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<institution><![CDATA[,Universidade Estadual de Campinas IEL Departamento de Teoria Literária]]></institution>
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</front><body><![CDATA[ <p><font size="4">Literatura</font></p>     <p><b><font size=5>N<small>O CENTEN&Aacute;RIO DE</small> G<small>EORGE</small>    O<small>RWELL</small></font></b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v55n2/15543f1.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="RIGHT"><i>"Vivemos em um mundo louco onde os     <br>   contr&aacute;rios se convertem continuamente    <br>   entre si, os pacifistas se descobrem     <br>   adorando Hitler, os socialistas     <br>   tornam-se nacionalistas, os patriotas     ]]></body>
<body><![CDATA[<br>   colaboracionistas,os budistas oram pela    <br>   vit&oacute;ria do ex&eacute;rcito japon&ecirc;s, e a Bolsa    <br>   sobe se os russos preparam a ofensiva".</i></p>     <p align="RIGHT">G. O<small>RWELL</small>, <i>Horizonte</i>, set.1943</p>     <p>&nbsp;</p>     <p>O s&eacute;culo XX ser&aacute; lembrado como uma &eacute;poca de utopias negativas,    ou seja, de distopias, do pesadelo social, das sociedades completamente imperfeitas,    e isso n&atilde;o apenas no plano das efetividades sociais - os campos de concentra&ccedil;&atilde;o    resumem o assunto - mas tamb&eacute;m no &acirc;mbito das formula&ccedil;&otilde;es    liter&aacute;rias.</p>     <p>Eric Hugh Blair - mais conhecido como George Orwell (1903-1950) - &eacute;,    com Aldous Huxley, o antiutopista mais famoso do s&eacute;culo passado. O primeiro    de seus contos ut&oacute;picos, <i>Animal farm</i> (1945), mesmo n&atilde;o    sendo o mais conhecido, &eacute; talvez o melhor do ponto de vista liter&aacute;rio.    O tom faz lembrar Swift ou Voltaire. Certo dia os animais, em uma fazenda, cansados    dos maus tratos e guiados pelos porcos, se rebelam contra os homens e libertam-se    da opress&atilde;o. A nova rep&uacute;blica procura elevar o esp&iacute;rito    das massas, que infelizmente s&atilde;o pouco influenci&aacute;veis, sobretudos    as ovelhas. Reduzem-se portanto os princ&iacute;pios a um s&oacute;, facilmente    assimil&aacute;vel: "Quatro patas &eacute; bom; duas pernas &eacute; mau", ilustra&ccedil;&atilde;o    de um radical manique&iacute;smo. Logo surgem as disc&oacute;rdias, a situa&ccedil;&atilde;o    piora para a maioria, enquanto os porcos no poder isolam-se nos privil&eacute;gios.    O slogan fundamental se torna: "Todos os animais s&atilde;o iguais, mas alguns    s&atilde;o mais iguais que os outros". Reduzidos novamente &agrave; escravid&atilde;o,    os bichos ver&atilde;o os porcos entrarem em acordo com os fazendeiros vizinhos    para explor&aacute;-los. Contundente e cortante, amargamente ir&ocirc;nico,    esse breve conto &eacute; a obra de um idealista desiludido.</p>     <p>Foi dito que Orwell desencadeou uma cr&iacute;tica geral a todos os totalitarismos,    e que o javali Napole&atilde;o encarna ao mesmo tempo St&aacute;lin, Hitler,    Mussolini e Franco. Pode ser, mas n&atilde;o se deve ignorar a abund&acirc;ncia    de detalhes que se referem claramente &agrave; URSS. O padr&atilde;o da fazenda    &eacute; o aristocr&aacute;tico-czarista que suscitou o descontentamento do    qual nascer&aacute; o discurso de Major, o te&oacute;rico (L&ecirc;nin); Napole&atilde;o-St&aacute;lin    elimina Snowball-Trotsky; a festa dos animais cai no dia 12 de outubro; a constru&ccedil;&atilde;o    de um moinho lembra o primeiro Plano Quinq&uuml;enal; o epis&oacute;dio do encontro    de Napole&atilde;o com os fazendeiros lembra os encontros entre St&aacute;lin    e os governos do Ocidente, e por a&iacute; vai. <i>Animal farm</i> mostrou a    dissolu&ccedil;&atilde;o de todas as revolu&ccedil;&otilde;es, sempre instrumentalizadas    por alguns. Mas isto n&atilde;o faz de Orwell um esquerdista arrependido: ele    n&atilde;o desafoga o seu ressentimento com rela&ccedil;&atilde;o ao socialismo,    mas contra <i>um</i> socialismo, e a sua amargura se alimenta de uma quest&atilde;o    particular.</p>     <p>Uma luz muito mais tr&aacute;gica ilumina <i>1984</i>, a obra mais famosa de    Orwell, publicada em 1949 e nascida de uma gama de terrores gerada pelas hediondas    for&ccedil;as sociais liberadas pela pol&iacute;tica moderna. Fala da anula&ccedil;&atilde;o    da identidade individual, da corrup&ccedil;&atilde;o da linguagem atrav&eacute;s    da manipula&ccedil;&atilde;o ideol&oacute;gica, da falsifica&ccedil;&atilde;o    e perda da mem&oacute;ria hist&oacute;rica pela a&ccedil;&atilde;o dos meios    de comunica&ccedil;&atilde;o de massa. Neste famoso romance, Orwell mostrou    como um partido &uacute;nico se apodera das mentes, as submete e entrega sem    resist&ecirc;ncia ao Estado onipotente. A guerra permanente entre as superpot&ecirc;ncias    mant&eacute;m viva a psicose do terror; e foi inventada para "consumir inteiramente    os produtos da m&aacute;quina sem elevar o padr&atilde;o geral de vida", porque    as massas devem permanecer pobres e ignorantes para serem dominadas. Os tr&ecirc;s    super-Estados possuem de fato o mesmo sistema pol&iacute;tico, e esta guerra    n&atilde;o busca outro fim a n&atilde;o ser o de "manter intacta a estrutura    da sociedade". Isto explica o slogan "A guerra &eacute; paz", que eliminaria    todo diss&iacute;dio interno diante do perigo externo. Em resumo, busca-se o    poder pelo poder. Quando estiver destru&iacute;da a fam&iacute;lia, erradicado    o instinto sexual e absorvida a vontade individual, ent&atilde;o "n&atilde;o    existir&aacute; mais amor sen&atilde;o aquele pelo Grande Irm&atilde;o". Para    alcan&ccedil;ar este fim, a filosofia do Partido &eacute; simples: n&atilde;o    existe realidade exterior &agrave; mente que a concebe: dominai as mentes e    dominareis a realidade.</p>     <p><i>1984</i> &eacute; uma profecia sobre as coisas que vir&atilde;o? Ou, como    na s&aacute;tira swiftiana, um ataque ao presente e uma advert&ecirc;ncia para    que esperemos o pior se n&atilde;o fizermos nada para mudar? Uma anatomia de    forma grotesca dos regimes nazista e bolchevique? Para Umberto Eco, pelo menos    tr&ecirc;s quartos desta obra n&atilde;o &eacute; distopia, &eacute; Hist&oacute;ria.    <i>1984</i> &eacute; um romance, uma obra de imagina&ccedil;&atilde;o, e como    tal pode carregar diversas tem&aacute;ticas com v&aacute;rios n&iacute;veis    de significados. Dela herdamos conceitos como <i>novil&iacute;ngua</i>, <i>duplo-pensar</i>,    <i>Grande Irm&atilde;o</i>, etc, que entraram para o vocabul&aacute;rio pol&iacute;tico    do Ocidente.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Nenhuma distopia contempor&acirc;nea deu margem a tantas discuss&otilde;es    sobre seu significado como <i>1984,</i> e isso &eacute; f&aacute;cil de entender:    <i>1984</i> foi publicado no &aacute;pice da primeira onda hist&eacute;rica    da guerra fria, aparecendo no meio do desenvolvimento do mais importante acontecimento    pol&iacute;tico do nosso tempo.Foi inevit&aacute;vel seu uso como uma das armas    da guerra fria. Conservadores apoderaram-se da obra, gratos, e usaram-na como    propaganda contra a R&uacute;ssia.</p>     <p>Os simpatizantes da esquerda podiam por sua vez pensar que o alvo de <i>1984</i>    fosse o stalinismo, n&atilde;o o socialismo. <i>1984</i>, como <i>Animal farm</i>,    denuncia uma ditadura pessoal e n&atilde;o o socialismo, do qual foi um fervoroso    defensor. O romance &eacute; obra de um homem que, no clima da guerra fria,    v&ecirc; com ang&uacute;stia formar-se um grande bloco pol&iacute;tico, diante    do qual a revolu&ccedil;&atilde;o russa se degenera numa hip&oacute;crita tirania.    Isso era suficiente para desiludi-lo, n&atilde;o para fazer dele - como apressadamente    se disse - um "conservador moderado". A posi&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica    de Orwell estava publicada em 1937, na sua obra <i>The road to Wigan Pier</i>:    "Eu fa&ccedil;o parte da esquerda e a essa dedico a minha obra, do mesmo modo    como odeio o totalitarismo russo e a sua venenosa influ&ecirc;ncia sobre este    pa&iacute;s".</p>     <p>Para os admiradores da obra como fascinante produto de imagina&ccedil;&atilde;o    liter&aacute;ria que &eacute;, prevalecia que a quest&atilde;o da veracidade    ou n&atilde;o da "profecia" orwelliana n&atilde;o dificultasse a compreens&atilde;o    e o valor da obra. Em anos recentes, de fato, proliferaram as interpreta&ccedil;&otilde;es    desta obra como alegoria, s&aacute;tira, autobiografia (lembran&ccedil;a dos    internatos da inf&acirc;ncia), religi&atilde;o, etc. Apesar do surpreendente    car&aacute;ter do seu romance, Orwell n&atilde;o &eacute; um inovador. O seu    mundo &eacute; aquele da II Guerra Mundial, por&eacute;m mais t&eacute;trico    e desolador.</p>     <p>Considerava Orwell em 1944, em carta a H.J.Willmett, que "o mundo parece mover-se    na dire&ccedil;&atilde;o das economias centralizadas", e junto a isso "avan&ccedil;am    os horrores do nacionalismo emotivo e uma tend&ecirc;ncia &agrave; desconfian&ccedil;a    na exist&ecirc;ncia da verdade objetiva, enquanto os fatos devem ajustar-se    &agrave; palavras e &agrave;s profecias de qualquer <i>f&uuml;hrer</i> infal&iacute;vel.    J&aacute; em certo sentido a hist&oacute;ria deixou de existir; isto &eacute;,    n&atilde;o h&aacute; nada que possa ser universalmente aceito como a hist&oacute;ria    de nosso tempo".</p>     <p>Este &eacute;, no essencial, o seu ju&iacute;zo.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="RIGHT"><i>Carlos Eduardo Berriel &eacute; professor do     <br>   Departamento de Teoria Liter&aacute;ria do     <br>   IEL-Unicamp. Coordena grupo de     <br>   estudos sobre Renascimento e     ]]></body>
<body><![CDATA[<br>   Utopia e prepara antologia de utopias italianas.</i> </p>      ]]></body>
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