<?xml version="1.0" encoding="ISO-8859-1"?><article xmlns:mml="http://www.w3.org/1998/Math/MathML" xmlns:xlink="http://www.w3.org/1999/xlink" xmlns:xsi="http://www.w3.org/2001/XMLSchema-instance">
<front>
<journal-meta>
<journal-id>0009-6725</journal-id>
<journal-title><![CDATA[Ciência e Cultura]]></journal-title>
<abbrev-journal-title><![CDATA[Cienc. Cult.]]></abbrev-journal-title>
<issn>0009-6725</issn>
<publisher>
<publisher-name><![CDATA[Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência]]></publisher-name>
</publisher>
</journal-meta>
<article-meta>
<article-id>S0009-67252004000200015</article-id>
<title-group>
<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[História da cidade e do urbanismo no Brasil: reflexões sobre a produção recente]]></article-title>
</title-group>
<contrib-group>
<contrib contrib-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Fernandes]]></surname>
<given-names><![CDATA[Ana]]></given-names>
</name>
</contrib>
<contrib contrib-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Gomes]]></surname>
<given-names><![CDATA[Marco Aurélio A. de Filgueiras]]></given-names>
</name>
</contrib>
</contrib-group>
<aff id="A">
<institution><![CDATA[,  ]]></institution>
<addr-line><![CDATA[ ]]></addr-line>
</aff>
<pub-date pub-type="pub">
<day>00</day>
<month>04</month>
<year>2004</year>
</pub-date>
<pub-date pub-type="epub">
<day>00</day>
<month>04</month>
<year>2004</year>
</pub-date>
<volume>56</volume>
<numero>2</numero>
<fpage>23</fpage>
<lpage>25</lpage>
<copyright-statement/>
<copyright-year/>
<self-uri xlink:href="http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=S0009-67252004000200015&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri><self-uri xlink:href="http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?script=sci_abstract&amp;pid=S0009-67252004000200015&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri><self-uri xlink:href="http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?script=sci_pdf&amp;pid=S0009-67252004000200015&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri></article-meta>
</front><body><![CDATA[ <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v56n2/a15img01.gif"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size=5><b>H<small>IST&Oacute;RIA DA CIDADE E DO URBANISMO NO</small> B<small>RASIL: REFLEX&Otilde;ES    SOBRE A PRODU&Ccedil;&Atilde;O RECENTE</small></b></font></p>     <p><font size="3"><b>Ana Fernandes; Marco Aur&eacute;lio A. de Filgueiras Gomes</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3"> <b><font size=5>U</font></b>ma vertente importante do pensamento    sobre a cidade e o urbanismo est&aacute; hoje ancorada na hist&oacute;ria. Isto    vale n&atilde;o s&oacute; para o Brasil, mas para muitos outros pa&iacute;ses.    Diversas s&atilde;o as formas que toma esse renovado interesse pela hist&oacute;ria:    de um lado, mais pragm&aacute;tico, comparecem a valoriza&ccedil;&atilde;o do    patrim&ocirc;nio hist&oacute;rico – quase sempre de olho nas perspectivas oferecidas    pelo desenvolvimento tur&iacute;stico – e a cria&ccedil;&atilde;o de novos espa&ccedil;os,    consistente ou banal, inspirada em formas urbanas tradicionais; de outro, enorme    desenvolvimento de pesquisas que buscam conhecer a hist&oacute;ria de nossas    cidades, os processos de sua transforma&ccedil;&atilde;o no tempo, os projetos    realizados e n&atilde;o realizados, os protagonistas que ajudaram a dar-lhes    uma nova forma e um novo sentido, as inflex&otilde;es da constitui&ccedil;&atilde;o    do urbanismo enquanto disciplina reflexiva e propositiva sobre a cidade. Como    entender esse fen&ocirc;meno? O que significa esse interesse sobre o passado    por parte de um n&uacute;mero significativo de pesquisadores, quando o presente    coloca quest&otilde;es t&atilde;o prementes para nossas cidades, como o desemprego,    a falta de moradia, a exclus&atilde;o social e a viol&ecirc;ncia? Se boa parte    da pesquisa hist&oacute;rica sobre nossas cidades est&aacute; sendo feita hoje    por arquitetos, urbanistas e planejadores urbanos de forma&ccedil;&atilde;o,    por que raz&otilde;es foram esses profissionais, essencialmente propositivos    e prospectivos, buscar na hist&oacute;ria um caminho para o aprofundamento de    sua reflex&atilde;o sobre a cidade e o urbanismo? </font></p>     <p><font size="3">Longe de querer dar conta das m&uacute;ltiplas formas que toma    hoje esse interesse pela hist&oacute;ria das cidades e das variadas raz&otilde;es    que o motivam, o presente texto busca t&atilde;o somente entender uma parcela    importante da produ&ccedil;&atilde;o acad&ecirc;mica sobre o assunto – aquela    desenvolvida, nos &uacute;ltimos 15 anos, nos programas de p&oacute;s-gradua&ccedil;&atilde;o    em arquitetura e urbanismo e em planejamento urbano e regional existentes no    Brasil, muitos deles com &aacute;reas de concentra&ccedil;&atilde;o e/ou linhas    de pesquisa em hist&oacute;ria da cidade e do urbanismo – discutindo temas,    periodiza&ccedil;&otilde;es, refer&ecirc;ncias te&oacute;rico-conceituais, bem    como suas fragilidades e perspectivas. Como estrat&eacute;gia metodol&oacute;gica    para viabilizar essa dif&iacute;cil tarefa nos debru&ccedil;amos sobre 118 trabalhos    apresentados entre 1989 e 2001 nos encontros bianuais da Associa&ccedil;&atilde;o    Nacional de P&oacute;s-Gradua&ccedil;&atilde;o e Pesquisa em Planejamento Urbano    e Regional (Anpur), um dos principais f&oacute;runs de discuss&atilde;o e difus&atilde;o    dessa produ&ccedil;&atilde;o (1). </font></p>     <p><font size="3"><b>CONSTITUI&Ccedil;&Atilde;O DA &Aacute;REA E FOCOS DE INTERESSE    ESPA&Ccedil;O-TEMPORAL</b> Da habita&ccedil;&atilde;o para a cidade: eis o percurso    que no Brasil, a partir dos anos de 1980, parece abrir um novo momento nos estudos    sobre a hist&oacute;ria da cidade e do urbanismo, no qual se buscava entender    os antecedentes hist&oacute;ricos da crise de moradia que ent&atilde;o se agravava    e da a&ccedil;&atilde;o do estado para a qual se buscavam alternativas. De um    lado, isto parece decorrer da pr&oacute;pria evolu&ccedil;&atilde;o do estudo    da quest&atilde;o habitacional e, de outro, parece estar associado ao desenvolvimento    dos estudos de hist&oacute;ria social em um momento de distens&atilde;o pol&iacute;tica,    com o conseq&uuml;ente aumento da problematiza&ccedil;&atilde;o da hist&oacute;ria    do movimento oper&aacute;rio. Uma primeira constata&ccedil;&atilde;o poderia    ser a de que esses trabalhos d&atilde;o continuidade e alargam a perspectiva    temporal de uma s&eacute;rie de estudos que, desde os anos de 1970, vinham buscando    entender problemas pr&oacute;prios da cidade brasileira: respostas populares    &agrave; car&ecirc;ncia de moradias; propostas patronais para a gest&atilde;o    da for&ccedil;a de trabalho; pol&iacute;ticas e iniciativas do Estado frente    a quest&otilde;es urbanas. </font></p>     <p><font size="3">Nesse sentido, apesar de encontrar nas escolas de arquitetura    um espa&ccedil;o privilegiado para o seu desenvolvimento, ser&aacute; menos    a preocupa&ccedil;&atilde;o com a forma da cidade e mais a quest&atilde;o social    que marcar&aacute; os estudos de hist&oacute;ria de cidade a partir dos anos    1980, explicitando o car&aacute;ter de politiza&ccedil;&atilde;o da discuss&atilde;o    naquele momento. </font></p>     <p><font size="3">A focaliza&ccedil;&atilde;o da hist&oacute;ria da cidade e do    urbanismo, no &acirc;mbito dos encontros da Anpur, criada em 1983, nasce de    uma bifurca&ccedil;&atilde;o das ainda incipientes discuss&otilde;es sobre <b>preserva&ccedil;&atilde;o</b>    e sobre <b>imagem</b> e <b>forma</b> da cidade (2). </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3">A defini&ccedil;&atilde;o desse eixo tem&aacute;tico de estudos    e pesquisas pode ser balizada por tr&ecirc;s fatores: em primeiro lugar, pela    a&ccedil;&atilde;o institucional da pr&oacute;pria associa&ccedil;&atilde;o,    que sempre buscou congregar tem&aacute;ticas trabalhadas pelo conjunto de seus    membros filiados, da&iacute; surgindo a necessidade de oferecer espa&ccedil;o    a parte da produ&ccedil;&atilde;o realizada, sobretudo, nas faculdades de arquitetura,    que ainda n&atilde;o encontrava guarida nas &aacute;reas tem&aacute;ticas colocadas    genericamente pela &aacute;rea de planejamento urbano e regional. Em segundo    lugar (e crescentemente), o presente deixou de ser condi&ccedil;&atilde;o suficiente    para o entendimento dos processos urbanos (3), ao que se liga a emerg&ecirc;ncia    de novas gera&ccedil;&otilde;es de estudiosos da cidade, &aacute;vidas por espa&ccedil;o    e prenhes dessas novas possibilidades de formula&ccedil;&atilde;o te&oacute;rica    e conceitual. Por fim, forma, imagem e preserva&ccedil;&atilde;o v&atilde;o    entrela&ccedil;ando-se intimamente com a quest&atilde;o da hist&oacute;ria,    fun&ccedil;&atilde;o dos processos de transforma&ccedil;&atilde;o do espa&ccedil;o    urbano em escala mundial. </font></p>     <p><font size="3">Mesmo considerando esse entrela&ccedil;amento crescente, escolhemos    analisar, neste texto, apenas os trabalhos que se referem diretamente ao campo    da hist&oacute;ria. Apesar da dificuldade dessa delimita&ccedil;&atilde;o, considerar,    junto com Lepetit (4), que o historiador ativa dimens&otilde;es despercebidas    do passado transmitido, parece-nos abrir um caminho produtivo de sele&ccedil;&atilde;o    e discuss&atilde;o dos trabalhos. Destacam-se, ent&atilde;o, como p&oacute;los    de interesse na problematiza&ccedil;&atilde;o da quest&atilde;o urbana, o passado,    a maneira como ele &eacute; transmitido e o que de novo pode ser dito em rela&ccedil;&atilde;o    a ele. </font></p>     <p><font size="3">Mais de 2/3 dos trabalhos analisados referem-se &agrave;s cidades    capitais, estando os restantes divididos entre estudos de transforma&ccedil;&otilde;es    ocorridas em cidades do interior, da forma&ccedil;&atilde;o hist&oacute;rica    do espa&ccedil;o regional ou de aspectos da hist&oacute;ria da cidade e do urbanismo    em pa&iacute;ses estrangeiros. No conjunto, as regi&otilde;es Sudeste – em primeiro    lugar – e Nordeste – em segundo – s&atilde;o, de longe, as mais estudadas, sendo    a perspectiva comparada (em geral entre cidades) bastante inexpressiva. An&aacute;lises    comparadas entre cidades brasileiras e cidades estrangeiras praticamente n&atilde;o    existem. </font></p>     <p><font size="3">O s&eacute;culo XX e seus ciclos conjunturais constituem a grande    esfinge temporal a ser desvendada pelos trabalhos apresentados. Cerca de 80%    deles se debru&ccedil;am sobre esse per&iacute;odo, ainda que utilizando periodiza&ccedil;&otilde;es    variadas. Nesse particular, &eacute; interessante constatar que a grande maioria    se debru&ccedil;a sobre tempos que variam entre 10 e 50 anos, sendo minorit&aacute;rias    tanto a brev&iacute;ssima quanto a longa dura&ccedil;&atilde;o. Os trabalhos    que abordam o longo tempo tendem mais para ensaios cr&iacute;ticos ou vis&otilde;es    te&oacute;rico-conceituais que apenas afloram a quest&atilde;o hist&oacute;rica    propriamente dita. &Agrave;s ant&iacute;podas, a brev&iacute;ssima dura&ccedil;&atilde;o    em geral descreve acuradamente os processos e propostas em jogo – por exemplo,    no espa&ccedil;o de uma gest&atilde;o p&uacute;blica – mas pouco elucida os    processos mais gerais de conforma&ccedil;&atilde;o das cidades. Ainda no registro    temporal, importa destacar um processo de distanciamento das periodiza&ccedil;&otilde;es    tradicionais ancoradas na hist&oacute;ria pol&iacute;tica ou na hist&oacute;ria    econ&ocirc;mica brasileira. Processos particulares e mais especificamente afeitos    &agrave; quest&atilde;o urbana v&atilde;o sendo destacados, mostrando uma composi&ccedil;&atilde;o    do tempo hist&oacute;rico mais rica e menos linear. A preocupa&ccedil;&atilde;o    expl&iacute;cita com a periodiza&ccedil;&atilde;o &eacute; uma das grandes discuss&otilde;es    ausentes da produ&ccedil;&atilde;o do per&iacute;odo.</font></p>     <p><font size="3"><b>TEMAS, CONCEITOS, CONTEXTOS</b> A hist&oacute;ria da cidade    e do urbanismo modernos (5) no Brasil concentra a quase totalidade dos trabalhos    analisados, cerca de 90% do universo aqui referido. </font></p>     <p><font size="3">A cidade colonial, embora conhecendo uma amplia&ccedil;&atilde;o    de interesse por parte dos pesquisadores (6), tem ainda representa&ccedil;&atilde;o    restrita. Ali&aacute;s, n&atilde;o deixa de surpreender o fato de que, apesar    da pouca express&atilde;o num&eacute;rica dos estudos sobre a cidade colonial    face, por exemplo, &agrave; explos&atilde;o de trabalhos sobre moderniza&ccedil;&atilde;o    urbana, os estudos sobre o "urbanismo colonial portugu&ecirc;s" parecem ser    aqueles que mais t&ecirc;m propiciado uma interlocu&ccedil;&atilde;o internacional,    com refer&ecirc;ncias rec&iacute;procas e avan&ccedil;os, em cada lado do Atl&acirc;ntico,    dependentes dos avan&ccedil;os do outro lado, envolvendo in&uacute;meros pesquisadores,    tanto do lado brasileiro quanto do portugu&ecirc;s. Na amplia&ccedil;&atilde;o    dessa interlocu&ccedil;&atilde;o tiveram papel fundamental as iniciativas muitas    vezes conjuntas – col&oacute;quios, exposi&ccedil;&otilde;es, publica&ccedil;&otilde;es    – que, na &uacute;ltima d&eacute;cada, contribu&iacute;ram para discutir e reavaliar    os descobrimentos portugueses e o fluxo de ideais e pr&aacute;ticas que eles    disseminaram entre quatro continentes. </font></p>     <p><font size="3">Os balan&ccedil;os tem&aacute;ticos da &aacute;rea come&ccedil;am    a compor timidamente esse universo (7). </font></p>     <p><font size="3">Moderniza&ccedil;&atilde;o urbana, urbanismo, habita&ccedil;&atilde;o    e imagem/imagin&aacute;rio dividem quase em igualdade os principais focos de    interesse para a compreens&atilde;o da cidade moderna brasileira. O quadro tem&aacute;tico    &eacute; ainda muito semelhante &agrave;quele encontrado no in&iacute;cio dos    anos de 1990 (8), embora se possa perceber uma dispers&atilde;o maior em termos    de per&iacute;odos trabalhados e na forma de abordagem dos mesmos, em geral    mais espec&iacute;ficos. A famosa tr&iacute;ade higiene/fluidez/est&eacute;tica    do primeiro ciclo de moderniza&ccedil;&atilde;o urbana brasileira, caracter&iacute;stico    das duas primeiras d&eacute;cadas do s&eacute;culo XX, &eacute;, em certa medida,    superada como tem&aacute;tica, ao mesmo tempo em que estudos sobre os ciclos    subseq&uuml;entes de moderniza&ccedil;&atilde;o e os estudos sobre imagem e    imagin&aacute;rio ganharam maior relevo nos anos mais recentes. Esses &uacute;ltimos    buscam analisar as representa&ccedil;&otilde;es que se t&ecirc;m de espa&ccedil;os    urbanos ou as imagens de cidades retidas ou projetadas particularmente pelas    elites, por viajantes, cronistas e literatos. </font></p>     <p><font size="3">Mas s&atilde;o os estudos sobre hist&oacute;ria do urbanismo,    indubitavelmente, que constituem a grande mudan&ccedil;a em rela&ccedil;&atilde;o    ao balan&ccedil;o anterior, indicando muito claramente que estamos frente &agrave;    constitui&ccedil;&atilde;o de um novo campo tem&aacute;tico de pesquisa. Processos    da constitui&ccedil;&atilde;o da disciplina e seus campos de influ&ecirc;ncia,    circula&ccedil;&atilde;o das id&eacute;ias, planos e projetos elaborados para    as cidades brasileiras, seus principais protagonistas e as contradi&ccedil;&otilde;es    entre as cidades idealizadas por arquitetos, urbanistas e planejadores e a cidade    real, s&atilde;o os principais objetos privilegiados nesse campo de estudos.    Como ressaltado por Bonduki (9), o estabelecimento de uma rede de pesquisa,    nacionalmente organizada (10), com participa&ccedil;&atilde;o de oito capitais    e suas correspondentes universidades, estimulou e refor&ccedil;ou a pesquisa    nessa &aacute;rea, consolidando fontes e acervos de pesquisa e publica&ccedil;&otilde;es    pertinentes &agrave; produ&ccedil;&atilde;o referente sobretudo &agrave; primeira    metade do s&eacute;culo XX. </font></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v56n2/a15fig01.gif"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3">Embora n&atilde;o tenhamos dados precisos sobre a forma&ccedil;&atilde;o    dos autores, &eacute; poss&iacute;vel estimar que pelo menos 60% deles sejam    arquitetos, com grandes chances desse percentual ser ainda maior, o que atribui    um recorte particular a esses estudos, particularmente &agrave;queles sobre    a hist&oacute;ria do urbanismo. A hist&oacute;ria disciplinar feita por seu    pr&oacute;prio corpo profissional imp&otilde;e algumas reflex&otilde;es. Por    um lado, o amplo conhecimento das rela&ccedil;&otilde;es e das genealogias em    pauta contribui para estruturar de forma mais complexa tanto a reflex&atilde;o    hist&oacute;rica quanto o pr&oacute;prio campo de conhecimento e de atua&ccedil;&atilde;o    profissional. No entanto, &eacute; interessante ainda observar que, se os arquitetos-historiadores    t&ecirc;m grande desenvoltura quando se trata de explorar materialidades e rugosidades    do espa&ccedil;o, o mesmo n&atilde;o acontece quando se trata de entender e    problematizar o tempo – tarefa em que os historiadores de forma&ccedil;&atilde;o    t&ecirc;m muito mais intimidade – e suas rela&ccedil;&otilde;es com o espa&ccedil;o.    Finalmente, dificuldades no manuseio das fontes documentais e em sua interpreta&ccedil;&atilde;o    est&atilde;o dentre os desafios enfrentados por esses novos historiadores. </font></p>     <p><font size="3">Em termos de refer&ecirc;ncias te&oacute;ricas utilizadas na    produ&ccedil;&atilde;o da &aacute;rea, &eacute; poss&iacute;vel encontrar uma    grande unidade e uma grande fragilidade. Ou seja, parece existir uma postura    conceitual subjacente ao conjunto da produ&ccedil;&atilde;o, caracterizada por:    </font></p>     <p><font size="3">• contraposi&ccedil;&atilde;o e cr&iacute;tica expl&iacute;cita    ou impl&iacute;cita ao autoritarismo, a pol&iacute;ticas elitistas e &agrave;    segrega&ccedil;&atilde;o/exclus&atilde;o enquanto forma de condu&ccedil;&atilde;o    das pol&iacute;ticas urbanas e urban&iacute;sticas;    <br>   • busca e legitima&ccedil;&atilde;o da amplia&ccedil;&atilde;o    da problem&aacute;tica hist&oacute;rica, particularmente no que tange &agrave;    inclus&atilde;o de outras categorias sociais, que n&atilde;o as elites, como    produtoras de hist&oacute;ria e de mem&oacute;ria;    <br>   • sensibilidade ao evento singular como enriquecedor da    problem&aacute;tica das cidades;    <br>   • recusa contundente da cidade funcionalista e combate    ao "a-historicismo" modernista dos anos de 1950/60. </font></p>     <p><font size="3">Conforme j&aacute; sugerido neste texto, essa situa&ccedil;&atilde;o    parece ter suas origens no per&iacute;odo de constitui&ccedil;&atilde;o desse    campo de estudos no Brasil, ainda estreitamente associado &agrave; luta geral    pela redemocratiza&ccedil;&atilde;o do pa&iacute;s, num per&iacute;odo onde    os movimentos sociais – sindicais e populares, mas tamb&eacute;m estudantis    – indicavam de fato os limites do regime autorit&aacute;rio, particularmente    na problem&aacute;tica urbana. </font></p>     <p><font size="3">Uma certa "recusa" do projeto e dos aspectos formais em algumas    faculdades brasileiras de arquitetura e urbanismo na d&eacute;cada de 1970 –    considerados ent&atilde;o como incompat&iacute;veis com preocupa&ccedil;&otilde;es    sociais e engajamento pol&iacute;tico – parece explicar, por exemplo, que uma    vertente importante no desenvolvimento dos estudos hist&oacute;ricos sobre a    cidade no plano internacional, n&atilde;o tenha tido, aparentemente, nenhum    impacto no Brasil, como foi o caso dos estudos tipol&oacute;gicos, com forte    desenvolvimento na Europa (It&aacute;lia e Fran&ccedil;a, sobretudo), nos anos    1960 e 1970, mas que s&oacute; chegam ao Brasil bem mais tarde, atrav&eacute;s    de tradu&ccedil;&otilde;es espanholas (11). </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3">O mote de amplia&ccedil;&atilde;o da esfera de democratiza&ccedil;&atilde;o,    inclusive o questionamento dos limites da democracia representativa, parece    continuar a guiar o padr&atilde;o da produ&ccedil;&atilde;o intelectual cr&iacute;tica    na sociedade brasileira at&eacute; hoje. Como nos lembra Topalov (12), a formula&ccedil;&atilde;o    ou a visada de um mundo desej&aacute;vel e poss&iacute;vel &eacute; dado constituinte    da pr&oacute;pria &aacute;rea de planejamento urbano e regional. </font></p>     <p><font size="3">Esse per&iacute;odo, por outro lado, &eacute; tamb&eacute;m    fortemente caracterizado, na hist&oacute;ria das id&eacute;ias no Brasil, pela    crise/cr&iacute;tica da modernidade instrumental e dos 'meta-relatos', dilatando    o campo das ci&ecirc;ncias sociais ao possibilitar a emerg&ecirc;ncia de novas    formas de pensar, a legitima&ccedil;&atilde;o de novos protagonistas da cena    social e a constru&ccedil;&atilde;o de novas temporalidades de projeto social,    com destaque para o presente e o curto prazo. Al&eacute;m disto, devemos lembrar    que o interesse renovado pela hist&oacute;ria, no &acirc;mbito dos estudos urbanos    e regionais, conjuga-se com a preocupa&ccedil;&atilde;o com as descontinuidades,    as rupturas, os fragmentos, com grande papel outorgado &agrave; hist&oacute;ria    das mentalidades e da cultura, de uma maneira geral. </font></p>     <p><font size="3">Esses tr&ecirc;s elementos parecem assim formar um "caldo de    cultura" que ancora e generaliza essa produ&ccedil;&atilde;o sobre os processos    de transforma&ccedil;&atilde;o urbana e urban&iacute;stica das cidades brasileiras    no s&eacute;culo XX. </font></p>     <p><font size="3">Mas, por outro lado, tamb&eacute;m parece constituir uma grande    unidade o fato de estas quest&otilde;es – processos de transforma&ccedil;&atilde;o    urbana e urban&iacute;stica das cidades brasileiras no s&eacute;culo XX – praticamente    ainda n&atilde;o terem sido problematizadas enquanto campo te&oacute;rico, revelando    uma constitui&ccedil;&atilde;o ainda fraca dessa &aacute;rea dos estudos urbanos.    Em grande parte descritivos, esses trabalhos continuam a elencar um conjunto    de dados e informa&ccedil;&otilde;es cuja formula&ccedil;&atilde;o e constru&ccedil;&atilde;o    conceitual permanecem como instigante e complexo desafio aos pesquisadores da    &aacute;rea. </font></p>     <p><font size="3">Ou seja, o que de novo est&aacute; sendo dito em rela&ccedil;&atilde;o    ao passado ainda &eacute;, em grande medida, a constata&ccedil;&atilde;o de    um enorme interesse por sua exist&ecirc;ncia – o que pode ser entendido como    resultante da complexifica&ccedil;&atilde;o de nossa sociedade e de um novo    modo de pensar – e a constru&ccedil;&atilde;o, em graus variados de aprofundamento,    mas sobretudo emp&iacute;rica, dos complexos processos de constitui&ccedil;&atilde;o    da problem&aacute;tica urbana e urban&iacute;stica em nosso pa&iacute;s. Merecem    assim destaque os estudos sobre as tradi&ccedil;&otilde;es e os modelos de urbanismo    aqui constru&iacute;dos e difundidos, os mecanismos de circula&ccedil;&atilde;o    de id&eacute;ias e ideais de cidade assim como a pesquisa sobre a a&ccedil;&atilde;o    de variados profissionais urbanistas, dando maior densidade &agrave; hist&oacute;ria    da disciplina e fugindo das facilidades da atua&ccedil;&atilde;o restrita aos    mestres. </font></p>     <p><font size="3"><b>A HIST&Oacute;RIA INSTRUMENTALIZADA</b> Mas, para al&eacute;m    da constru&ccedil;&atilde;o do campo intelectual da hist&oacute;ria da cidade    e do urbanismo propriamente dito, &eacute; necess&aacute;rio destacarmos que    um campo utilit&aacute;rio vem articulando, de maneira crescente, hist&oacute;ria,    forma, imagem e preserva&ccedil;&atilde;o, fun&ccedil;&atilde;o dos processos    de transforma&ccedil;&atilde;o do espa&ccedil;o urbano em escala mundial. Diferentemente    de outros pa&iacute;ses, o v&iacute;nculo entre estudos visando pr&aacute;ticas    operativas no campo da preserva&ccedil;&atilde;o e estudos hist&oacute;ricos    sobre a cidade pouco relevo teve no Brasil at&eacute; o momento (13). Apesar    do desenvolvimento das quest&otilde;es relativas ao patrim&ocirc;nio, os estudos    hist&oacute;ricos sobre as cidades brasileiras como base para planos e projetos    tiveram, no geral, pouco f&ocirc;lego intelectual. Partes integrantes de projetos,    neles se inseriam de forma quase burocr&aacute;tica, apenas compondo os famosos    antecedentes hist&oacute;ricos ou fazendo o pano de fundo de uma determinada    proposta, sem conseguirem atingir uma dimens&atilde;o metodol&oacute;gica ou    te&oacute;rica mais aprofundada.</font></p>     <p><font size="3">Nesse contexto, com a hist&oacute;ria reduzida a mero valor    de consumo, assistimos &agrave; sua banaliza&ccedil;&atilde;o, onde a prolifera&ccedil;&atilde;o    de registros que devem ser conservados sem hierarquiza&ccedil;&atilde;o se soma    &agrave; sua apropria&ccedil;&atilde;o pelo circuito de produ&ccedil;&atilde;o    cultural ou imobili&aacute;ria, purificando-os, asseptizando-os, transcrevendo-os    em c&oacute;pias de si pr&oacute;prios e destacando seus particularismos mais    ex&oacute;ticos. </font></p>     <p><font size="3">A coloniza&ccedil;&atilde;o financeira e corporativa das fronteiras    temporais e a conseq&uuml;ente instrumentaliza&ccedil;&atilde;o da hist&oacute;ria    constituem hoje uma das principais vertentes da atua&ccedil;&atilde;o p&uacute;blica    e privada sobre nossas cidades. Sem d&uacute;vida, um novo campo de tens&atilde;o    entre a hist&oacute;ria, a cidade e o urbanismo. Mas essa j&aacute; &eacute;    uma outra (e necess&aacute;ria) discuss&atilde;o...</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3"><i><b>Ana Fernandes</b> e <b>Marco Aur&eacute;lio A. de Filgueiras    Gomes</b> s&atilde;o professores da Faculdade de Arquitetura da Universidade    Federal da Bahia.</i></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3"> <b>Notas e refer&ecirc;ncias bibliogr&aacute;ficas</b></font></p>     <p><font size="3">1. Essa sugest&atilde;o nos foi feita pela comiss&atilde;o organizadora    do X Encontro Nacional da Anpur (ENA), que buscava, no encontro de maio de 2003,    em Belo Horizonte, fazer um balan&ccedil;o das v&aacute;rias &aacute;reas tem&aacute;ticas    trabalhadas pelos pesquisadores em programas filiados e associados &agrave;    Anpur. Assim, uma primeira vers&atilde;o deste artigo foi apresentada na mesa    redonda "Encruzilhadas do planejamento: repensando teorias e pr&aacute;ticas"    ocorrida no X ENA. Isso nos colocou frente a 118 trabalhos, apresentados em    sete encontros nacionais, (seis em 1989 em &Aacute;guas de S&atilde;o Pedro,    dez em 1991 em Salvador, 17 em 1993 em Belo Horizonte, 18 em 1995 em Bras&iacute;lia,    20 em 1997 em Recife, 24 em 1999 em Porto Alegre e 23 em 2001 no Rio de Janeiro).    Embora aqui n&atilde;o analisados, devemos ainda fazer refer&ecirc;ncia aos    Semin&aacute;rios de Hist&oacute;ria da Cidade e do Urbanismo, bianuais, que    concentram parcela significativa da produ&ccedil;&atilde;o acad&ecirc;mica brasileira    na &aacute;rea. </font></p>     <p><font size="3">2. A explicita&ccedil;&atilde;o da quest&atilde;o hist&oacute;rica    nas sess&otilde;es tem&aacute;ticas da Anpur deu-se no encontro de 1991, em    Salvador. A partir de ent&atilde;o, essa quest&atilde;o tem tido presen&ccedil;a    sistem&aacute;tica nos encontros da associa&ccedil;&atilde;o. </font></p>     <p><font size="3">3. Em termos bastante gerais, a necessidade de se repensar as    rela&ccedil;&otilde;es entre a sociedade e seus tempos – futuro, presente e    passado – pode ser considerada como uma condi&ccedil;&atilde;o colocada pela    chamada crise da modernidade. </font></p>     <p><font size="3">4. Com os crit&eacute;rios descritos, foram selecionados 73    trabalhos. Lepetit, B. <i>Por uma nova hist&oacute;ria urbana</i>. S&atilde;o    Paulo: Edusp, 2001 </font></p>     <p><font size="3">5. Para a hist&oacute;ria da cidade e do urbanismo, chamamos    de moderno o per&iacute;odo do final do Imp&eacute;rio aos anos 1960. </font></p>     <p><font size="3">6. Disto sendo bem representativa a organiza&ccedil;&atilde;o    de sess&otilde;es em torno deste tema nos semin&aacute;rios de hist&oacute;ria    da cidade e do urbanismo. </font></p>     <p><font size="3">7. Inicialmente produzidos como resposta &agrave; chamada de    trabalhos para o encontro da Anpur, realizado em 1999 em Porto Alegre, que colocava    os balan&ccedil;os da produ&ccedil;&atilde;o na &aacute;rea como um dos objetivos    da sess&atilde;o tem&aacute;tica. </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3">8. Texto apresentado ao II Semin&aacute;rio de Hist&oacute;ria    da Cidade e do Urbanismo, realizado em 1993 em Salvador, e publicado em 1998.    Fernandes, A. M. e Gomes, M. A. A. de F. "A pesquisa recente em hist&oacute;ria    urbana no Brasil: percursos e quest&otilde;es" <i><b>in</b></i> Padilha, N.    (org.) <i>Cidade e urbanismo. Hist&oacute;ria, teorias e pr&aacute;ticas</i>.    Salvador: MAU/FAUFBa, 1998. </font></p>     <p><font size="3">9. Bonduki, N. G. "Habita&ccedil;&atilde;o no Brasil: uma hist&oacute;ria    em constru&ccedil;&atilde;o" <i><b>in</b></i> Anais do VIII Encontro Nacional    da Anpur. CD-Rom. Porto Alegre: UFRS, 1999. </font></p>     <p><font size="3">10. A coordena&ccedil;&atilde;o geral a rede &eacute; da professora    Maria Cristina da Silva Leme, da FAU-USP. Os principais resultados da pesquisa    est&atilde;o divulgados no livro <i>Urbanismo no Brasil</i>, 1895-1965 (S&atilde;o    Paulo: Studio Nobel, Fupam, 1999, 599 p) e no CD-Rom Urbanismo no Brasil; Banco    documental sobre urbanismo e planejamento urbano (S&atilde;o Paulo, Semiotic    Systems, 2001). Participam da rede de pesquisa as faculdades de arquitetura    das seguintes universidades: UFBA, UFRS, UFF, UFPE, UFES, USP-SP e USP-SCar.    </font></p>     <p><font size="3">11. O nexo que Aldo Rossi buscava entre tipologia edil&iacute;cia    e morfologia urbana, por exemplo, deixar&aacute; muito poucas marcas na produ&ccedil;&atilde;o    historiogr&aacute;fica brasileira sobre a cidade. Interessante lembrar tamb&eacute;m    que a mesma escola dos estudos tipol&oacute;gicos em sua vertente francesa,    mais especificamente atrav&eacute;s da escola de Versailles, apesar de mais    difundida no Brasil, tamb&eacute;m n&atilde;o teve desdobramentos no plano da    hist&oacute;ria da cidade </font></p>     <p><font size="3">12. Topalov, C. "Savoirs et projets sur la ville et la r&eacute;gion:    un temps de crise?" Anais do IV Encontro Nacional da Anpur, Salvador, UFBa:MAU/FA,    1991, p. 13-27 </font></p>     <p><font size="3">13. Guido Zucconi em ensaio introdut&oacute;rio (a Giovannoni,    G. <i>Dal capitello alla citt&agrave;</i>. Mil&atilde;o. Jaca Books, 1997, 238    p.) estabelece um nexo que remonta a Giovannoni (e que, naturalmente, passa    por Aymonino e Rossi) no que diz respeito ao desenvolvimento da articula&ccedil;&atilde;o    entre monografias hist&oacute;ricas e projetos de restauro, planos de <i>diradamento</i>    e planos reguladores para bairros hist&oacute;ricos, centros antigos e zonas    de import&acirc;ncia ambiental e art&iacute;stica, que se tornam obrigat&oacute;rios    na It&aacute;lia desde 1943.</font></p>      ]]></body>
</article>
