<?xml version="1.0" encoding="ISO-8859-1"?><article xmlns:mml="http://www.w3.org/1998/Math/MathML" xmlns:xlink="http://www.w3.org/1999/xlink" xmlns:xsi="http://www.w3.org/2001/XMLSchema-instance">
<front>
<journal-meta>
<journal-id>0009-6725</journal-id>
<journal-title><![CDATA[Ciência e Cultura]]></journal-title>
<abbrev-journal-title><![CDATA[Cienc. Cult.]]></abbrev-journal-title>
<issn>0009-6725</issn>
<publisher>
<publisher-name><![CDATA[Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência]]></publisher-name>
</publisher>
</journal-meta>
<article-meta>
<article-id>S0009-67252003000400003</article-id>
<title-group>
<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Mundo atual e subjetividade: um desafio ao psicanalista]]></article-title>
</title-group>
<contrib-group>
<contrib contrib-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Giovannetti]]></surname>
<given-names><![CDATA[Marcio de F.]]></given-names>
</name>
<xref ref-type="aff" rid="A01"/>
</contrib>
</contrib-group>
<aff id="A01">
<institution><![CDATA[,Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo  ]]></institution>
<addr-line><![CDATA[ ]]></addr-line>
</aff>
<pub-date pub-type="pub">
<day>00</day>
<month>12</month>
<year>2003</year>
</pub-date>
<pub-date pub-type="epub">
<day>00</day>
<month>12</month>
<year>2003</year>
</pub-date>
<volume>55</volume>
<numero>4</numero>
<fpage>4</fpage>
<lpage>5</lpage>
<copyright-statement/>
<copyright-year/>
<self-uri xlink:href="http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=S0009-67252003000400003&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri><self-uri xlink:href="http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?script=sci_abstract&amp;pid=S0009-67252003000400003&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri><self-uri xlink:href="http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?script=sci_pdf&amp;pid=S0009-67252003000400003&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri></article-meta>
</front><body><![CDATA[ <P align="center"><img src="/img/revistas/cic/v55n4/a03img01.gif"></P>     <P>&nbsp;</P>     <P align="center"><FONT SIZE=5><b>Mundo atual e subjetividade: um desafio ao psicanalista    <br>   </b></FONT><i><b><FONT SIZE=3>Marcio de F. Giovannetti </FONT></b></i></P>     <P>&nbsp;</P>     <P>&nbsp;</P>     <P><FONT SIZE=5><b>O</b></FONT><FONT SIZE=3> que &eacute; o mundo atual? Dif&iacute;cil    de definir, o mundo. Mas a palavra atual nos coloca de chofre no centro da problem&aacute;tica    de hoje. Em que momento come&ccedil;a algo como o 'mundo atual'? No assassinato    do arquiduque em Sarajevo? Na Revolu&ccedil;&atilde;o Russa? No Reichstag? No    ataque a Pearl Harbor? Na bomba de Hiroshima? Na chegada do homem &agrave; lua,    coincidindo com a revolu&ccedil;&atilde;o sexual do Ocidente e os movimentos    feministas? Na conquista do espa&ccedil;o cibern&eacute;tico? Na queda do muro    de Berlim? Na globaliza&ccedil;&atilde;o econ&ocirc;mica? Na clonagem da ovelha    Dolly? Em 11 de setembro de 2001? </FONT></P>     <P><FONT SIZE=3>Se h&aacute; algo que permanece hoje em nosso mundo &eacute; a    id&eacute;ia de p&oacute;s. Tudo o mais parece extremamente provis&oacute;rio.    A palavra atual parece significar hoje e apenas hoje. Aqui e agora. Ou melhor,    apenas agora, pois a pr&oacute;pria id&eacute;ia de "aqui" &eacute;    absolutamente question&aacute;vel diante da internet ou de um aparelho de televis&atilde;o.    Noite e dia parecem ser coisas de outros tempos, com todas as conseq&uuml;&ecirc;ncias    que isso traz para o animal humano, sonhador e dependente que &eacute; de seus    sonhos, conforme nos mostrou Freud no in&iacute;cio do s&eacute;culo XX. N&atilde;o    por acaso, surge algu&eacute;m como Paul Virilio, um estudioso da velocidade,    que trabalhando com as quest&otilde;es relacionadas &agrave;s cat&aacute;strofes,    acaba por criar o conceito de est&eacute;tica do desaparecimento para caracterizar    a perspectiva desse momento hist&oacute;rico. Em uma palavra, poder&iacute;amos    dizer que o que h&aacute; de mais caracter&iacute;stico no mundo de hoje &eacute;    o desaparecimento da perman&ecirc;ncia. Tudo se volatiliza. Tudo &eacute; descart&aacute;vel.    Mas, paradoxalmente, h&aacute; um aumento da expectativa do tempo da vida humana.    Quanto mais tempo vive o homem, menor o tempo de cada uma de suas coisas, sejam    elas artefatos, produ&ccedil;&otilde;es culturais ou conceitos cient&iacute;ficos.    Ser estranho esse, o homem...</FONT></P>     <P>&nbsp;</P>     <P align="center"><img src="/img/revistas/cic/v55n4/a03fig01.gif"></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<P>&nbsp;</P>     <P><FONT SIZE=3>Temos algo que se aproxima a uma id&eacute;ia, a uma defini&ccedil;&atilde;o    de mundo atual: &eacute; o mundo cujo criador &eacute; o homem. Come&ccedil;a-se    a escrever um "Nov&iacute;ssimo Testamento". Por isso a prolifera&ccedil;&atilde;o    de novas religi&otilde;es e uma reafirma&ccedil;&atilde;o fundamentalista das    antigas. Por isso o aparecimento di&aacute;rio de novos profetas sejam eles    &agrave; moda antiga ou travestidos de &iacute;dolos televisivos ou de fil&oacute;sofos    da p&oacute;s-modernidade. Quando Walter Benjamin contrap&ocirc;s a not&iacute;cia    do jornal &agrave; narrativa hist&oacute;rica, n&atilde;o tinha a m&iacute;nima    id&eacute;ia de que hoje a narrativa jornal&iacute;stica, por ter a dura&ccedil;&atilde;o    de 24 horas, chega a ser quase que cl&aacute;ssica se comparada aos notici&aacute;rios    "ao vivo" de nossas TVs e &agrave;s not&iacute;cias de &uacute;ltima    hora da internet. Em minutos, criamos e destru&iacute;mos um peda&ccedil;o deste    novo mundo, admir&aacute;vel como o nomeou Aldous Huxley. Mas apenas admir&aacute;vel:    uma miragem imposs&iacute;vel de ser usufru&iacute;da, digerida. Pois as alucina&ccedil;&otilde;es    s&oacute; satisfazem os desejos e as necessidades por um curto per&iacute;odo    de tempo.</FONT></P>     <P><FONT SIZE=3>Desse ponto de vista, causa mesmo estranheza que as torres g&ecirc;meas    de Nova York tenham durado tr&ecirc;s d&eacute;cadas: 30 anos s&atilde;o sempre    um tempo demasiado longo para toda e qualquer alucina&ccedil;&atilde;o. O cart&atilde;o    postal de Nova York jamais ser&aacute; o mesmo depois de 11 de setembro de 2001.    Mas era apenas um cart&atilde;o postal, &eacute; necess&aacute;rio enfatizar.    Nunca encontramos na vida real as imagens de cart&atilde;o postal, isso j&aacute;    o sab&iacute;amos. Ela &eacute; sempre mais feia, mais dura que nossos sonhos.    H&aacute; sempre que questionar as fachadas dos sonhos, nos alertou Freud. H&aacute;    sempre que ver o seu reverso. Mesmo assim, h&aacute; sempre o seu umbigo, aquele    ponto no qual sua capacidade representacional da vida de cada um de n&oacute;s    se perde na vida grupal e, para mais al&eacute;m, na vida da esp&eacute;cie.    Animal estranho o homem, esse b&iacute;pede que ap&oacute;ia uma perna em seu    narcisismo e a outra em seu socialismo, uma em sua ontog&ecirc;nese e a outra    em sua filog&ecirc;nese; que come&ccedil;ou sua vida num ambiente aq&uuml;oso    e a continua em um ambiente terrestre. Mas sempre visando aos c&eacute;us, lugar    das certezas.</FONT></P>     <P><FONT SIZE=3>Como no reverso de um parto de g&ecirc;meos, onde um aparece primeiro    e depois o outro, aqui se tratava do desaparecimento de um e depois, do outro.    Foi a seq&uuml;&ecirc;ncia inicial do filme <i>2001: Uma odiss&eacute;ia no    espa&ccedil;o</i> filmada ao reverso. Realizado no final dos anos 1960, no filme    de Kubrick o ano de 2001 nos era apresentado pela transforma&ccedil;&atilde;o    de uma ossada atirada ao alto por um macaco em uma nave espacial. O 2001 real    nos foi apresentado com a transforma&ccedil;&atilde;o da nave em uma arma de    guerra. E o fundo musical n&atilde;o era Strauss. O vozerio humano de 2001 n&atilde;o    era muito diferente das emiss&otilde;es sonoras dos macacos do in&iacute;cio    da civiliza&ccedil;&atilde;o ao se depararem com o monolito negro do filme de    Kubrick. O contraste: l&aacute; e ent&atilde;o se tratava do nascimento da civiliza&ccedil;&atilde;o.    Agora se tratava do confronto explosivo de nossas culturas.</FONT></P>     <P><FONT SIZE=3>Menos de um m&ecirc;s depois, novas imagens t&atilde;o chocantes    quanto aquelas: clar&otilde;es provocados por m&iacute;sseis de US$ 2 milh&otilde;es    cada, explodindo sobre um terreno des&eacute;rtico, rochoso. Muito parecido    com o terreno filmado por Kubrick do ano zero da civiliza&ccedil;&atilde;o.    Nunca foi t&atilde;o evidente que o homem &eacute; como uma rocha, resistindo    sempre &agrave; castra&ccedil;&atilde;o simb&oacute;lica. E que se mutila desenfreadamente,    sendo ainda a mais letal das armas de guerra, a mais eficiente delas, seja ele    ocidental ou oriental, fundamentalista religioso ou ateu.</FONT></P>     <P><FONT SIZE=3>A primeira bomba at&ocirc;mica, jogada sobre duas cidades g&ecirc;meas,    Hiroshima e Nagasaki, em 1945, encerrou todas as guerras. As radia&ccedil;&otilde;es    por ela emitidas deram in&iacute;cio a um novo estilo de viol&ecirc;ncia que    se tem manifestado em diferentes formas, locais e registros. Esse foi o alerta    que Alain Resnais nos fez, ainda no in&iacute;cio dos anos 1960, ao chamar seu    mais pol&ecirc;mico filme de <i>Hiroshima, mon amour</i>, impactando a n&oacute;s    todos com a justaposi&ccedil;&atilde;o das palavras Hiroshima e amor, significantes    t&atilde;o antit&eacute;ticos e ao mesmo tempo t&atilde;o reveladores de nossa    est&eacute;tica e de nossa &eacute;tica modernas. </FONT></P>     <P><FONT SIZE=3>Neste mundo atual, do "Nov&iacute;ssimo Testamento",    tudo &eacute; provis&oacute;rio. Permanente mesmo &eacute; a mis&eacute;ria    humana. Estranho animal o homem: andando sempre em c&iacute;rculos, desgovernado,    explodindo rochas e cidades, exilado de fronteira alguma, expondo suas feridas    sem o menor pudor, encontrando sempre uma forma de transformar seu bem maior,    suas culturas, em ferramentas de guerra e de terror. S&oacute; h&aacute; uma    palavra para nomear nosso sentimento diante de nossa pr&oacute;pria imagem:    perplexidade. </FONT></P>     <P><FONT SIZE=3>Nossos tratados de psicopatologia pouco nos servem agora. Como    falar de sanidade e loucura neste aqui e agora? Tampouco nos s&atilde;o de muita    ajuda nossos tratados legais, nossos c&oacute;digos de leis. Como legislar sobre    a fam&iacute;lia e os parentescos ou sobre as doa&ccedil;&otilde;es de &oacute;rg&atilde;os    de um indiv&iacute;duo para outro &eacute; a quest&atilde;o de ordem para advogados    e ju&iacute;zes do mundo todo. Sem falar no debate intenso girando em torno    das clonagens. O escravagismo assumiu tamb&eacute;m outras formas: a quem pertence    um determinado corpo humano &eacute; quest&atilde;o central emergente neste    momento em que determinados &oacute;rg&atilde;os j&aacute; podem ser permutados.    Ou vendidos. Em que o &uacute;tero de uma mulher pode ser utilizado para receber    embri&otilde;es fecundados <i>in vitro</i> ou criados a partir de uma c&eacute;lula    epid&eacute;rmica.</FONT></P>     <P><FONT SIZE=3>Qual a subjetividade para o s&eacute;culo XXI? Se no in&iacute;cio    s&eacute;culo XX, Freud chocou o mundo cient&iacute;fico ao descrever o homem    sendo movido por suas paix&otilde;es inconscientes, conceituando o sujeito desejante    e enfatizando a natureza traum&aacute;tica de sua sexualidade e de sua identidade,    &eacute; fundamental que o psicanalista de hoje possa repensar, a partir do    contexto atual, a subjetividade emergente neste novo s&eacute;culo. Como fica    a teoria dos sonhos cl&aacute;ssica quando a mais natural das fronteiras, aquela    entre o dia e a noite, est&aacute; apagada pelo uso sistem&aacute;tico da internet?    Como fica a problem&aacute;tica da identidade e do sujeito quando as fronteiras    geogr&aacute;ficas se diluem no espa&ccedil;o cibern&eacute;tico? O achatamento    do imagin&aacute;rio decorrente do excessivo bombardeio imag&eacute;tico a que    toda pessoa &eacute; submetida configura o trauma do novo sujeito: n&atilde;o    mais sexual, o trauma fundador da nova subjetividade &eacute; informacional.    </FONT></P>     <P><FONT SIZE=3>Se h&aacute; 100 anos o foco da psican&aacute;lise era colocado    na sedu&ccedil;&atilde;o traum&aacute;tica constitutiva do sujeito, hoje &eacute;    necess&aacute;rio que ele se desloque para o impacto traum&aacute;tico provocado    pelas imagens midi&aacute;ticas na constitui&ccedil;&atilde;o de todo sujeito.    Se Hanna Arendt nos alertava nos meados do s&eacute;culo XX para a "banaliza&ccedil;&atilde;o    do mal", o alerta que deve ser lan&ccedil;ado agora diz respeito &agrave;    banaliza&ccedil;&atilde;o <i>tout court</i>: com a dilui&ccedil;&atilde;o das    fronteiras e com a inunda&ccedil;&atilde;o imag&eacute;tica, a espessura e a    densidade necess&aacute;rias &agrave; constitui&ccedil;&atilde;o de uma identidade    singular e privada desaparecem na mesma propor&ccedil;&atilde;o em que a velocidade    das trocas efetuadas entre o mundo externo e o mundo interno &eacute; feita.    </FONT></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<P><FONT SIZE=3>Portanto n&atilde;o &eacute; de se estranhar que os correspondentes    cl&iacute;nicos atuais da neurose de antigamente sejam a anorexia, a bulimia,    a depress&atilde;o difusa e a indefini&ccedil;&atilde;o de metas de vida. Todos    eles denunciando que os mecanismos de troca entre um interior e um exterior    est&atilde;o afetados ou impossibilitados de existir.</FONT></P>     <P><FONT SIZE=3>N&oacute;s, psicanalistas, temos alguma experi&ecirc;ncia em trabalhar    com a provisoreidade dos conceitos, com o aqui e o agora, em que nem o aqui    &eacute; necessariamente o lugar onde estamos nem o agora &eacute; o tempo marcado    pelo calend&aacute;rio. Portanto, &eacute; mais do que hora de sairmos de nossos    consult&oacute;rios e levarmos um pouco da experi&ecirc;ncia a&iacute; adquirida    para o mundo de fora. N&atilde;o para diagnostic&aacute;-lo, nem tampouco trat&aacute;-lo.    Mas para tentarmos pens&aacute;-lo. Juntamente com os demais ramos das humanidades.    Pois nunca ficou t&atilde;o evidente quanto agora a estranheza do homem e do    mundo.</FONT></P>     <P>&nbsp;</P>     <P><FONT SIZE=3><i><b>Marcio de F. Giovannetti</b> &eacute; psicanalista e presidente    da Sociedade Brasileira de Psican&aacute;lise de S&atilde;o Paulo.</i></FONT></P>      ]]></body>
</article>
