedil;&atilde;o que o setor est&aacute; por merecer.</p>     <p>Em termos pr&aacute;ticos, isto implica na necessidade de ado&ccedil;&atilde;o    imediata da pol&iacute;tica mencionada anteriormente (agressiva, articulada    e consistente) que contemple, entre outros aspectos, instrumentos (17) e/ou    benef&iacute;cios (18) que permitam ampliar o mercado para o que j&aacute; exportamos,    dentro de uma l&oacute;gica econ&ocirc;mica e de neg&oacute;cios, de inser&ccedil;&atilde;o    competitiva no mercado global, de supera&ccedil;&atilde;o do dilema existente    nas empresas localizadas no pa&iacute;s - inclusive as multinacionais - que    tendem a voltar-se para o mercado interno, sem geralmente um compromisso firme,    e permanente, com o esfor&ccedil;o de exporta&ccedil;&atilde;o (19). &Eacute;    imperioso que a maioria das empresas passem a incluir em seu Plano de Neg&oacute;cios,    a id&eacute;ia de produzir para o mercado interno e externo simultaneamente.    Ao inv&eacute;s de uma reserva de mercado, ser&aacute; mais producente aproveitar    a demanda interna para transformar, sempre que poss&iacute;vel, importa&ccedil;&atilde;o    em fornecimento interno, ao mesmo tempo em que se trabalha para descortinar    oportunidades e mercados internacionais para o que pode ser, genuinamente, uma    ind&uacute;stria brasileira de classe mundial.</p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><i><b>Erat&oacute;stenes Edson Ramalho de Ara&uacute;jo</b> &eacute; coordenador    da &aacute;rea de capacita&ccedil;&atilde;o empresarial e empreendedorismo da    sociedade Softex.</i></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Notas e refer&ecirc;ncias</b></p>     <p>1. Solow, R.M. "Technical Change and the Aggregate Production Funcion". <i>Review    of Economics and Statistics</i>, Vol. 39, pp. 312-320, 1957.</p>     <p>2. United States Bureau of Labor Statistics, 2001.</p>     <p>3. International Data Corporation - <i><a href="http://www.idc.com">http://www.idc.com</a></i></p>     <p>4. Software inclui: desenvolvimento de programas de software, de solu&ccedil;&otilde;es    e aplicativos , customiza&ccedil;&atilde;o de software, processamento de dados,    atividades de banco de dados, servi&ccedil;os de transmiss&atilde;o de dados,    voz e imagens e hospedagem de sites, servi&ccedil;os de treinamento e educa&ccedil;&atilde;o,    servi&ccedil;os de suporte.</p>     <p>5. OECD. <i>Science</i>, Technology and Industry Outlook, Special Edition,    2001.</p>     <p>6. Em parte, isto &eacute; devido ao fato de que investimentos em software    no Jap&atilde;o s&atilde;o subestimados.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>7. Landes, D. Entrevista &agrave;s p&aacute;ginas amarelas da revista <i>Veja</i>,    22/03/2000.</p>     <p>8. WITSA. Digital Planet 2002: The Global Information Economy, february 2002.</p>     <p>9. Strategic Planning Services (SPS) e Spectrum Economics. Global Economic    and Information Technology Market Forecasts - 1999-2004, abril 1999.</p>     <p>10. <i>Computerworld</i>/EUA. "IBM torna-se empresa de software e servi&ccedil;os",    24/06/2002.</p>     <p>11. <i>Computerworld</i>/EUA." Software conduzir&aacute; mercado de TI nos    pr&oacute;ximos anos", 28/05/2002.</p>     <p>12. Banco Central do Brasil.</p>     <p>13. O PPB &eacute; o aperfei&ccedil;oamento do antigo &iacute;ndice de nacionaliza&ccedil;&atilde;o    e, atrav&eacute;s de sua fixa&ccedil;&atilde;o, &eacute; poss&iacute;vel mostrar    a agrega&ccedil;&atilde;o de valor nacional ao produto final.</p>     <p>14. <i>ITWeb</i>. "Banda larga movimenta US$130 milh&otilde;es no Brasil",    29/01/2003.</p>     <p>15. <i>Computerworld</i>. "Pesquisa faz mapeamento da terceiriza&ccedil;&atilde;o    de TI no Brasil", 28/01/2003.</p>     <p>16. Importa&ccedil;&otilde;es de US$ 1,1 bilh&atilde;o e exporta&ccedil;&otilde;es    de US$ 100 milh&otilde;es.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>17. Entre os instrumentos que podem estar atrelados a uma pol&iacute;tica,    pode se considerar: taxar importa&ccedil;&otilde;es com, no m&iacute;nimo, os    mesmos impostos cobrados das empresas nacionais; atrair grandes produtoras mundiais    de software e/ou de grandes usu&aacute;rios que possuem desenvolvimento pr&oacute;prio;    est&iacute;mulo &agrave; cria&ccedil;&atilde;o de grandes corpora&ccedil;&otilde;es;    facilitar o acesso a ferramentas de qualidade e produtividade, atrav&eacute;s    de linhas de financiamento adequadas; est&iacute;mulo &agrave; forma&ccedil;&atilde;o    intensiva de novos profissionais; est&iacute;mulo &agrave; cria&ccedil;&atilde;o    de linhas de financiamento adequadas para o setor; uso do poder de compra do    Estado, inclusive como criador de mercado, etc.</p>     <p>18. Entre os benef&iacute;cios que podem estar atrelados a uma pol&iacute;tica,    pode se considerar: isen&ccedil;&atilde;o de impostos de importa&ccedil;&atilde;o    dos insumos b&aacute;sicos para produ&ccedil;&atilde;o; eliminar impostos das    exporta&ccedil;&otilde;es; isen&ccedil;&atilde;o de impostos sobre produtos    comercializados no mercado local; isen&ccedil;&atilde;o de imposto de renda;    repatria&ccedil;&atilde;o do capital na forma de pagamento de <i>know how</i>,    <i>royalties</i>, dividendos, etc.</p>     <p>19. Na &Iacute;ndia, o acesso aos instrumentos e/ou benef&iacute;cios est&atilde;o    atrelados ao desempenho de exporta&ccedil;&atilde;o. N&atilde;o h&aacute; incentivos    para empresas que exportam menos de US$ 250 mil/ano.</p>      ]]></body>
</article>
