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</front><body><![CDATA[ <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v55n3/a19img01.gif"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size=5><b>P<small>ODER E &Eacute;TICA NA PESQUISA SOCIAL</small></b></font></p>     <p><b><font size="3">Guita Grin Debert</font></b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="right"><font size="3"><i>O investigador precisa, enfim, descobrir um    papel e uma posi&ccedil;&atilde;o que o deixem &agrave; vontade perante os investigados    e que tamb&eacute;m ponham estes &agrave; vontade perante ele. As informa&ccedil;&otilde;es    pr&eacute;vias sobre o grupo a ser investigado, por exemplo, poder&atilde;o        <br>   indicar-lhe se dever&aacute; ou n&atilde;o revelar, desde o in&iacute;cio, suas    inten&ccedil;&otilde;es de pesquisador; se deve tomar notas e fazer registros    abertamente ou se deve adotar um pretexto – uma atividade ocupacional,    necessidade de repouso, f&eacute;rias, turismo etc. – para justificar    sua presen&ccedil;a na comunidade.&quot;</i> (Nogueira,    1977:96-97)</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3"><i>&quot;Quando entrevistei o p&aacute;roco da vizinhan&ccedil;a    em que cresci, constatei que ele se lembrava de mim como uma crian&ccedil;a    de classe m&eacute;dia, que freq&uuml;entava a igreja com relativa assiduidade,    e tamb&eacute;m que partia do princ&iacute;pio que nossa posi&ccedil;&atilde;o    pol&iacute;tica seria id&ecirc;ntica. Como nada me perguntou, nada lhe esclareci.    Em vista disso, ele n&atilde;o hesitou em me contar como examinava, com a maior    cautela, todos os pedidos de emprego na f&aacute;brica local a fim de que ningu&eacute;m    com tend&ecirc;ncias esquerdistas tivesse a mais remota chance de ali conseguir    trabalho. Essa entrevista veio a ser a primeira prova document&aacute;ria concreta    de algo que, indiretamente, sempre soub&eacute;ramos: o papel desempenhado pela    Igreja na discrimina&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica, naquele contexto espec&iacute;fico.    &Eacute; evidente que, por saber que o uso que eu faria do material iria de    encontro &agrave;s expectativas do cl&eacute;rigo, fui rigorosamente &eacute;tico    em termos profissionais. Dei-lhe o manuscrito para ler, obtive sua aprova&ccedil;&atilde;o    por escrito das cita&ccedil;&otilde;es, antes de public&aacute;-las, e assim    por diante. Abstive-me de inform&aacute;-lo sobre o contexto em que situaria    o material, bem como a interpreta&ccedil;&atilde;o que a ele daria. Este representa    um bom exemplo, creio eu, de manipula&ccedil;&atilde;o &quot;&eacute;tica&quot; – neste caso, espero, por uma boa causa&quot;</i>.(Portelli,    1997:28).</font></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3">Intrinsecamente envolvida com o estudo da diversidade cultural,    a Antropologia, ao longo de sua hist&oacute;ria, acumulou um rico acervo sobre    as formas pelas quais a vida social &eacute; produzida em diferentes contextos.    </font></p>     <p><font size="3">Esse acervo compreende o resultado de pesquisas em sociedades    ind&iacute;genas, popula&ccedil;&otilde;es camponesas e contingentes de imigrantes    europeus e de outras partes do mundo, mas n&atilde;o se restringe &agrave; an&aacute;lise    de grupos &eacute;tnicos e nacionais claramente delimitados. &Eacute; parte    integrante do estudo da biodiversidade cultural contemplar as clivagens no interior    desses grupos, particularmente aquelas relacionadas com quest&otilde;es de g&ecirc;nero,    classes sociais, grupos profissionais e gera&ccedil;&otilde;es. (1)</font></p>     <p><font size="3">As ci&ecirc;ncias humanas, no processo constante de amplia&ccedil;&atilde;o    desse acervo, t&ecirc;m se defrontado com a redefini&ccedil;&atilde;o de procedimentos    &eacute;ticos, num momento em que os sujeitos tradicionalmente estudados por    suas diferentes disciplinas passam por mudan&ccedil;as radicais, e em que novas    agendas de pesquisa desafiam as fronteiras disciplinares. </font></p>     <p><font size="3">Vinte anos apenas separam os dois trechos que servem como ep&iacute;grafes    neste artigo. As coloca&ccedil;&otilde;es de Oracy Nogueira foram feitas num    livro que era uma das refer&ecirc;ncias b&aacute;sicas para iniciantes na pesquisa    sociol&oacute;gica. Hoje, &eacute; praticamente um reflexo profissional do professor    alertar os estudantes sobre a necessidade de explicar com clareza os objetivos    da pesquisa, de modo a obter o consentimento dos sujeitos pesquisados. </font></p>     <p><font size="3">Os coment&aacute;rios de Alessandro Portelli foram apresentados    num semin&aacute;rio sobre &eacute;tica e hist&oacute;ria oral, e trazem para    o debate os problemas envolvidos na pesquisa feita com grupos mais poderosos,    com os quais o pesquisador n&atilde;o estabelece uma rela&ccedil;&atilde;o de    simpatia. Essa dimens&atilde;o da pesquisa social tem sido pouco tratada quando    discutimos procedimentos &eacute;ticos e c&oacute;digos de &eacute;tica na investiga&ccedil;&atilde;o    cient&iacute;fica. Nesses debates, a reflex&atilde;o tem privilegiado situa&ccedil;&otilde;es    marcadas por uma rela&ccedil;&atilde;o de desigualdade: o cientista social &eacute;    algu&eacute;m que ocupa n&atilde;o apenas uma posi&ccedil;&atilde;o de saber,    mas &eacute; tamb&eacute;m detentor de status, prest&iacute;gio e poder, num    mundo em que os setores estudados s&atilde;o desprivilegiados, v&iacute;timas    de formas de opress&atilde;o e domina&ccedil;&atilde;o, minorias em situa&ccedil;&atilde;o    de vulnerabilidade.</font></p>     <p><font size="3">Dessa perspectiva, nos debates sobre &eacute;tica, procedimentos    &eacute;ticos e c&oacute;digos de &eacute;tica, os interesses dos grupos pesquisados    devem preceder os interesses da pesquisa. S&atilde;o temas centrais da discuss&atilde;o    o car&aacute;ter do consentimento (formal ou informal), o tipo de informa&ccedil;&atilde;o    que o pesquisado deve obter da pesquisa de que participa, a capacidade legal    e intelectual dos entrevistados de entender o trabalho proposto e as formas    de coer&ccedil;&atilde;o que podem estar envolvidas nessa rela&ccedil;&atilde;o.    Avaliam-se, tamb&eacute;m, os riscos envolvidos na publica&ccedil;&atilde;o    dos resultados, porque nossas conclus&otilde;es n&atilde;o podem constranger,    humilhar ou trazer preju&iacute;zos para as popula&ccedil;&otilde;es estudadas.</font></p>     <p><font size="3">Tendo se voltado para o estudo da ampla variedade de culturas    humanas, particularmente para o estudo desses grupos desprivilegiados, a Antropologia    foi a primeira disciplina das ci&ecirc;ncias humanas a elaborar um c&oacute;digo    de &eacute;tica. Por isso, tamb&eacute;m, ganha centralidade, nos debates que    a disciplina atualmente vem promovendo, o tema dos modos de restitui&ccedil;&atilde;o    aos sujeitos pesquisados do saber que construimos a partir deles. Devem eles    ter acesso em primeira m&atilde;o &agrave; obra produzida? Qual ser&aacute;    sua participa&ccedil;&atilde;o nos lucros obtidos com os resultados das pesquisas    empreendidas, ou com a divulga&ccedil;&atilde;o das imagens por eles confeccionadas    ou que confeccionamos a partir deles? Quando a biodiversidade e o conhecimento    local est&atilde;o em jogo, a quest&atilde;o dos direitos sobre o patrim&ocirc;nio    gen&eacute;tico &eacute; primordial. A quem cabe a soberania sobre esses recursos?    S&atilde;o eles um bem comum da humanidade? A soberania &eacute; dos estados-na&ccedil;&otilde;es    ou das popula&ccedil;&otilde;es locais? Como controlar e combater a pirataria    das empresas estrangeiras, mas tamb&eacute;m das empresas nacionais? (2)</font></p>     <p><font size="3">Levar em conta essas quest&otilde;es &eacute; romper com a vis&atilde;o    que restringe a biodiversidade ao impacto de fatores n&atilde;o-humanos sobre    a vida humana, e trazer para o cerne do debate os direitos das popula&ccedil;&otilde;es    que conservam a biodiversidade.</font></p>     <p><font size="3"> Levar em conta essa dimens&atilde;o &eacute; tamb&eacute;m    romper com a &quot;cegueira normativa&quot; que ainda marca boa parte das discuss&otilde;es    sobre direitos humanos. Essa express&atilde;o, cunhada por Richard Falk (1992),    caracteriza uma vis&atilde;o da moderniza&ccedil;&atilde;o em que as culturas    n&atilde;o-ocidentais, mas tamb&eacute;m os pobres, as minorias &eacute;tnicas    e religiosas, e outros grupos desprivilegiados aparecem como express&otilde;es    de um atraso a ser superado para o bem desses pr&oacute;prios grupos. Sua assimila&ccedil;&atilde;o,    organizada e equitativa no espa&ccedil;o benevolente do ethos modernista, &eacute;    tida como a condi&ccedil;&atilde;o para superar sua situa&ccedil;&atilde;o de    vulnerabilidade. Em nome do desenvolvimento, popula&ccedil;&otilde;es ind&iacute;genas,    por exemplo, foram e ainda s&atilde;o destru&iacute;das, deslocadas de seus    territ&oacute;rios e est&atilde;o assistindo ao roubo de suas riquezas em biodiversidade    e propriedade intelectual.</font></p>     <p><font size="3">Contudo, esses grupos tradicionalmente estudados pelos antrop&oacute;logos    v&ecirc;m estabelecendo rela&ccedil;&otilde;es muito diferentes com os pesquisadores    e com o modo de divulga&ccedil;&atilde;o das pesquisas sobre eles. Grupos ind&iacute;genas    contam com associa&ccedil;&otilde;es e advogados empenhados em defender seus    direitos sobre suas produ&ccedil;&otilde;es. A situa&ccedil;&atilde;o desses    povos e de outras minorias &eacute; cada vez mais afetada por projetos cuja    elabora&ccedil;&atilde;o e decis&atilde;o n&atilde;o se d&aacute; apenas no    &acirc;mbito de estados nacionais, mas obedecem a conjunto de normas, conven&ccedil;&otilde;es    e diretrizes definidas em foros internacionais e em ag&ecirc;ncias multinacionais.(3)</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3">O conhecimento que produzimos a partir deles e as imagens que    sobre eles divulgamos podem ser objeto de disputa judicial. &Eacute;, portanto,    fundamental ter em mente a dist&acirc;ncia que separa os empreendimentos nos    quais estamos envolvidos daqueles que exerc&iacute;amos h&aacute; 20 anos. Os    c&oacute;digos de &eacute;tica t&ecirc;m, por isso mesmo, se constitu&iacute;do    n&atilde;o apenas em uma defesa de direitos das popula&ccedil;&otilde;es pesquisadas,    mas tamb&eacute;m precisam ser compreendidos como uma forma de defesa do pesquisador    e da comunidade cient&iacute;fica e, nesse sentido, seu interesse e suas caracter&iacute;sticas    requerem avalia&ccedil;&otilde;es com um cuidado redobrado.</font></p>     <p><font size="3">Essas quest&otilde;es e os debates em torno delas devem, no    entanto, ser ampliados de modo a dar conta de outras situa&ccedil;&otilde;es    em que a desigualdade entre pesquisador e pesquisado n&atilde;o &eacute; t&atilde;o    evidente, como no caso dos estudos com elites religiosas ou pol&iacute;ticas.    &Eacute; preciso ainda levar em conta as novas agendas de pesquisa, apresentadas    num contexto em que o conhecimento cient&iacute;fico produzido polariza aspectos    fundamentais da vida social em escala planet&aacute;ria.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v55n3/a19img02.gif"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3"><b>NOVAS AGENDAS DE PESQUISA E A POLITIZA&Ccedil;&Atilde;O DO    SABER </b>&Eacute; parte do senso comum ver o passado    como uma chave explicativa fundamental na compreens&atilde;o do presente, porque    condi&ccedil;&otilde;es hist&oacute;ricas espec&iacute;ficas deram um formato    pr&oacute;prio &agrave;s sociedades contempor&acirc;neas. Os historiadores,    muitas vezes, t&ecirc;m questionado e invertido essa rela&ccedil;&atilde;o,    argumentando que s&atilde;o as quest&otilde;es postas pelo presente que levam    &agrave;s releituras do passado.</font></p>     <p><font size="3">No entanto, pouca aten&ccedil;&atilde;o tem sido dada ao modo    como o futuro formata o nosso presente. Ou, para dizer de maneira menos paradoxal,    &eacute; preciso reconhecer que as proje&ccedil;&otilde;es feitas sobre o nosso    futuro t&ecirc;m um impacto fundamental no modo como organizamos o nosso presente.    Para dar um &uacute;nico exemplo: todos n&oacute;s sabemos que o prolongamento    da vida humana &eacute; um ganho coletivo. Mas esse ganho tem se traduzido tamb&eacute;m    em amea&ccedil;a, em perigo &agrave; reprodu&ccedil;&atilde;o da vida social.    As proje&ccedil;&otilde;es dos custos da aposentadoria e da cobertura m&eacute;dico-assistencial    da velhice, de maneira alarmante, indicam a inviabilidade do sistema que, em    futuro pr&oacute;ximo, n&atilde;o poder&aacute; arcar com os gastos assumidos.    Essa profecia sobre o futuro da aposentadoria tem um impacto fundamental no    modo como as pessoas, no presente, preparam seu pr&oacute;prio envelhecimento.    A cren&ccedil;a nas previs&otilde;es e a convic&ccedil;&atilde;o de que o Estado    ser&aacute; incapaz de arcar com os gastos do envelhecimento populacional podem,    assim, levar a um conjunto de pr&aacute;ticas que tornam o futuro da aposentadoria    muito mais imprevis&iacute;vel.</font></p>     <p><font size="3">Estamos muito distantes do modelo de uma ci&ecirc;ncia feita    em torres de marfim, em que o fosso entre seus operadores e o p&uacute;blico    leigo era praticamente intranspon&iacute;vel. Os conhecimentos produzidos s&atilde;o    divulgados de maneira muito r&aacute;pida, eles mudam os cen&aacute;rios sobre    os quais os cientistas se debru&ccedil;am e t&ecirc;m efeitos estrondosos nas    nossas concep&ccedil;&otilde;es do que &eacute; a sa&uacute;de e o autocuidado,    do que &eacute; a beleza e as tecnologias que podem ser colocadas a seu servi&ccedil;o,    do que &eacute; normal ou patol&oacute;gico, do que s&atilde;o dados da natureza    e o que s&atilde;o quest&otilde;es de liberdade de escolha.</font></p>     <p><font size="3">N&atilde;o se trata apenas de denunciar os conflitos morais    envolvidos na bio&eacute;tica. Seria ing&ecirc;nuo e desastroso propor um tribunal    voltado para decidir sobre as diferen&ccedil;as morais. &Eacute;, contudo, um    projeto imperativo nas ci&ecirc;ncias humanas politizar o debate nesses dom&iacute;nios    que afetam nossa vida cotidiana e a vida dos grupos que pesquisamos. Esses s&atilde;o    dom&iacute;nios que, dada a complexidade das quest&otilde;es abordadas, constituem-se    em espa&ccedil;os privilegiados para o exerc&iacute;cio de uma magistratura    que se pretende metapol&iacute;tica.</font></p>     <p><font size="3">A relev&acirc;ncia democr&aacute;tica das ci&ecirc;ncias humanas    exige que possamos realizar estudos minuciosos dos significados de pr&aacute;ticas    que podem ser nefastas ao destino e &agrave; dignidade humana. Para entrar no    universo dos cientistas ou no de outros grupos ainda mais poderosos, talvez    jamais possamos dizer com clareza o que de fato estamos pesquisando, quais s&atilde;o    os objetivos e as hip&oacute;teses que organizam o nosso trabalho. A politiza&ccedil;&atilde;o    das quest&otilde;es com as quais eles trabalham &eacute;, certamente, uma forma    de prejudicar o conforto com o qual eles operam. </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3"><b>C&Oacute;DIGOS DE &Eacute;TICA E COMUNIDADE CINET&Iacute;FICA    </b>N&atilde;o podemos desconhecer a for&ccedil;a e o sentido que as exig&ecirc;ncias    &eacute;ticas da pesquisa ganham hoje em dia, tampouco que os pesquisadores    t&ecirc;m que estar armados para esse tipo de exig&ecirc;ncia num contexto em    que os recursos da pesquisa e o interesse por ela se ampliaram enormemente.    &Eacute; imprescind&iacute;vel dispormos de um c&oacute;digo de &eacute;tica    da pesquisa cient&iacute;fica, porque ele oferece tamb&eacute;m uma prote&ccedil;&atilde;o    ao pesquisador e &agrave; comunidade cient&iacute;fica. Obviamente, um c&oacute;digo    n&atilde;o substitui o bom senso e n&atilde;o elimina as discuss&otilde;es que    empreendemos sobre os dilemas &eacute;ticos enfrentados em diferentes contextos.    Contudo, propor um c&oacute;digo de &eacute;tica &eacute; uma tarefa monumental.    Como criar um c&oacute;digo de &eacute;tica que n&atilde;o imponha a todas as    disciplinas par&acirc;metros espec&iacute;ficos exclusivos da pesquisa em certas    &aacute;reas disciplinares? Como criar um c&oacute;digo que n&atilde;o seja    t&atilde;o vago a ponto de n&atilde;o poder impor limites a certas pr&aacute;ticas    de pesquisa, e que seja t&atilde;o restritivo e exija procedimentos lentos e    burocratizados que inviabilize a investiga&ccedil;&atilde;o e perca o respeito    dos pesquisadores? </font></p>     <p><font size="3">Ser&aacute; que para renovar nossa agenda de pesquisa e garantir    a relev&acirc;ncia democr&aacute;tica da nossa disciplina s&oacute; nos resta    fazer manipula&ccedil;&otilde;es &eacute;ticas em nome de boas causas?</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3"><i><b>Guita Grin Debert</b> &eacute; professora    do Departamento de Antropologia da Unicamp e pesquisadora do N&uacute;cleo de    Estudos de G&ecirc;nero da mesma universidade.</i></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b><font size="3">Notas</font></b></p>     <p><font size="3">1. Para um balan&ccedil;o recente da produ&ccedil;&atilde;o    nas ci&ecirc;ncias sociais ver, Micelli (1999).</font></p>     <p><font size="3">2. H&aacute; uma vasta bibliografia sobre quest&otilde;es    de &eacute;tica na pesquisa antropol&oacute;gica. Para um balan&ccedil;o das    quest&otilde;es colocadas ver Oliveira (1996) e sobre as implica&ccedil;&otilde;es    da Conven&ccedil;&atilde;o sobre a Diversidade Biol&oacute;gica para as popula&ccedil;&otilde;es    ind&iacute;genas e tradicionais, ver Carneiro da Cunha (2001).</font></p>     <p><font size="3">3. Para uma vis&atilde;o cr&iacute;tica das diretrizes operacionais    que estabelecem as condi&ccedil;&otilde;es a serem seguidas em todos os projetos    apoiados pelo Banco Mundial, ver Oliveira Filho (2000).</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><b><font size="3">Bibliografia citada</font></b></p>     <!-- ref --><p><font size="3">Carneiro da Cunha, M. &quot;Saber Local&quot;, <i>Folha de S.    Paulo</i>, 19/12/2001:A-3. 2001. </font><!-- ref --><p><font size="3">Falk, R. Cultural Foundations for the International Protection    of Human Rights. <i>In</i> Abdullai Ahmed An.Na'Im (org.) <i>Human rights in    cross-cultural perspective – A quest for consensus</i>. Philadelphia,    University of Pennsylvania Press; pp. 44-64. 1992. </font><!-- ref --><p><font size="3">Micelli, S. (org). <i>O que ler na ci&ecirc;ncia social brasileira</i>    (1970-1995) S&atilde;o Paulo: Editora Sumar&eacute;/ANPOCS. 1999.</font><!-- ref --><p><font size="3">Nogueira, O. <i>Pesquisa social - introdu&ccedil;&atilde;o &agrave;s    suas t&eacute;cnicas</i>. S&atilde;o Paulo: Cia Editora Nacional. 1977.</font><!-- ref --><p><font size="3">Oliveira Filho, Jo&atilde;o P. Cidadania e Globaliza&ccedil;&atilde;o:    Povos ind&iacute;genas e ag&ecirc;ncias multilaterais. <i>Horizontes antropol&oacute;gicos</i>,    n.14:125-142. 2000. </font><!-- ref --><p><font size="3">Oliveira, R.C. e Oliveira, L.R.C. (orgs.). <i>Ensaios antropol&oacute;gicos    sobre moral e &eacute;tica</i>, Rio de Janeiro: <i>Tempo Brasileiro</i>. 1996.</font><!-- ref --><p><font size="3">Portelli, A. &quot;Tentando aprender um pouquinho. Algumas reflex&otilde;es    sobre a &eacute;tica na hist&oacute;ria oral&quot;. <i>In</i>: D. Perelmutter    e M.ª Antonacci (org.) &Eacute;tica e hist&oacute;ria oral, projeto hist&oacute;ria:    revista do programa de estudos p&oacute;s-graduados em Hist&oacute;ria do Departamento    de Hist&oacute;ria da PUC-SP, n.15, S&atilde;o Paulo: Educ, Editora da PUC-SP.    1997.</font> ]]></body><back>
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