<?xml version="1.0" encoding="ISO-8859-1"?><article xmlns:mml="http://www.w3.org/1998/Math/MathML" xmlns:xlink="http://www.w3.org/1999/xlink" xmlns:xsi="http://www.w3.org/2001/XMLSchema-instance">
<front>
<journal-meta>
<journal-id>0009-6725</journal-id>
<journal-title><![CDATA[Ciência e Cultura]]></journal-title>
<abbrev-journal-title><![CDATA[Cienc. Cult.]]></abbrev-journal-title>
<issn>0009-6725</issn>
<publisher>
<publisher-name><![CDATA[Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência]]></publisher-name>
</publisher>
</journal-meta>
<article-meta>
<article-id>S0009-67252003000400022</article-id>
<title-group>
<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Desafios e potencialidades dos comitês de bacias hidrográficas]]></article-title>
</title-group>
<contrib-group>
<contrib contrib-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Cardoso]]></surname>
<given-names><![CDATA[Maria Lúcia de Macedo]]></given-names>
</name>
<xref ref-type="aff" rid="A01"/>
<xref ref-type="aff" rid="A02"/>
</contrib>
</contrib-group>
<aff id="A01">
<institution><![CDATA[,Projeto Marca d'Água  ]]></institution>
<addr-line><![CDATA[ ]]></addr-line>
</aff>
<aff id="A02">
<institution><![CDATA[,ActionAid Brasil  ]]></institution>
<addr-line><![CDATA[ ]]></addr-line>
</aff>
<pub-date pub-type="pub">
<day>00</day>
<month>12</month>
<year>2003</year>
</pub-date>
<pub-date pub-type="epub">
<day>00</day>
<month>12</month>
<year>2003</year>
</pub-date>
<volume>55</volume>
<numero>4</numero>
<fpage>40</fpage>
<lpage>41</lpage>
<copyright-statement/>
<copyright-year/>
<self-uri xlink:href="http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=S0009-67252003000400022&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri><self-uri xlink:href="http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?script=sci_abstract&amp;pid=S0009-67252003000400022&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri><self-uri xlink:href="http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?script=sci_pdf&amp;pid=S0009-67252003000400022&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri></article-meta>
</front><body><![CDATA[ <P align="center"><img src="/img/revistas/cic/v55n4/a16img01.gif"></P>     <P>&nbsp;</P>     <P><FONT SIZE=5><b>D<small>ESAFIOS E POTENCIALIDADES DOS COMIT&Ecirc;S DE BACIAS    HIDROGR&Aacute;FICAS</small></b></FONT></P>     <P><FONT SIZE=3><b>Maria L&uacute;cia de Macedo Cardoso</b></FONT></P>     <P>&nbsp;</P>     <P><font size=5><b>A</b></font><FONT SIZE=3> pol&iacute;tica nacional de recursos    h&iacute;dricos, calcada nos princ&iacute;pios da descentraliza&ccedil;&atilde;o    e da participa&ccedil;&atilde;o, instituiu a bacia hidrogr&aacute;fica como    unidade de gest&atilde;o. Para tanto, foi idealizado o 'Comit&ecirc; de Bacia    Hidrogr&aacute;fica', &oacute;rg&atilde;o colegiado formado por representantes    da sociedade civil e do poder p&uacute;blico. Com car&aacute;ter normativo,    deliberativo e jurisdicional, trata-se de um &oacute;rg&atilde;o p&uacute;blico,    mantido por recursos p&uacute;blicos e vinculado organicamente &agrave; estrutura    administrativa de um estado, do Distrito Federal ou da Uni&atilde;o (1).</FONT></P>     <P><FONT SIZE=3>Existem comit&ecirc;s de rios federais que est&atilde;o vinculados    diretamente &agrave; Secretaria de Recursos H&iacute;dricos (SRH), e os comit&ecirc;s    de rios estaduais vinculados aos &oacute;rg&atilde;os de gest&atilde;o dos estados.    Atualmente, existem comit&ecirc;s de bacias hidrogr&aacute;ficas muito pequenas,    como a do rio Mosquito, por exemplo, ao norte de Minas Gerais, que abrange a    &aacute;rea de tr&ecirc;s munic&iacute;pios, at&eacute; comit&ecirc;s das grandes    bacias como as do rio Para&iacute;ba do Sul, S&atilde;o Francisco e Doce, que    envolvem diversos estados e um grande n&uacute;mero de munic&iacute;pios. Encontram-se    ainda comit&ecirc;s de trechos ou afluentes de um rio que est&atilde;o dentro    do territ&oacute;rio de um estado. Atualmente existem 93 comit&ecirc;s de bacias    estaduais institu&iacute;dos em todo pa&iacute;s, distribu&iacute;dos em dez    estados, al&eacute;m de seis comit&ecirc;s de bacias de rios estaduais. S&atilde;o    Paulo &eacute; o estado que possui um n&uacute;mero maior, com 22 comit&ecirc;s;    seguido de Minas Gerais, que possui 17; e Rio Grande do Sul, com 16 (2).</FONT></P>     <P><FONT SIZE=3>O Comit&ecirc; de Bacia Hidrogr&aacute;fica est&aacute; composto    pelos tr&ecirc;s setores: representantes do poder p&uacute;blico (Uni&atilde;o,    estados, Distrito Federal e munic&iacute;pios, conforme a abrang&ecirc;ncia    da bacia), usu&aacute;rios das &aacute;guas e organiza&ccedil;&otilde;es da    sociedade civil ligadas a recursos h&iacute;dricos. O n&uacute;mero de representantes    de cada 'setor' e os crit&eacute;rios para sua indica&ccedil;&atilde;o s&atilde;o    estabelecidos nos regimentos internos dos pr&oacute;prios comit&ecirc;s (algumas    leis estaduais tamb&eacute;m explicitam esta composi&ccedil;&atilde;o), limitando    a representa&ccedil;&atilde;o dos poderes executivos &agrave; metade do total    de membros.</FONT></P>     <P><FONT SIZE=3>Essas organiza&ccedil;&otilde;es desempenham um papel estrat&eacute;gico    na pol&iacute;tica nacional de recursos h&iacute;dricos. Por um lado, sintetizam    os princ&iacute;pios da lei: s&atilde;o os &oacute;rg&atilde;os que materializam    a descentraliza&ccedil;&atilde;o da gest&atilde;o, contam com a participa&ccedil;&atilde;o    dos tr&ecirc;s setores da sociedade e t&ecirc;m a bacia hidrogr&aacute;fica    como unidade de gest&atilde;o. Assim, o &ecirc;xito de seu funcionamento em    certa medida significa o &ecirc;xito da pr&oacute;pria pol&iacute;tica das &aacute;guas.    Sua legitimidade tem sido conferida n&atilde;o apenas pela pr&oacute;pria lei    e pelas pol&iacute;ticas nacional e estaduais, mas por pol&iacute;ticas paralelas    que t&ecirc;m sido implementadas tanto no &acirc;mbito nacional como no estadual    e, em alguns casos, at&eacute; no municipal.</FONT></P>     <P><FONT SIZE=3><b>BACIA HIDROGR&Aacute;FICA: UM TERRIT&Oacute;RIO DESPROVIDO    DE IMAGEM E IDENTIDADE</b> Embora o conceito de bacia hidrogr&aacute;fica tenha    sido apropriado pelas geoci&ecirc;ncias, ganhou um novo estatuto na pol&iacute;tica    de recursos h&iacute;dricos, pelo fato de esse territ&oacute;rio ser considerado    a unidade de gest&atilde;o, isto &eacute;, como possuidor de um arcabou&ccedil;o    institucional pr&oacute;prio para administra&ccedil;&atilde;o e delibera&ccedil;&atilde;o    sobre o uso das &aacute;guas. Observa-se uma naturaliza&ccedil;&atilde;o da    bacia hidrogr&aacute;fica na implementa&ccedil;&atilde;o da pol&iacute;tica,    isto &eacute;, consider&aacute;-la como algo dado, que simplesmente as pessoas    t&ecirc;m que compreender o que &eacute;. Existe, no entanto, uma s&eacute;rie    de fragilidades na incorpora&ccedil;&atilde;o da bacia como unidade de gest&atilde;o.    </FONT></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<P><FONT SIZE=3>A bacia &eacute; um redelineamento territorial que se sobrep&otilde;e    &agrave;s divis&otilde;es pol&iacute;tico-administrativas tradicionais entre    munic&iacute;pios, estados e pa&iacute;ses. De antem&atilde;o, a cria&ccedil;&atilde;o    dessa nova unidade territorial de gest&atilde;o j&aacute; se aponta como um    potencial gerador de conflitos, particularmente em um pa&iacute;s como o Brasil    onde os munic&iacute;pios s&atilde;o unidades fortes em termos administrativos    e pol&iacute;ticos, refor&ccedil;ados pela pol&iacute;tica de descentraliza&ccedil;&atilde;o    impulsionada com a Constitui&ccedil;&atilde;o de 1988. Portanto, em certa medida    o comit&ecirc; vem na contra-corrente do fortalecimento do municipalismo, j&aacute;    que cria uma inst&acirc;ncia supramunicipal. Isso pode tanto gerar um choque    de poderes, como o comit&ecirc; pode ser visto como um espa&ccedil;o pol&iacute;tico    de disputa entre os munic&iacute;pios que delem fazem parte e, portanto, ficar    &agrave; merc&ecirc; das pr&aacute;ticas pol&iacute;ticas clientelistas tradicionais.    </FONT></P>     <P><FONT SIZE=3>Al&eacute;m do mais, alian&ccedil;as pol&iacute;ticas em torno    da &aacute;gua n&atilde;o necessariamente se estruturam a partir dessa organiza&ccedil;&atilde;o    geogr&aacute;fica. Problemas como escassez de &aacute;gua, seca, contamina&ccedil;&atilde;o    dos rios, constru&ccedil;&atilde;o de barragens, uso abusivo da &aacute;gua    para fins de irriga&ccedil;&atilde;o ou industrial, entre outros, facilmente    extrapolam os limites da bacia e, conseq&uuml;entemente, a configura&ccedil;&atilde;o    dos atores pol&iacute;ticos envolvidos tem outro formato. Por outro lado, as    identidades sociais e as &aacute;reas de atua&ccedil;&atilde;o das institui&ccedil;&otilde;es    seguem l&oacute;gicas pr&oacute;prias de recorte territorial que, embora muitas    vezes englobem v&aacute;rios munic&iacute;pios, dificilmente correspondem aos    limites de uma bacia hidrogr&aacute;fica.</FONT></P>     <P><FONT SIZE=3>N&atilde;o existe qualquer tipo de identidade social que corresponda    aos limites da bacia hidrogr&aacute;fica. A diversidade de atores que est&atilde;o    trabalhando na sua gest&atilde;o possui percep&ccedil;&otilde;es espaciais calcadas    em outras refer&ecirc;ncias territoriais; a refer&ecirc;ncia da bacia ter&aacute;    necessariamente que ser constru&iacute;da e disputada com as unidades e percep&ccedil;&otilde;es    j&aacute; existentes. No entanto, a maioria dos comit&ecirc;s d&aacute; pouca    import&acirc;ncia ao aspecto da constru&ccedil;&atilde;o simb&oacute;lica da    bacia. Um exemplo t&iacute;pico &eacute; a divulga&ccedil;&atilde;o de mapas    apenas com os rios ou com informa&ccedil;&otilde;es do tipo 'qualidade da &aacute;gua'    ou 'tipos de uso da &aacute;gua', sem que estejam inseridos os principais referenciais    geogr&aacute;ficos dos atores sociais envolvidos. Existem algumas iniciativas,    no entanto, que t&ecirc;m investido esfor&ccedil;os no sentido de criar uma    imagem da bacia como, por exemplo, a distribui&ccedil;&atilde;o de material    de divulga&ccedil;&atilde;o e a promo&ccedil;&atilde;o de eventos que percorrem    a bacia. Entretanto, h&aacute; uma diferen&ccedil;a grande em <i>reconhecer</i>    a &aacute;rea, e se <i>identificar</i> com ela. Pode-se realizar a&ccedil;&otilde;es    que busquem desenvolver a capacidade da popula&ccedil;&atilde;o de reconhecer    o que &eacute; uma bacia hidrogr&aacute;fica e se ela est&aacute; localizada    em seu territ&oacute;rio. No entanto, quando a proposta &eacute; que essa unidade    seja objeto de uma gest&atilde;o coletiva, &eacute; necess&aacute;rio que haja    um sentido que motive as pessoas e institui&ccedil;&otilde;es a participar desse    processo de gest&atilde;o.</FONT></P>     <P><FONT SIZE=3><b>AS FACES DA DESCENTRALIZA&Ccedil;&Atilde;O NA DEMOCRACIA DAS    &Aacute;GUAS</b> A quest&atilde;o da descentraliza&ccedil;&atilde;o tem se transformado    num novo paradigma para as organiza&ccedil;&otilde;es, onde se juntam as id&eacute;ias    de modernidade administrativa e de democratiza&ccedil;&atilde;o das tomadas    de decis&atilde;o. Da perspectiva das novas formas de governo e de administra&ccedil;&atilde;o    p&uacute;blica, significa a possibilidade de uma maior democratiza&ccedil;&atilde;o,    e de que o Estado assuma um novo papel, deixando &agrave;s comunidades e ao    capital privado a realiza&ccedil;&atilde;o de tarefas antes centralizadas por    ele mesmo.</FONT></P>     <P><FONT SIZE=3>Nesse sentido, a descentraliza&ccedil;&atilde;o proposta na pol&iacute;tica    nacional de recursos h&iacute;dricos se traduz, do ponto de vista institucional,    na cria&ccedil;&atilde;o de inst&acirc;ncias colegiadas (comit&ecirc;s e conselhos),    onde o poder de decis&atilde;o &eacute; dividido com tr&ecirc;s setores por    ela definidos: o poder p&uacute;blico, os usu&aacute;rios da &aacute;gua e a    sociedade civil, tirando das m&atilde;os do estado o monop&oacute;lio da gest&atilde;o    de um bem p&uacute;blico. No entanto, em que medida esses 'setores' definidos    na lei correspondem &agrave; forma como se constroem as alian&ccedil;as e identidades    locais ou mesmo como s&atilde;o estruturados os grupos de interesse em torno    da quest&atilde;o da &aacute;gua? Existem alguns casos que demonstram que as    alian&ccedil;as freq&uuml;entemente se constroem com outras l&oacute;gicas.    Um caso exemplar &eacute; o que ocorre no Cear&aacute;, onde o manejo da &aacute;gua    significa negociar a dimens&atilde;o da escassez. Diversos rios intermitentes    foram perenizados atrav&eacute;s de sistemas de a&ccedil;udes que implicam uma    complexa engenharia de controle da quantidade de &aacute;gua liberada no rio.    As alian&ccedil;as, no caso, se d&atilde;o entre aqueles que est&atilde;o no    mesmo trecho de um rio de modo a garantir uma vaz&atilde;o equilibrada entre    as diferentes regi&otilde;es (3).</FONT></P>     <P><FONT SIZE=3>Por outro lado, a interpreta&ccedil;&atilde;o do que &eacute;    poder p&uacute;blico, usu&aacute;rio e sociedade civil, &eacute; extremamente    variada, tanto que tem sido at&eacute; objeto de regulamenta&ccedil;&atilde;o    por parte de alguns governos estaduais, como no caso de Minas Gerais. Citemos    alguns exemplos que ocorrem freq&uuml;entemente com comit&ecirc;s de bacias.    Uma das principais cr&iacute;ticas, provenientes de organiza&ccedil;&otilde;es    da sociedade civil, &eacute; que empresas p&uacute;blicas de saneamento e de    energia el&eacute;trica, entram na categoria de usu&aacute;rios, quando geralmente    defendem interesses governamentais. A outra se refere a associa&ccedil;&otilde;es    e sindicatos, que entrariam inicialmente na categoria de sociedade civil quando    podem representar interesses de grandes usu&aacute;rios. H&aacute; ainda o caso    dos Conselhos Municipais e C&acirc;maras de Vereadores que, embora pertencendo    ao poder p&uacute;blico municipal, tamb&eacute;m podem ser considerados sociedade    civil. Essas interpreta&ccedil;&otilde;es variam conforme a articula&ccedil;&atilde;o    pol&iacute;tica dos atores envolvidos e do poder relativo que o comit&ecirc;    desempenhe na regi&atilde;o.</FONT></P>     <P><FONT SIZE=3>Outro aspecto apontado como uma das vantagens da descentraliza&ccedil;&atilde;o    &eacute; a autonomia financeiro-administrativa dos &oacute;rg&atilde;os descentralizados.    No caso dos comit&ecirc;s essa autonomia ainda est&aacute; longe de ser concretizada    e algumas propostas t&ecirc;m claramente apontado no sentido de cercear as possibilidades    de que efetivamente aconte&ccedil;a. A autonomia se exprime em poder de decis&atilde;o    sobre a gest&atilde;o da bacia, o que significa aplicar recursos, os quais ainda    s&atilde;o muito escassos. A defini&ccedil;&atilde;o da cobran&ccedil;a &eacute;    um ponto chave para que o comit&ecirc; exer&ccedil;a sua autonomia. Por outro    lado, pol&iacute;ticas governamentais que alocam recursos para determinado tipo    de interven&ccedil;&atilde;o, como para saneamento, limitam imensamente as possibilidades    do comit&ecirc; decidir quais s&atilde;o suas prioridades. A aus&ecirc;ncia    de uma personalidade jur&iacute;dica pr&oacute;pria (lembremos que o comit&ecirc;    &eacute; um &oacute;rg&atilde;o p&uacute;blico), tamb&eacute;m cerceia as alternativas    de busca de recursos. A autonomia se constr&oacute;i politicamente e, muitas    vezes, com subterf&uacute;gios legais, como a cria&ccedil;&atilde;o de institui&ccedil;&otilde;es    paralelas com personalidade jur&iacute;dica que possam assumir o papel de gestoras    de recursos, enquanto n&atilde;o &eacute; institu&iacute;da a cobran&ccedil;a    e s&atilde;o criadas as Ag&ecirc;ncias de &Aacute;gua para gerir a cobran&ccedil;a.</FONT></P>     <P><FONT SIZE=3><b>ALGUNS ARTIF&Iacute;CIOS DA PARTICIPA&Ccedil;&Atilde;O</b>    A id&eacute;ia de participa&ccedil;&atilde;o tem redimensionado n&atilde;o s&oacute;    as pol&iacute;ticas p&uacute;blicas, mas tem se tornado uma verdadeira panac&eacute;ia    nas organiza&ccedil;&otilde;es n&atilde;o governamentais e organismos internacionais,    e partidos pol&iacute;ticos de esquerda. Os comit&ecirc;s de Bacias, assim como    diversas outras inst&acirc;ncias criadas nessa concep&ccedil;&atilde;o, experimentam    uma s&eacute;rie de fragilidades para a participa&ccedil;&atilde;o de todos    os atores que dele fazem parte. </FONT></P>     <P><FONT SIZE=3>Um dos problemas &eacute; a cria&ccedil;&atilde;o de Comit&ecirc;s    por um mandato pol&iacute;tico. O ritmo imposto pelas gest&otilde;es pol&iacute;ticas    &eacute; muito diferente do ritmo das organiza&ccedil;&otilde;es da sociedade    civil, particularmente, daquelas representativas de grandes grupos como sindicatos    e associa&ccedil;&otilde;es, que freq&uuml;entemente reclamam falta de tempo    e condi&ccedil;&otilde;es de mobiliza&ccedil;&atilde;o de suas bases. Juntar    um grupo de entidades, com ou sem legitimidade na comunidade, criar um comit&ecirc;    para realizar determinadas a&ccedil;&otilde;es e dizer que o processo foi participativo,    &eacute; uma estrat&eacute;gia bastante f&aacute;cil de ser realizada e tamb&eacute;m    criticada.</FONT></P>     <P><FONT SIZE=3>Por sua vez, a implementa&ccedil;&atilde;o de uma pol&iacute;tica,    negociada dentro de uma estrutura de governo, n&atilde;o raro sofre influ&ecirc;ncia    de determinados grupos que podem vir a resistir duramente &agrave; cria&ccedil;&atilde;o    de espa&ccedil;os participativos. &Eacute; interessante o caso da Bahia, em    que o governo resiste veementemente em criar comit&ecirc;s, mas apenas associa&ccedil;&otilde;es    de usu&aacute;rios onde n&atilde;o est&atilde;o presentes organiza&ccedil;&otilde;es    da sociedade civil. H&aacute; ainda uma outra estrat&eacute;gia muito comum,    que &eacute; n&atilde;o negar frontalmente a participa&ccedil;&atilde;o, mas    min&aacute;-la atrav&eacute;s de subterf&uacute;gios que visam destituir de    poder os espa&ccedil;os participativos, tais como colocar uma maioria de participantes    da esfera p&uacute;blica, n&atilde;o convocar para reuni&otilde;es, n&atilde;o    'convidar' a participar organiza&ccedil;&otilde;es de oposi&ccedil;&atilde;o    ou contestat&aacute;rias, indicar representantes sem poder de tomar decis&atilde;o,    ou mesmo limitar as compet&ecirc;ncias da inst&acirc;ncia participativa. </FONT></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<P><FONT SIZE=3>No que tange ao discurso de t&eacute;cnicos, &eacute; muito freq&uuml;ente    que nas audi&ecirc;ncias p&uacute;blicas para apresentar os Planos Diretores    das Bacias, realizados por institui&ccedil;&otilde;es de pesquisa e empresas    de consultoria, aqueles que apresentam fa&ccedil;am-no de uma forma que simplesmente    inviabiliza sequer que se gere algum tipo de discuss&atilde;o, ou mesmo que    se levante d&uacute;vidas. </FONT></P>     <P><FONT SIZE=3>Al&eacute;m disso, o processo de municipaliza&ccedil;&atilde;o    levou &agrave; cria&ccedil;&atilde;o de tantas inst&acirc;ncias de participa&ccedil;&atilde;o    que, no caso de munic&iacute;pios pequenos, particularmente, acaba esgotando    os recursos humanos dispon&iacute;veis e a possibilidade de representa&ccedil;&atilde;o    das organiza&ccedil;&otilde;es existentes. Isso pode levar ao fortalecimento    de determinados atores, por participarem de diversas inst&acirc;ncias colegiadas,    ou ao simples esvaziamento do comit&ecirc; dada a sobrecarga dessas pessoas.    </FONT></P>     <P><FONT SIZE=3><b>CONSIDERA&Ccedil;&Otilde;ES FINAIS</b> Os desafios hoje enfrentados    pelos Comit&ecirc;s de Bacias Hidrogr&aacute;ficas s&atilde;o t&atilde;o grandes    quanto suas potencialidades. O processo pol&iacute;tico pr&oacute;prio que vem    sendo constru&iacute;do, evidentemente, vem carregado de velhos v&iacute;cios,    entretanto, sua pr&oacute;pria din&acirc;mica traz novos ares. </FONT></P>     <P><FONT SIZE=3>N&atilde;o cabe d&uacute;vida que os comit&ecirc;s j&aacute; est&atilde;o    contribuindo para fortalecer o papel dos diversos atores sociais na discuss&atilde;o    e cria&ccedil;&atilde;o de pol&iacute;ticas p&uacute;blicas que contemplem os    interesses de uma camada maior da popula&ccedil;&atilde;o. O que seria inadmiss&iacute;vel    &eacute; que reforcem as elites pol&iacute;ticas e ampliem as desigualdades.    Creio que cabe a todos – gestores e acad&ecirc;micos – estar atentos para os    rumos que venham a tomar.</FONT></P>     <P>&nbsp;</P>     <P><FONT SIZE=3><i><b>Maria L&uacute;cia de Macedo Cardoso</b> &eacute; doutora    em antropologia, pesquisadora do Projeto Marca d'&Aacute;gua e oficial de projetos    da ActionAid Brasil</i></FONT></P>     <P>&nbsp;</P>     <P>&nbsp;</P>     <P><FONT SIZE=3><b>Refer&ecirc;ncias bibliogr&aacute;ficas</b></FONT></P>     <!-- ref --><P><FONT SIZE=3>1. Mello, R. "A composi&ccedil;&atilde;o de representa&ccedil;&atilde;o    nos Comit&ecirc;s e Conselhos: a estrutura jur&iacute;dico-institucional dos    comit&ecirc;s" <i>in</i> Relato dos Trabalhos: 3º Encontro Nacional dos    Comit&ecirc;s de Bacias Hidrogr&aacute;ficas. Belo Horizonte. 2001.</FONT><!-- ref --><P><FONT SIZE=3>2. Cardoso, M. L. de M. A democracia das &aacute;guas na sua pr&aacute;tica:    o caso dos Comit&ecirc;s de Bacias Hidrogr&aacute;ficas de Minas Gerais. Tese    de doutorado em antropologia social, UFRJ/PPGAS/Museu Nacional. Rio de Janeiro.    2003.</FONT><!-- ref --><P><FONT SIZE=3>3. Garjulli, R. et alli. Projeto Marca d'&Aacute;gua - Relat&oacute;rio    final da fase I - Bacia Hidrogr&aacute;fica do Rio Jaguaribe - Cear&aacute;.    Projeto Marca d'&Aacute;gua. 2002. </FONT> ]]></body><back>
<ref-list>
<ref id="B1">
<label>1</label><nlm-citation citation-type="confpro">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Mello]]></surname>
<given-names><![CDATA[R.]]></given-names>
</name>
</person-group>
<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[A composição de representação nos Comitês e Conselhos: a estrutura jurídico-institucional dos comitês]]></article-title>
<source><![CDATA[Relato dos Trabalhos]]></source>
<year></year>
<conf-name><![CDATA[3 Encontro Nacional dos Comitês de Bacias Hidrográficas]]></conf-name>
<conf-date>2001</conf-date>
<conf-loc>Belo Horizonte </conf-loc>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B2">
<label>2</label><nlm-citation citation-type="">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Cardoso]]></surname>
<given-names><![CDATA[M. L. de M.]]></given-names>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[A democracia das águas na sua prática: o caso dos Comitês de Bacias Hidrográficas de Minas Gerais]]></source>
<year></year>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B3">
<label>3</label><nlm-citation citation-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Garjulli]]></surname>
<given-names><![CDATA[R.]]></given-names>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[Projeto Marca d'Água - Relatório final da fase I: Bacia Hidrográfica do Rio Jaguaribe - Ceará]]></source>
<year>2002</year>
<publisher-name><![CDATA[Projeto Marca d'Água]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
</ref-list>
</back>
</article>
