<?xml version="1.0" encoding="ISO-8859-1"?><article xmlns:mml="http://www.w3.org/1998/Math/MathML" xmlns:xlink="http://www.w3.org/1999/xlink" xmlns:xsi="http://www.w3.org/2001/XMLSchema-instance">
<front>
<journal-meta>
<journal-id>0009-6725</journal-id>
<journal-title><![CDATA[Ciκncia e Cultura]]></journal-title>
<abbrev-journal-title><![CDATA[Cienc. Cult.]]></abbrev-journal-title>
<issn>0009-6725</issn>
<publisher>
<publisher-name><![CDATA[Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciκncia]]></publisher-name>
</publisher>
</journal-meta>
<article-meta>
<article-id>S0009-67252004000200016</article-id>
<title-group>
<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Nem tudo ι urbano]]></article-title>
</title-group>
<contrib-group>
<contrib contrib-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Veiga]]></surname>
<given-names><![CDATA[Josι Eli da]]></given-names>
</name>
</contrib>
</contrib-group>
<aff id="A">
<institution><![CDATA[,  ]]></institution>
<addr-line><![CDATA[ ]]></addr-line>
</aff>
<pub-date pub-type="pub">
<day>00</day>
<month>04</month>
<year>2004</year>
</pub-date>
<pub-date pub-type="epub">
<day>00</day>
<month>04</month>
<year>2004</year>
</pub-date>
<volume>56</volume>
<numero>2</numero>
<fpage>26</fpage>
<lpage>29</lpage>
<copyright-statement/>
<copyright-year/>
<self-uri xlink:href="http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=S0009-67252004000200016&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri><self-uri xlink:href="http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?script=sci_abstract&amp;pid=S0009-67252004000200016&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri><self-uri xlink:href="http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?script=sci_pdf&amp;pid=S0009-67252004000200016&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri></article-meta>
</front><body><![CDATA[ <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v56n2/a15img01.gif"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size=5><b>N<small>EM TUDO &Eacute; URBANO</small></b></font></p>     <p><font size="3"><b>Jos&eacute; Eli da Veiga </b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3"> <b><font size=5>S</font></b>er&aacute; apropriado afirmar    que "tudo &eacute; urbano"? Foi o que se ouviu em diversas sess&otilde;es do    &uacute;ltimo encontro anual da Associa&ccedil;&atilde;o Nacional de Planejamento    Urbano e Regional (Anpur), realizado em Belo Horizonte em maio de 2003. As mudan&ccedil;as    sem&acirc;nticas do debate p&uacute;blico sempre revelam um sentimento coletivo    de que no&ccedil;&otilde;es utilizadas at&eacute; determinado momento n&atilde;o    mais d&atilde;o conta da percep&ccedil;&atilde;o que se tem dos problemas enfrentados,    nem exprimem direito o que se gostaria ou pretenderia fazer em seguida. Ou seja,    s&atilde;o mudan&ccedil;as que refletem as hesita&ccedil;&otilde;es intr&iacute;nsecas    ao enunciado de novos projetos sociais, e, por isso mesmo, as novas no&ccedil;&otilde;es    em torno das quais se organiza o debate p&uacute;blico costumam ser sempre muito    imprecisas, fluidas e amb&iacute;guas. H&aacute; quem acredite que o processo    de urbaniza&ccedil;&atilde;o seja t&atilde;o poderoso que a hist&oacute;rica    contradi&ccedil;&atilde;o urbano-rural esteja fadada a desaparecer. E a peculiaridade    da defini&ccedil;&atilde;o brasileira de cidade s&oacute; ajuda a refor&ccedil;ar    essa suposi&ccedil;&atilde;o. Por isso, este artigo tem duas partes desiguais.    Na maior, a quest&atilde;o &eacute; abordada no &acirc;mbito global. Depois,    s&atilde;o apresentadas algumas considera&ccedil;&otilde;es mais sint&eacute;ticas    sobre o caso brasileiro.</font></p>     <p><font size="3"><b>OS GRAUS DE URBANIZA&Ccedil;&Atilde;O NO CAPITALISMO AVAN&Ccedil;ADO</b>    H&aacute; tr&ecirc;s tipos de pa&iacute;ses desenvolvidos sob o prisma da diferencia&ccedil;&atilde;o    espacial entre &aacute;reas urbanas e rurais. Primeiro, um pequeno grupo fortemente    urbanizado, que re&uacute;ne Holanda, B&eacute;lgica, Reino Unido e Alemanha,    no qual as regi&otilde;es essencialmente urbanas ocupam mais de 30% do territ&oacute;rio    e as regi&otilde;es essencialmente rurais menos de 20%, sendo que as intermedi&aacute;rias    variam entre 30% e 50%.(1) No extremo oposto h&aacute; um grupo maior, formado    por quatro pa&iacute;ses do "Novo Mundo" - Austr&aacute;lia, Canad&aacute;,    Estados Unidos e Nova Zel&acirc;ndia - mas do qual tamb&eacute;m fazem parte    tr&ecirc;s na&ccedil;&otilde;es muito antigas: Irlanda, Su&eacute;cia e Noruega.    Nesse grupo as regi&otilde;es essencialmente rurais cobrem mais de 70% do territ&oacute;rio    e as relativamente rurais t&ecirc;m por&ccedil;&otilde;es inferiores a 20%.    Finalmente, no caminho do meio encontram-se Fran&ccedil;a, Jap&atilde;o, &Aacute;ustria    e Su&iacute;&ccedil;a, pa&iacute;ses nos quais entre 50% e 70% do territ&oacute;rio    pertence a regi&otilde;es essencialmente rurais e cerca de 30% a regi&otilde;es    relativamente rurais.</font></p>     <p><font size="3">Qualquer esfor&ccedil;o para interpretar os fundamentos desses    tr&ecirc;s padr&otilde;es de diferencia&ccedil;&atilde;o espacial do mundo desenvolvido    ser&aacute; for&ccedil;osamente levado a considerar fatores naturais objetivos,    como o relevo, clima e hidrologia. Rejeitar explica&ccedil;&otilde;es baseadas    no determinismo natural n&atilde;o significa que se possa admitir o simples    "possibilismo", isto &eacute;, a desconsidera&ccedil;&atilde;o de limites f&iacute;sicos    e biol&oacute;gicos &agrave; a&ccedil;&atilde;o humana na forma&ccedil;&atilde;o    dos espa&ccedil;os rurais e urbanos, eludindo, assim, toda a problem&aacute;tica    do relacionamento entre as sociedades humanas e os meios ditos naturais.(2)    Al&eacute;m disso, foi justamente o avan&ccedil;o das pesquisas cient&iacute;ficas    em urbanismo que fez emergir o conceito de "ecossistema territorial", entendido    como o espa&ccedil;o sem o qual um ecossistema urbano n&atilde;o pode exercer    o conjunto de suas pr&oacute;prias fun&ccedil;&otilde;es vitais. Se o ecossistema    territorial &eacute; composto tanto de elementos do ambiente f&iacute;sico-biol&oacute;gico,    quanto do ambiente constru&iacute;do e do ambiente antr&oacute;pico, torna-se    imposs&iacute;vel, ent&atilde;o, recusar todo e qualquer tipo de determinismo    geogr&aacute;fico para explicar a localiza&ccedil;&atilde;o das atividades e    das popula&ccedil;&otilde;es, como pretendiam os primeiros te&oacute;ricos da    economia espacial.(3) </font></p>     <p><font size="3">Nada disso impede, entretanto, que seja muito atraente a cren&ccedil;a    de que o destino do espa&ccedil;o rural ser&aacute; seu desaparecimento por    for&ccedil;a de avassaladora urbaniza&ccedil;&atilde;o. Para seus adeptos, a    oposi&ccedil;&atilde;o urbano-rural j&aacute; seria, inclusive, uma quest&atilde;o    inteiramente superada, uma vez que a ruralidade n&atilde;o passaria de mero    suced&acirc;neo de uma forma&ccedil;&atilde;o social anterior, condenada pura    e simplesmente a sumir, a exemplo do que j&aacute; teria ocorrido na Holanda,    essa vasta metr&oacute;pole urbana apenas recortada por corredores verdes onde    se misturam espa&ccedil;os recreativos e terrenos de uso agr&iacute;cola. </font></p>     <p><font size="3">Acontece, contudo, que essa vis&atilde;o de converg&ecirc;ncia    para um suposto padr&atilde;o holand&ecirc;s, de grande metr&oacute;pole esverdeada,    n&atilde;o resiste a qualquer tentativa de se encontrar homogeneidade espacial    entre os pa&iacute;ses mais desenvolvidos, mesmo que se admita o reducionismo    de considerar apenas os aspectos demogr&aacute;ficos da quest&atilde;o. Um dos    pa&iacute;ses desenvolvidos mais densamente povoados  a Su&iacute;&ccedil;a     tem 13% de sua popula&ccedil;&atilde;o em regi&otilde;es essencialmente rurais,    25% em regi&otilde;es relativamente rurais e 62% em regi&otilde;es essencialmente    urbanizadas. Estendendo-se por largas partes do Jura, da Plaine e dos Alpes,    as zonas rurais contribuem de maneira significativa &agrave; economia nacional,    para n&atilde;o falar da imagem do pa&iacute;s no exterior. E suas fun&ccedil;&otilde;es    de resid&ecirc;ncia, de trabalho, e de lazer, s&atilde;o consideradas fundamentais    por suas elites. </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3">&Eacute; verdade que s&oacute; uma &iacute;nfima parte dos habitantes    de meia d&uacute;zia de pa&iacute;ses do oeste europeu reside em regi&otilde;es    essencialmente rurais. Mas o peso das popula&ccedil;&otilde;es em regi&otilde;es    relativamente rurais dessa meia d&uacute;zia de pa&iacute;ses varia de 15% na    Holanda a 44% na It&aacute;lia. Nesta &uacute;ltima, como no Jap&atilde;o, n&atilde;o    chegam a 50% os habitantes de regi&otilde;es essencialmente urbanas, mesmo que    70% residam em <i>localidades</i> urbanas. Em pa&iacute;ses maiores, como a    Fran&ccedil;a e o Canad&aacute;, apenas 29% e 44% dos habitantes est&atilde;o    em regi&otilde;es essencialmente urbanas, mesmo que 60% residam em <i>localidades</i>    urbanas. De resto, a diferencia&ccedil;&atilde;o rural/urbana pode ser muito    parecida em territ&oacute;rios t&atilde;o diferentes quanto o da Fran&ccedil;a    e o dos Estados Unidos. </font></p>     <p><font size="3">S&atilde;o bem diversas as combina&ccedil;&otilde;es entre os    v&aacute;rios tipos de atividade econ&ocirc;mica que permitem elevar os n&iacute;veis    de renda, educa&ccedil;&atilde;o e sa&uacute;de de muitas popula&ccedil;&otilde;es    que continuam rurais. As novas fontes de crescimento das &aacute;reas rurais    est&atilde;o principalmente ligadas a peculiaridades dos patrim&ocirc;nios natural    e cultural, o que s&oacute; reafirma o contraste entre os contextos ambientais    dos espa&ccedil;os urbanos e rurais. Enfim, a vis&atilde;o de uma inelut&aacute;vel    marcha para a urbaniza&ccedil;&atilde;o como &uacute;nica via de desenvolvimento    s&oacute; pode ser considerada plaus&iacute;vel por quem desconhece a imensa    diversidade que caracteriza as rela&ccedil;&otilde;es entre espa&ccedil;os rurais    e urbanos dos pa&iacute;ses que mais se desenvolveram. N&atilde;o faz sentido,    portanto, amalgamar desenvolvimento e urbaniza&ccedil;&atilde;o. </font></p>     <p><font size="3">Est&atilde;o justamente entre as menos urbanizadas as microrregi&otilde;es    rurais dos Estados Unidos que hoje desfrutam das melhores perspectivas de desenvolvimento.    S&atilde;o principalmente as do sul e do oeste que disp&otilde;em de clima agrad&aacute;vel,    montanhas, lagos, praias, podendo atrair muitos aposentados, turistas, excursionistas,    esportistas, etc. Al&eacute;m desses condados j&aacute; escolhidos por migrantes    de alta renda, h&aacute; muitos outros, principalmente no oeste, nos quais a    forte incid&ecirc;ncia de terras federais faz com que seu futuro esteja estreitamente    vinculado &agrave; evolu&ccedil;&atilde;o das pol&iacute;ticas governamentais    relativas ao meio ambiente, ao turismo e outros ramos recreativos. De resto,    elevadas rendas per capita ocorrem nos condados rurais das Grandes Plan&iacute;cies,    porque ali os servi&ccedil;os vinculados a atividades agroindustriais engendraram    baix&iacute;ssimos n&iacute;veis de densidade demogr&aacute;fica. E h&aacute;    muita incerteza sobre as perspectivas socioecon&ocirc;micas de condados rurais    da metade oriental do pa&iacute;s, principalmente no sudoeste, onde os servi&ccedil;os    se combinaram a outros tipos de atividades industriais.(4) </font></p>     <p><font size="3">Na pr&aacute;tica, as desigualdades internas &agrave;s regi&otilde;es    rurais de um mesmo pa&iacute;s podem ser muito mais significativas que as referentes    ao contraste rural/urbano. Em mais de um ter&ccedil;o dos condados rurais dos    Estados Unidos (795/2288), pelo menos 20% da popula&ccedil;&atilde;o encontrava-se    abaixo do n&iacute;vel de pobreza em 1990; um problema de dif&iacute;cil solu&ccedil;&atilde;o    em 535 deles, quase todos concentrados no sudeste e no sudoeste, mas tamb&eacute;m    presentes nos Appalaches e em algumas reservas ind&iacute;genas do norte e do    oeste. Todavia, mais de 80% da popula&ccedil;&atilde;o rural americana reside    em condados que conseguiram desenvolver sistemas produtivos cada vez mais baseados    em v&aacute;rios tipos de combina&ccedil;&otilde;es de atividades terci&aacute;rias    com as duas outras categorias setoriais. Para o conjunto dos espa&ccedil;os    rurais dos Estados Unidos, as novas fontes de crescimento e emprego est&atilde;o    nas atividades de servi&ccedil;os ligadas ao lazer, &agrave; aposentadoria e    ao meio natural, mesmo que continuem muito importantes outros tipos de servi&ccedil;os,    como os financeiros, de seguros, imobili&aacute;rios, de com&eacute;rcio varejista,    de restaura&ccedil;&atilde;o, de lavagem a seco, etc. </font></p>     <p><font size="3">Enfim, as &aacute;reas rurais dos pa&iacute;ses avan&ccedil;ados    que permanecem subdesenvolvidas s&atilde;o aquelas que n&atilde;o lograram explorar    qualquer voca&ccedil;&atilde;o que as conecte &agrave;s din&acirc;micas econ&ocirc;micas    de outros espa&ccedil;os - sejam eles urbanos ou rurais  e n&atilde;o aquelas    que teriam sido incapazes ou impossibilitadas de se urbanizar. E como as novas    fontes de crescimento econ&ocirc;mico das &aacute;reas rurais est&atilde;o principalmente    ligadas a peculiaridades dos patrim&ocirc;nios natural e cultural, intensifica-se    o contraste urbano-rural. O que interessa s&atilde;o os v&iacute;nculos urbano-rurais.    </font></p>     <p><font size="3">Tudo isso quer dizer, ent&atilde;o, que a desacreditada abordagem    "dicot&ocirc;mica" deveria ser reabilitada? Estaria sendo contrariada a abordagem    inversa, de "<i>continuum</i>" ? Depende muito, na verdade, do significado que    se atribua a esses voc&aacute;bulos.(5) De qualquer forma, o que n&atilde;o    parece existir &eacute; qualquer evid&ecirc;ncia de que esteja desaparecendo    a hist&oacute;rica contradi&ccedil;&atilde;o urbano-rural, inclusive no caso    holand&ecirc;s, onde os espa&ccedil;os rurais tendem a ser caracterizados como    meros corredores nos quais convivem atividades agr&iacute;colas e recreativas.    Em outras palavras, h&aacute; uma falsa alternativa sendo proposta nesse duelo    entre dicotomia e "<i>continuum</i>". Mas para disso se dar conta, &eacute;    absolutamente necess&aacute;rio sair do isolamento demogr&aacute;fico (ou no    m&aacute;ximo sociol&oacute;gico) em que foi metido esse debate, como se seus    fundamentos ecol&oacute;gicos e econ&ocirc;micos tivessem menor import&acirc;ncia.    </font></p>     <p><font size="3">O desafio &eacute;, portanto, entender as v&aacute;rias din&acirc;micas    socioecon&ocirc;micas, das mais ef&ecirc;meras &agrave;s mais dur&aacute;veis,    distinguindo bem as revers&iacute;veis das irrevers&iacute;veis, pois algumas    podem ser dur&aacute;veis sem que sejam necessariamente irrevers&iacute;veis.    Ningu&eacute;m ignora que a propor&ccedil;&atilde;o das atividades prim&aacute;rias    nas economias mais desenvolvidas caiu, no s&eacute;culo XX, de metade para um    vig&eacute;simo. Enquanto isso, as terci&aacute;rias subiram de um quarto para    mais de tr&ecirc;s quintos, e as secund&aacute;rias deslizaram de pouco mais    a pouco menos de um ter&ccedil;o. S&oacute; que os resultados dessas grandes    tend&ecirc;ncias foram bem heterog&ecirc;neos. Entre os pa&iacute;ses do primeiro    mundo, a parte dos servi&ccedil;os varia de 50% a 70%, a das industriais de    40% a 25%, e a das prim&aacute;rias de 10% a 3% dos ocupados. </font></p>     <p><font size="3">Ainda mais heterog&ecirc;neas foram as repercuss&otilde;es espaciais    dessa enorme mudan&ccedil;a estrutural. O fato de atividades prim&aacute;rias    estarem for&ccedil;osamente muito mais presentes no espa&ccedil;o rural n&atilde;o    significa que os outros dois tipos sejam necessariamente muito mais recorrentes    em espa&ccedil;os urbanos. O emprego industrial &eacute; mais significativo    nas regi&otilde;es relativamente rurais que nas essencialmente urbanas, chegando    mesmo a ser muito mais rural que urbano em pa&iacute;ses n&oacute;rdicos, como    a Noruega e a Su&eacute;cia. E os servi&ccedil;os t&ecirc;m quase o mesmo peso    em regi&otilde;es essencialmente urbanas e relativamente rurais, sendo extraordinariamente    importantes nas regi&otilde;es essencialmente rurais da B&eacute;lgica. </font></p>     <p><font size="3">N&atilde;o &eacute;, portanto, a composi&ccedil;&atilde;o setorial    das economias desenvolvidas que pode explicar o surgimento, no final do s&eacute;culo    XX, de ind&iacute;cios opostos &agrave; chamada "desertifica&ccedil;&atilde;o    rural" que estariam anunciando um certo "renascimento rural". Essa hip&oacute;tese    foi contrariada pelos estudos da OCDE que compararam as regi&otilde;es rurais    mais din&acirc;micas &agrave;s mais let&aacute;rgicas ou decadentes. Os resultados    mostram que o melhor desenvolvimento de determinadas zonas rurais tem causas    ainda desconhecidas, mas que, com certeza, n&atilde;o estariam relacionadas    a diferen&ccedil;as em suas respectivas estruturas setoriais. O servi&ccedil;o    de desenvolvimento territorial da OCDE s&oacute; foi criado por seu Conselho    no in&iacute;cio de 1994, quase um ano depois da apresenta&ccedil;&atilde;o    formal do projeto pelo secret&aacute;rio geral. Com o firme apoio da representa&ccedil;&atilde;o    austr&iacute;aca, ele prop&ocirc;s o agrupamento de quatro unidades at&eacute;    ali dispersas em outras divis&otilde;es: os grupos especializados em quest&otilde;es    urbanas, desenvolvimento rural e desenvolvimento regional, mais o programa de    a&ccedil;&atilde;o e coopera&ccedil;&atilde;o sobre iniciativas locais de cria&ccedil;&atilde;o    de emprego.(6) Baseou tal proposta em duas justificativas, uma de ordem pol&iacute;tica    e outra de ordem operacional: </font></p>     <p><font size="3">"I) As zonas urbanas, suburbanas e rurais s&atilde;o cada vez    mais interdependentes e os problemas de uma delas tamb&eacute;m interferem nas    outras. Por exemplo, os fen&ocirc;menos de aglomera&ccedil;&atilde;o e de congest&atilde;o    urbana s&atilde;o insepar&aacute;veis da debilita&ccedil;&atilde;o de certas    regi&otilde;es e do &ecirc;xodo rural. Al&eacute;m disso, os efeitos de proximidade    tornam ainda mais manifesta a necessidade de uma abordagem pol&iacute;tica coordenada,    que possa integrar o conjunto dos aspectos do desenvolvimento. Assim, na escala    local, os problemas de emprego, de harmonia social, de qualidade da vida  para    tomar apenas alguns exemplos  s&atilde;o indissoci&aacute;veis. (...)" </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3">"II) O desenvolvimento harm&ocirc;nico do tecido econ&ocirc;mico    est&aacute; no centro dos trabalhos dos grupos que tratam de assuntos urbanos,    locais, rurais e regionais. Isso se traduz por a&ccedil;&otilde;es que visam    encontrar, para uma determinada zona, um equil&iacute;brio entre o fortalecimento    de sua capacidade concorrencial e a melhoria da qualidade de vida de seus habitantes.    Atingir esse objetivo exige a cria&ccedil;&atilde;o de novas formas de parcerias    entre os atores envolvidos, quer eles sejam p&uacute;blicos, privados, nacionais,    regionais ou locais. Est&iacute;mulo a projetos, iniciativa rural, a&ccedil;&atilde;o    urbana, tudo isso decorre da mesma id&eacute;ia, segundo a qual as contribui&ccedil;&otilde;es    locais permitem operar mudan&ccedil;as significativas na paisagem socioecon&ocirc;mica    territorial."(7) </font></p>     <p><font size="3">Durante o primeiro debate dessa proposta, tr&ecirc;s outras    delega&ccedil;&otilde;es  Austr&aacute;lia, Canad&aacute; e Noruega - juntaram-se    &agrave; da &Aacute;ustria para considerar o novo servi&ccedil;o como "primeira    etapa l&oacute;gica" de um processo que deveria permitir &agrave; OCDE uma abordagem    anal&iacute;tica mais horizontal das quest&otilde;es relativas ao desenvolvimento    econ&ocirc;mico, social e ecol&oacute;gico de seus pa&iacute;ses membros. Em    seguida, as delega&ccedil;&otilde;es da Holanda e da Su&iacute;&ccedil;a foram    ainda mais longe, chegando a propor, inclusive, a "completa fus&atilde;o dos    &oacute;rg&atilde;os subsidi&aacute;rios dos quatro grupos". Mas tanto entusiasmo    esbarrou na resist&ecirc;ncia das delega&ccedil;&otilde;es do Jap&atilde;o,    da B&eacute;lgica e do Reino Unido, e numa certa hesita&ccedil;&atilde;o por    parte dos representantes da Irlanda e da Espanha. Muitas dessas retic&ecirc;ncias    eram de ordem or&ccedil;ament&aacute;ria, mas tamb&eacute;m foi mencionado o    temor de que o novo servi&ccedil;o viesse a refor&ccedil;ar a concentra&ccedil;&atilde;o    da OCDE em "quest&otilde;es de desenvolvimento econ&ocirc;mico e industrial    em detrimento dos problemas ambientais, do turismo e da cultura".(8) </font></p>     <p><font size="3">Um dos fatores que fez brotar no interior da OCDE a id&eacute;ia    de juntar sob o lema do "desenvolvimento territorial" seus n&uacute;cleos voltados    aos problemas urbanos, rurais e regionais foi, com certeza, mais de um dec&ecirc;nio    de experi&ecirc;ncia com o programa dedicado &agrave; gera&ccedil;&atilde;o    de empregos mediante est&iacute;mulos ao "desenvolvimento local". Esse programa    de a&ccedil;&atilde;o e coopera&ccedil;&atilde;o sobre iniciativas locais de    cria&ccedil;&atilde;o de emprego  que hoje se chama "LEED  <i>Local Economic    and Employment Development</i>"  foi criado em 1982, e deu origem a uma vasta    rede de interc&acirc;mbio que divulga an&aacute;lises e relatos de experi&ecirc;ncias    concretas por meio de <i>notebooks</i> e de uma <i>newsletter</i> intitulada    <i>Innovation &amp; Employment</i>, que chegou a ser editada em parceria com    a Uni&atilde;o Europ&eacute;ia. </font></p>     <p><font size="3">Outro fator que certamente contribuiu para que a OCDE decidisse    criar um servi&ccedil;o de desenvolvimento territorial foi quase um dec&ecirc;nio    de experi&ecirc;ncia com o programa de desenvolvimento rural, particularmente    o Projeto sobre Indicadores de Emprego Rural ("<i>Remi Project</i>"). Foi ele    que deixou claro o quanto podem ser enganosas as compara&ccedil;&otilde;es cronol&oacute;gicas    de indicadores de emprego para uma mesma &aacute;rea, e o quanto podem ser instrutivas    as compara&ccedil;&otilde;es espaciais em um mesmo momento. Apesar da base estat&iacute;stica    da OCDE ser uma das que melhor permite compara&ccedil;&otilde;es entre pa&iacute;ses     i.&eacute;, territ&oacute;rios  at&eacute; o in&iacute;cio dos anos 1990    essa organiza&ccedil;&atilde;o s&oacute; dava aten&ccedil;&atilde;o &agrave;s    s&eacute;ries temporais de cada pa&iacute;s membro. No entanto, as diferen&ccedil;as    cronol&oacute;gicas das taxas de desemprego, por exemplo, s&atilde;o muito menos    significativas que as disparidades entre os pa&iacute;ses membros. Em 1995,    essas taxas variavam de menos de 3% no Jap&atilde;o a mais de 23% na Espanha.    E as disparidades regionais dentro de cada pa&iacute;s eram ainda mais importantes.    </font></p>     <p><font size="3">Tamb&eacute;m se deve ao <i>Remi</i> a demonstra&ccedil;&atilde;o    de que o sucesso e o insucesso em criar novas oportunidades regionais de emprego    n&atilde;o est&atilde;o estritamente correlacionados aos graus de urbanidade    ou de ruralidade. A ruralidade n&atilde;o &eacute; defici&ecirc;ncia, e tamb&eacute;m    n&atilde;o &eacute; sin&ocirc;nimo de decl&iacute;nio; tanto quanto urbanidade    e aglomera&ccedil;&atilde;o n&atilde;o garantem automaticamente um pr&oacute;spero    desenvolvimento. Em vez de comparar apenas as diferen&ccedil;as entre &aacute;reas    rurais e urbanas, tornando implicitamente o urbano como modelo para o rural,    o <i>Remi</i> preferiu se dedicar a compara&ccedil;&otilde;es entre regi&otilde;es    mais e menos din&acirc;micas. Principalmente porque as regi&otilde;es rurais    mais din&acirc;micas podem ser melhor refer&ecirc;ncia para similares mais atrasadas    do que o seriam as urbanas. E foi a partir desse tipo de compara&ccedil;&otilde;es    realizadas pelo <i>Remi</i> que o programa de desenvolvimento rural da OCDE    passou a ganhar consist&ecirc;ncia.</font></p>     <p><font size="3"><b>A PECULIARIDADE BRASILEIRA</b>(9) N&atilde;o existe pa&iacute;s    que conte mais cidades do que o Brasil. Eram 5.507 h&aacute; quase tr&ecirc;s    anos, quando houve o &uacute;ltimo Censo Demogr&aacute;fico. A menor, Uni&atilde;o    da Serra, no nordeste ga&uacute;cho, tinha exatos 18 habitantes. E n&atilde;o    &eacute; excresc&ecirc;ncia. Eram 90 as "cidades" com menos de 500 habitantes,    por exemplo: 49 no Rio Grande do Sul; em Santa Catarina 21; nove no Piau&iacute;;    na Para&iacute;ba quatro; tr&ecirc;s no Paran&aacute;; duas em Tocantins; uma    em Minas; e outra em S&atilde;o Paulo.</font></p>     <p><font size="3"> Seria mesmo uma cidade, lugar com t&atilde;o poucos moradores?    No resto do mundo, n&atilde;o. Mas no Brasil  al&eacute;m de jabuticaba  tamb&eacute;m    d&aacute; cidade que mais parece com pres&eacute;pio, ou com aquele grupo de    edif&iacute;cios r&uacute;sticos chamado <i>Le Hameau</i>, que tanto divertia    Maria Antonieta em seus passeios pelos jardins do castelo de Versailles. E o    motivo &eacute; simples, mesmo que continue misteriosa a atitude geral de manter    essa quest&atilde;o esquecida. A defini&ccedil;&atilde;o brasileira de cidade    &eacute; estritamente administrativa. Toda sede de munic&iacute;pio &eacute;    cidade, e pronto. Mesmo que s&oacute; tenha 4 casas, nas quais residem 3 fam&iacute;lias    de agricultores e uma de madeireiro (caso de Uni&atilde;o da Serra). Se for    sede de munic&iacute;pio, &eacute; cidade e estamos conversados. Disparate que    surgiu em 1938, &aacute;pice do Estado Novo, com o Decreto-Lei 311. E que continua    em vigor, pois nenhum outro diploma o revogou. </font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v56n2/a16fig01.gif"></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3">N&atilde;o vale a pena especular aqui sobre as raz&otilde;es    que devem ter levado bons ge&oacute;grafos e bons estat&iacute;sticos a fazer    proposta t&atilde;o singela ao ditador Get&uacute;lio Vargas. O principal &eacute;    lembrar que na ocasi&atilde;o o crit&eacute;rio at&eacute; podia ter algum sentido,    j&aacute; que era pequeno o n&uacute;mero de munic&iacute;pios. Mesmo que suas    sedes ainda n&atilde;o fossem verdadeiras cidades, era razo&aacute;vel supor    que se tornariam v&eacute;rtices da futura rede urbana. S&oacute; que agora,    com mais de 5.561 munic&iacute;pios, isso se tornou rid&iacute;culo. Faz-se    de conta que o Brasil &eacute; mesmo o campe&atilde;o mundial em n&uacute;mero    de cidades. </font></p>     <p><font size="3">Fora daqui n&atilde;o se usa crit&eacute;rio administrativo    para definir cidade. O mais comum &eacute; uma combina&ccedil;&atilde;o de crit&eacute;rios    estruturais e funcionais. Crit&eacute;rios estruturais s&atilde;o, por exemplo,    a localiza&ccedil;&atilde;o, o n&uacute;mero de habitantes, de eleitores, de    moradias, ou, sobretudo, a densidade demogr&aacute;fica. Crit&eacute;rio funcional    &eacute; a exist&ecirc;ncia de servi&ccedil;os indispens&aacute;veis &agrave;    urbe. Exemplo ilustrativo &eacute; Portugal, onde a lei determina que uma vila    s&oacute; ser&aacute; elevada &agrave; categoria de cidade se, al&eacute;m de    contar com um m&iacute;nimo de 8 mil eleitores, tamb&eacute;m oferecer pelo    menos metade dos seguintes dez equipamentos: a) hospital com perman&ecirc;ncia;    b) farm&aacute;cias; c) corpora&ccedil;&atilde;o de bombeiros; d) casa de espet&aacute;culos    e centro cultural; e) museu e biblioteca; f) instala&ccedil;&otilde;es de hotelaria;    g) estabelecimentos de ensino preparat&oacute;rio e secund&aacute;rio; h) estabelecimentos    de ensino pr&eacute;-prim&aacute;rio e creches; i) transportes p&uacute;blicos,    urbanos e suburbanos; j) parques e jardins p&uacute;blicos. </font></p>     <p><font size="3">Com base nesses crit&eacute;rios lusitanos  muit&iacute;ssimo    mais inteligentes que o estadonovista  encontrar-se-&aacute; no Brasil, na    melhor das hip&oacute;teses, umas 600 cidades, n&uacute;mero das sedes de munic&iacute;pio    onde h&aacute; livraria. Usando-se crit&eacute;rios exclusivamente estruturais,    &eacute; razo&aacute;vel supor que aqui existam umas quatro categorias de cidade:    a) as sedes dos 200 munic&iacute;pios que fazem parte das 12 aglomera&ccedil;&otilde;es    metropolitanas; b) as sedes dos 178 munic&iacute;pios que fazem parte das demais    38 aglomera&ccedil;&otilde;es urbanas; c) as sedes dos 77 munic&iacute;pios    que s&atilde;o inequ&iacute;vocos centros urbanos, mesmo que n&atilde;o tenham    gerado aglomera&ccedil;&otilde;es; d) parte das sedes dos 567 munic&iacute;pios    de natureza ambivalente, que freq&uuml;entemente adquirem fei&ccedil;&otilde;es    de pequenas cidades, apesar de continuarem focos de economias tipicamente rurais.    De qualquer forma, s&oacute; existem 715 sedes de munic&iacute;pio com mais    de 25 mil habitantes, e parte delas n&atilde;o tem os equipamentos exig&iacute;veis    para que uma vila se torne cidade. &Eacute; impr&oacute;prio chamar de cidades    as sedes dos mais de 4,5 mil munic&iacute;pios rurais. Ou, no limite, dos 4,3    mil munic&iacute;pios rurais cujas sedes t&ecirc;m menos de 20 mil habitantes.    </font></p>     <p><font size="3">Enfim, &eacute; necess&aacute;rio enviar ao Congresso Nacional    um projeto de lei que defina o que &eacute; cidade, revogando o Decreto-Lei    311, de 2 de mar&ccedil;o de 1938. Para que esse projeto seja elaborado, ser&aacute;    aconselh&aacute;vel que se consulte legisla&ccedil;&otilde;es de outros pa&iacute;ses.    E a&iacute; se perceber&aacute; que os crit&eacute;rios nunca s&atilde;o puramente    administrativos, como ocorre aqui. Sempre foram principalmente funcionais as    condi&ccedil;&otilde;es <i>sine-qua-non</i> da promo&ccedil;&atilde;o de um    povoado &agrave; categoria de cidade. Os pr&oacute;prios etruscos s&oacute;    consideravam como cidade um lugar que tivesse sa&iacute;das para pelo menos    tr&ecirc;s estradas, al&eacute;m de tr&ecirc;s templos: a J&uacute;piter, Juno    e Minerva. Dois mil&ecirc;nios depois, o Brasil se distingue mundialmente por    considerar como cidades at&eacute; vilarejos onde n&atilde;o h&aacute; sequer    tr&ecirc;s escolas. Onde nem existe cinema, teatro, centro cultural, ou transporte    coletivo. Onde a urbe &eacute; reles fic&ccedil;&atilde;o.</font></p>     <p><font size="3"><b>CONCLUS&Otilde;ES</b> Parece errado abordar os v&iacute;nculos    urbano-rurais nos termos em que se desenrola o debate estritamente sociol&oacute;gico,    i.&eacute;, de "dicotomia x <i>continuum</i>". O aumento da densidade demogr&aacute;fica    nas zonas "cinzentas"  que deixaram de ser propriamente rurais e que n&atilde;o    chegam a ser propriamente urbanas  n&atilde;o significa que esteja desaparecendo    a contradi&ccedil;&atilde;o material e hist&oacute;rica entre o fen&ocirc;meno    urbano e o fen&ocirc;meno rural. Em termos econ&ocirc;micos e ecol&oacute;gicos,    aprofundam-se, em vez de dilu&iacute;rem-se, as diferen&ccedil;as entre esses    dois modos de relacionamento da sociedade com a natureza. Ou o que Marx chamava    de "metabolismos" entre humanidade e natureza.</font></p>     <p><font size="3">Tamb&eacute;m parece errado opor uma tend&ecirc;ncia de "ressurrei&ccedil;&atilde;o    rural" &agrave; velha tese da "desertifica&ccedil;&atilde;o rural". Em termos    estritamente demogr&aacute;ficos, h&aacute; &aacute;reas rurais que continuam    se esvaziando e outras que se recuperam. Mas as possibilidades de dinamismo    econ&ocirc;mico dessas &aacute;reas n&atilde;o est&atilde;o necessariamente    correlacionadas &agrave;s tend&ecirc;ncias demogr&aacute;ficas, uma vez que    as mais promissoras vantagens competitivas das &aacute;reas rurais s&atilde;o    "amenidades" que dependem de heran&ccedil;as naturais e culturais, podendo ser    at&eacute; melhor aproveitadas por movimentos apenas tempor&aacute;rios de popula&ccedil;&atilde;o.    </font></p>     <p><font size="3">O processo de aproveitamento das novas vantagens competitivas    tem sido muito lento porque depende dos in&uacute;meros e pouco conhecidos determinantes    do "empreendedorismo". A &ecirc;nfase no car&aacute;ter end&oacute;geno de tais    determinantes  que est&aacute; embutida no uso cada vez mais freq&uuml;ente    da no&ccedil;&atilde;o de "capital social"  n&atilde;o deve, todavia, levar    a pensar que possam ser menos importantes os determinantes ex&oacute;genos que    resultam da import&acirc;ncia que o conjunto da sociedade d&aacute; ao patrim&ocirc;nio    natural e cultural de seus espa&ccedil;os rurais. </font></p>     <p><font size="3">Fatores supranacionais  como a integra&ccedil;&atilde;o europ&eacute;ia    ou, de forma mais ampla, a regionaliza&ccedil;&atilde;o internacional e a "mundializa&ccedil;&atilde;o"    ou "globaliza&ccedil;&atilde;o"  t&ecirc;m provocado uma heterog&ecirc;nea    evolu&ccedil;&atilde;o das pol&iacute;ticas governamentais. A crescente exposi&ccedil;&atilde;o    ao com&eacute;rcio internacional, ligada &agrave; acelera&ccedil;&atilde;o do    progresso tecnol&oacute;gico, exige mudan&ccedil;as estruturais que permitam    remover obst&aacute;culos ao crescimento e ajudem a aproveitar novas oportunidades.    Muitas dessas mudan&ccedil;as estruturais s&atilde;o de car&aacute;ter sub-nacional,    mostrando a pertin&ecirc;ncia de uma abordagem <i>territorial</i>, para a qual    os quadros dirigentes est&atilde;o, contudo, despreparados. Sabem que o principal    desafio &eacute; identificar os fatores que permitiriam ampliar as oportunidades    de desenvolvimento das regi&otilde;es menos din&acirc;micas, mas tamb&eacute;m    n&atilde;o ignoram que a resposta depende de uma explica&ccedil;&atilde;o ainda    muito prec&aacute;ria sobre as raz&otilde;es desse menor dinamismo. </font></p>     <p><font size="3">O uso da no&ccedil;&atilde;o "DT: desenvolvimento territorial"    (ou "espacial", como prefere a Comiss&atilde;o Europ&eacute;ia), tende a substituir    a tradicional express&atilde;o "desenvolvimento regional", pois permite uma    refer&ecirc;ncia simult&acirc;nea ao desenvolvimento local, regional, nacional,    e at&eacute; continental (no caso da Europa). Mas essa ret&oacute;rica do "DT"    tamb&eacute;m deve muito &agrave; evolu&ccedil;&atilde;o paralela dos debates    da "economia industrial", da "economia rural" e da "economia regional e urbana".    Nos &uacute;ltimos quinze anos houve, nessas tr&ecirc;s disciplinas, uma forte    valoriza&ccedil;&atilde;o da escala "local", logo seguida (ou acompanhada) da    necessidade &oacute;bvia e imperiosa de n&atilde;o isol&aacute;-la das escalas    superiores que v&atilde;o at&eacute; a "global". A ret&oacute;rica do "DT" &eacute;    certamente melhor que a do "desenvolvimento local", mas ambas est&atilde;o longe    de engendrar uma 'teoria &amp; pr&aacute;tica' que venha, de fato, superar as    divis&otilde;es setoriais (prim&aacute;rio, secund&aacute;rio e terci&aacute;rio)    e tamb&eacute;m permitir um tratamento integrado da divis&atilde;o espacial    (urbano-rural). Seja como for, uma coisa &eacute; certa: nem tudo &eacute; urbano.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3"><i><b>Jose Eli da Veiga</b> &eacute; economista, professor titular    do Departamento de Economia &amp; Procam da Universidade de S&atilde;o Paulo    (USP).</i></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3"><b>Notas e refer&ecirc;ncias bibliogr&aacute;ficas</b></font></p>     <p><font size="3"> 1.Conforme tipologia da OCDE baseada na propor&ccedil;&atilde;o    da popula&ccedil;&atilde;o regional que vive em localidades rurais, i.&eacute;,    com menos de 150 hab/km2. 'Essencialmente Rurais' s&atilde;o regi&otilde;es    nas quais mais de 50% das localidades s&atilde;o rurais; 'Relativamente Rurais'    s&atilde;o as regi&otilde;es nas quais entre 15 e 50% das localidades s&atilde;o    rurais; 'Essencialmente Urbanas' s&atilde;o as regi&otilde;es nas quais menos    de 15% das localidades s&atilde;o rurais. Ver <i>Territorial indicators of employment</i>.    Paris: OECD. 1996 </font></p>     <p><font size="3">2. Excelente discuss&atilde;o deste problema est&aacute; em    Georges Bertrand "Pour une histoire &eacute;cologique de la France rurale".    In Georges Duby &amp; Armand Wallon (dir.) <i>Histoire de la France rurale</i>,    vol I (Ouverture), pp. 39-118, Paris: &Eacute;ditions du Seuil. 1975. </font></p>     <p><font size="3">3. Ver sobre este assunto o interessante artigo de Andr&eacute;    Larceneux "Les nouveaux chantiers de la th&eacute;orie &eacute;conomique spatiale".    <i>In</i>: Bernard Pecqueur (ed.) <i>Dynamiques territoriales et mutations &eacute;conomiques</i>,    pp. 137-156, Paris: L'Harmattan, 1996. </font></p>     <p><font size="3">4. Cf. <i>Le partenariat aux &Eacute;tats-Unis</i> (Examen de    l'OCDE des Politiques Rurales; Territorial Development Service), Paris: OCDE.    1997. </font></p>     <p><font size="3">5. Parafraseando Jean Rostand, vale lembrar que &eacute; muito    mais f&aacute;cil se entender com quem fala outra l&iacute;ngua do que se entender    com quem d&aacute; outros sentidos &agrave;s mesmas palavras.... </font></p>     <p><font size="3">6. Esse programa, cuja sigla original era "ILE", passou depois    a ser denominado "<i>LEED: Local Economic and Employment Development</i>" </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3">7. Tradu&ccedil;&atilde;o livre de trechos do par&aacute;grafo    11 da "Nota do Secret&aacute;rio Geral" C(93)83, de 29/06/93. </font></p>     <p><font size="3">8. Estas observa&ccedil;&otilde;es resultam de uma leitura do    processo verbal da reuni&atilde;o do Conselho, um documento "reservado" da OCDE.    </font></p>     <p><font size="3">9. Estes argumentos foram desenvolvidos em Jos&eacute; Eli da    Veiga em <i>Cidades imagin&aacute;rias; O Brasil &eacute; menos urbano do que    se calcula</i>. Campinas: Editora Autores Associados. 2002. E tamb&eacute;m    em 30 artigos publicados no jornal <i>Valor</i> em 2003.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3"><b>Bibliografia consultada</b></font></p>     <p><font size="3"> Abramovay, R. <i>O futuro das regi&otilde;es rurais</i>. Porto    Alegre: Editora UFRGS. 2003 </font></p>     <p><font size="3">Benko, G. &amp; Lipietz, A. (dir.) <i>Les r&eacute;gions qui    gagnent; Districts et r&eacute;seaux: les nouveaux paradigmes de la g&eacute;ographie    &eacute;conomique</i>, Paris: PUF. 1992 </font></p>     <p><font size="3">Benko, G. &amp; Lipietz, A. (dir.) <i>La richesse des r&eacute;gions.    La nouvelle g&eacute;ographie socio-&eacute;conomique</i>. Paris: PUF. 2000.    </font></p>     <p><font size="3">Higgins, B. &amp; Savoie, D. J. <i>Regional development: theories    &amp; their application</i>. London: Transaction Publishers. 1997 </font></p>     <p><font size="3">Magnaghi, A. "Il patrimonio territoriale: un codice genetico    per lo sviluppo locale autosostenibile" In: Alberto Magnaghi (dir.) <i>Il territorio    degli abitanti; societ&agrave; locali e autosostenibilit&agrave;</i>, pp. 3-20.    Mil&atilde;o: Dunod. 1998 </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3">Maillat, D. "Milieux innovateurs et dynamique territoriale"    in: Alain Rallet &amp; Andr&eacute; Torre (coord.) <i>&Eacute;conomie industrielle    et &eacute;conomie spatiale</i>, pp. 211-232. Paris: Economica. 1995. </font></p>     <p><font size="3">OECD <i>What future for our countryside?</i> Paris: OCDE. 1993    </font></p>     <p><font size="3">OECD <i>Fostering entrepreneurship; The OECD job strategy</i>.    Paris: OCDE. 1998 </font></p>     <p><font size="3">OECD Cultivating rural amenities; An economic development perspective,    (Territorial Development Service), Paris: OCDE. 1999 </font></p>     <p><font size="3">Sachs, I. <i>Strat&eacute;gies de l'&eacute;co-d&eacute;veloppement</i>,    Paris: Les &Eacute;ditions Ouvri&egrave;res. 1980 </font></p>     <p><font size="3">Saraceno, E. "Alternative readings of spatial differentiation:    The rural versus the local approach in Italy". <i>European review of agricultural    economics</i>, 21, pp. 451-474. 1994 </font></p>     <p><font size="3">Uni&atilde;o Europ&eacute;ia (UE) - <i>European spatial development    perspective</i>. (First official draft presented at the informal meeting of    Ministers responsible for spatial planning of the member states of the European    Union). Noordwijk, 09-10/06, (72 p.). 1997 </font></p>      ]]></body>
</article>
