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</front><body><![CDATA[ <p><font size="4">Centen&aacute;rio</font></p>     <p><b><font size=5>O <small>PROJETO</small> P<small>ORTINARI E A IMAGEM DIGITAL</small></font></b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="RIGHT"><i>O pa&iacute;s que n&atilde;o preserva os seus valores culturais    <br>   </i><i>jamais ver&aacute; a imagem da sua pr&oacute;pria alma.</i></p>     <p align="RIGHT">C<SMALL>HOPIN</small></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>Quando come&ccedil;amos o projeto de documentar a obra do pintor C&acirc;ndido    Portinari, em abril de 1979, t&iacute;nhamos um triplo desafio: localizar, documentar,    catalogar e pesquisar obras e documentos sobre a obra, vida e &eacute;poca de    Portinari, espalhados por todo o Brasil e no exterior; formatar estes conte&uacute;dos,    cruzando-os entre si, para criar uma grande base de conhecimentos, n&atilde;o    s&oacute; sobre a obra e a vida de C&acirc;ndido Portinari (1903-1962), mas    tamb&eacute;m sobre o pensamento de sua gera&ccedil;&atilde;o; instrumentar    estes conte&uacute;dos, mobilizando-os para uma a&ccedil;&atilde;o abrangente    de inclus&atilde;o social, de fomento <font face="Symbol">&frac34;</font> especialmente    junto &agrave;s crian&ccedil;as e &agrave;s novas gera&ccedil;&otilde;es <font face="Symbol">&frac34;</font>    de valores como a cidadania, a auto-estima, a solidariedade, a justi&ccedil;a,    a paz e a n&atilde;o viol&ecirc;ncia. Estes s&atilde;o os valores pelos quais    Portinari deu a vida, n&atilde;o s&oacute; na sua express&atilde;o pl&aacute;stica    e po&eacute;tica, mas tamb&eacute;m durante toda a sua longa e sofrida milit&acirc;ncia    pol&iacute;tica.</p>     <p>Em 1978, pude constatar pessoalmente que o Museu de Arte Moderna de Nova York    possu&iacute;a mais informa&ccedil;&otilde;es sobre Portinari do que todas as    institui&ccedil;&otilde;es brasileiras que havia visitado. N&atilde;o havia    nenhum cat&aacute;logo geral, os livros sobre a obra e a vida do pintor estavam    esgotados, n&atilde;o se conhecia o paradeiro da maioria das obras, nunca havia    sido realizada uma exposi&ccedil;&atilde;o retrospectiva. Lembro-me de um artigo    no jornal <i>O Globo</i>, que come&ccedil;ava com a manchete: "<i>Portinari,    o pintor. Um famoso desconhecido</i>". Ali o rep&oacute;rter Elias Fajardo da    Fonseca dizia: "<i>Mais de 95% da obra do maior pintor brasileiro contempor&acirc;neo    est&aacute; hoje inacess&iacute;vel ao p&uacute;blico, guardada em cole&ccedil;&otilde;es    particulares".</i></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v55n2/15541f1.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>Neste desafio inicial, entendemos por obras todas as gravuras, desenhos, e    pinturas, incluindo desde os pequenos esbo&ccedil;os at&eacute; os grandes murais.    Foram levantadas assim 5,3 mil obras atribu&iacute;das a Portinari. Os documentos    s&atilde;o: 30 mil cartas, recortes de peri&oacute;dicos (cerca de 12 mil),    depoimentos gravados (130 horas gravadas com 65 depoentes), filmes e v&iacute;deos,    cat&aacute;logos de exposi&ccedil;&otilde;es e leil&otilde;es, livros, monografias    e textos diversos.</p>     <p>Para realizar esse levantamento, foram necess&aacute;rios 23 anos, durante    os quais o Projeto Portinari percorreu todo o territ&oacute;rio brasileiro e    mais de 20 pa&iacute;ses das tr&ecirc;s Am&eacute;ricas, da Europa e do Oriente    Pr&oacute;ximo.</p>     <p>Nos versos da m&uacute;sica <i>Bailes da vida</i>, Milton Nascimento nos ensina    que "o artista tem de ir aonde o povo est&aacute;". Isto &eacute; particularmente    verdadeiro para o caso de um pintor como Portinari, que legou ao pa&iacute;s    uma ampla s&iacute;ntese cr&iacute;tica e emocionada de todos os aspectos da    vida brasileira. Hoje, quando revejo o caminho percorrido nesses anos, fico    maravilhado pelo papel absolutamente determinante e central da ci&ecirc;ncia    e da tecnologia em nosso trabalho. A sensa&ccedil;&atilde;o &eacute; a de um    milagre. &Eacute; verdade que o Projeto Portinari contou com a boa fortuna de    ter nascido e de ter ser criado na universidade. Mais exatamente, na &aacute;rea    cient&iacute;fica da universidade. Tenho a convic&ccedil;&atilde;o que isto    fez toda a diferenca. Minha pr&oacute;pria hist&oacute;ria, como um dos fundadores    do Departamento de Matem&aacute;tica da PUC-Rio e seu primeiro diretor, certamente    contribuiu para este fato inusitado, o de um projeto aparentemente situado na    esfera da arte e da cultura nascer do empenho ativo de in&uacute;meros companheiros    das &aacute;reas das ci&ecirc;ncias.</p>     <p><b>P<small>RESERVA&Ccedil;&Atilde;O DIGITAL</small></b> O Projeto Portinari    adotou uma sistem&aacute;tica rigorosa para a documenta&ccedil;&atilde;o fotogr&aacute;fica,    determinando padr&otilde;es uniformes para formato, tipo de filme e equipamento    a ser utilizado, a forma de ilumina&ccedil;&atilde;o do original, a inclus&atilde;o    de escalas de cor e de cinzas junto ao mesmo, os cuidados especiais na revela&ccedil;&atilde;o    das imagens, etc. Apesar de todas essas precau&ccedil;&otilde;es, o material    resultante, especialmente as transpar&ecirc;ncias coloridas, &eacute; sabidamente    perec&iacute;vel.</p>     <p>Na &eacute;poca, os m&eacute;todos para minimizar essas perdas eram pouco confi&aacute;veis,    geralmente fundamentados no controle da temperatura e da umidade relativa, al&eacute;m    da exposi&ccedil;&atilde;o &agrave; luz. O Projeto Portinari visitou, nos Estados    Unidos, os laborat&oacute;rios da Kodak em Rochester, o Museu Internacional    de Fotografia, o Rochester Institute of Technology, a Polaroid, em Cambridge,    al&eacute;m de consultar os maiores especialistas e centros de pesquisa fotogr&aacute;fica    de renome mundial. Deduzimos de toda esta busca que outros m&eacute;todos deveriam    ser empregados, m&eacute;todos que n&atilde;o estavam no universo f&iacute;sico-qu&iacute;mico    tradicional, mas sim nas novas tecnologias que iam sendo desenvolvidas na &aacute;rea    da inform&aacute;tica. Surgia, assim, a id&eacute;ia, e acreditamos que o Projeto    Portinari foi um dos primeiros a prop&ocirc;-la publicamente, de preservar esse    acervo de transpar&ecirc;ncias atrav&eacute;s de sua digitaliza&ccedil;&atilde;o    e armazenamento em meios de grande perman&ecirc;ncia.</p>     <p>Fui, entre outros locais de tecnologia de ponta, ao Instituto Nacional de Pesquisas    Espaciais (Inpe), onde os colegas do grupo de processamento de imagens, Luiz    Alberto Vieira Dias e Nelson Mascarenhas, digitalizaram o slide de uma obra    utilizando equipamentos dedicados &agrave;s imagens de sat&eacute;lites. Lembro-me    ainda vivamente da emo&ccedil;&atilde;o que sentimos ao ver surgir aquele <i>Bumba-Meu-Boi</i>    de Portinari na tela do I-100... Quem iria imaginar, naqueles tempos, o extraordin&aacute;rio    avan&ccedil;o dessas tecnologias nas d&eacute;cadas seguintes!</p>     <p>Com efeito, o acervo reunido pelo Projeto Portinari representa um dos mais    importantes arquivos multim&iacute;dia existentes sobre o processo hist&oacute;rico-cultural    brasileiro entre as d&eacute;cadas de 20 a 60.</p>     <p>Sempre fiel &agrave; id&eacute;ia de levar a obra do pintor "aonde o povo est&aacute;",    o programa <i>Brasil de Portinari</i>, dirigido a crian&ccedil;as da rede escolar,    desde 1997 recebeu mais de 450 mil crian&ccedil;as, percorrendo todos os estados    brasileiros, sem exce&ccedil;&atilde;o, em 92 exposi&ccedil;&otilde;es interativas.    Este programa ampliou-se em v&aacute;rios desdobramentos, atingindo escolas,    favelas, popula&ccedil;&otilde;es ribeirinhas, pres&iacute;dios, hospitais,    etc.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Portador deste DNA peculiar, preocupou-se o Projeto Portinari, desde a sua    concep&ccedil;&atilde;o, em imprimir ao seu trabalho caracter&iacute;sticas    de rigor cient&iacute;fico, de sistem&aacute;tica cria&ccedil;&atilde;o de metodologias    e de permanente contato com o estado da arte nas aplica&ccedil;&otilde;es de    ci&ecirc;ncia e tecnologia aos problemas gerados por sua execu&ccedil;&atilde;o.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="RIGHT"><i>Jo&atilde;o Candido Portinari &eacute; diretor    <br>   do Projeto Portinari-PUC-Rio</i></p>      ]]></body>
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