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</front><body><![CDATA[ <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v56n2/a15img01.gif"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size=5><b>C<small>IDADE E CIDADANIA: INCLUS&Atilde;O URBANA E JUSTI&Ccedil;A    SOCIAL</small></b></font></p>     <p><b><font size="3">Luiz Cesar de Queiroz Ribeiro</font></b></p>     <p>&nbsp;</p>     <blockquote>        <p><font size="3"> Os cidad&atilde;os urbanos usurparam o direito      de     <br>     dissolver os la&ccedil;os da domina&ccedil;&atilde;o senhorial – e esta foi          <br>     a grande inova&ccedil;&atilde;o, de fato, a inova&ccedil;&atilde;o revolucion&aacute;ria          <br>     das cidades medievais do Ocidente em face de todas as     ]]></body>
<body><![CDATA[<br>     outras – a quebra do direito senhorial. Nas     <br>     cidades centro e norte-europ&eacute;ias originou-se o     <br>     conhecido dito: 'o ar da cidade liberta' </font></p>       <p><font size="3"><i>Max Weber</i></font></p> </blockquote>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3">A democracia &eacute; um regime que promoveu a desvincula&ccedil;&atilde;o    do homem das rela&ccedil;&otilde;es de domina&ccedil;&atilde;o pessoal que marcavam    o feudalismo. A funda&ccedil;&atilde;o da cidade expressa a subvers&atilde;o    da ordem feudal, na qual o campon&ecirc;s estava atrelado ao propriet&aacute;rio    da terra por la&ccedil;os de subordina&ccedil;&atilde;o pessoal. Por esse motivo,    essa sociedade era caracterizada pela segrega&ccedil;&atilde;o dos homens em    estratos sociais hierarquizados. &Eacute; na cidade que o homem adquire a emancipa&ccedil;&atilde;o    material e moral, como bem demonstrou Max Weber. A ordem social passa a ser    associada &agrave; emerg&ecirc;ncia dos direitos humanos ligados aos direitos    considerados naturais, intrinsecamente associados &agrave; condi&ccedil;&atilde;o    humana. Direitos &agrave; liberdade, &agrave; propriedade, &agrave; seguran&ccedil;a    e direito de resist&ecirc;ncia &agrave; opress&atilde;o. A multiplica&ccedil;&atilde;o    das cidades e as formas de vida que elas ensejam levaram &agrave; subvers&atilde;o    da ordem feudal contra as formas de opress&atilde;o. </font></p>     <p><font size="3">As palavras cidade, cidad&atilde;o e cidadania foram, historicamente,    ganhando o mesmo sentido. Podemos identificar tr&ecirc;s momentos dessa evolu&ccedil;&atilde;o.    Antes de tudo, na antiguidade cl&aacute;ssica, cidadania tem a ver com a condi&ccedil;&atilde;o    de <i>civitas</i> pela qual os homens, vivendo em aglomerados urbanos, contraem    rela&ccedil;&otilde;es fundadas em direitos e deveres mutuamente respeitados.    Posteriormente, &agrave; condi&ccedil;&atilde;o de <i>civitas</i> somou-se a    de <i>polis</i>, ou seja, o direito de os moradores das cidades participarem    nos neg&oacute;cios p&uacute;blicos. J&aacute; no s&eacute;culo XIX, a condi&ccedil;&atilde;o    de cidadania &eacute; expandida com a inclus&atilde;o de direitos de prote&ccedil;&atilde;o    do morador da cidade contra o arb&iacute;trio do Estado. No final do s&eacute;culo    XIX e no in&iacute;cio do s&eacute;culo XX, a condi&ccedil;&atilde;o de cidad&atilde;o    expressava tamb&eacute;m os direitos relacionados &agrave; prote&ccedil;&atilde;o    social, inicialmente relacionados aos riscos do trabalho assalariado (desemprego,    acidente do trabalho etc.) e, posteriormente, estendidos &agrave; pr&oacute;pria    condi&ccedil;&atilde;o de cidad&atilde;o.</font></p>     <p><font size="3"> Esse terceiro sentido hist&oacute;rico da palavra cidadania    tem a ver com a "descoberta do social", como se expressou K. Polanyi (1) para    caracterizar o momento em que sociedade se d&aacute; conta da amea&ccedil;a    de destrui&ccedil;&atilde;o que representava o livre jogo do mercado. Corresponde    tamb&eacute;m ao momento em que era necess&aacute;rio universalizar a condi&ccedil;&atilde;o    do trabalho assalariado como pressuposto para a afirma&ccedil;&atilde;o da industrializa&ccedil;&atilde;o    capitalista. Cria-se um sistema de prote&ccedil;&atilde;o social ligado ao sistema    do <i>salariat</i>, com o qual o capital imp&otilde;e a subordina&ccedil;&atilde;o    real do trabalho. </font></p>     <p><font size="3">O sentido moderno da palavra cidadania expressa, portanto, tr&ecirc;s    focos: o democr&aacute;tico, o liberal e o social. O primeiro &eacute; o <i>polis</i>,    o segundo o <i>civitas</i> e o terceiro <i>societas</i>. Este &uacute;ltimo    foco tem a ver com a descoberta de que o <i>civitas</i> e o <i>polis</i> somente    poderiam existir com o m&iacute;nimo de justi&ccedil;a social. Podemos, ent&atilde;o,    imaginar uma seq&uuml;&ecirc;ncia: cidadania c&iacute;vica, cidadania pol&iacute;tica    e cidadania social. </font></p>     <p><font size="3">Hoje, h&aacute; uma ruptura deste processo hist&oacute;rico,    com impactos espec&iacute;ficos na Am&eacute;rica Latina. Aumenta o <i>polis</i>,    mas o civitas permanece hipertrofiado pela inexist&ecirc;ncia do <i>societas</i>.    </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3"><b>CIDADANIA E ESPOLIA&Ccedil;&Atilde;O URBANA</b> H&aacute;    uma conex&atilde;o estreita entre as caracter&iacute;sticas das nossas cidades    e o padr&atilde;o de desigualdades prevalecentes na sociedade brasileira, que    se d&aacute; na vig&ecirc;ncia dos cl&aacute;ssicos mecanismos da acumula&ccedil;&atilde;o    urbana, cujos fundamentos s&atilde;o as pr&oacute;prias desigualdades cristalizadas    na ocupa&ccedil;&atilde;o do solo. V&aacute;rios estudos j&aacute; mostraram,    com efeito, que a din&acirc;mica urbana da cidade latino-americana tem como    base a apropria&ccedil;&atilde;o privada de v&aacute;rias formas da renda urbana,    fazendo com que os segmentos j&aacute; privilegiados desfrutem, simultaneamente,    de maior n&iacute;vel de bem-estar social e riqueza acumulada, na forma de um    patrim&ocirc;nio imobili&aacute;rio de alto valor. Ao mesmo tempo, grande parte    da popula&ccedil;&atilde;o, formada pelos trabalhadores, &eacute; espoliada,    por n&atilde;o terem reconhecidas socialmente suas necessidades de consumo habitacional    (moradia e servi&ccedil;os coletivos), inerentes ao modo urbano de vida. O resultado    &eacute; a urbaniza&ccedil;&atilde;o sem cidades.</font></p>     <p><font size="3">A car&ecirc;ncia habitacional est&aacute; no centro do nosso    problema urbano na medida em que, em raz&atilde;o da exclus&atilde;o de grande    parte da popula&ccedil;&atilde;o do mercado imobili&aacute;rio formal, a "solu&ccedil;&atilde;o"    do chamado d&eacute;ficit habitacional tem sido a inser&ccedil;&atilde;o marginal    na cidade. Prevalece a l&oacute;gica perversa, produtora da maior parte dos    chamados problemas urbanos: quem est&aacute; fora do mercado somente tem acesso    &agrave; moradia &agrave; margem da cidade! A nossa urbaniza&ccedil;&atilde;o,    em conseq&uuml;&ecirc;ncia, &eacute; caracterizada pelo permanente e crescente    descompasso entre o lento crescimento das cidades e a veloz expans&atilde;o    das suas margens. A urbaniza&ccedil;&atilde;o expressa, assim, mais fortemente    o processo de desruraliza&ccedil;&atilde;o da sociedade do que a generaliza&ccedil;&atilde;o    da forma urbana de vida. Como podemos chamar a isso de urbaniza&ccedil;&atilde;o    quando o crescimento das nossas cidades se realiza centralmente pelo aumento    do n&uacute;mero de moradias que n&atilde;o atendem aos padr&otilde;es m&iacute;nimos    de habitabilidade que tornam poss&iacute;vel a vida em aglomerados urbanos?    </font></p>     <p><font size="3">N&atilde;o temos estat&iacute;sticas seguras sobre a marginaliza&ccedil;&atilde;o    urbana, at&eacute; porque &eacute; dif&iacute;cil quantificar o que n&atilde;o    pode ser reconhecido institucionalmente. Os n&uacute;meros sobre a melhoria    das condi&ccedil;&otilde;es habitacionais, insistentemente anunciados pelos    organismos internacionais, n&atilde;o revelam esse lado dram&aacute;tico das    cidades. Com efeito, se &eacute; verdade que as pessoas n&atilde;o est&atilde;o    mais em casebres de zinco e madeira reutilizada, como nos prim&oacute;rdios    das favelas, vilas, barriadas etc., hoje elas moram em casas insalubres e totalmente    inaptas &agrave; fun&ccedil;&atilde;o de sustenta&ccedil;&atilde;o de uma vida    digna. Alguns dados sobre a realidade brasileira nos d&atilde;o uma id&eacute;ia    da marginaliza&ccedil;&atilde;o urbana. Cerca de 9% da popula&ccedil;&atilde;o    metropolitana mora em setores onde prevalece forte ou extrema precariedade em    termos de servi&ccedil;os de saneamento b&aacute;sico. S&atilde;o 6 milh&otilde;es    de pessoas vivendo &agrave; margem dos padr&otilde;es m&iacute;nimos de acesso    a &aacute;gua, esgoto e coleta de lixo. Nas cidades localizadas fora das &aacute;reas    metropolitanas, a marginaliza&ccedil;&atilde;o urbana atinge 21 milh&otilde;es    de pessoas! A subnormalidade habitacional medida pelo IBGE aumentou cinco vezes    entre 1991 e 2000. Levantamentos feitos pelas prefeituras apontam assustadores    &iacute;ndices de crescimento de moradias em favelas: na grande S&atilde;o Paulo,    20% da popula&ccedil;&atilde;o mora em favela, quando em 1970 este &iacute;ndice    era de apenas 1%; na cidade do Rio de Janeiro, este percentual se eleva a 28%,    em Salvador a 33%, e em Bel&eacute;m a 50%. Nos &uacute;ltimos dez anos, a popula&ccedil;&atilde;o    das sete regi&otilde;es metropolitanas saltou de 37 para 42 milh&otilde;es de    habitantes, e suas periferias conheceram uma taxa de crescimento de 30%, enquanto    que as &aacute;reas urbanas mais centrais n&atilde;o cresceram, no mesmo per&iacute;odo,    mais de 5%. Por outro lado, o fato de que apenas cerca de 16% das moradias constru&iacute;das    no Brasil correspondem &agrave; oferta gerada pelo segmento formalizado, no    qual a constru&ccedil;&atilde;o e o financiamento s&atilde;o atividades organizadas,    nos permite avaliar a extens&atilde;o da exclus&atilde;o do mercado. </font></p>     <p><font size="3"><b>CIDADANIA E VULNERABILIZA&Ccedil;&Atilde;O URBANA</b> Durante    as d&eacute;cadas de 1970 e 1980 assistimos, nas cidades latino-americanas,    a emerg&ecirc;ncia de lutas contra os mecanismos da espolia&ccedil;&atilde;o    urbana. Alguns progressos foram obtidos em termos de extens&atilde;o do direito    &agrave; cidade aos segmentos populares. Programas de urbaniza&ccedil;&atilde;o    das favelas e seus correlatos nos outros pa&iacute;ses latino-americanos s&atilde;o    ind&iacute;cios nessa dire&ccedil;&atilde;o. Alguns desses programas refletem    as preocupa&ccedil;&otilde;es dos organismos internacionais com os efeitos regressivos    da pol&iacute;tica econ&ocirc;mica neoliberal. No caso brasileiro, em 2001 foi    aprovada uma lei nacional (o Estatuto da Cidade) que, reconhecendo a fun&ccedil;&atilde;o    social da cidade e da propriedade imobili&aacute;ria, oferece uma oportunidade    para que os governos locais possam retirar a din&acirc;mica de organiza&ccedil;&atilde;o    urbana dos circuitos da acumula&ccedil;&atilde;o privada de renda e riqueza    geradas pela a&ccedil;&atilde;o do poder p&uacute;blico. A espolia&ccedil;&atilde;o    urbana pode ser combatida pelo reconhecimento das necessidades de reprodu&ccedil;&atilde;o    das camadas populares na forma de um direito &agrave; cidade.</font></p>     <p><font size="3">Por&eacute;m, come&ccedil;amos o novo mil&ecirc;nio com crescentes    evid&ecirc;ncias de que novos mecanismos de espolia&ccedil;&atilde;o urbana    est&atilde;o emergindo nas cidades, relacionados com o fato de que a segrega&ccedil;&atilde;o    e a exclus&atilde;o habitacional produzem espa&ccedil;os nos quais se verifica    a acumula&ccedil;&atilde;o de desvantagens sociais. S&atilde;o aglomerados urbanos    de segmentos sociais vivendo o processo de vulnerabiliza&ccedil;&atilde;o social    decorrente da precariza&ccedil;&atilde;o do emprego, do desemprego e da perda    da renda do trabalho, processo ao qual se somam os efeitos do empobrecimento    social, resultantes da desestrutura&ccedil;&atilde;o do universo familiar, do    isolamento social, da estigmatiza&ccedil;&atilde;o e da desertifica&ccedil;&atilde;o    c&iacute;vica dos bairros em vias de guetifica&ccedil;&atilde;o. Neles, em raz&atilde;o    desses processos, torna-se cada vez mais problem&aacute;tico o surgimento de    a&ccedil;&otilde;es coletivas que possam compensar a perda da renda e o relativo    abandono pelo poder p&uacute;blico. Produz-se, assim, um c&iacute;rculo perverso    de despossess&atilde;o que transforma a marginaliza&ccedil;&atilde;o social    em exclus&atilde;o territorial. S&atilde;o nesses aglomerados que se verificam    as maiores taxas de repet&ecirc;ncia e evas&atilde;o escolar, de m&atilde;es    jovens solteiras, e de jovens que n&atilde;o estudam, n&atilde;o trabalham e    tampouco procuram empregos. Por outro lado, estudos sobre a chamada viol&ecirc;ncia    urbana t&ecirc;m trazido tamb&eacute;m evid&ecirc;ncias da rela&ccedil;&atilde;o    entre as taxas de incid&ecirc;ncia de homic&iacute;dios e a precariedade urbana.    </font></p>     <p><font size="3">Em resumo, existem elementos suficientes para afirmar que, em    nossas cidades, aos hist&oacute;ricos mecanismos de espolia&ccedil;&atilde;o    urbana, se associam mecanismos de vulnerabiliza&ccedil;&atilde;o da popula&ccedil;&atilde;o.    Se antes a aus&ecirc;ncia de democracia retirava dos segmentos trabalhadores    os bens e servi&ccedil;os inerentes &agrave; vida urbana, hoje a segrega&ccedil;&atilde;o    e separa&ccedil;&atilde;o fazem com que uma parte n&atilde;o desprez&iacute;vel    da popula&ccedil;&atilde;o seja crescentemente desabilitada dos recursos necess&aacute;rios    ao acesso &agrave; renda e aos benef&iacute;cios urbanos. Aqui se faz necess&aacute;rio    um pequeno coment&aacute;rio sobre o conceito de vulnerabiliza&ccedil;&atilde;o.    N&atilde;o podemos tomar essa id&eacute;ia tal qual ela foi formulada por Robert    Castel (2). Nunca tivemos um <i>salariat</i>, portanto nunca tivemos a experi&ecirc;ncia    de um sistema de prote&ccedil;&atilde;o e solidariedade sociais associado ao    trabalho assalariado, como ocorreu na Europa. No Brasil a cidade, ou melhor,    o bairro popular cumpriu historicamente esse papel, em raz&atilde;o de a concentra&ccedil;&atilde;o    territorial das camadas populares rec&eacute;m-transferidas do campo propiciar    o desenvolvimento de uma economia moral e a&ccedil;&otilde;es coletivas de reivindica&ccedil;&otilde;es    de bem-estar social. Em outras palavras, o bairro popular, com sua vida fortemente    comunit&aacute;ria, constitu&iacute;a um <i>hiterland</i> capaz de compensar    os efeitos da instabilidade do assalariamento incompleto e da aus&ecirc;ncia    de direitos sociais. </font></p>     <p><font size="3">Podemos falar, ent&atilde;o, de vulnerabiliza&ccedil;&atilde;o    urbana em raz&atilde;o de o bairro popular hoje suscitar a experi&ecirc;ncia    da inseguran&ccedil;a e do risco. No fundo dessa mudan&ccedil;a, temos associadas    a expans&atilde;o do trabalho prec&aacute;rio e a difus&atilde;o da viol&ecirc;ncia.</font></p>     <p><font size="3"><b>CIDADE E VIOL&Ecirc;NCIA</b> No bairro popular sempre esteve    presente a viol&ecirc;ncia. Mas esta n&atilde;o produzia os efeitos desorganizadores    como hoje os produz a viol&ecirc;ncia associada ao tr&aacute;fico de drogas    e de armas. Ela cria um clima social e uma cultura que diminuem enormemente    a efic&aacute;cia normativa necess&aacute;ria &agrave;s pr&aacute;ticas e &agrave;s    rela&ccedil;&otilde;es de solidariedade, incidentes especialmente nos jovens    moradores dos bairros populares. Aqueles que s&atilde;o recrutados pelas organiza&ccedil;&otilde;es    criminosas adquirem rapidamente massivos recursos, sejam eles armas ou dinheiro.    Por outro lado, o assustador n&uacute;mero de mortes de homens jovens gera um    clima social em que o encurtamento dos horizontes de tempo dos jovens os conduz    a atitudes pouco prop&iacute;cias &agrave; aceita&ccedil;&atilde;o dos valores    da sociedade.</font></p>     <p><font size="3">Luiz Eduardo Soares (3) aponta os seguintes efeitos da viol&ecirc;ncia:    </font></p>     <p><font size="3"><b>a.</b> Desorganiza&ccedil;&atilde;o da vida associativa e    pol&iacute;tica das comunidades.    ]]></body>
<body><![CDATA[<br>   <b>b.</b> Imposi&ccedil;&atilde;o de um regime desp&oacute;tico nas favelas    e bairros populares.    <br>   <b>c.</b> Recrutamento da for&ccedil;a de trabalho infantil e adolescente.    <br>   <b>d.</b> Dissemina&ccedil;&atilde;o de valores b&eacute;licos, contr&aacute;rios    ao universalismo democr&aacute;tico e cidad&atilde;o, fazendo com que os princ&iacute;pios    de orienta&ccedil;&atilde;o dos comportamentos sociais, especialmente dos jovens,    sejam os ligados &agrave; lealdade, honra e coragem, pr&oacute;prios de uma    sociedade feudalizada, havendo retra&ccedil;&atilde;o dos valores civilizat&oacute;rios    que habilitam seu portador com disposi&ccedil;&otilde;es subjetivas para o respeito    &agrave;s regras da sociabilidade, e para a racionalidade estrategicamente orientada.    <br>   <b>e.</b> Como conseq&uuml;&ecirc;ncia, nos bairros populares, observa-se o    predom&iacute;nio agressivo dos valores da guerra feudalizada, fundados na cren&ccedil;a    da supremacia da coragem e da lealdade, o que leva, invariavelmente, a um quadro    social de faccionalismo fratricida.    <br>   <b>f. </b>Destrui&ccedil;&atilde;o das estruturas familiares e da din&acirc;mica    da reprodu&ccedil;&atilde;o cultural ao inverterem-se as rela&ccedil;&otilde;es    de autoridade intergeracionais, convertendo-as em la&ccedil;os de poder militarizado.    Em decorr&ecirc;ncia da vig&ecirc;ncia desses valores, h&aacute; nos bairros    populares uma permanente disputa em torno da supremacia moral de duas estruturas    de hierarquia: a familiar e a do tr&aacute;fico. A conseq&uuml;&ecirc;ncia &eacute;    a degrada&ccedil;&atilde;o da "lealdade comunit&aacute;ria tradicional, substituindo-a    por rela&ccedil;&otilde;es exclusivistas com grupos paramilitares e por um narcisismo    consumista extremo". Nos bairros em que o tr&aacute;fico tem presen&ccedil;a    marcante "a identidade predominante passa a ser o grupo criminoso, que usa o    v&iacute;nculo simb&oacute;lico de uma das grandes "fam&iacute;lias" do tr&aacute;fico....    para diferenciar-se dos rivais. Esse processo tende a ser mais traum&aacute;tico    quando os traficantes s&atilde;o invasores, isto &eacute;, n&atilde;o origin&aacute;rios    da favela que dominam".    <br>   <b>g.</b> Fortalecimento e dissemina&ccedil;&atilde;o do patriarcalismo, da    homofobia e da misoginia.    <br>   <b>h.</b> Estimula&ccedil;&atilde;o de rea&ccedil;&otilde;es que tendem a estigmatizar    a pobreza e os pobres, promovendo imagens negativas das comunidades dos bairros    populares, que passam a ser vistos como fontes do mal. Essas imagens inspiram    e refor&ccedil;am pr&aacute;ticas discriminat&oacute;rias da sociedade como    um todo em rela&ccedil;&atilde;o &agrave;s favelas e aos bairros populares,    sobre os quais passam a vigorar concep&ccedil;&otilde;es e discursos estigmatizadores.    Bem sabemos, a partir dos resultados das pesquisas de Wacquant (4) sobre os    guetos negros de Chicago e sobre as periferias pobres de Paris, que o estigma    acaba sendo incorporado pelos estigmatizados, o que os leva a comportamentos    orientados pela busca em se dissociar desses lugares.</font></p>     <p><font size="3"><b>CIDADANIA NA CIDADE PARTIDA?</b> Os n&uacute;cleos das nossas    metr&oacute;poles s&atilde;o constitu&iacute;dos, cada vez mais, por aglomerados    urbanos cujos dinamismos econ&ocirc;mico e social decorrem de seus pap&eacute;is    nas redes globais de circula&ccedil;&atilde;o mercantil e financeira. &Eacute;    a cidade alta, onde o moderno mercado &eacute; dominante, centro log&iacute;stico    dos neg&oacute;cios, aonde chegam as informa&ccedil;&otilde;es, as mercadorias,    os capitais, os cr&eacute;ditos. Nesta parte, quem dita as leis s&atilde;o os    donos do capital e das outras formas de riqueza, e seus habitantes se orientam    por uma cultura cosmopolita. Nas periferias geogr&aacute;ficas e sociais, cresce    uma massa marginal, desconectada produtivamente dos espa&ccedil;os onde a riqueza    se reproduz e se acumula. Nelas se expande uma economia da sobreviv&ecirc;ncia    fechada por si mesma. O poder funda-se na privatiza&ccedil;&atilde;o da viol&ecirc;ncia,    organizada em estruturas feudalizadas. S&atilde;o &aacute;reas nas quais a popula&ccedil;&atilde;o    tem que se esfor&ccedil;ar para n&atilde;o sucumbir integralmente aos valores    e &agrave;s pr&aacute;ticas inerentes ao capitalismo predador, gerado pelos    diversos circuitos da criminalidade que gravitam em torno do tr&aacute;fico    de armas e de drogas, e ao capitalismo assistencialista, fundado na total submiss&atilde;o    da popula&ccedil;&atilde;o carente aos la&ccedil;os de depend&ecirc;ncia e favores    pessoais com aqueles que controlam as in&uacute;meras institui&ccedil;&otilde;es    "filantr&oacute;picas" das nossas periferias e favelas. Uma ou outra forma de    domina&ccedil;&atilde;o estimula a consolida&ccedil;&atilde;o de uma cultura    muito pouco favor&aacute;vel &agrave; a&ccedil;&atilde;o coletiva e aos valores    igualit&aacute;rios, indispens&aacute;veis &agrave; democracia. </font></p>     <p><font size="3">Esta paisagem lembra a descri&ccedil;&atilde;o que fez o historiador    F.Braudel (5) sobre a desconjun&ccedil;&atilde;o ocorrida &agrave; &eacute;poca    da forma&ccedil;&atilde;o da economia-mundo entre os planos e o tempo da vida    material e quotidiana da maioria da popula&ccedil;&atilde;o, que constru&iacute;a    a sua sobreviv&ecirc;ncia di&aacute;ria praticamente &agrave; margem da rede    de trocas organizada sob a hegemonia das "altas finan&ccedil;as" que atravessava    as regi&otilde;es da Europa. "O centro, o 'cora&ccedil;&atilde;o', re&uacute;ne    tudo o que h&aacute; de mais avan&ccedil;ado e de mais diversificado. O anel    seguinte s&oacute; tem uma parte dessas vantagens, embora participe delas: &eacute;    uma zona dos 'brilhantes secund&aacute;rios'. A imensa periferia, com seus povoados    pouco densos, &eacute;, ao contr&aacute;rio, o arca&iacute;smo, o atraso, a    explora&ccedil;&atilde;o f&aacute;cil por parte dos outros. Essa geografia discriminat&oacute;ria    ainda hoje logra e explica a hist&oacute;ria geral do mundo, se bem que esta,    ocasionalmente, tamb&eacute;m crie por si mesma o logro com a sua coniv&ecirc;ncia."    </font></p>     <p><font size="3">Na cidade da globaliza&ccedil;&atilde;o perif&eacute;rica, os    efeitos dos novos mecanismos de vulnerabiliza&ccedil;&atilde;o produzem a despossess&atilde;o    moral de vastos segmentos da popula&ccedil;&atilde;o. A globaliza&ccedil;&atilde;o    imp&otilde;e a l&oacute;gica do mercado e, ao mesmo tempo, cria uma massa marginal.    A segrega&ccedil;&atilde;o residencial emerge como forma de gest&atilde;o social    dessa massa marginal. A moderniza&ccedil;&atilde;o, realizada pela acumula&ccedil;&atilde;o    liberal, ao mesmo tempo em que promove quebra os la&ccedil;os da integra&ccedil;&atilde;o    social. </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3">Muitos bairros das cidades da Am&eacute;rica Latina se assemelham    &agrave; situa&ccedil;&atilde;o de guetos negros americanos descrita por L&ouml;ic    Wacquant: </font></p>     <blockquote>        <p><font size="3">"...o gueto &eacute; um dispositivo socioespacial que permite      a um grupo estatut&aacute;rio dominante em um quadro urbano desterrar e explorar      um grupo dominado portador de um capital simb&oacute;lico negativo, isto &eacute;,      uma propriedade corporal percebida como fator capaz de tornar qualquer contato      com ele degradante, em virtude daquilo que Max Weber chama de "estima&ccedil;&atilde;o      social negativa da honra". Em outros termos, um gueto &eacute; uma rela&ccedil;&atilde;o      etno-racial de controle e de fechamento composta de quatro elementos: estigma,      coa&ccedil;&atilde;o, confinamento territorial e segrega&ccedil;&atilde;o      institucional". (4)</font></p> </blockquote>     <p><font size="3">A democracia exige a participa&ccedil;&atilde;o de pessoas dotadas    de autonomia moral, sem o que n&atilde;o s&atilde;o poss&iacute;veis nem as    delibera&ccedil;&otilde;es nem as escolhas conscientes e respons&aacute;veis.    Por sua vez, essa autonomia moral demanda um grau razo&aacute;vel de independ&ecirc;ncia    e seguran&ccedil;a econ&ocirc;micas. Estamos de acordo com a opini&atilde;o    de J. Nun (6) sobre as possibilidades de a consolida&ccedil;&atilde;o de uma    "democracia representativa excludente", como conseq&uuml;&ecirc;ncia da preval&ecirc;ncia    de extremas desigualdades nas cidades, gerar situa&ccedil;&otilde;es de vulnerabilidade    e riscos sociais que amea&ccedil;am a seguran&ccedil;a f&iacute;sica e social    (identidade individual e coletiva) de amplos segmentos da popula&ccedil;&atilde;o.    Isso equivale dizer que em nossas cidades podem existir regimes pol&iacute;ticos    democr&aacute;ticos pouco representativos, nos quais apenas alguns desfrutariam    da real condi&ccedil;&atilde;o de cidadania. Nesse contexto pol&iacute;tico    a tend&ecirc;ncia seria a perman&ecirc;ncia de formas perversas de integra&ccedil;&atilde;o    social que se encarnam no clientelismo, na criminalidade, no com&eacute;rcio    ilegal, na prolifera&ccedil;&atilde;o de guetos e popula&ccedil;&otilde;es marginalizadas    e na persist&ecirc;ncia de modos brutais de explora&ccedil;&atilde;o da m&atilde;o-de-    obra. Ser&aacute; que o "ar da cidade brasileira emancipar&aacute;" o homem    integrante das massas marginais em vias de exclus&atilde;o territorial? N&atilde;o    temos a resposta, mas podemos afirmar que, como na passagem do feudalismo para    o capitalismo, ser&aacute; na cidade, no enfrentamento das tend&ecirc;ncias    &agrave; restaura&ccedil;&atilde;o dos la&ccedil;os de domina&ccedil;&atilde;o,    pr&oacute;prios do <i>Ancien Regime</i>, que se travar&aacute; a luta por uma    sociedade democr&aacute;tica. Para tanto, temos que adotar a palavra de ordem    proposta pelo soci&oacute;logo Boaventura de Souza Santos: democratizar a democracia!    A sua concretiza&ccedil;&atilde;o, por&eacute;m, passa pelo combate aos novos    mecanismos de espolia&ccedil;&atilde;o urbana, fundados na segrega&ccedil;&atilde;o    e no isolamento territoriais; combate pelo qual poderemos, nas sociedades latino-americanas,    finalmente conciliarmos a cidade, a democracia e a justi&ccedil;a social. </font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3"><i><b>Luiz Cesar de Queiroz Ribeiro</b> &eacute; professor-titular    do IPPUR/UFRJ e coordenador do Observat&oacute;rio de Pol&iacute;ticas Urbanas    e Gest&atilde;o Municipal- IPPUR/Fase</i></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3"><b>Refer&ecirc;ncias bibliogr&aacute;ficas</b></font></p>     <p><font size="3">1. Polanyi, K. <i>A grande transforma&ccedil;&atilde;o. As origens    da nossa &eacute;poca.</i> Rio de Janeiro: Campus. 2000 </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3">2. Castel, R. <i>Les m&eacute;tamorphoses de la question sociale.    Une chronique du salariat</i>. Paris: Fayard. 1995 </font></p>     <p><font size="3">3. Soares, L. E. <i>Meu casaco de general</i>. S&atilde;o Paulo:    Companhia das Letras. 2000 </font></p>     <p><font size="3">4. Wacquant, L. <i>Punir os pobres. A nova gest&atilde;o da    mis&eacute;ria nos Estados Unidos</i>. Rio de Janeiro: Freitas Bastos-Instituto    de Criminologia. 2001 </font></p>     <p><font size="3">5. Braudel, F.. <i>Civiliza&ccedil;&atilde;o material, economia    e capitalismo s&eacute;culos XV-XVIII</i>. S&atilde;o Paulo: Martins Fontes.    1996 </font></p>     <p><font size="3">6. Nun, J. <i>Marginalidad y exclusi&oacute;n social</i>. M&eacute;xico:    Fond de Cultura Econ&oacute;mica. 2001</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b><font size="3">Bibliografia consultada</font></b></p>     <p><font size="3"> Freitag, B. <i>Cidade dos homens</i>. Rio de Janeiro: Tempo    Brasileiro. 2002 </font></p>     <p><font size="3">Kowarick, L. <i>A espolia&ccedil;&atilde;o urbana</i>. Rio de    Janeiro: Paz e Terra. 1979 </font></p>      ]]></body>
</article>
