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</front><body><![CDATA[ <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v56n2/a03img01.gif"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><b><font size=5>Antonio V&iacute;rgula Candido</font><font size="3">    <br>   <i>Jean Pierre Chauvin</i></font></b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3"><b><font size=5>D</font></b>esprovida de pref&aacute;cios    ou cong&ecirc;neres, a primeira parte de <I>Teresina etc </I>&eacute; dedicada    integralmente a uma biografia com foros de ensaio que traz uma faceta menos    conhecida do cr&iacute;tico: l&aacute; Antonio &eacute; cr&iacute;tico, mas    tamb&eacute;m c&acirc;ndido, porque l&iacute;rico.</font></p>     <p><font size="3">Provavelmente uma das raz&otilde;es para a menor resson&acirc;ncia    dessa not&aacute;vel biografia &eacute; que o pensador tornou-se mais conhecido    por sua produ&ccedil;&atilde;o ensa&iacute;stica. A fama lograda pelo cr&iacute;tico    sobrepujou sua escrita mais notoriamente subjetiva, numericamente mais modesta,    ao longo de uma carreira maior de 60 anos.</font></p>     <p><font size="3">A ele se ajustam com perfei&ccedil;&atilde;o as considera&ccedil;&otilde;es    que registrou em <i>Esquema de Machado de Assis</i>: &quot;A sua t&eacute;cnica    consiste essencialmente em sugerir as coisas mais tremendas da maneira mais    c&acirc;ndida&quot; (<I>V&aacute;rios escritos</I>, p. 27). A afirma&ccedil;&atilde;o    n&atilde;o vale apenas para seus escritos te&oacute;ricos ou anal&iacute;ticos:    engana-se o leitor que julgar<i> Teresina e seus amigos </i>como exemplar de    mero lapso sentimentalista.</font></p>     <p><font size="3">O t&iacute;tulo da colet&acirc;nea &eacute; sugestivo: coloca    em relevo o texto que preenche a primeira parte do conjunto de ensaios e simultaneamente    reserva aos t&oacute;picos restantes (da&iacute; o desconcertante <I>etc</I>)    um par de fun&ccedil;&otilde;es: contextualizar a pseudo personagem Teresina    no &acirc;mbito das id&eacute;ias e atitudes brasileiras mal resolvidas; e,    em uma leitura de tr&aacute;s para frente, dar corpo &agrave;s teses expostas    na segunda parte.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3">Vista no conjunto da antologia a biografia &eacute; uma sorte    de arroubo calculado. Arroubo porque constitu&iacute;do com base em material    que escapa ao tem&aacute;rio sabidamente mais pr&oacute;ximo da teoria ou an&aacute;lise    liter&aacute;ria; calculado porque a estrutura&ccedil;&atilde;o com que se reveste    o texto revela um rigoroso m&eacute;todo que beira o g&ecirc;nero memorialista    – inusitado, porque n&atilde;o se trata de um rol de hip&oacute;teses &agrave;    espera de revis&atilde;o ou aprimoramento.</font></p>     <p><font size="3">A biografia registra em estilo s&oacute;brio, felizmente nem    tanto, o perfil e as maneiras convictas de sua amiga discreta. C&aacute;lculo    provido de lirismo, portanto, j&aacute; que incorpora dados recorrentes na obra    do cr&iacute;tico: os retratos sint&eacute;ticos e o anseio de justi&ccedil;a.    A exemplo do que se percebe em v&aacute;rios de seus ensaios, investido no papel    de bi&oacute;grafo, Candido situa logo no primeiro par&aacute;grafo os crit&eacute;rios    que norteiam o registro dos tra&ccedil;os da saudosa militante italiana:</font></p>     <blockquote>        <p><font size="3">&quot;Quando se pensa no ambiente carola e conformista em      que Teresina nasceu e foi criada, s&oacute; mesmo lembrando a sua personalidade      vulc&acirc;nica &eacute; poss&iacute;vel entender como p&ocirc;de mudar t&atilde;o      essencialmente as id&eacute;ias na quadra dos trinta anos&quot; (<I>Teresina      etc</I>., p. 13).</font></p> </blockquote>     <p><font size="3">Situada a figura, registra pormenores relativos &agrave;s suas    origens, para ent&atilde;o comentar os contrastes entre ela e seu marido, o    m&uacute;sico Rocchi, em subcap&iacute;tulo chamado &quot;O casal mal afinado<I>&quot;</I>:</font></p>     <blockquote>        <p><font size="3">&quot;Marido e mulher tinham g&ecirc;nio forte e, apesar dos      pontos de afinidade, muita diferen&ccedil;a dif&iacute;cil de compensar. Ela      estava sempre lendo e escrevendo, procurando confer&ecirc;ncias, se interessando      pelo movimento das id&eacute;ias; e afinal adotou as convic&ccedil;&otilde;es      socialistas com uma paix&atilde;o que o marido n&atilde;o entendia. Ele n&atilde;o      lia nada nem se interessava por pol&iacute;tica, o que a fazia comentar: 'Rocchi      &eacute; uma celebridade; mas tem a cabe&ccedil;a cheia de serragem com umas      notas de m&uacute;sica pelo meio'.&quot; (<I>Idem</I>, p. 18)</font></p> </blockquote>     <p><font size="3">Contrastes n&atilde;o resgatados arbitrariamente: o casamento,    realizado &agrave; antiga, revela severas contraposi&ccedil;&otilde;es entre    a mulher insatisfeita em recolher-se &agrave; afasia dom&eacute;stica e o marido    que trabalha fora: talentoso m&uacute;sico, mas praticamente n&atilde;o identificado    com o socialismo – movimento que embarcava em maior ou menor grau juntamente    com os estrangeiros que para c&aacute; vieram.</font></p>     <p><font size="3">Referidas as origens aristocr&aacute;ticas e os espa&ccedil;os    (da It&aacute;lia para o Brasil) o segundo e mais denso cap&iacute;tulo traz    os aspectos f&iacute;sicos de uma mulher de verdade, com ares de personagem:    descri&ccedil;&atilde;o em tom m&aacute;ximo de lirismo.</font></p>     <p><font size="3">Ironizando o extravasamento, mas consciente do seu poder de    s&iacute;ntese, ao tra&ccedil;ar os contornos da figura, Candido interp&otilde;e    um subt&iacute;tulo em forma de pseudo alerta, <I>Retrato falado</I>, a reproduzir    o vocabul&aacute;rio dos desenhistas especializados em recuperar rostos e express&otilde;es    com base em um par de detalhes:</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<blockquote>        <p><font size="3">&quot;Era magra, de estatura m&eacute;dia, com um cabelo alourado      que custou a embranquecer. Tinha olhos azuis abertos e redondos, exprimindo      de maneira incr&iacute;vel os matizes de um esp&iacute;rito trepidante. Na      It&aacute;lia e aqui <I>pensavam freq&uuml;entemente que fosse inglesa</I>,      talvez tamb&eacute;m por causa da originalidade da sua moda, tudo dentro de      um bom gosto modesto e pessoal (...)&quot; (p. 21).</font></p> </blockquote>     <p><font size="3">O fato de elencar determinados seres radicais auxilia a compreender    a estrita defini&ccedil;&atilde;o com que Antonio se serve da palavra <I>radical</I>:    indiv&iacute;duo oriundo da classe m&eacute;dia com preocupa&ccedil;&otilde;es    mais te&oacute;ricas do que pr&aacute;ticas, voltado &agrave; mudan&ccedil;a    do estado de coisas no meio em que participa. Teresina quase escorrega ao car&aacute;ter    estrito da defini&ccedil;&atilde;o:</font></p>     <blockquote>        <p><font size="3">&quot;personalidade extraordin&aacute;ria, cheia de inquietude,      ardor e bravura, fremindo de intelig&ecirc;ncia e generosidade. Era igualit&aacute;ria      por natureza e dizia que foi socialista mesmo antes de ter a no&ccedil;&atilde;o      da realidade pol&iacute;tica, porque desde pequena teve a maior repugn&acirc;ncia      pelas injusti&ccedil;as da sociedade. (...) Nela o sentimento da igualdade      era visceral e provavelmente nunca sentiu entre os indiv&iacute;duos as diferen&ccedil;as      de classe que reconhecia e combatia&quot; (p. 23).</font></p> </blockquote>     <p><font size="3">Certos tra&ccedil;os da italiana poderiam ser vislumbrados nas    ligeiras aprecia&ccedil;&otilde;es que o bi&oacute;grafo teceu a respeito de    diversos intelectuais que conheceu. Veja-se como se refere a S&eacute;rgio Milliet:</font></p>     <blockquote>        <p><font size="3">&quot;homem discretamente not&aacute;vel que foi S&eacute;rgio      Milliet (...) Relida hoje a sua obra impressiona pela capacidade de dizer      o essencial de forma simples; de exprimir um eu extremamente inquieto, que      todavia pensa a cada instante no outro; de unir a reflex&atilde;o &iacute;ntima      ao interesse pelos problemas do tempo&quot; (<i>A educa&ccedil;&atilde;o pela      noite &amp; outros ensaio</i>, p. 122).</font></p> </blockquote>     <p><font size="3">Convictos e solid&aacute;rios ao modo de Teresina foram Apol&ocirc;nio    de Carvalho</font></p>     <blockquote>        ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3">&quot;A solidariedade humana animou toda a vida de Apol&ocirc;nio      de Carvalho, levando-o a compreender a situa&ccedil;&atilde;o dos que s&atilde;o      manipulados e impedidos de assumir o seu papel hist&oacute;rico de agentes      no processo social; e tamb&eacute;m a sentir, dentro dos movimentos e partidos      de esquerda, o arb&iacute;trio de c&uacute;pulas nem sempre afinadas com a      conjuntura.&quot; (&quot;Pref&aacute;cio&quot; <I>In</I>: Carvalho, A. <I>Vale      a pena sonhar</I>)</font></p> </blockquote>     <p><font size="3">e Paulo Em&iacute;lio:</font></p>     <blockquote>        <p><font size="3">&quot;em toda a vida Paulo Em&iacute;lio s&oacute; pertenceu      a grupos pol&iacute;ticos, legais ou ilegais, durante uns tr&ecirc;s ou quatro      anos (...) Mas a sua natureza participante abrangia muito mais coisa do que      a defini&ccedil;&atilde;o partid&aacute;ria; e ele nunca deixou de manifest&aacute;la      como uma esp&eacute;cie de livre militante, n&atilde;o apenas nos escritos,      mas enfrentando a conjuntura e inspirando os outros por meio de atitudes individuais&quot;      (<i>V&aacute;rios escritos</i>, p. 352).</font></p> </blockquote>     <p><font size="3">Tempestuoso e am&aacute;vel foi M&aacute;rio de Andrade:</font></p>     <blockquote>        <p><font size="3">&quot;Ao lado da solidariedade, da simpatia humana, distinguia-se      nele a humildade. Longe estava de ser um esp&iacute;rito ang&eacute;lico.      Era homem de g&ecirc;nio forte e freq&uuml;entemente tempestuoso, abandonando-se      com intensidade &agrave;s birras e paix&otilde;es. Por outro lado, tinha bastante      consci&ecirc;ncia da sua import&acirc;ncia e valor, apesar dum persistente      sentimento de inferioridade que o perseguiu a vida toda&quot; (<i>O observador      liter&aacute;rio</i>, p. 211).</font></p> </blockquote>     <p><font size="3">A mania de Teresina em passar seus livros devidamente anotados    adiante dignifica a observa&ccedil;&atilde;o que Antonio Candido fez a respeito    de nosso escol intelectual:</font></p>     <blockquote>        <p><font size="3">&quot;<I>Elite </I>liter&aacute;ria, no Brasil, significou      at&eacute; bem pouco tempo, n&atilde;o refinamento de gosto, mas apenas capacidade      de interessar-se pelas letras&quot; (<I>Literatura e sociedade</I>, p. 77).</font></p> </blockquote>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3">Os dados selecionados e tratados pela m&atilde;o firme do cr&iacute;tico    revelam n&atilde;o s&oacute; a apaixonada personalidade de Teresina e os demais    amigos de Antonio Candido, mas desnudam caracter&iacute;sticas do pr&oacute;prio    retratista.</font></p>     <p><font size="3">Quem se debru&ccedil;a sobre a obra do cr&iacute;tico tende    a seguir duas dire&ccedil;&otilde;es: ou discutir aspectos te&oacute;ricos pol&ecirc;micos    ou incorrer num ac&uacute;mulo de par&aacute;frases - talvez porque sabedores,    em ambos os casos, de que n&atilde;o lograr&atilde;o suprir a despropor&ccedil;&atilde;o    de seus ensaios, diante do brilho dos escritos do primeiro.</font></p>     <p><font size="3">&Eacute; que em suas m&atilde;os praticamente toda aprecia&ccedil;&atilde;o    de cunho liter&aacute;rio, hist&oacute;rico e cultural converte-se em mural    com v&aacute;rios recados favor&aacute;veis &agrave; premente necessidade de    se reformular atos ou pensamentos vigentes. A seu modo, Candido desempenha em    nossa cr&iacute;tica o que Machado de Assis representa para a literatura: a    atividade visa questionar a si mesma. A autocr&iacute;tica, ali&aacute;s, &eacute;    tra&ccedil;o que revela n&atilde;o s&oacute; a coragem de lidar com os limites    da mod&eacute;stia, mas concede pistas valiosas aos escritores e pesquisadores    em forma&ccedil;&atilde;o.</font></p>     <p><font size="3">No Brasil, sempre houve maneiras e respectivas escusas para    oscilarmos de um a outro lado, conforme as circunst&acirc;ncias. Tamb&eacute;m    por essa raz&atilde;o, Teresina se destaca dentre a lista de ilustres figuras    retratadas pelo cr&iacute;tico.</font></p>     <p><font size="3">Na pele de bi&oacute;grafo, Candido resgatou os comportamentos    extremos da amiga (do altru&iacute;smo &agrave; grosseria; da compostura &agrave;    energia): reveladores da espontaneidade, fruto de personalidade que n&atilde;o    admitia as muitas faces e modos do <I>meio termo</I>, t&atilde;o arraigado entre    n&oacute;s.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3"><i><b>Jean Pierre Chauvin</b> &eacute; professor de literatura    e l&iacute;ngua portuguesa. &Eacute; mestre e doutorando do Departamento de    Teoria Liter&aacute;ria e Literatura Comparada (FFLCH/USP).</i></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3"><b>Refer&ecirc;ncias bibliogr&aacute;ficas:</b></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3">Candido,A.&quot;Lembran&ccedil;a de M&aacute;rio de Andrade&quot;    <i>In: O observador liter&aacute;rio</i>. Conselho Estadual de Cultura, S&atilde;o    Paulo. 1959.</font></p>     <p><font size="3">____. &quot;O escritor e o p&uacute;blico&quot; <i>In: Literatura    e sociedade</i>. T.A. Queiroz/Plubifolha, 8ª edi&ccedil;&atilde;o, S&atilde;o    Paulo. 2000.</font></p>     <p><font size="3">____. <I>V&aacute;rios escritos</I>. Duas Cidades, 3ª edi&ccedil;&atilde;o,    S&atilde;o Paulo. 1995.</font></p>     <p><font size="3">____.<I>Teresina etc</I>. Paz e Terra, 2ª edi&ccedil;&atilde;o,    Rio de Janeiro. 1992.</font></p>     <p><font size="3">____. &quot;O ato cr&iacute;tico&quot; <i>In: A educa&ccedil;&atilde;o    pela noite &amp; outros ensaios</i>. &Aacute;tica, 3ª edi&ccedil;&atilde;o,    S&atilde;o Paulo. 2000.</font></p>     <p><font size="3">____. &quot;Pref&aacute;cio&quot; <I>In</I>: Carvalho, A. de    <i>Vale a pena sonhar</i>. Rocco, Rio de Janeiro. 1997.</font></p>      ]]></body>

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