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</front><body><![CDATA[ <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v55n4/a36img01.gif"></p>     <p>&nbsp;</p>     <P align="center"><FONT SIZE=3>LEILA GUENTHER</FONT></P>     <P>&nbsp;</P>     <P>&nbsp;</P>     <P align="center"><FONT SIZE=5><b>A N<SMALL>OVIDADE</SMALL></b></FONT></P>     <P>&nbsp;</P>     <P><FONT SIZE=3>N&atilde;o foi sem assombro que me dei conta de sua presen&ccedil;a.    Se eles apareceram de repente, de uma vez, n&atilde;o sei, mas suponho que sim,    que eu mesma, de alguma forma, provocara sua apari&ccedil;&atilde;o e, embora    me entregasse ao ritual da contempla&ccedil;&atilde;o quase todos os dias, demorei    para not&aacute;-los - era cedo para que estivessem ali. Mesmo ainda sendo poucos,    por causa de seu brilho grisalho e irritante come&ccedil;avam a aparecer mais    que os outros, conferindo-me um ar de senilidade que eu n&atilde;o quero, n&atilde;o    ainda.</FONT></P>     <P><FONT SIZE=3>&Agrave; noite, quando a casa dormia, eu ia para o banheiro, sofreando-me    diante daquele imenso jogo de espelhos que destoava dentro do cub&iacute;culo.    Era mesmo uma corrida que se interrompia bruscamente diante do altar erigido    para que os desocupados pudessem ver o seu deus: fei&uacute;ras do corpo e da    alma cujo conserto eu adiava para o futuro, achando que haveria tempo, at&eacute;    que esses fios brancos surgiram, or&aacute;culos verdugos, como para me lembrar:    veio o futuro.</FONT></P>     <P><FONT SIZE=3>E o ritual, dos dez minutos habituais, passou a trinta di&aacute;rios.    Munida de uma pin&ccedil;a, eu ca&ccedil;ava todos eles, numa busca incessante    e minuciosa floresta adentro, percorrendo, inclusive, a parte posterior da cabe&ccedil;a.    E a&iacute; sossegava, com o dever cumprido.</FONT></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<P><FONT SIZE=3>No entanto, passavam-se algumas semanas e eles estavam l&aacute;    novamente, essa parte velha de mim mesma, a me provocar com o mist&eacute;rio    de sua apari&ccedil;&atilde;o, duplicada, triplicada. Talvez de madrugada, no    sil&ecirc;ncio da noite, eles operassem, pacientes, a sua ressurrei&ccedil;&atilde;o,    como a afrontar, com a sua exist&ecirc;ncia, a minha. </FONT></P>     <P><FONT SIZE=3>Quando enfim me dei conta de que meus esfor&ccedil;os eram in&uacute;teis,    deixei de lado a pin&ccedil;a, e essa coisa nova, atestando o velho, p&ocirc;de    vivificar e florescer sem interrup&ccedil;&otilde;es, e, agora, eu os contemplo,    com uma esp&eacute;cie de indiferen&ccedil;a curiosa, todos os dias, divisando    precisamente sua localiza&ccedil;&atilde;o no mapa de minha cabe&ccedil;a, atenta    para os novos que nascem, sempre.</FONT></P>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <P align="center"><FONT SIZE=5><b>&Agrave; <small>PROCURA DE</small> P<small>OE</small></b></FONT></P>     <P>&nbsp;</P>     <P><FONT SIZE=3>Havia quase se esquecido do livro. Ele esteve &agrave; sua cabeceira    por alguns meses, sobre o criado-mudo, junto a outros, que levava ao quarto    para a leitura que fazia habitualmente antes de dormir. Acabou por adiar a tarefa    de l&ecirc;-lo. Mas, nesse dia, como se a hora tivesse chegado, lembrou-se do    presente que ganhara.</FONT></P>     <P><FONT SIZE=3>Foi at&eacute; o corredor que desembocava na estante de livros    que ocupava a parede toda, do ch&atilde;o ao teto. Acendeu a luz fraca e lan&ccedil;ou    um olhar minucioso para os livros em desordem. N&atilde;o encontrou o volume    ali. Pensou que ele pudesse ainda estar no quarto, ca&iacute;do atr&aacute;s    da cama, e seu rosto se contraiu numa express&atilde;o de nojo: abominavam-na    os cantos, esses espa&ccedil;os para onde convergem duas linhas a formar um    &acirc;ngulo e onde se acumulam teias de aranha e coisas perdidas. Com uma r&aacute;pida    e distante olhadela, concluiu que ele n&atilde;o estava l&aacute;. Tampouco    o emprestara a algu&eacute;m. Lembrou-se, ent&atilde;o, de que a faxineira costumava    levar os volumes que encontrava pela casa &agrave; estante, colocando-os deitados    sobre os outros que jaziam na vertical. Vez ou outra, um deles escorregava para    tr&aacute;s dos livros enfileirados, no fundo da prateleira. </FONT></P>     <P><FONT SIZE=3>Voltou &agrave; estante e examinou-a, sem achar o volume que procurava.    Decerto ele teria ca&iacute;do no v&atilde;o que se formava atr&aacute;s dos    livros justapostos: j&aacute; podia at&eacute; vislumbrar sua capa preta com    letras douradas a emergir do buraco mal iluminado. E veio-lhe &agrave; cabe&ccedil;a    que aquilo era um canto, pior do que os outros da casa, porque os pesados livros    &agrave; frente se interpunham entre ela e o vazio empoeirado, impedindo-lhe    a vis&atilde;o. E n&atilde;o havia ningu&eacute;m que pudesse fazer aquilo sen&atilde;o    ela. Com repugn&acirc;ncia, como se tocasse pela primeira vez a vida, encaminhou    lentamente os dedos para o v&atilde;o.</FONT></P>     <P>&nbsp;</P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<P>&nbsp;</P>     <P><FONT SIZE=3><i><b>Leila Guenther </b>nasceu em 1976, em Blumenau, SC, e reside    em S&atilde;o Paulo, onde trabalha como revisora de texto e assistente do coordenador    do Col&eacute;gio e Curso Objetivo, professor Francisco Achcar. Atualmente,    faz mestrado em teoria liter&aacute;ria na USP, estudando a escritora russa    Nina Berb&eacute;rova, sob orienta&ccedil;&atilde;o do professor Homero Freitas    de Andrade. Foi finalista do Projeto Nascente, da citada universidade, na categoria    texto, nos anos de 1999 e 2002. </i></FONT></P>      ]]></body>
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