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</front><body><![CDATA[ <p><font size="4"><b>Resenha</b> </font></p>     <p><font size=5><b>A <SMALL>SAGA DA MELANCOLIA</SMALL></b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3"> Saturno &eacute; o planeta da melancolia. Na Idade Moderna    era freq&uuml;ente a alus&atilde;o aos astros, respons&aacute;veis pelo destino    dos homens, e no Renascimento, Saturno e Merc&uacute;rio condicionavam o clima    emocional. Da&iacute; a escolha do escritor Moacyr Scliar para t&iacute;tulo    de seu livro <I>Saturno nos Tr&oacute;picos, </I>onde busca entender como a    melancolia chega at&eacute; abaixo da linha do Equador, trazida pelos seus melanc&oacute;licos    colonizadores europeus. </font></p>     <p><font size="3">At&eacute; falar propriamente do Brasil, entretanto, Scliar    descreve uma trajet&oacute;ria a partir da Antiguidade, passando pela &eacute;poca    das viagens mar&iacute;timas e dos descobrimentos, at&eacute; chegar ao cen&aacute;rio    brasileiro dos s&eacute;culos XIX e XX. O texto ap&oacute;ia-se em extensa bibliografia    tendo como pilares duas obras consideradas por Scliar como diagn&oacute;sticos    de suas &eacute;pocas: para o per&iacute;odo do Renascimento, <I>Anatomia da    melancolia</I>, do ingl&ecirc;s Robert Burton, publicado em 1621; e, ao falar    do Brasil busca refer&ecirc;ncias em Paulo Prado e seu <I>Retrato do Brasil</I>,    de 1928. Os dois autores identificam uma conjuntura psicol&oacute;gica e filos&oacute;fica    carregada de melancolia. Uma das conclus&otilde;es de Paulo Prado citada por    Scliar &eacute;: &quot;Numa terra radiosa vive um povo triste. Legaram-lhe essa    melancolia os descobridores que a revelaram ao mundo e a povoaram&quot;. </font></p>     <p><font size="3">A melancolia &eacute; o motivo condutor, para o autor passear    por quase cinco s&eacute;culos de hist&oacute;ria, organizando, ensaisticamente,    fatos e acontecimentos que lhe permitem desenhar, com liberdade e imagina&ccedil;&atilde;o    essa cosmologia po&eacute;tica, antropol&oacute;gica, filos&oacute;fica e hist&oacute;rica    da domina&ccedil;&atilde;o de Saturno sobre tra&ccedil;os e caracter&iacute;sticas    fundamentais &agrave; compreens&atilde;o do <I>ethos</I> cultural do homem brasileiro.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v56n1/a34fig01.gif"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>O SONO DOS MELANC&Oacute;LICOS</b> Para Scliar, a melancolia &eacute;, antes    de tudo, algo que faz parte da natureza, &eacute; uma condi&ccedil;&atilde;o    existencial. Diferente da tristeza que &eacute; passageira; do t&eacute;dio,    que nos d&aacute; a sensa&ccedil;&atilde;o de que o tempo n&atilde;o passa;    da depress&atilde;o, termo moderno para uma condi&ccedil;&atilde;o cl&iacute;nica    psicol&oacute;gica associada a fatores psicossociais, a melancolia, antiga companheira    da humanidade, &eacute; tanto uma doen&ccedil;a (como a depress&atilde;o) como    um estado de esp&iacute;rito (como a tristeza e o t&eacute;dio). O sucesso de    livros sobre o assunto, no s&eacute;culo XVII na Europa e no come&ccedil;o do    s&eacute;culo XX no Brasil, s&atilde;o sintomas de grande identifica&ccedil;&atilde;o    com o tema.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3">Dormir &eacute; algo associado ao estado melanc&oacute;lico:    induz &agrave; paralisia, &agrave; ina&ccedil;&atilde;o, &agrave; passividade.    O que, ali&aacute;s, era a atividade preferida de Macuna&iacute;ma, o anti-her&oacute;i    de M&aacute;rio de Andrade, que repetia: &quot;Ai! que pregui&ccedil;a!&quot;.    Policarpo Quaresma, na imin&ecirc;ncia do seu triste fim, denuncia o &quot;des&acirc;nimo    doentio&quot;, a &quot;indiferen&ccedil;a nirvanesca&quot; do povo brasileiro,    que n&atilde;o d&aacute; lugar &agrave; revolta, mas apenas ao sono dos melanc&oacute;licos.    Num agrad&aacute;vel passeio pela literatura brasileira, Scliar aponta outros    her&oacute;is melanc&oacute;licos como o personagem principal do livro <I>O    alienista</I> de Machado de Assis, o <I>Jeca Tatu</I> de Monteiro Lobato e Macab&eacute;a    de Clarice Lispector, no livro <I>A hora da estrela</I>. </font></p>     <p><font size="3"><b>HER&Oacute;IS TRISTES</b> Esses personagens, muito distantes    do her&oacute;i cl&aacute;ssico, apresentam defeitos, contradi&ccedil;§es e    uma constante tristeza ou sentimento de inadequa&ccedil;&atilde;o. S&atilde;o    melanc&oacute;licos e, com exce&ccedil;&atilde;o do Jeca Tatu, n&atilde;o t&ecirc;m    final feliz. Assim como a medicina desenvolveu ant&iacute;dotos contra as doen&ccedil;as,    o Brasil tamb&eacute;m desenvolve pr&aacute;ticas para combater a melancolia.    Manifesta&ccedil;§es culturais &quot;tipicamente brasileiras&quot; como o futebol,    o carnaval e a malandragem seriam respostas &agrave; tristeza cotidiana ou ainda    uma forma de defesa contra ela. A vida moderna exige a&ccedil;&atilde;o, trabalho,    movimento constante e fren&eacute;tico. H&aacute; cada vez menos espa&ccedil;o    para a melancolia que herdamos.</FONT></p>     <p><font size="3">&quot;Saturno &eacute; um planeta lento demais para os tempos    do Prozac&quot; mas, nessa toada, segue o Brasil, que &quot;apesar da melancolia,    da tristeza, da depress&atilde;o, ou seja l&aacute; que nome tenha a coisa,    sobrevive...&quot;.</FONT></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="right"><font size="3"><i>Patr&iacute;cia Mariuzzo </i></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v56n1/a34fig02.gif"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><font size="3"> <img src="/img/revistas/cic/v56n1/a34fig03.gif"></font></p>     ]]></body>
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