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</front><body><![CDATA[ <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v55n3/a25img01.gif"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size=5><b>A L<SMALL>EI DE </SMALL>P<SMALL>ROTE&Ccedil;&Atilde;O AO </SMALL>P<SMALL>ATRIM&Ocirc;NIO    </SMALL>G<SMALL>EN&Eacute;TICO</SMALL></b></font></p>     <p><b><font size="3">Walter Colli</font></b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p> <font size=5><b>A</b></font> <font size="3">Medida Provis&oacute;ria 2.186-16    de 23 de agosto de 2001 regulamenta disposi&ccedil;&otilde;es do Artigo 225    da Constitui&ccedil;&atilde;o Federal e da Conven&ccedil;&atilde;o sobre Diversidade    Biol&oacute;gica. Seu artigo 10 cria o Conselho de Gest&atilde;o do Patrim&ocirc;nio    Gen&eacute;tico (CGEN) no &acirc;mbito do Minist&eacute;rio do Meio Ambiente,    com car&aacute;ter deliberativo e normativo, presidido pelo representante desse    minist&eacute;rio e composto por representantes de &oacute;rg&atilde;os e de    entidades da administra&ccedil;&atilde;o p&uacute;blica federal que det&ecirc;m    compet&ecirc;ncia sobre as diversas a&ccedil;&otilde;es de que trata a Medida    Provis&oacute;ria. Quando se vai ao regulamento da CGEN verifica-se que se houver    algum cientista em sua composi&ccedil;&atilde;o ele estar&aacute; l&aacute;    apenas circunstancialmente, uma vez que o plen&aacute;rio do &oacute;rg&atilde;o    &eacute; formado por um representante de cada um dos nove minist&eacute;rios    e dos &oacute;rg&atilde;os: Ibama, Funai, Inpi, Funda&ccedil;&atilde;o Cultural    Palmares, CNPq, al&eacute;m de Inpa, Embrapa, Fiocruz, Instituto Evandro Chagas    e Instituto de Pesquisas Jardim Bot&acirc;nico.</font></p>     <p><font size="3"><b>A DOUTRINA QUE PRESIDE A LEI</b> No Cap&iacute;tulo II que    trata das defini&ccedil;&otilde;es encontra-se a seguinte disposi&ccedil;&atilde;o:</font></p>     <blockquote>        <p><font size="3"><i>Artigo 7º - Al&eacute;m dos conceitos e das defini&ccedil;&otilde;es      constantes da Conven&ccedil;&atilde;o sobre Diversidade Biol&oacute;gica,      considera-se para os fins desta Medida Provis&oacute;ria:</i></font></p>       <p><font size="3"><i>IV – acesso ao patrim&ocirc;nio gen&eacute;tico: obten&ccedil;&atilde;o      de amostra de componente do patrim&ocirc;nio gen&eacute;tico para fins de      pesquisa cient&iacute;fica, desenvolvimento tecnol&oacute;gico ou bioprospec&ccedil;&atilde;o,      visando a sua aplica&ccedil;&atilde;o industrial ou de outra natureza;</i></font></p> </blockquote>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3">O texto refere-se a pesquisas cient&iacute;ficas visando aplica&ccedil;&atilde;o    industrial mas, a fim de incluir tudo, ele tamb&eacute;m disp&otilde;e sobre    as de &quot;de outra natureza&quot;. H&aacute; uma cultura predominante no Brasil    que entende que toda ci&ecirc;ncia tem aplica&ccedil;&atilde;o industrial e,    portanto, gerar&aacute; lucros. Em conseq&uuml;&ecirc;ncia, qualquer atividade    de coleta deve ser rigorosamente fiscalizada. Enfatize-se, no entanto, que,    na maior parte das vezes, o pesquisador &eacute; um ser curioso que quer apenas    conhecer e na maior parte das vezes ele n&atilde;o &eacute; um empres&aacute;rio,    mas um educador. Suas motiva&ccedil;&otilde;es s&atilde;o freq&uuml;entemente    est&eacute;ticas e, na quase totalidade, os cientistas s&atilde;o aqueles que    mais pugnam pela preserva&ccedil;&atilde;o daquilo que est&atilde;o estudando.    No entanto, os legisladores, os formuladores de opini&atilde;o e a m&iacute;dia    insistem em achar que a ci&ecirc;ncia s&oacute; existe quando contribui para    o PIB. Por isso, h&aacute; que regulament&aacute;-la e, em conseq&uuml;&ecirc;ncia,    evitar que os cientistas possivelmente &quot;depredem&quot; o &quot;patrim&ocirc;nio    gen&eacute;tico nacional&quot; em favor de agentes estrangeiros e de empresas    multinacionais visando supostos e gigantescos lucros. A partir do disposto nesse    inciso montou-se uma verdadeira m&aacute;quina de supl&iacute;cio para quem    quer fazer ci&ecirc;ncia. Enquanto isso, 40 milh&otilde;es de esp&eacute;cimes    s&atilde;o contrabandeados por ano para o exterior, certamente por pessoas que    n&atilde;o fazem pesquisa cient&iacute;fica. Al&eacute;m disso, mediante autoriza&ccedil;&otilde;es    devidamente carimbadas, exportam-se p&aacute;ssaros, peixes e madeiras, mas    isso refoge ao escopo da medida provis&oacute;ria. No entanto, posso afirmar    que p&aacute;ssaros, peixes ornamentais e madeiras s&atilde;o patrim&ocirc;nio    gen&eacute;tico e carregam em seus intestinos (p&aacute;ssaros e peixes) ou    em sua superf&iacute;cie (madeira), sementes, fungos, bact&eacute;rias, protozo&aacute;rios    que, por sua vez, tamb&eacute;m s&atilde;o &quot;patrim&ocirc;nio gen&eacute;tico    nacional&quot;. Conclui-se que o inciso IV do artigo 7º da medida provis&oacute;ria    preocupa-se apenas com os cientistas brasileiros.</font></p>     <p><font size="3"><b>A BUROCRACIA IMPLANTADA PELA LEI</b> A Medida Provis&oacute;ria    define no mesmo artigo:</font></p>     <blockquote>        <p><font size="3"><i>XI – Autoriza&ccedil;&atilde;o Especial de Acesso e de      Remessa: documento que permite, sob condi&ccedil;&otilde;es espec&iacute;ficas,      o acesso a amostra de componente do patrim&ocirc;nio gen&eacute;tico e sua      remessa &agrave; institui&ccedil;&atilde;o destinat&aacute;ria e o acesso      a conhecimento tradicional associado, com prazo de dura&ccedil;&atilde;o de      at&eacute; dois anos, renov&aacute;vel por iguais per&iacute;odos.</i></font></p> </blockquote>     <p><font size="3">Detalhando, no Artigo 11, inciso IV, al&iacute;nea c verifica-se    que uma das atribui&ccedil;&otilde;es do Conselho de Gest&atilde;o (CGEN) &eacute;    a de deliberar sobre:</font></p>     <blockquote>        <p><font size="3"><i>c) autoriza&ccedil;&atilde;o especial de acesso e de remessa      de amostra de componente do patrim&ocirc;nio gen&eacute;tico &agrave; institui&ccedil;&atilde;o      nacional, p&uacute;blica ou privada, que exer&ccedil;a atividade de pesquisa      e desenvolvimento nas &aacute;reas biol&oacute;gicas e afins, e &agrave; universidade      nacional, p&uacute;blica ou privada, com prazo de dura&ccedil;&atilde;o de      at&eacute; dois anos, renov&aacute;vel por iguais per&iacute;odos, nos termos      do regulamento.</i></font></p> </blockquote>     <p><font size="3">Estas disposi&ccedil;&otilde;es imp&otilde;em restri&ccedil;&atilde;o    desnecess&aacute;ria &agrave; atividade cient&iacute;fica porque, normalmente,    o cientista nunca tem planos espec&iacute;ficos a desenvolver. Ele precisa de    liberdade para formular e experimentar teorias e, ao responder perguntas, formular    outras. N&atilde;o &eacute; poss&iacute;vel que a maior parte do tempo de um    cientista seja ocupada em pedir autoriza&ccedil;&atilde;o para cada atividade    que ele ir&aacute; realizar. A exig&ecirc;ncia de autoriza&ccedil;&atilde;o    especial de acesso e remessa de &quot;componente do patrim&ocirc;nio gen&eacute;tico    nacional&quot; &eacute; simplesmente rid&iacute;cula. D&aacute; &agrave; CGEN    um poder de censura digno da inquisi&ccedil;&atilde;o, pois, ela pode decidir    o que vai e o que n&atilde;o vai ser pesquisado no pa&iacute;s. Al&eacute;m    disso, apesar de bem intencionados, seus membros n&atilde;o teriam agilidade    para processar todos os pedidos. Pelas minhas observa&ccedil;&otilde;es no dia-a-dia,    ali&aacute;s, parece que ningu&eacute;m tomou conhecimento dessa Medida Provis&oacute;ria,    uma vez que uma das caracter&iacute;sticas dos cientistas das &aacute;reas biol&oacute;gicas    &eacute; intercambiar amostras constantemente por necessidade profissional.    Na vig&ecirc;ncia da Medida Provis&oacute;ria (que poder&aacute; transformar-se    em lei) todas as universidades – literalmente todas – est&atilde;o cometendo    infra&ccedil;&otilde;es sujeitas a multas de R$ 10 mil – 50 milh&otilde;es (par&aacute;grafo    5, Artigo 30), duplicadas na reincid&ecirc;ncia (par&aacute;grafo 6, Artigo    30).</font></p>     <p><font size="3">Como se essas amarras n&atilde;o fossem suficientes a Medida    Provis&oacute;ria cont&eacute;m os seguintes dispositivos:</font></p>     <blockquote>        ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3"><i>Artigo 11 – Compete ao Conselho de Gest&atilde;o deliberar      sobre:</i></font></p> </blockquote>     <p><font size="3"><i>a) autoriza&ccedil;&atilde;o de acesso e de remessa de amostra    de componente do patrim&ocirc;nio gen&eacute;tico, mediante anu&ecirc;ncia pr&eacute;via    de seu titular;</i> </font></p>     <blockquote>        <p><font size="3"><i>Artigo 16 – (veja o caput mais abaixo)</i></font></p>       <p><font size="3"><i>§1º – O respons&aacute;vel pela expedi&ccedil;&atilde;o      de coleta dever&aacute;, ao t&eacute;rmino de suas atividades em cada &aacute;rea      acessada, assinar com o seu titular ou representante declara&ccedil;&atilde;o      contendo listagem do material acessado, na forma do regulamento.</i></font></p> </blockquote>     <p><font size="3">A exegese desses dispositivos &eacute; de arrepiar. Eles pressup&otilde;em    que o &quot;patrim&ocirc;nio gen&eacute;tico&quot; tem titular, isto &eacute;,    n&atilde;o pertence &agrave; na&ccedil;&atilde;o, mas ao dono da terra e o cientista    que quiser estudar qualquer coisa, seja uma formiga, um p&aacute;ssaro, um cupim,    um sapo, uma flor, uma &aacute;rvore ou o coc&ocirc; da capivara tem que pedir    autoriza&ccedil;&atilde;o ao dono da terra que &eacute;, por via de conseq&uuml;&ecirc;ncia,    o dono do &quot;patrim&ocirc;nio gen&eacute;tico&quot;. Imagine o leitor o drama    de um cientista que faz pesquisa de campo no pa&iacute;s e que necessite de    amostras de v&aacute;rias regi&otilde;es para poder comparar e estudar migra&ccedil;&otilde;es,    evolu&ccedil;&atilde;o ou determinantes da diversidade. Ele ter&aacute;, antes    de tudo, que obter autoriza&ccedil;&atilde;o dos propriet&aacute;rios das respectivas    terras para poder coletar amostras e lidar com pessoas dos mais diferentes n&iacute;veis    educacionais, demonstrando a todos que suas inten&ccedil;&otilde;es s&atilde;o    apenas a de estudar e n&atilde;o a de explor&aacute;-las para &quot;fins industriais&quot;.    </font></p>     <p><font size="3">No artigo 11, al&iacute;nea d, cabe ao Conselho de Gest&atilde;o    a responsabilidade de criar crit&eacute;rios para montar uma base de dados para    o registro de informa&ccedil;&atilde;o sobre &quot;conhecimento tradicional    associado&quot;. No entanto, dada a sua composi&ccedil;&atilde;o, o CGEN n&atilde;o    tem qualifica&ccedil;&atilde;o t&eacute;cnica para exercer tal fun&ccedil;&atilde;o    porque, no mundo inteiro, quem gerencia cole&ccedil;&otilde;es s&atilde;o os    cientistas.</font></p>     <p><font size="3"><b>A PSEUDO-PROTE&Ccedil;&Atilde;O A COMUNIDADES LOCAIS</b>    O Cap&iacute;tulo III da Medida Provis&oacute;ria lida com a Prote&ccedil;&atilde;o    ao Conhecimento Tradicional Associado, isto &eacute;, com os direitos de propriedade    intelectual das comunidades ind&iacute;genas e comunidades locais &quot;contra    a utiliza&ccedil;&atilde;o e explora&ccedil;&atilde;o il&iacute;cita e outras    a&ccedil;&otilde;es lesivas ou n&atilde;o autorizadas pelo CGEN&quot;, dispondo    no Artigo 8º, §1º, que <i>&quot;o Estado reconhece o direito das comunidades    ind&iacute;genas e das comunidades locais para decidir o uso de seus conhecimentos    tradicionais associados ao patrim&ocirc;nio gen&eacute;tico do Pa&iacute;s&quot;</i>.    Como ir&aacute; uma comunidade local sem educa&ccedil;&atilde;o ou m&iacute;nimos    conhecimentos cient&iacute;ficos discernir sobre o uso desses conhecimentos?    De outra parte, qual &eacute; o cientista que sabe de antem&atilde;o que o denominado    &quot;conhecimento tradicional associado&quot; funciona mesmo para alguma coisa?    E se o cientista desenvolver esse conhecimento usando modernas t&eacute;cnicas,    certamente desconhecidas das comunidades ind&iacute;genas, qual a prote&ccedil;&atilde;o    que se d&aacute; a ele que tamb&eacute;m agregou conhecimento &agrave;quele    &quot;tradicional associado&quot;? Complica-se ainda mais o quadro quando se    l&ecirc; no Artigo 9º que as comunidades, ind&iacute;gena ou local, t&ecirc;m    o direito, em rela&ccedil;&atilde;o ao conhecimento tradicional associado, de    impedir terceiros n&atilde;o autorizados a utilizar, experimentar, pesquisar,    explorar, divulgar, transmitir, retransmitir dados e informa&ccedil;&otilde;es,    cabendo a titularidade a toda a comunidade, ainda que apenas um indiv&iacute;duo,    membro dessa comunidade, detenha esse conhecimento. Qual filogenia &eacute;tnica    provar&aacute; que uma pessoa realmente perten&ccedil;a a uma comunidade e n&atilde;o    &agrave; outra distante a alguns quil&ocirc;metros? Finalmente, o Artigo 11,    inciso IV, al&iacute;nea b d&aacute; poderes ao CGEN de autorizar o acesso a    conhecimento tradicional associado, mediante &quot;anu&ecirc;ncia pr&eacute;via    de seu titular&quot;, inviabilizando pesquisas biol&oacute;gicas e antropol&oacute;gicas    nas &aacute;reas ind&iacute;genas. A lei das comunidades ind&iacute;genas n&atilde;o    &eacute; nossa lei, uma vez que cada tribo tem um conjunto de normas legais,    isso quando a lei n&atilde;o &eacute; express&atilde;o da simples vontade dos    caciques. Na pr&aacute;tica, a burocracia associada a essas disposi&ccedil;&otilde;es    tende a crescer de maneira difusa, inviabilizando a pesquisa, pois, como se    sabe, o cientista n&atilde;o tem atr&aacute;s de si competentes estruturas administrativas    que o protejam de tanto zelo c&iacute;vico. Diante de tantos meandros o cientista    simplesmente p&aacute;ra e o conhecimento tradicional associado continua tradicional    para sempre. Enquanto isso, cientistas de qualquer pa&iacute;s que disponham    de grande quantidade de recursos, se quiserem, podem ir a pa&iacute;ses vizinhos    e coletar as amostras de que precisam. </font></p>     <p><font size="3">Esclare&ccedil;a-se que o &quot;patrim&ocirc;nio gen&eacute;tico    nacional&quot; n&atilde;o &eacute; s&oacute; nosso, mas existe igualmente nos    pa&iacute;ses vizinhos. Quando n&atilde;o existe, an&aacute;lises evolutivas    permitem avaliar com razo&aacute;vel grau de precis&atilde;o o que existe dentro    das &aacute;reas de circula&ccedil;&atilde;o proibida. Uma seq&uuml;&ecirc;ncia    de intermedi&aacute;rios qu&iacute;micos sintetizados por uma planta – conseq&uuml;&ecirc;ncia    direta da exist&ecirc;ncia de genes que codificam enzimas espec&iacute;ficas    de uma via metab&oacute;lica – d&aacute; a qualquer cientista uma boa id&eacute;ia    das diverg&ecirc;ncias ocorridas durante a evolu&ccedil;&atilde;o e permite    que ele sintetize tudo em laborat&oacute;rio – mol&eacute;culas conhecidas e    mol&eacute;culas de estrutura deduzida – usando qu&iacute;mica.</font></p>     <p><font size="3"><b>O ARREMATE DA LEI </b> Finalmente, o Cap&iacute;tulo V, amarrando    tudo, com um gigantesco n&oacute; burocr&aacute;tico, reza:</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<blockquote>        <p><font size="3"><i>Artigo 16 – O acesso a componente do patrim&ocirc;nio gen&eacute;tico      existente em condi&ccedil;&otilde;es </i>in situ<i> no territ&oacute;rio nacional,      na plataforma continental e na zona econ&ocirc;mica exclusiva, e ao conhecimento      tradicional associado far-se-&aacute; mediante coleta de amostra e de informa&ccedil;&atilde;o,      respectivamente, e somente ser&aacute; autorizada a institui&ccedil;&atilde;o      nacional, p&uacute;blica ou privada, que exer&ccedil;a atividades de pesquisa      e desenvolvimento nas &aacute;reas biol&oacute;gicas e afins, mediante pr&eacute;via      autoriza&ccedil;&atilde;o, na forma desta Medida Provis&oacute;ria. </i></font></p> </blockquote>     <p><font size="3">Por este artigo, qualquer amostra ou informa&ccedil;&atilde;o    somente pode ser coletada: (1) cadastrando as institui&ccedil;&otilde;es; (2)    submetendo &agrave; aprova&ccedil;&atilde;o projetos individuais, tantos quantos    necess&aacute;rios, informando o que ser&aacute; coletado, quando e onde; (3)    documentando a autoriza&ccedil;&atilde;o dos propriet&aacute;rios da terra.    Quem conhece o funcionamento das institui&ccedil;&otilde;es nacionais sabe que    o disposto nesse artigo significa a paralisia da pesquisa. </font></p>     <p><font size="3"><b>A LEI 5.197/67 – C&Oacute;DIGO DE CA&Ccedil;A</b> O artigo    14 dessa lei que n&atilde;o foi revogada disp&otilde;e que &quot;poder&aacute;    ser concedida a cientistas, pertencentes a institui&ccedil;&otilde;es cient&iacute;ficas    oficiais ou oficializadas, ou por estas indicadas, licen&ccedil;a especial para    a coleta de material destinado a fins cient&iacute;ficos... Em seu § 4º o artigo    disp&otilde;e ainda: &quot;Aos cientistas das institui&ccedil;&otilde;es nacionais    que tenham, por Lei, a atribui&ccedil;&atilde;o de coletar material zool&oacute;gico,    para fins cient&iacute;ficos, ser&atilde;o concedidas licen&ccedil;as permanentes&quot;.    Essa lei foi regulamentada pela Portaria nº 332 de 13/03/1990 do Ibama que decidiu    n&atilde;o conceder licen&ccedil;as permanentes.</font></p>     <p><font size="3">Manifestando-se sobre se a licen&ccedil;a ao cientista deva    ser tempor&aacute;ria ou permanente, Antunes (1)em iluminado parecer assim escreve,    <i>in verbis</i>: &quot;&Eacute; de se observar que a licen&ccedil;a da qual    ora tratamos n&atilde;o &eacute; uma licen&ccedil;a outorgada a particulares    com a finalidade de exerc&iacute;cio de atividades privadas. N&atilde;o. No    caso espec&iacute;fico, cuida-se de uma licen&ccedil;a para o exerc&iacute;cio    de uma atividade que possui uma d&uacute;plice fun&ccedil;&atilde;o. A primeira    &eacute; a de atividade laborativa capaz de assegurar a sobreviv&ecirc;ncia    de um indiv&iacute;duo (ou seja, o profissional cientista). A segunda finalidade    &eacute; a do aprimoramento cient&iacute;fico do Pa&iacute;s. Ambas as finalidades    merecem prote&ccedil;&atilde;o constitucional (Constitui&ccedil;&atilde;o Federal,    artigo 5º, IX e XIII, artigo 218, § 1º)&quot;.</font></p>     <p><font size="3"><b>CONCLUS&Atilde;O</b> Para que o leitor acompanhe o racioc&iacute;nio,    reproduzo os artigos mencionados da Constitui&ccedil;&atilde;o Federal:</font></p>     <blockquote>        <p><font size="3"><i>Artigo 5º - Todos s&atilde;o iguais perante a lei, sem      distin&ccedil;&atilde;o de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros      e aos estrangeiros residentes no Pa&iacute;s a inviolabilidade do direito      &agrave; vida, &agrave; liberdade, &agrave; igualdade, &agrave; seguran&ccedil;a      e &agrave; propriedade, nos termos seguintes:</i></font></p>       <p><font size="3"><i>IX – &eacute; livre a express&atilde;o da atividade intelectual,      art&iacute;stica, cient&iacute;fica e de comunica&ccedil;&atilde;o, independentemente      de censura ou licen&ccedil;a;</i></font></p>       <p><font size="3"><i>XIII – &eacute; livre o exerc&iacute;cio de qualquer trabalho,      of&iacute;cio ou profiss&atilde;o, atendidas as qualifica&ccedil;&otilde;es      profissionais que a lei estabelecer;</i></font></p>       ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3"><i>Artigo 218 – O Estado promover&aacute; e incentivar&aacute;      o desenvolvimento cient&iacute;fico, a pesquisa e a capacita&ccedil;&atilde;o      tecnol&oacute;gicas.</i></font></p>       <p><font size="3"><i>§1º - A pesquisa cient&iacute;fica b&aacute;sica receber&aacute;      tratamento priorit&aacute;rio do Estado, tendo em vista o bem p&uacute;blico      e o progresso das ci&ecirc;ncias.</i></font></p> </blockquote>     <p><font size="3">A aplica&ccedil;&atilde;o da Medida Provis&oacute;ria est&aacute;    inviabilizando a pesquisa de campo e o estudo da biodiversidade brasileira.    Al&eacute;m de ser extremamente burocratizante ela interpreta com extremado    zelo o disposto no inciso II §1º do artigo 225 da Constitui&ccedil;&atilde;o    Federal e n&atilde;o leva em considera&ccedil;&atilde;o a forma de trabalho    dos cientistas acabando por dificult&aacute;-lo ou impedi-lo. Estudar e aprimorar    o conhecimento &eacute; um dever e um direito subjetivo dos cientistas. Esse    direito preexiste &agrave;s normas que lhe concedem licen&ccedil;a. N&atilde;o    &eacute; a concess&atilde;o da licen&ccedil;a que constitui o direito, mas apenas    o declara. Por isso, o ato administrativo de conceder licen&ccedil;as n&atilde;o    pode tolher o direito de trabalho de um cientista.</font></p>     <p><font size="3">Antes que essa Medida Provis&oacute;ria se transforme em lei    h&aacute; que revis&aacute;-la muito bem. &Eacute; &oacute;bvio que uma explora&ccedil;&atilde;o    da biodiversidade com fins declaradamente lucrativos deve ser monitorada. &Eacute;    &oacute;bvio tamb&eacute;m que o lucro eventualmente resultante de um projeto    deve ser compartilhado com as comunidades ind&iacute;genas e locais. Mas a legisla&ccedil;&atilde;o    tem que ser adequada porque 99,9% dos projetos t&ecirc;m a &uacute;nica finalidade    de aprimorar o conhecimento e n&atilde;o resultam em lucro. De outra parte,    o plen&aacute;rio da CGEN deve ser constitu&iacute;do de uma maioria de cientistas    do mais alto n&iacute;vel aparelhada para discriminar sobre a natureza dos projetos.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3"><i><b>Walter Colli</b> &eacute; professor    titular do Departamento de Bioqu&iacute;mica do Instituto de Qu&iacute;mica    da Universidade de S&atilde;o Paulo (USP) e presidente da Academia de Ci&ecirc;ncias    do Estado de S&atilde;o Paulo</i></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b><font size="3">Refer&ecirc;ncia bibliogr&aacute;fica</font></b></p>     <!-- ref --><p><font size="3">1. Antunes, P.B., <i>In</i>: <i>Direito Ambiental</i>, Rio de    Janeiro, L&uacute;men J&uacute;ris, pp. 657. 2001.</font> ]]></body><back>
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