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</front><body><![CDATA[ <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v56n2/a15img01.gif"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size=5> <b>R<small>EFORMA URBANA, OR&Ccedil;AMENTOS PARTICIPATIVOS E ECONOMIA    POPULAR: RELA&Ccedil;&Otilde;ES DE COMPLEMENTARIDADE</small></b></font></p>     <p><b><font size="3">Marcelo Lopes de Souza</font></b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3"> <b>INTRODU&Ccedil;&Atilde;O</b> A an&aacute;lise, a gest&atilde;o    e o planejamento urbano cr&iacute;ticos constituem um ambiente de discuss&atilde;o    ainda muito pouco unificado. Aquilo que deveria funcionar como um conjunto de    vasos comunicantes, ou como um sistema din&acirc;mico de trocas de informa&ccedil;&atilde;o    entre profissionais com experi&ecirc;ncias menos ou mais espec&iacute;ficas    de atua&ccedil;&atilde;o, ainda &eacute;, em larga medida, na realidade, uma    cole&ccedil;&atilde;o de "nichos" bastante autocentrados.</font></p>     <p><font size="3">Os intelectuais e "planejadores alternativos" que, desde a d&eacute;cada    de 1980, municiaram tecnicamente e impulsionaram, ao lado de entidades associativas    da sociedade civil, o debate e a constru&ccedil;&atilde;o do ide&aacute;rio    da reforma urbana, concentraram excessivamente os seus esfor&ccedil;os (principalmente    na d&eacute;cada de 1990) na discuss&atilde;o de instrumentos de planejamento    ("solo criado", zoneamentos etc.), negligenciando a an&aacute;lise da din&acirc;mica    da pr&oacute;pria sociedade civil (por exemplo, a crise do ativismo de bairro    em quase todas as cidades, ainda na d&eacute;cada de 1980, e, mais tarde, a    expans&atilde;o e os impactos do tr&aacute;fico de drogas de varejo – duas coisas    que viriam a se mostrar empecilhos para a implementa&ccedil;&atilde;o da t&atilde;o    almejada "participa&ccedil;&atilde;o popular" no planejamento). Mais ainda:    muito embora Porto Alegre j&aacute; viesse, desde 1989, edificando com brilho    a sua experi&ecirc;ncia de or&ccedil;amento participativo (ao que se seguiram    v&aacute;rias outras, n&atilde;o t&atilde;o brilhantes), o assunto dos or&ccedil;amentos    participativos foi, at&eacute; recentemente, solenemente ignorado, te&oacute;rica    e, mesmo, via de regra, empiricamente, pelos intelectuais ligados &agrave; constru&ccedil;&atilde;o    do ide&aacute;rio da reforma urbana. </font></p>     <p><font size="3">Os que refletiam sobre as experi&ecirc;ncias de or&ccedil;amento    participativo em curso, por sua vez, pagavam na mesma moeda. Planos diretores,    "novos"/velhos instrumentos de planejamento, Estatuto da Cidade e outros temas    que tais n&atilde;o faziam parte do elenco de interesses imediatos e vis&iacute;veis    (e, qui&ccedil;&aacute;, em muitos casos, nem mediatos) dos que se debru&ccedil;avam    sobre o or&ccedil;amento participativo da capital ga&uacute;cha e de outros    munic&iacute;pios. Trabalhos foram sendo elaborados, ao longo da d&eacute;cada    de 1990, especialmente sob inspira&ccedil;&atilde;o da experi&ecirc;ncia de    Porto Alegre, mas os autores (soci&oacute;logos e cientistas pol&iacute;ticos,    al&eacute;m de alguns administradores municipais) n&atilde;o eram os mesmos    que pensavam e escreviam sobre a reforma urbana e os chamados "novos instrumentos"    de planejamento urbano. </font></p>     <p><font size="3">Por fim, ambos os grupos – de intelectuais da reforma urbana    e de estudiosos de or&ccedil;amentos participativos – n&atilde;o acompanharam,    ou, pelo menos, n&atilde;o estabeleceram conex&otilde;es vis&iacute;veis, entre    as suas preocupa&ccedil;&otilde;es e as an&aacute;lises que, desde meados dos    anos 1990, v&ecirc;m se multiplicando no Brasil, a prop&oacute;sito da chamada    "economia popular", ou seja, dos circuitos econ&ocirc;micos alternativos que    se desenvolvem nas bordas do sistema capitalista e que, em termos de curto e    m&eacute;dio prazo, podem representar uma melhoria da qualidade de vida da popula&ccedil;&atilde;o    mais pobre, sendo que, ademais, podem desempenhar um papel pol&iacute;tico-pedag&oacute;gico,    ao colaborarem para o desenvolvimento de atitudes cooperativas e solid&aacute;rias    na base da sociedade. E, para variar, os estudiosos e entusiastas da economia    popular t&ecirc;m, de sua parte, passado ao largo dos temas da reforma urbana    e dos or&ccedil;amentos participativos. Quais as implica&ccedil;&otilde;es dessa    escassez de di&aacute;logo entre os v&aacute;rios "nichos tem&aacute;ticos"?    </font></p>     <p><font size="3">Para come&ccedil;ar, a reprodu&ccedil;&atilde;o da for&ccedil;a    de trabalho &eacute; examinada em termos demasiado estreitos pelos analistas    da reforma urbana. Estes buscam modificar a organiza&ccedil;&atilde;o espacial    de modo a tornar a cidade mais justa, mediante a coibi&ccedil;&atilde;o da especula&ccedil;&atilde;o    imobili&aacute;ria (e, assim, contribuindo para evitar os "vazios urbanos" e    a "urbaniza&ccedil;&atilde;o em saltos"), a facilita&ccedil;&atilde;o do acesso    &agrave; moradia por parte dos pobres, a prioriza&ccedil;&atilde;o de interven&ccedil;&otilde;es    de saneamento e regulariza&ccedil;&atilde;o fundi&aacute;ria em espa&ccedil;os    segregados e uma redistribui&ccedil;&atilde;o dos &ocirc;nus decorrentes da    expans&atilde;o, do adensamento e dos melhoramentos urbanos, por meio de instrumentos    como o "solo criado" e a contribui&ccedil;&atilde;o de melhoria; entretanto,    n&atilde;o examinam, ou o fazem apenas muito marginalmente, a esfera da <i>produ&ccedil;&atilde;o</i>.    </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v56n2/a19fig01.gif"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3">Por sua vez, pensar a participa&ccedil;&atilde;o popular na    gest&atilde;o or&ccedil;ament&aacute;ria sem pensar de onde v&ecirc;m os recursos    a serem distribu&iacute;dos e como a margem de manobra para investimentos pode    ser ampliada (para o que uma parte dos instrumentos da reforma urbana muito    poderia contribuir) constitui, igualmente, uma limita&ccedil;&atilde;o das mais    s&eacute;rias. E n&atilde;o menos lament&aacute;vel &eacute; discutir "economia    popular (urbana)" sem ver como algumas dessas pr&aacute;ticas podem ser, pelo    menos em alguns casos, ancoradas em ou apoiadas por pol&iacute;ticas p&uacute;blicas    universalistas (e n&atilde;o meramente compensat&oacute;rias, ou deixando os    pobres "entregues a si mesmos" em todos os casos), justamente no contexto de    uma reforma que se pretende estrutural e profunda como a reforma urbana. Afinal,    discutir o emprego e a gera&ccedil;&atilde;o de renda na cidade depreende discutir    a <i>pr&oacute;pria cidade</i>, isto &eacute;, o espa&ccedil;o urbano e o processo    de sua produ&ccedil;&atilde;o, assim como aquilo que, na organiza&ccedil;&atilde;o    espacial e nas pr&oacute;prias formas espaciais, facilita ou dificulta certas    estrat&eacute;gias de sobreviv&ecirc;ncia. </font></p>     <p><font size="3">Pouca efici&ecirc;ncia e baixa efic&aacute;cia no esfor&ccedil;o    de se conquistar um desenvolvimento urbano aut&ecirc;ntico tendem a ser, por    fim, e em resumo, as implica&ccedil;&otilde;es do quadro anteriormente descrito    de relativa ignor&acirc;ncia rec&iacute;proca. As causas desse quadro s&atilde;o    variadas, incluindo, muito certamente, a divis&atilde;o do trabalho acad&ecirc;mico    em vigor entre as ci&ecirc;ncias sociais, com ge&oacute;grafos, arquitetos,    soci&oacute;logos e economistas superenfatizando aspectos parciais de um mesmo    problema geral. O que importa &eacute; que essas causas precisam ser, no m&iacute;nimo,    isoladas e postas sob controle, de maneira a n&atilde;o impedirem o esfor&ccedil;o    de integra&ccedil;&atilde;o anal&iacute;tica e pr&aacute;tica que se faz necess&aacute;rio.    O presente trabalho pretende ser uma contribui&ccedil;&atilde;o para esse esfor&ccedil;o    de integra&ccedil;&atilde;o anal&iacute;tica e, por tabela, para a tarefa pr&aacute;tica    da articula&ccedil;&atilde;o de experi&ecirc;ncias, redes e canais.</font></p>     <p><font size="3"><b>REPENSANDO A REFORMA URBANA &Agrave; LUZ DOS OR&Ccedil;AMENTOS    PARTICIPATIVOS</b> O ide&aacute;rio da reforma urbana, especialmente a partir    das tentativas de sua operacionaliza&ccedil;&atilde;o por meio de planos diretores    na d&eacute;cada de 1990, assentou-se, principalmente, sobre o seguinte trip&eacute;:    1) aplica&ccedil;&atilde;o de instrumentos tribut&aacute;rios (como o IPTU progressivo)    que, a par de suas important&iacute;ssimas fun&ccedil;&otilde;es e utilidades    extrafiscais, vari&aacute;veis conforme o instrumento, contribuem para gerar    recursos adicionais para os cofres do munic&iacute;pio; 2) utiliza&ccedil;&atilde;o    dos recursos advindos com a aplica&ccedil;&atilde;o desses instrumentos para    investimentos em &aacute;reas de reconhecido interesse social (Zonas de Especial    Interesse Social - ZEIS), como favelas e loteamentos irregulares, visando &agrave;    promo&ccedil;&atilde;o de moradia popular e interven&ccedil;&otilde;es de urbaniza&ccedil;&atilde;o    e regulariza&ccedil;&atilde;o fundi&aacute;ria, sendo essas &aacute;reas devidamente    identificadas e classificadas por meio de um zoneamento; 3) centraliza&ccedil;&atilde;o    dos recursos para investimentos em ZEIS por meio de um Fundo de Desenvolvimento    Urbano, a ser gerido com transpar&ecirc;ncia e participa&ccedil;&atilde;o popular    por um Conselho de Desenvolvimento Urbano.</font></p>     <p><font size="3">Ocorre que um or&ccedil;amento participativo arrojado, como    o de Porto Alegre, onde a <i>totalidade dos investimentos</i> &eacute; colocada    &agrave; disposi&ccedil;&atilde;o da esfera da participa&ccedil;&atilde;o popular,    e onde o estilo de participa&ccedil;&atilde;o &eacute; o de uma efetiva <i>delega&ccedil;&atilde;o    de poder</i> (1), vai al&eacute;m do ide&aacute;rio da reforma urbana em dois    pontos importantes: 1) n&atilde;o se trata mais da renda oriunda do lan&ccedil;amento    de certos tributos, mas sim da totalidade dos investimentos, a qual &eacute;    submetida &agrave; l&oacute;gica da "invers&atilde;o de prioridades", sobre    o fundamento da participa&ccedil;&atilde;o popular; 2) uma <i>delega&ccedil;&atilde;o    de poder</i> ultrapassa o tipo de participa&ccedil;&atilde;o que, muitas vezes,    foi preconizado no interior do debate sobre a reforma urbana: enquanto esse    fazia refer&ecirc;ncia, com freq&uuml;&ecirc;ncia, a algo corretamente caracteriz&aacute;vel    como uma <i>parceria</i>, com o Conselho de Desenvolvimento Urbano sendo composto    (paritariamente ou n&atilde;o) por integrantes do aparelho de Estado (com direito    a voz e voto, subentenda-se) e da sociedade civil, um Conselho de Or&ccedil;amento    Participativo (COP) como o de Porto Alegre &eacute; efetivamente deliberativo    e, ao mesmo tempo, &eacute; composto, na sua ess&ecirc;ncia, apenas por integrantes    da sociedade civil, uma vez que os dois t&eacute;cnicos do Estado que nele t&ecirc;m    assento est&atilde;o ali apenas para esclarecer os conselheiros, <i>n&atilde;o    tendo direito de voto</i>. Essa maior ousadia n&atilde;o &eacute;, ressalve-se,    algo intr&iacute;nseco aos or&ccedil;amentos participativos, at&eacute; porque    a linha de Porto Alegre, tamb&eacute;m a esse respeito, figura antes como exce&ccedil;&atilde;o    que como regra, a julgar pelas evid&ecirc;ncias emp&iacute;ricas colhidas pelo    autor do presente texto no decorrer de quatro anos de envolvimento direto com    o tema dos or&ccedil;amentos participativos. O que importa, seja l&aacute; como    for, &eacute; que, na pr&aacute;tica, foi um or&ccedil;amento participativo,    aquele de Porto Alegre, que deu o exemplo do que seria uma delega&ccedil;&atilde;o    de poder exitosa. </font></p>     <p><font size="3">Deve ficar claro que a participa&ccedil;&atilde;o popular na    elabora&ccedil;&atilde;o do or&ccedil;amento p&uacute;blico, de qualquer maneira,    n&atilde;o "supera", enquanto estrat&eacute;gia de desenvolvimento urbano, a    reforma urbana, pela simples raz&atilde;o de que os objetivos desta n&atilde;o    s&atilde;o alcan&ccedil;&aacute;veis apenas por meio do mecanismo de gest&atilde;o    que &eacute; o or&ccedil;amento participativo, por mais consistente que ele    seja. Pensar de outro modo seria incorrer em uma interpreta&ccedil;&atilde;o    absurda, porquanto um or&ccedil;amento participativo nada mais faz que influenciar    o padr&atilde;o das despesas p&uacute;blicas e, muito especialmente, a aloca&ccedil;&atilde;o    dos novos investimentos – embora isso esteja longe de ser pouco... Por si s&oacute;,    um or&ccedil;amento participativo n&atilde;o possui a capacidade de alterar    os padr&otilde;es de uso do solo, sem que existam instrumentos de planejamento    e marcos legais espec&iacute;ficos para balizar as interven&ccedil;&otilde;es    do poder p&uacute;blico e regular as a&ccedil;&otilde;es dos v&aacute;rios agentes    modeladores do espa&ccedil;o urbano envolvidos. Os diversos instrumentos (tribut&aacute;rios,    de regulariza&ccedil;&atilde;o fundi&aacute;ria, zoneamentos etc.) preconizados    pelo ide&aacute;rio da reforma urbana, se s&atilde;o imprescind&iacute;veis    e insubstitu&iacute;veis, podem ser, contudo, mais arrojadamente complementados    por um or&ccedil;amento participativo que por um simples fundo espec&iacute;fico.    Um tal fundo, se chegar a ser institu&iacute;do, s&oacute; deveria s&ecirc;-lo    no interior de uma institucionalidade mais ampla, e no contexto maior de um    or&ccedil;amento participativo. No que se refere &agrave; distribui&ccedil;&atilde;o    espacial e setorial dos investimentos p&uacute;blicos, &eacute; evidente que    um or&ccedil;amento participativo no qual, de fato, a inst&acirc;ncia participativa    delibere sobre a totalidade dos investimentos, vai muito al&eacute;m na tarefa    de mudar a cidade para melhor, tornando-a mais justa, que um fundo alimentado    com recursos, eventualmente, bastante restritos. </font></p>     <p><font size="3"><b>AGORA, O CAMINHO INVERSO: A IMPORT&Acirc;NCIA DA REFORMA    URBANA PARA OS OR&Ccedil;AMENTOS PARTICIPATIVOS</b> Obviamente, s&oacute; &eacute;    poss&iacute;vel distribuir aquilo que se tem... Contudo, por mais evidente que    isso seja, vale a pena sublinhar, pois muitos parecem subestimar a import&acirc;ncia    dessa verdade t&atilde;o acaciana. Para n&atilde;o subestimar o assunto, h&aacute;    que se pensar em como fazer para melhorar as finan&ccedil;as municipais, aumentando    a margem de manobra para investimentos. E, nesse ponto, os instrumentos tribut&aacute;rios    preconizados pelo ide&aacute;rio da reforma urbana podem ser de enorme valia.    Ali&aacute;s, n&atilde;o s&oacute; eles, mas tamb&eacute;m algumas medidas tecnicamente    mais simples de gest&atilde;o, embora gerencialmente um pouco trabalhosas (por    esbarrarem em obst&aacute;culos que v&atilde;o de entraves burocr&aacute;ticos    ao despreparo ou a v&iacute;cios dos quadros t&eacute;cnicos) e politicamente    antip&aacute;ticas junto a certos interesses estabelecidos, como uma atualiza&ccedil;&atilde;o    regular do cadastro imobili&aacute;rio e da planta de valores, permitindo um    lan&ccedil;amento otimizado e mais justo do IPTU.</font></p>     <p><font size="3">Abram-se, agora, par&ecirc;nteses para admitir: &eacute; bem    verdade que a capacidade de investimento das municipalidades n&atilde;o deve    ser encarada como sendo algo dependente, exclusivamente, de iniciativas locais.    Em que pese o fato de que, no Brasil, especialmente em compara&ccedil;&atilde;o    com outros pa&iacute;ses do "Terceiro Mundo", a fatia do bolo tribut&aacute;rio    que cabe aos munic&iacute;pios est&aacute; longe de ser inexpressiva (os munic&iacute;pios    arrecadam dois impostos muito importantes, o ISS e o IPTU, al&eacute;m do ITBI,    e a participa&ccedil;&atilde;o dos munic&iacute;pios no bolo tribut&aacute;rio    nacional est&aacute; em torno de 16%, em contraste com percentuais bem menores    em pa&iacute;ses com sistema n&atilde;o-federativo), ela poderia e deveria ser    bem maior. Sem embargo, o discurso, para muitos t&atilde;o sedutor, e que se    torna crescentemente hegem&ocirc;nico, de que os Estados nacionais "s&atilde;o    pequenos demais para controlarem e dirigirem os fluxos globais de poder, riqueza    e tecnologia do novo sistema &#91;global&#93;, e grandes demais para representarem    a pluralidade de interesses sociais e identidades culturais da sociedade, assim    perdendo legitimidade tanto enquanto institui&ccedil;&otilde;es representativas    como enquanto organiza&ccedil;&otilde;es eficientes", e que o que conta &eacute;,    portanto, fortalecer a competitividade de cada local e as redes de governos    locais e regionais, "de modo a negociar construtivamente com as empresas visando    a alcan&ccedil;ar acordos de m&uacute;tuo interesse" (2), deve ser recusada,    por seu simplismo de raiz ideol&oacute;gica. N&atilde;o &eacute; o caso, absolutamente,    do ponto de vista do autor do presente texto, de ser contra a descentraliza&ccedil;&atilde;o    – na medida em que ela, de fato, favorece a participa&ccedil;&atilde;o popular    no governo e a introdu&ccedil;&atilde;o de elementos de democracia direta –,    muito menos de cultivar um apego nacionalista ao Estado em escala nacional.    Mas &eacute;, sim, o caso de exigir que se qualifique muito bem a descentraliza&ccedil;&atilde;o    desejada, n&atilde;o se fazendo abstra&ccedil;&atilde;o do <b>contexto espacial    e temporal</b> em que ela se d&aacute;. Em um pa&iacute;s semiperif&eacute;rico    econ&ocirc;mico-socialmente t&atilde;o incrivelmente heterog&ecirc;neo como    o Brasil, e onde a vida pol&iacute;tica da maioria dos munic&iacute;pios se    apresenta dominada por elites clientelistas e, n&atilde;o raro, coronelistas,    h&aacute; uma enorme quantidade de desafios cruciais a serem vencidos com apoio    nas margens de manobra pol&iacute;ticas, econ&ocirc;micas e legais atinentes    a escalas supralocais. O necess&aacute;rio fortalecimento econ&ocirc;mico do    n&iacute;vel local, base de seu fortalecimento pol&iacute;tico, n&atilde;o se    deve fazer &agrave;s custas de um comprometimento excessivo da capacidade n&atilde;o    apenas regulat&oacute;ria, mas tamb&eacute;m de investimento dos n&iacute;veis    de governo supralocais, a qual deve ser preservada na justa medida em que pode    servir para que se evite uma excessiva e prematura pulveriza&ccedil;&atilde;o    dos esfor&ccedil;os e investimentos. Repita-se e enfatize-se: isso n&atilde;o    tem coisa alguma a ver com um elogio disfar&ccedil;ado do centralismo. A esse    respeito sente-se o autor a cavaleiro, uma vez que um certo tipo de descentraliza&ccedil;&atilde;o    pol&iacute;tico-territorial, no contexto de uma vis&atilde;o cr&iacute;tica    do capitalismo e da democracia representativa, tem sido, h&aacute; muitos anos,    um dos pilares do enfoque da mudan&ccedil;a s&oacute;cio-espacial positiva (ou    do <i>desenvolvimento s&oacute;cio-espacial</i>) por ele esposado. Apenas deseja-se    evitar uma interpreta&ccedil;&atilde;o localista ing&ecirc;nua, potencialmente    nefasta, a qual, dependendo das circunst&acirc;ncias, pode ser muito funcional    para os interesses de elites locais tradicionais e, especialmente se acompanhada    de um enfraquecimento indiscriminado e prematuro do n&iacute;vel de governo    nacional, tamb&eacute;m bastante funcional para os interesses do capital transnacional,    ao mesmo tempo em que n&atilde;o se traduzir&aacute; em benef&iacute;cios claros    para a maioria da popula&ccedil;&atilde;o do pa&iacute;s. </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3">N&atilde;o h&aacute;, portanto, qualquer boa desculpa para que    n&atilde;o se aproveite ao m&aacute;ximo a margem de manobra existente na escala    municipal, maximizando-se a arrecada&ccedil;&atilde;o dos tributos atualmente    dispon&iacute;veis. </font></p>     <p><font size="3">A Funda&ccedil;&atilde;o IBGE informou, recentemente, que, em    1999, do total de munic&iacute;pios brasileiros (5.506, na &eacute;poca), 15    n&atilde;o possu&iacute;am plano diretor. Mesmo considerando que, de acordo    com o que prev&ecirc; o Art. 182 da Constitui&ccedil;&atilde;o Federal, somente    para os munic&iacute;pios com mais de 20.000 habitantes &eacute; obrigat&oacute;rio    o plano diretor, o fato &eacute; que, em 1999, apenas 20,6% dos munic&iacute;pios    da faixa populacional entre 20 e 50 mil habitantes apresentavam o referido plano;    na faixa dos munic&iacute;pios entre 50 e 100 mil habitantes, menos da metade    (48,7%) o possu&iacute;a; na faixa entre 100 e 200 mil habitantes, 61,3% o possu&iacute;am;    na principal faixa que abrange as cidades m&eacute;dias, a faixa entre 200 e    500 mil habitantes, 85,3% o possu&iacute;am; na faixa entre 500 mil e um milh&atilde;o    de habitantes, 93,3% o possu&iacute;am; e, por fim, na faixa dos munic&iacute;pios    com mais de um milh&atilde;o, 100% o possu&iacute;am (3). Ainda que esses dados,    em si j&aacute; delineadores de um panorama bastante ruim, sejam fidedignos,    eles nada informam, evidentemente, sobre a qualidade do plano ou a sua atualiza&ccedil;&atilde;o,    ou mesmo sobre a sua implementa&ccedil;&atilde;o ou n&atilde;o. Isso tudo significa    que, ainda que a recente aprova&ccedil;&atilde;o (em 2001) da Lei Federal de    Desenvolvimento Urbano, o Estatuto da Cidade (4), tenha vindo representar um    avan&ccedil;o em mat&eacute;ria de oferecimento de respaldo jur&iacute;dico    para a implementa&ccedil;&atilde;o de v&aacute;rios dos instrumentos preconizados    pelo ide&aacute;rio da reforma urbana, o quadro geral &eacute; um pouco desolador,    uma vez que cabe ao plano diretor a tarefa de balizar a implementa&ccedil;&atilde;o,    em cada munic&iacute;pio, do que prev&ecirc;em a Constitui&ccedil;&atilde;o    e o pr&oacute;prio Estatuto da Cidade em mat&eacute;ria de pol&iacute;tica urbana.    </font></p>     <p><font size="3">Um outro ponto de suma import&acirc;ncia, afora aquele da arrecada&ccedil;&atilde;o,    diz respeito ao fato de que os investimentos a serem feitos sob a &eacute;gide    do or&ccedil;amento participativo n&atilde;o podem desprezar certos condicionantes    (exemplos: o alto risco ou a necessidade de prote&ccedil;&atilde;o ambiental    de certas &aacute;reas, os gargalos tendenciais em mat&eacute;ria de circula&ccedil;&atilde;o    de passageiros em face da malha vi&aacute;ria e do sistema de transporte existentes,    a satura&ccedil;&atilde;o infra-estrutural em certas &aacute;reas). A exist&ecirc;ncia    de "crit&eacute;rios t&eacute;cnicos" sensatos e a introdu&ccedil;&atilde;o    de "plen&aacute;rias tem&aacute;ticas", como bem ilustra a experi&ecirc;ncia    de Porto Alegre, s&atilde;o insuficientes: a integra&ccedil;&atilde;o forte    da gest&atilde;o or&ccedil;ament&aacute;ria participativa com o planejamento    urbano (participativo!), a come&ccedil;ar com a integra&ccedil;&atilde;o entre    o processo or&ccedil;ament&aacute;rio e a implementa&ccedil;&atilde;o do que    prev&ecirc; o plano diretor, &eacute; condi&ccedil;&atilde;o <i>sine qua non</i>    para evitar inefici&ecirc;ncia (duplica&ccedil;&atilde;o de esfor&ccedil;os,    atritos...) e inefic&aacute;cia. Por isso o autor deste texto prop&ocirc;s,    em trabalho anterior, <i>um &uacute;nico conselho participativo</i> a cuidar    da gest&atilde;o or&ccedil;ament&aacute;ria e do planejamento da cidade (1),    em vez de dois conselhos separados. No fundo, nem mesmo em Porto Alegre esse    problema foi adequadamente solucionado. Al&eacute;m disso, o quadro de fragilidade,    quantitativa e qualitativamente, acima esbo&ccedil;ado, que cerca a implementa&ccedil;&atilde;o    de planos diretores no Brasil, tamb&eacute;m aqui, logicamente, atua como um    empecilho. </font></p>     <p><font size="3"><b>E ENTRA EM CENA A "ECONOMIA POPULAR"!</b> A <i>economia popular    urbana</i> compreende as atividades geradoras de renda e emprego direta ou indiretamente    vinculadas &agrave;s entidades que v&ecirc;m sendo designadas de <i>organiza&ccedil;&otilde;es    econ&ocirc;micas populares</i> (OEPs), as quais v&atilde;o de cooperativas de    produtores at&eacute; "bancos populares", ofertadores de microcr&eacute;ditos.    Qual seria o alcance disso? Seria a economia popular urbana apenas um paliativo    irrelevante, como pensam alguns cr&iacute;ticos? E qual seria ou deveria ser    o papel do Estado?</font></p>     <p><font size="3">N&atilde;o parece ao autor deste texto que as organiza&ccedil;&otilde;es    econ&ocirc;micas populares devam ser entendidas como meros paliativos, capazes    de, simplesmente, proporcionar um pequeno al&iacute;vio diante de um quadro    de desemprego aberto e disfar&ccedil;ado verdadeiramente alarmante, na esteira    da "reestrutura&ccedil;&atilde;o produtiva". Elas podem conter uma dimens&atilde;o    <i>pol&iacute;tico-pedag&oacute;gica</i> importante, ao contribu&iacute;rem    para a constru&ccedil;&atilde;o de atitudes mais cooperativas e novas formas    de sociabilidade em escala (micro) local (favela, bairro "comum"). Por outro    lado, seria ingenuidade, a&iacute; sim, imaginar que, apenas a partir desse    tipo de iniciativa, se ir&aacute; imprensar a economia capitalista contra a    parede, ou coloc&aacute;-la em xeque. A economia popular se desenvolve intersticialmente,    ou nas bordas do sistema, alimentando-se da crise e sendo uma resposta emergencial    a ela (ainda que possa lan&ccedil;ar sementes mais duradouras). Sua import&acirc;ncia    material imediata pode ser grande, conquanto n&atilde;o v&aacute;, por si s&oacute;,    neutralizar os efeitos nocivos do sistema capitalista; sua import&acirc;ncia    sociocultural e pol&iacute;tico-pedag&oacute;gica &eacute;, em grande parte,    ainda mais uma potencialidade que uma realidade. No entanto, sua relev&acirc;ncia    e seu alcance podem ser grandemente aumentados se certas iniciativas, como bancos    populares e cooperativas, puderem contar com o apoio estatal (acesso a fundos    p&uacute;blicos, esquemas de capacita&ccedil;&atilde;o t&eacute;cnica etc.).    N&atilde;o se defende que o Estado deva se fazer presente sempre, apoiando ou    ajudando a organizar, independentemente do tipo de atividade; na verdade, dentro    de uma perspectiva de delega&ccedil;&atilde;o de poder, como &eacute; aquela    que deve presidir um or&ccedil;amento participativo realmente consistente, tamb&eacute;m    aqui os governos locais com n&iacute;tida base popular e compromisso genu&iacute;no    com a democratiza&ccedil;&atilde;o do planejamento e da gest&atilde;o da cidade    devem resistir &agrave; tenta&ccedil;&atilde;o de imporem a sua presen&ccedil;a,    tenta&ccedil;&atilde;o essa que &eacute; a ante-sala da coopta&ccedil;&atilde;o    e da manipula&ccedil;&atilde;o da sociedade civil pelo Estado. N&atilde;o obstante,    o Estado pode e deve ajudar, em algumas situa&ccedil;&otilde;es. Esse tipo de    coopera&ccedil;&atilde;o deve ficar explicitado e pode ser ancorado, justamente,    no &acirc;mbito de programas de reforma urbana. Antes de se passar &agrave;    an&aacute;lise de como isso pode ser feito, alguns coment&aacute;rios introdut&oacute;rios    se fazem, por&eacute;m, convenientes. </font></p>     <p><font size="3">Sem melhorar o <i>padr&atilde;o de vida</i> dos pobres urbanos,    livrando-os da pobreza absoluta e tornando-os menos pobres em termos relativos    mediante uma eleva&ccedil;&atilde;o de sua renda, melhorias em mat&eacute;ria    de <i>qualidade de vida</i> podem se revelar ilus&oacute;rias, por terem vida    curta. Que n&atilde;o se esque&ccedil;a: uma reforma urbana, mesmo carregando    um potencial "revolucion&aacute;rio" no longo prazo (sua import&acirc;ncia pol&iacute;tico-pedag&oacute;gica,    seus efeitos multiplicadores e seu potencial de permitir um ac&uacute;mulo de    for&ccedil;as entre a classe trabalhadora), &eacute;, enquanto uma reforma estrutural    a ter sua implementa&ccedil;&atilde;o iniciada aqui e agora, uma transforma&ccedil;&atilde;o    operando (ainda que com atritos e um pouco contraditoriamente), nos marcos mais    gerais de uma sociedade que segue sendo capitalista. E a valoriza&ccedil;&atilde;o    do espa&ccedil;o em uma economia capitalista n&atilde;o se faz sem que isso    represente diferentes tipos de &ocirc;nus para os seus benefici&aacute;rios:    &ocirc;nus de tributos, decorrentes da regulariza&ccedil;&atilde;o fundi&aacute;ria    (embora o Estado possa, aqui, estabelecer regras especiais de isen&ccedil;&atilde;o,    total ou parcial, permanente ou tempor&aacute;ria) e da pr&oacute;pria valoriza&ccedil;&atilde;o    mercadol&oacute;gica do solo urbano que sofreu melhorias. Se a renda da popula&ccedil;&atilde;o-alvo    beneficiada por interven&ccedil;&otilde;es de urbaniza&ccedil;&atilde;o e regulariza&ccedil;&atilde;o    n&atilde;o se alterar, o resultado tender&aacute; a ser uma "expuls&atilde;o    branca", com o efeito perverso de valorizar o espa&ccedil;o sem melhorar a vida    dos ocupantes originais, que apenas ir&atilde;o reproduzir seu espa&ccedil;o    de pobreza e segrega&ccedil;&atilde;o em outro local, mais distante (se bem    que, para a popula&ccedil;&atilde;o de classe m&eacute;dia ou elite do entorno    da &aacute;rea "beneficiada", o efeito "colateral" de valoriza&ccedil;&atilde;o    do espa&ccedil;o e "limpeza &eacute;tnica" seja muito bem-vindo, simb&oacute;lica    e economicamente, devido &agrave; valoriza&ccedil;&atilde;o imobili&aacute;ria    tamb&eacute;m do entorno...). </font></p>     <p><font size="3">Portanto, faz-se mister pensar o que se pode fazer em mat&eacute;ria    de gera&ccedil;&atilde;o de emprego e renda. Enquanto a redistribui&ccedil;&atilde;o    de patrim&ocirc;nio (terra) adquire uma evidente centralidade no caso da reforma    agr&aacute;ria, patrim&ocirc;nio esse a ser, enquanto meio de produ&ccedil;&atilde;o,    a fonte de subsist&ecirc;ncia principal ou &uacute;nica dos benefici&aacute;rios,    o mesmo n&atilde;o se aplica &agrave; reforma urbana. Em primeiro lugar, a redistribui&ccedil;&atilde;o    de patrim&ocirc;nio n&atilde;o adquire a mesma centralidade: desapropria&ccedil;&otilde;es    devem ocorrer, seja como resultado de puni&ccedil;&atilde;o &agrave; atividade    reconhecidamente especulativa (uma vez aplicados os instrumentos da notifica&ccedil;&atilde;o    de edifica&ccedil;&atilde;o ou parcelamento compuls&oacute;rio e do IPTU progressivo    no tempo, e uma vez eles n&atilde;o tendo surtido efeito), seja como decorr&ecirc;ncia    da aplica&ccedil;&atilde;o do usucapi&atilde;o (individual ou coletivo); no    entanto, as terras p&uacute;blicas n&atilde;o s&atilde;o pass&iacute;veis de    desapropria&ccedil;&atilde;o (nelas se aplica &agrave; concess&atilde;o de direito    real de uso), o que significa que a meta de "seguran&ccedil;a jur&iacute;dica"    para os moradores de favelas nem sempre se dar&aacute; na esteira de uma redistribui&ccedil;&atilde;o    de propriedade imobili&aacute;ria, a rigor, mas apenas de regulariza&ccedil;&atilde;o    da posse. Al&eacute;m disso, os moradores de loteamentos irregulares j&aacute;    s&atilde;o propriet&aacute;rios; n&atilde;o s&atilde;o ocupantes, mas indiv&iacute;duos    que compraram seus lotes em loteamentos que, no entanto, demandam urbaniza&ccedil;&atilde;o    e regulariza&ccedil;&atilde;o definitiva. Por &uacute;ltimo, a reforma urbana    implica e abrange v&aacute;rias outras medidas, voltadas para o provimento de    moradia popular, o ordenamento mais inteligente e justo do espa&ccedil;o urbano    e a prote&ccedil;&atilde;o do patrim&ocirc;nio ambiental, que n&atilde;o t&ecirc;m    rela&ccedil;&atilde;o direta com a quest&atilde;o da propriedade imobili&aacute;ria    urbana. </font></p>     <p><font size="3">No urbano, mesmo em cidades efetivamente marcadas pela informalidade    n&atilde;o s&oacute; da ocupa&ccedil;&atilde;o do espa&ccedil;o, mas das pr&oacute;prias    estrat&eacute;gias de subsist&ecirc;ncia econ&ocirc;mica da popula&ccedil;&atilde;o    (produ&ccedil;&atilde;o dom&eacute;stica de diversos produtos de consumo popular,    com&eacute;rcio funcionando num anexo da casa etc. etc.), o solo, como meio    de produ&ccedil;&atilde;o, tender&aacute; a ter import&acirc;ncia exclusiva    apenas para o capitalista, propriet&aacute;rio de solo que funciona, exclusivamente,    como meio de produ&ccedil;&atilde;o (f&aacute;bricas, com&eacute;rcio e servi&ccedil;os    formais). Seria um erro palmar subestimar a diversidade de quadros de exist&ecirc;ncia    e estrat&eacute;gias de sobreviv&ecirc;ncia que caracteriza a pobreza urbana    em uma grande cidade brasileira, mas pode-se admitir que, para uma enorme parcela    dos pobres urbanos, a import&acirc;ncia do local de moradia como suporte para    a auferi&ccedil;&atilde;o de renda adicional (ou seja, complementar &agrave;    renda do trabalho assalariado realizado em outro local e com os meios de produ&ccedil;&atilde;o    de propriedade de outrem) ser&aacute; relativamente pequena (ainda que importante    para a renda familiar ou domiciliar). E, em muit&iacute;ssimos casos, a fam&iacute;lia    pode mesmo n&atilde;o recorrer, em absoluto, a tal expediente, sendo a renda    agregada derivada da combina&ccedil;&atilde;o de trabalho formal e trabalho    informal n&atilde;o-dom&eacute;stico. </font></p>     <p><font size="3">Todas essas peculiaridades da reforma urbana, em contraste com    a sua irm&atilde; mais velha e conhecida, a reforma agr&aacute;ria, n&atilde;o    significam nem que ela &eacute; menos importante, nem que estrat&eacute;gias    de gera&ccedil;&atilde;o de emprego e renda n&atilde;o devam ser pensadas no    seu interior ou articuladas com ela – <i>inclusive considerando-se poss&iacute;veis    usos dos espa&ccedil;os de moradia, seja na escala da pr&oacute;pria habita&ccedil;&atilde;o,    seja na escala do habitat, isto &eacute;, do assentamento ou do entorno da habita&ccedil;&atilde;o,    da vizinhan&ccedil;a</i>. Al&eacute;m dos espa&ccedil;os de moradia, n&atilde;o    se deve esquecer que, para uma grande parcela dos pobres urbanos, os quais sobrevivem    de atividades informais desenvolvidas na rua, em espa&ccedil;os p&uacute;blicos,    o solo urbano n&atilde;o deixa de ser um meio de produ&ccedil;&atilde;o, ainda    que de modo prec&aacute;rio e juridicamente irregular (com&eacute;rcio informal    ambulante, por exemplo). Dentro do amplo espectro da economia popular urbana,    v&aacute;rias atividades importantes sob o &acirc;ngulo da gera&ccedil;&atilde;o    de renda podem e devem ser impulsionadas ou, pelo menos, apoiadas pelo Estado,    da forma&ccedil;&atilde;o de cooperativas de produtores at&eacute; programas    de capacita&ccedil;&atilde;o profissional. A organiza&ccedil;&atilde;o e regulariza&ccedil;&atilde;o    do com&eacute;rcio ambulante tamb&eacute;m devem ser objeto da aten&ccedil;&atilde;o    de administradores e planejadores. Em outros casos, contudo, o melhor que o    Estado deve fazer &eacute; n&atilde;o se intrometer; n&atilde;o interferir demais    em certas iniciativas da sociedade civil &eacute;, j&aacute;, uma forma de ajudar.    </font></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v56n2/a19fig02.gif"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3">Por fim, tamb&eacute;m os or&ccedil;amentos participativos podem    ter import&acirc;ncia para o aquecimento da economia popular. Considere-se,    primeiramente, um fato banal: uma mesma taxa de crescimento de uma economia    (nacional, regional ou local, pouco importa) de, por exemplo, 5% ao ano (o que    &eacute; uma boa taxa, de um ponto de vista capitalista), pode ter por tr&aacute;s    de si coisas muit&iacute;ssimo diferentes sob o &acirc;ngulo das tecnologias    empregadas, dos produtos e servi&ccedil;os gerados e dos empregos criados. Se    as obras, ditas estruturantes (como viadutos ou pontes), costumam ser dependentes    de tecnologia mais sofisticada, as obras mais localizadas aprovadas no &acirc;mbito    de um or&ccedil;amento participativo, envolvendo a satisfa&ccedil;&atilde;o    de necessidades b&aacute;sicas em escala microlocal, podem e devem ser realizadas    priorizando-se as formas mais eficazes no que concerne &agrave; gera&ccedil;&atilde;o    de renda e emprego para a popula&ccedil;&atilde;o mais pobre. &Eacute; interessante    notar, ali&aacute;s, que a constru&ccedil;&atilde;o civil, basicamente dependente    de insumos nacionais e onde o fator trabalho &eacute; muito importante, inclusive    em mat&eacute;ria de m&atilde;o-de-obra pouco ou semiqualificada, tem um alcance    social muito grande: por um lado, por seu potencial de gera&ccedil;&atilde;o    de empregos ser bastante grande e, ao mesmo, tempo, por poder ter um papel,    via investimentos estatais, especialmente nos marcos de um or&ccedil;amento    participativo, na satisfa&ccedil;&atilde;o das necessidades materiais b&aacute;sicas    dos pobres urbanos: obras de saneamento b&aacute;sico, urbaniza&ccedil;&atilde;o    de favelas e constru&ccedil;&atilde;o de moradias populares s&atilde;o os exemplos    mais evidentes.</font></p>     <p><font size="3"> <b>CONCLUS&Atilde;O</b> Foram sumariamente apresentadas neste    texto tr&ecirc;s estrat&eacute;gias de desenvolvimento urbano, com o fito de    se refletir sobre as suas rela&ccedil;&otilde;es de complementaridade. Pensar    essas coisas conjuntamente &eacute; um desafio dos mais importantes e dos mais    urgentes. </font></p>     <p><font size="3">Vive-se em um mundo onde a globaliza&ccedil;&atilde;o econ&ocirc;mico-financeira    e a mundializa&ccedil;&atilde;o de (certos) padr&otilde;es culturais convivem    n&atilde;o com uma insignific&acirc;ncia da escala local, mas, sim, com uma    revaloriza&ccedil;&atilde;o do local e de suas particularidades. Isso n&atilde;o    &eacute; gratuito, nem tem, por tr&aacute;s, um processo id&iacute;lico: na    verdade, os <i>global players</i> por excel&ecirc;ncia, que s&atilde;o as grandes    corpora&ccedil;&otilde;es transnacionais, ao mesmo tempo em que buscam maior    facilidade de tr&acirc;nsito em escala planet&aacute;ria (e, por isso mesmo,    questionam a legitimidade regulat&oacute;ria dos Estados nacionais, a n&atilde;o    ser quando lhes conv&eacute;m, como no que se refere &agrave; garantia contra    a quebra de contratos), valorizam as especificidades locacionais dos pequenos    espa&ccedil;os, inclusive induzindo-os a uma competi&ccedil;&atilde;o cada vez    mais selvagem entre si (discurso da competitividade, pr&aacute;tica cada vez    mais sofisticada do <i>city marketing</i> e busca desesperada pela atra&ccedil;&atilde;o    de investimentos, chegando mesmo &agrave; "guerra fiscal"). Em que pese esse    lado perverso da valoriza&ccedil;&atilde;o do n&iacute;vel local, h&aacute;,    tamb&eacute;m, uma outra possibilidade, que &eacute; a de explorar a margem    de manobra econ&ocirc;mica, pol&iacute;tica e cultural oferecida pela escala    local para se obter avan&ccedil;os rumo a um genu&iacute;no desenvolvimento    s&oacute;cio-espacial. A margem de manobra local n&atilde;o deve ser exagerada,    mas seria grave erro subestim&aacute;-la (1) . </font></p>     <p><font size="3">As tr&ecirc;s estrat&eacute;gias de desenvolvimento urbano apresentadas    neste texto – reforma urbana, or&ccedil;amentos participativos e economia popular    – t&ecirc;m sido, via de regra, pensadas de modo muito pouco articulado entre    si. Na medida, por&eacute;m, em que o desenvolvimento s&oacute;cio-espacial    depreende uma transforma&ccedil;&atilde;o em diferentes esferas e n&iacute;veis    – produ&ccedil;&atilde;o, consumo, reprodu&ccedil;&atilde;o da for&ccedil;a    de trabalho, pol&iacute;tica, cultura... –, a integra&ccedil;&atilde;o dessas    estrat&eacute;gias, tanto te&oacute;rica quanto pr&aacute;tica, se afigura imprescind&iacute;vel.    Cada uma ao seu modo, e as tr&ecirc;s em conjunto, elas prometem oferecer a    possibilidade n&atilde;o s&oacute; de se aproveitar ao m&aacute;ximo a margem    de manobra local em mat&eacute;ria de desenvolvimento s&oacute;cio-espacial    <i>aqui e agora</i>, mas, tamb&eacute;m, plantar sementes importantes para o    futuro, por seu potencial pol&iacute;tico-pedag&oacute;gico. N&atilde;o substituem    estrat&eacute;gias e medidas atinentes a escalas supralocais, evidentemente;    tampouco conseguir&atilde;o, jamais, compensar inteiramente ou neutralizar os    fatores negativos que operam nas escalas internacional e nacional. Mas podem,    de diferentes maneiras, ser uma extraordin&aacute;ria contribui&ccedil;&atilde;o    para o esfor&ccedil;o de mudan&ccedil;a positiva de nossas cidades.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3"><i><b>Marcelo Lopes de Souza</b> &eacute; professor do Departamento    de Geografia da UFRJ, onde coordena o N&uacute;cleo de Pesquisas sobre Desenvolvimento    S&oacute;cio-Espacial (Nuped); &eacute; pesquisador do CNPq e trabalha com an&aacute;lise,    gest&atilde;o e planejamento urbanos.</i></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3"> <b>Notas e refer&ecirc;ncias bibliogr&aacute;ficas</b></font></p>     <p><font size="3"> * O presente texto consiste em uma vers&atilde;o reduzida e    modificada daquele que, sob o t&iacute;tulo "Reforma urbana, or&ccedil;amentos    participativos e economia popular: buscando sinergias para o desenvolvimento    s&oacute;cio-espacial", encontra-se no CD-Rom que cont&eacute;m os anais do    X Encontro Nacional da Anpur (Belo Horizonte, 2003).</font></p>     <p><font size="3">1. Souza, M. L. <i>Mudar a cidade. Uma introdu&ccedil;&atilde;o    cr&iacute;tica ao planejamento e &agrave; gest&atilde;o urbanos</i>. Rio de    Janeiro: Bertrand Brasil. 2001 </font></p>     <p><font size="3">2. Borja, J. et al. <i>Local &amp; Global. Management of Cities    in the Information Age</i>. Londres: Habitat e Earthscan. 1996 </font></p>     <p><font size="3">3. IBGE. <i>Perfil dos munic&iacute;pios brasileiros. Pesquisa    de informa&ccedil;&otilde;es b&aacute;sicas municipais 1999</i>. Rio de Janeiro:    IBGE. 2001 </font></p>     <p><font size="3">4. Brasil. Lei n&ordm;10.257, de 10/07/2001 (Estatuto da Cidade).    Bras&iacute;lia: Di&aacute;rio Oficial da Uni&atilde;o, Se&ccedil;&atilde;o    I (Atos do Poder Legislativo). Edi&ccedil;&atilde;o n.&ordm; 133 de 11/07/2001.</font></p>      ]]></body>

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