<?xml version="1.0" encoding="ISO-8859-1"?><article xmlns:mml="http://www.w3.org/1998/Math/MathML" xmlns:xlink="http://www.w3.org/1999/xlink" xmlns:xsi="http://www.w3.org/2001/XMLSchema-instance">
<front>
<journal-meta>
<journal-id>0009-6725</journal-id>
<journal-title><![CDATA[Ciência e Cultura]]></journal-title>
<abbrev-journal-title><![CDATA[Cienc. Cult.]]></abbrev-journal-title>
<issn>0009-6725</issn>
<publisher>
<publisher-name><![CDATA[Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência]]></publisher-name>
</publisher>
</journal-meta>
<article-meta>
<article-id>S0009-67252004000100041</article-id>
<title-group>
<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Outro pioneiro do brasil na navegação aérea]]></article-title>
</title-group>
<contrib-group>
<contrib contrib-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Barata]]></surname>
<given-names><![CDATA[Germana]]></given-names>
</name>
</contrib>
</contrib-group>
<aff id="A">
<institution><![CDATA[,  ]]></institution>
<addr-line><![CDATA[ ]]></addr-line>
</aff>
<pub-date pub-type="pub">
<day>00</day>
<month>01</month>
<year>2004</year>
</pub-date>
<pub-date pub-type="epub">
<day>00</day>
<month>01</month>
<year>2004</year>
</pub-date>
<volume>56</volume>
<numero>1</numero>
<fpage>58</fpage>
<lpage>59</lpage>
<copyright-statement/>
<copyright-year/>
<self-uri xlink:href="http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=S0009-67252004000100041&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri><self-uri xlink:href="http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?script=sci_abstract&amp;pid=S0009-67252004000100041&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri><self-uri xlink:href="http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?script=sci_pdf&amp;pid=S0009-67252004000100041&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri></article-meta>
</front><body><![CDATA[ <p><font size="4"><b>Hist&oacute;ria</b> </font></p>     <p><font size=5> <b>O<SMALL>UTRO PIONEIRO DO</SMALL> B<SMALL>RASIL NA NAVEGA&Ccedil;&Atilde;O A&Eacute;REA</SMALL></b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3">O cr&eacute;dito das grandes contribui&ccedil;&otilde;es brasileiras    para a navega&ccedil;&atilde;o a&eacute;rea sempre recai em Santos Dumont, o    brasileiro que deu certo e honrou o nome do pa&iacute;s l&aacute; fora. Mas    a hist&oacute;ria nem sempre &eacute; democr&aacute;tica para abrigar todos    aqueles que contribu&iacute;ram para escrev&ecirc;-la. &Eacute; o caso do paraense    Julio Cezar Ribeiro de Souza, filho de lavradores e sem forma&ccedil;&atilde;o    cient&iacute;fica, que resolveu o problema de v&ocirc;o do dirig&iacute;vel    quinze anos antes de Dumont e alguns anos antes dos franceses Charles Renard    e Arthur Krebs conclu&iacute;rem o primeiro circuito fechado a bordo de um dirig&iacute;vel,    em 1884. O livro <I>Mem&oacute;rias sobre a navega&ccedil;&atilde;o a&eacute;rea</I>,    organizado por Lu&iacute;s Carlos Bassalo Crispino, f&iacute;sico da Universidade    Federal do Par&aacute;, busca eliminar este lapso. Al&eacute;m dos escritos    originais de autoria de Julio Cezar, a obra conta com textos de Crispino e do    m&eacute;dico Fernando Medina do Amaral, que dedicou 25 anos para recuperar    a mem&oacute;ria do inventor paraense.</font></p>     <p><font size="3">Todos os quatro inventores pioneiros do ar tiveram em comum    o fato de terem trabalhado seus projetos na oficina de Hilaire Lachambre, na    &eacute;poca a melhor op&ccedil;&atilde;o para a constru&ccedil;&atilde;o de    bal&otilde;es da Fran&ccedil;a. Confiante em sua teoria, constru&iacute;da a    partir da observa&ccedil;&atilde;o do v&ocirc;o de aves planadoras como o urubu    e na forma do corpo de animais aqu&aacute;ticos, Julio Cezar patenteou sua inven&ccedil;&atilde;o    em onze pa&iacute;ses, incluindo Brasil, Estados Unidos, Inglaterra e Fran&ccedil;a.    Em sua concep&ccedil;&atilde;o, o bal&atilde;o deveria assemelhar-se ao corpo    dissim&eacute;trico dos p&aacute;ssaros, mais amplo na por&ccedil;&atilde;o    dianteira com planos laterais para auxiliar sua dire&ccedil;&atilde;o. </font></p>     <p><font size="3">A primeira audi&ecirc;ncia com o governo de sua prov&iacute;ncia    natal para apresentar sua teoria n&atilde;o teve sucesso, e o inventor paraense    parte para o Rio de Janeiro, em busca de um parecer t&eacute;cnico favor&aacute;vel    do Instituto Polit&eacute;cnico Brasileiro, a maior institui&ccedil;&atilde;o    cient&iacute;fica da Am&eacute;rica Latina da &eacute;poca, o que consegue.    Esse voto de credibilidade garante a libera&ccedil;&atilde;o de 20 contos de    r&eacute;is por parte do governo paraense, permitindo iniciar a constru&ccedil;&atilde;o    de seu bal&atilde;o na Fran&ccedil;a. Para se ter uma id&eacute;ia do montante,    4 contos de r&eacute;is eram necess&aacute;rios para uma viagem de ida e volta    ao velho continente. </font></p>     <p><font size="3">Ap&oacute;s obter a patente do invento na Fran&ccedil;a, e expor    sua teoria para a Sociedade Francesa de Navega&ccedil;&atilde;o A&eacute;rea,    Julio Cezar constr&oacute;i o bal&atilde;o Victoria, um prot&oacute;tipo de    dez por dois metros, que resulta em experi&ecirc;ncias bem sucedidas. Na ocasi&atilde;o,    o comandante franc&ecirc;s Renard, ao presenciar as experi&ecirc;ncias de ascens&atilde;o    do bal&atilde;o, declara: &quot;como eu lamento que o inventor n&atilde;o seja    um franc&ecirc;s!&quot;. &Eacute; o que registra uma carta de Julio Cezar enviada    ao Bar&atilde;o de Teff&eacute;. </font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p ALIGN="center"><img src="/img/revistas/cic/v56n1/a40fig01.gif"></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3">Sem mais recursos, Julio Cezar &eacute; obrigado a retornar    ao Brasil em 1881, e faz novos ensaios com o Victoria em Bel&eacute;m e no Rio    de Janeiro. Naquela &eacute;poca, o prot&oacute;tipo era controlado por uma    corda que o mantinha dentro de certos limites. Uma vez mais, o Instituto Polit&eacute;cnico    ratifica seu apoio a Julio Cezar, garantindo novo investimento, desta vez de    36 contos de r&eacute;is, doados pelo governo paraense, para construir um bal&atilde;o    de 52 metros de comprimento – at&eacute; ent&atilde;o o maior bal&atilde;o do    mundo – batizado de Santa Maria de Bel&eacute;m.</font></p>     <p><font size="3">De volta &agrave; oficina de Lachambre, o grande bal&atilde;o    come&ccedil;a a sair do papel em janeiro de 1883, mas sem o acompanhamento pr&oacute;ximo    de seu idealizador que, por conten&ccedil;&atilde;o de custos, aguardava a conclus&atilde;o    do bal&atilde;o no Brasil, acaba precisando de ajustes. O pouco dinheiro restante    teve de ser usado para refazer algumas partes, e os tr&ecirc;s mil metros c&uacute;bicos    de hidrog&ecirc;nio necess&aacute;rios para inflar o bal&atilde;o ficaram comprometidos.    Os reparos s&atilde;o realizados, e o bal&atilde;o segue para Bel&eacute;m,    onde Julio Cezar tem dificuldades em arrecadar fundos para fabricar o hidrog&ecirc;nio,    para inflar seu bal&atilde;o. Uma das sa&iacute;das &eacute; cobrar ingresso    para ver o pequeno prot&oacute;tipo, exposto na catedral de Bel&eacute;m, e    tamb&eacute;m para ouvir suas palestras, &agrave; noite, no Teatro da Paz. Finalmente,    cerca de um ano ap&oacute;s ter chegado da Fran&ccedil;a, em 12 de julho de    1884, com aux&iacute;lio da prov&iacute;ncia do Amazonas, Julio Cezar organiza    um mutir&atilde;o de colegas, trabalhadores e amigos em um esfor&ccedil;o de    encher o bal&atilde;o, utilizando 70 barris para a produ&ccedil;&atilde;o de    hidrog&ecirc;nio. O trabalho, iniciado &agrave; meia-noite, segue madrugada    adentro. A inexperi&ecirc;ncia na manipula&ccedil;&atilde;o do material acaba    danificando o experimento, obrigando Julio Cezar a encerr&aacute;-lo, sem sucesso,    &agrave;s onze horas da manh&atilde;.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p ALIGN="center"><img src="/img/revistas/cic/v56n1/a40fig02.gif"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3"><b>ULTRAPASSAGEM FRANCESA</b> Quase um m&ecirc;s depois desse    golpe sofrido por Julio Cezar, os franceses Renard e Krebs realizam, em 9 de    agosto de 1884, o primeiro circuito fechado a bordo de um bal&atilde;o dirig&iacute;vel,    de propor&ccedil;&otilde;es semelhantes &agrave;s idealizadas pelo brasileiro    - 52,4m por 8,4. Inconformado, Julio Cezar redige um protesto – que est&aacute;    reproduzido no livro – publicado em jornais paraenses e franceses, explicando    sua teoria, falando de suas patentes, experimentos e do pl&aacute;gio ocorrido    na constru&ccedil;&atilde;o do primeiro bal&atilde;o dirig&iacute;vel pelos    franceses. </font></p>     <blockquote>        <p><font size="3"><I>&quot;Os Srs. Renard e Krebs n&atilde;o dizem uma &uacute;nica      palavra sobre o meu sistema, do qual afetam n&atilde;o ter tido o menor conhecimento,      - eles que nunca escreveram antes de mim, nada de semelhante &agrave;s minhas      teorias (...)&quot;.    <br>     &quot;Minha patente francesa est&aacute; anulada,      como quase todas as outras; meu sistema pode hoje ser ensaiado e explorado      por quem o queira (...) Eu me sentiria felic&iacute;ssimo em ver minha inven&ccedil;&atilde;o      tornar-se &uacute;til &agrave; humanidade, com a condi&ccedil;&atilde;o, contudo,      que se reconhe&ccedil;a que o inventor sou eu&quot;.</I></font></p> </blockquote>     <p><font size="3">Embora divulgado em v&aacute;rios pa&iacute;ses, seu protesto    &eacute; ignorado na Fran&ccedil;a e Julio Cezar recorre ao Instituto Polit&eacute;cnico    para que se manifeste a seu favor, o que s&oacute; ocorre um ano mais tarde,    dois anos antes de sua morte, aos 44 anos, depois de contrair berib&eacute;ri,    doen&ccedil;a causada pela car&ecirc;ncia de vitamina B1.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3"><b>RESGATE HIST&Oacute;RICO</b> O trabalho de Julio Cezar n&atilde;o    consta da hist&oacute;ria da navega&ccedil;&atilde;o a&eacute;rea. &quot;Mesmo    os principais estudiosos brasileiros do assunto pouco conhecem sobre suas realiza&ccedil;&otilde;es&quot;,    lamenta Crispino. </font></p>     <p><font size="3">O livro, conclu&iacute;do depois de dois anos de pesquisas,    foi a primeira parte dos planos de Crispino em recuperar a hist&oacute;ria de    Julio Cezar. Na realidade, Fernando Medina do Amaral, co-autor da obra, faleceu    em 2001, antes do projeto do livro deslanchar. Falta, ainda, a execu&ccedil;&atilde;o    de um busto em bronze, a constru&ccedil;&atilde;o de uma reprodu&ccedil;&atilde;o    do Victoria e ainda a localiza&ccedil;&atilde;o de importantes documentos que    possam contribuir para o registro dos feitos do paraense. Entre eles, est&atilde;o    as not&iacute;cias publicadas na Fran&ccedil;a e eventuais fotografias da ascens&atilde;o    bem-sucedida do bal&atilde;o de 52 metros de comprimento, constru&iacute;do    por Lachambre, por encomenda de Julio Cezar, para testar o dirig&iacute;vel,    al&eacute;m de informa&ccedil;&otilde;es sobre o Cruzeiro, bal&atilde;o de testes    constru&iacute;do durante a &uacute;ltima viagem de Julio Cezar a Paris, em    1886. Em outubro passado, Crispino surpreendeu-se ao receber do Mus&eacute;e    de l’Air et de l'Espace, na Fran&ccedil;a, uma c&oacute;pia do que seria o primeiro    registro fotogr&aacute;fico de um experimento de Julio Cezar. &quot;Trata-se    da fotografia mais antiga de um experimento com bal&atilde;o em solo brasileiro    de que se tem not&iacute;cia&quot;, afirma o pesquisador.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="right"><font size="3"><I>Germana Barata</I></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v56n1/a40fig03.gif"></p>      ]]></body>
</article>
