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</front><body><![CDATA[ <p align="CENTER"><img src="/img/revistas/cic/v55n2/tp15.gif"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="CENTER"><b><font size="4">A <small>NUDEZ DE</small> T<small>ELMA</small></font></b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="CENTER">E<small>UST&Aacute;QUIO</small> G<small>OMES</small></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p>Que esp&eacute;cie de bicho &eacute; uma mulher nua? Como &eacute;, de fato    e &agrave; vera, uma f&ecirc;mea sem plumas? De repente aquilo passou a ser    uma quest&atilde;o crucial para n&oacute;s. Havia um grave d&eacute;ficit em    nosso conhecimento do mundo. As informa&ccedil;&otilde;es eram desencontradas,    as descri&ccedil;&otilde;es, suspeitas. Doca tinha visto uma prima lavar-se    no c&oacute;rrego, mas era incapaz de dar detalhes. A m&atilde;e de L&uacute;cio    despira a blusa bem na sua frente, sem que fosse visto, mas aquilo era pouco,    e na opini&atilde;o de Pedro, abomin&aacute;vel. "M&atilde;e n&atilde;o vale",    argumentou. "Nem irm&atilde;", disse Lucas, que tinha v&aacute;rias. Uma delas,    Telma, tinha-se deixado bolinar atr&aacute;s da capela. Mas nudez mesmo, s&oacute;    o fulgor de suas coxas alvas.</p>     <p>N&atilde;o sei como urdiu-se em mim a id&eacute;ia do espet&aacute;culo de    nudez, se ao sopro da leitura de Alencar (que descoberta!) ou se durante a expedi&ccedil;&atilde;o    ao bosquinho de p&eacute;s-de-embira, onde abrimos uma clareira, e nela, o espa&ccedil;o    para um lugar de maravilhas. "Para cantar e dan&ccedil;ar", eu disse. Mas logo:    "N&atilde;o, para um espet&aacute;culo com &iacute;ndios". E em seguida, numa    ilumina&ccedil;&atilde;o: "Vamos encenar <i>Iracema</i>".</p>     <p>Foi agrad&aacute;vel descobrir que, aberta a clareira, o bosquinho fez curvar    amorosamente suas copas e seus liames sobre a terra fofa, dando &agrave; sombra    um aconchego de alcova. De uma forquilha a outra estendemos caules flex&iacute;veis    e sobre eles, ao longo e ao largo, folhas de buriti. Ao r&eacute;s do ch&atilde;o,    t&aacute;buas sobre pedras chatas trazidas da beira do riacho: o audit&oacute;rio.    No entretempo, minhas m&atilde;os sujas de seiva tinham preparado uma esp&eacute;cie    de texto, uns quantos di&aacute;logos e uma dan&ccedil;a ind&iacute;gena sacr&iacute;lega    e sensual. Durante os ensaios, eu passeava autorit&aacute;rio a minha borduna    de peroba, um feixe de penas em torno da cintura, um cocar na cabe&ccedil;a.    No dia da estr&eacute;ia soubemos que o segredo, o pacto de sil&ecirc;ncio que    hav&iacute;amos selado tinha-se rompido em algum ponto. No povoado j&aacute;    se comentava a coisa com ar de mist&eacute;rio. Isto explica por que o p&uacute;blico    tomou todos os lugares e desbordou para as <i>galerias</i>. Dois lampi&otilde;es    iluminavam a cena. Mal o espet&aacute;culo principiou, ganhou impulso com o    di&aacute;logo entre os guerreiros. "Tup&atilde; deu &agrave; grande na&ccedil;&atilde;o    tabajara toda esta terra", disse o guerreiro-chefe. "O gavi&atilde;o paira nos    ares", respondeu o jovem guerreiro. "Iracema!", bradou o guerreiro-chefe. Aplausos.    Deu-se ent&atilde;o o inaudito, o m&aacute;gico, o miraculoso. Iracema, a virgem    dos l&aacute;bios de mel, irrompeu no palco. Telma em carne e osso. Nada de    plumas, penas, tanga. Nada. Inteiramente nua. As pernas longas, lisas, terminavam    no tri&acirc;ngulo escuro, selvagem, p&uacute;bere. O umbigo era uma flor dilacerada    contrastando com os seios pequenos. Mas o conjunto, no todo, era harmonioso.    A plat&eacute;ia veio abaixo. Os guerreiros congelaram-se no centro do palco.    Gritos, assobios, at&eacute; palavr&otilde;es ouvi. E viu-se quando, de um salto,    Lucas avan&ccedil;ou para o prosc&ecirc;nio e baixou o pano, que era um len&ccedil;ol    corrido de uma ponta a outra. E depois, pelos fundos, matagal adentro, arrastou    Telma para casa, onde ele e o pai, segundo se soube, a cobriram de pancadas.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><i><b>Eust&aacute;quio Gomes</b> &eacute; autor, entre outras, das novelas</i>    A febre amorosa <i>(1984),</i> Jonas Blau <i>(1986) e</i> O mapa da Austr&aacute;lia    <i>(1998). O presente texto faz parte do livro in&eacute;dito</i> Paisagem com    neblina<i>.</i> </p>      ]]></body>
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