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</front><body><![CDATA[ <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v56n1/a43img01.gif"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><font size="3">EDMAR MONTEIRO FILHO</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><font size="3"><b>B<SMALL>ABEL</SMALL></b></font></p>     <p><font size="3"> Respeito. Meu av&ocirc; era um homem muito s&eacute;rio. Meu    pai era um homem muito s&eacute;rio, que se permitia jogar futebol uma ou duas    vezes conosco – eu e meu irm&atilde;o – enquanto minha m&atilde;e fritava o    almo&ccedil;o. Um ou dois chutes de sapato desajeitado palet&oacute;, desafiando-me    a defender a bola de meia que eu preferia porque n&atilde;o pulava tanto. Defendia    como se soubesse que ele sabia que eu sabia que ele n&atilde;o facilitava as    coisas. &Eacute; que ele n&atilde;o sabia chutar. Era s&oacute; isso e sentar-se,    &agrave;s vezes, no ch&atilde;o para observar um desenho que eu pintava. Jamais    perto do meu av&ocirc;. </font></p>     <p><font size="3">Meu av&ocirc; vivia no topo de uma &aacute;rvore, seu cabelo    revolto pelo vento, o apoio da bengala para preservar a integridade, antes do    equil&iacute;brio. L&aacute; do alto, enxergava tudo o que se passava; tinha    os olhos pr&oacute;ximos do c&eacute;u e apanhava p&aacute;ssaros com as m&atilde;os.    Abaixo disso, eram insetos nos galhos, bagun&ccedil;a de folhas, e, mais abaixo,    a casca, parasitas, o ch&atilde;o. Meu pai, embrenhado na ramagem, tinha o c&eacute;u    por meta. Subia devagar, descia, perdia-se, n&atilde;o conseguia ascender. &Agrave;s    vezes, estendia-nos a m&atilde;o que n&atilde;o consegu&iacute;amos alcan&ccedil;ar    – nossa culpa de bra&ccedil;os curtos. </font></p>     <p><font size="3">Falar de meu av&ocirc; era falar de alturas. Mas entre o topo    e o enxame dos galhos, uns ru&iacute;dos, a interfer&ecirc;ncia. Meu av&ocirc;    n&atilde;o ouvia bem, mas era o vento. Meu pai n&atilde;o conseguia ouvir, mas    eram as folhas, os galhos, a dist&acirc;ncia. Meu pai era de 27, meu av&ocirc;    de 1.900. Os tempos s&atilde;o vertigem, um aproximar-se mais e mais do centro    do redemoinho que nos engole. Meu av&ocirc; teve tempo e meios, mas, para n&oacute;s    tem que ser ligeiro, antes que estejamos velhos demais, ou antes que outros    estejam ocupando a copa, nos dizendo como &eacute;, tomando um lugar que &eacute;    nosso, enquanto a fotografia de meu av&ocirc; nos recrimina da estante, entre    as centenas de livros que ele leu e que tenho pregui&ccedil;a em abrir. Sou    de 58. </font></p>     <p><font size="3">Meu pai era a humilha&ccedil;&atilde;o que eu percebia. Meu    av&ocirc;, do alto da sua bengala. Eu conhecia as humilha&ccedil;&otilde;es    porque era uma crian&ccedil;a magra e doente entre gigantes corados na escola.    Bom aluno, mas nem tanto, quando era prefer&iacute;vel ser bom com a bola. Notas    sofr&iacute;veis: os olhos de meu av&ocirc;, a voz rude de meu pai para recriminar-me    diante dele, para que soubesse que n&atilde;o era sua culpa, mas que eu era    meio imprest&aacute;vel. Um fracasso dele: eu. </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3">Mas havia o que meu av&ocirc; falava e fazia e que ningu&eacute;m    era capaz de compreender, ele do alto, n&oacute;s entre as ra&iacute;zes. Meu    pai sofria e eu o via entre os galhos, perdido. Entre eles, vinte e sete anos,    uma bengala, algumas viagens, a ortografia em muta&ccedil;&atilde;o, o mapa    para galgar os galhos mais fr&aacute;geis sem cair. </font></p>     <p><font size="3">A l&iacute;ngua sofre suas muta&ccedil;&otilde;es, um mar de    ortografias e id&eacute;ias expressas no idioma particular de cada um. No tempo    de meu av&ocirc;, no tempo de meu pai, no meu tempo. Quando meu pai olhava para    cima e via por entre as folhas o vento que agitava os cabelos de meu av&ocirc;,    para este era um afago; para mim, um incompreens&iacute;vel mar verde. Vinte    e sete anos e meu pai j&aacute; n&atilde;o compreendia o idioma que meu av&ocirc;    empregava para relembr&aacute;-lo a todo instante a sua triste condi&ccedil;&atilde;o    de mero ser esfor&ccedil;ado, criatura de parcos recursos, um ninho plantado    entre os galhos mais seguros, com a &acirc;nsia de asas. Meu pai me olhava com    olhos do alto, e eu querendo que ele descesse vinte e nove anos. </font></p>     <p><font size="3">Cresci depressa, aqui no ch&atilde;o. Cortam mais e mais &aacute;rvores    para fazer papel. Escreve-se com pressa a l&iacute;ngua que se talhava a pena,    caneta tinteiro e, enfim, velhas e barulhentas Remingtons. Meu av&ocirc; dizia    com os olhos: Deos. Meu pai castigava-me com seu acento diferencial. Sou um    neologismo. Anos atr&aacute;s, mal compreendia dez anos a mais, como uma l&iacute;ngua    estranha na boca de estranhas criaturas que eu queria imitar sem sair do ch&atilde;o.    Envelhe&ccedil;o depressa. N&atilde;o sei quem s&atilde;o essas pessoas dois    ou tr&ecirc;s anos mais jovens que eu. Meu filho ser&aacute; um completo desconhecido.    Aqueles companheiros de ontem mal me cumprimentam na rua e eu sinto que n&atilde;o    s&atilde;o mais os mesmos, desde a &uacute;ltima vez que nos vimos. Novas g&iacute;rias,    uma grande g&iacute;ria coleante, lesma em p&aacute;ginas, l&iacute;nguas, vozes.    Escrevo um texto que, em seguida, j&aacute; n&atilde;o sou capaz de decifrar.    Hoje, pela manh&atilde;, desconhe&ccedil;o-me no espelho. Escrevo como um desabafo.    N&atilde;o sei quem disse isso. Estou falando sozinho.</font> </p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3"><i><b>Edmar Monteiro Filho, </b>vencedor do pr&ecirc;mio Guimar&atilde;es    Rosa, da R&aacute;dio Fran&ccedil;a Internacional, em 1997; vencedor do Pr&ecirc;mio    Cruz e Souza 1997, categoria contos; vencedor do Pr&ecirc;mio Cidade de Belo    Horizonte, edi&ccedil;&atilde;o 1999. Publicou:</i> Este lado para cima<I>,    poesia, em 1993; </I>Halma h&uacute;mida<I>, poesia, em junho de 1997; </I>&Agrave;s    v&eacute;speras do inc&ecirc;ndio<I>, contos, em julho de 2000; e </I>Aqu&aacute;rios<I>,    contos, em outubro de 2001.</i></FONT></p>      ]]></body>
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