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</front><body><![CDATA[ <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v56n2/a15img01.gif"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v56n2/a21fig01.gif"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size=5><b>C<small>IDADES UT&Oacute;PICAS DO</small> R<small>ENASCIMENTO</small></b></font></p>     <p><b><font size="3">Carlos Eduardo Ornelas Berriel</font></b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3"> <font size=5><b>T</b></font>homas Morus, em 1516, criou a    id&eacute;ia de <b>utopia</b> ao descrever uma ilha imagin&aacute;ria com uma    sociedade perfeita em todos os sentidos. O surgimento desse g&ecirc;nero liter&aacute;rio,    t&atilde;o pr&oacute;ximo da hist&oacute;ria, da filosofia e da pol&iacute;tica,    est&aacute; ligado ao processo burgu&ecirc;s de racionaliza&ccedil;&atilde;o    da vida. O Renascimento sintetizou um grande experimento de racionaliza&ccedil;&atilde;o    da vida humana. Para construir a sua sorte e o destino da humanidade, os homens    daquela &eacute;poca fixaram normas de conduta e quiseram regulamentar cada    aspecto da vida pr&aacute;tica. A l&oacute;gica desta id&eacute;ia levou &agrave;    constru&ccedil;&atilde;o de crit&eacute;rios universalmente v&aacute;lidos para    cada atividade, com normas, regras e c&oacute;digos: surgiram assim os tratados    sobre o perfeito cortes&atilde;o, sobre o perfeito ministro, sobre o perfeito    homem do mundo. </font></p>     <p><font size="3">Essa necessidade de impor uma racionalidade &agrave; vida individual    e coletiva, inevitavelmente, chegou ao urbanismo renascentista. Nos termos renascentistas,    a nova cidade &eacute; fundada pela necessidade da <i>virt&ugrave;</i> combater    eternamente a <i>fortuna</i> amea&ccedil;adora. As cidades medievais haviam    se desenvolvido anarquicamente, pelo impulso das iniciativas individuais. Mas    essa estrutura comunal foi substitu&iacute;da pelas iniciativas de pr&iacute;ncipes    desejosos de ampliar seu poder e de instaurar a ordem. Na It&aacute;lia, surgiram    soberanos construtores que sonhavam com novas cidades e, pela oportunidade,    arquitetos do <i>Quattrocento</i> planejam cidades num estilo racional e geom&eacute;trico.    Mas n&atilde;o &eacute; poss&iacute;vel modificar as muralhas sem modificar    os homens: a cidade &eacute; o espelho e a dimens&atilde;o do homem. A organiza&ccedil;&atilde;o    social passa a ser uma preocupa&ccedil;&atilde;o dos urbanistas, colocando o    ser humano no centro de suas constru&ccedil;&otilde;es, e sonham em torn&aacute;-los    id&ecirc;nticos: que a uma cidade s&atilde; e racional corresponda um novo homem!    </font></p>     <p><font size="3">Aparecem ent&atilde;o os te&oacute;ricos de um urbanismo ut&oacute;pico.    N&atilde;o &eacute; fundamental que tais cidades ideais sejam de fato constru&iacute;das:    mesmo sem sa&iacute;rem do papel, servem para a melhor compreens&atilde;o das    limita&ccedil;&otilde;es de nosso presente, e sugerem cidades melhores do que    as nossas. E, se puderam ser pensadas, poder&atilde;o ser constru&iacute;das.    Aos seus grandiosos projetos de cidades com tra&ccedil;ados retil&iacute;neos,    os urbanistas unem o desejo de regulamentar a vida dos habitantes, de fazer    da sociedade um minucioso alv&eacute;olo onde cada um possa encontrar o seu    lugar e a sua fun&ccedil;&atilde;o. A <i>De re aedificatoria</i> de Leon Battista    Alberti (1452), testemunha a supera&ccedil;&atilde;o da arquitetura pela no&ccedil;&atilde;o    de constru&ccedil;&atilde;o social. Na sua cidade, as classes s&atilde;o distribu&iacute;das    em bairros diferentes, as ruas s&atilde;o reservadas para determinados of&iacute;cios,    s&atilde;o previstos asilos para os pobres. Antonio Avelino, o Filarete (1400-1466),    florentino a servi&ccedil;o de Galeazzo Sforza, tem inten&ccedil;&otilde;es    maiores. No seu <i>Trattato</i> desenha uma cidade fant&aacute;stica chamada    Sforzinda, um projeto digno das ambi&ccedil;&otilde;es do duque. Ele a situa    numa plan&iacute;cie f&eacute;rtil, sobre terras fecundas, onde &eacute; poss&iacute;vel    unir pa&iacute;ses da Cocanha com o utopismo popular. As muralhas, com um per&iacute;metro    de 20 km, formam um pol&iacute;gono regular de 16 lados em forma de estrela.    Essas muralhas cicl&oacute;picas s&atilde;o constru&iacute;das em 10 dias por    102.000 oper&aacute;rios, que a cada jornada assentam 30 milh&otilde;es de pedras.    16 avenidas principais, retil&iacute;neas e com largura de 20 metros, conduzem    &agrave;s oito portas e &agrave;s oito torres angulares. Ao centro da estrela,    uma pra&ccedil;a de 200 metros por 100; surgem &aacute;reas para joalheiros    e banqueiros, edif&iacute;cios para as corpora&ccedil;&otilde;es e os neg&oacute;cios,    banheiros p&uacute;blicos, hospitais, pr&eacute;dios para os m&eacute;dicos    e a administra&ccedil;&atilde;o. Filarete pensa nos habitantes de Sforzinda,    regulamenta, reparte, administra. As crian&ccedil;as pobres s&atilde;o educadas    em col&eacute;gios especiais, usam uniformes, dormem 7 horas por noite, a disciplina    &eacute; f&eacute;rrea, a dieta frugal. A cidade &eacute; governada por um legislador,    Zogalia (anagrama de Galeazzo Sforza) e por quatro magistrados eleitos. O interesse    priorit&aacute;rio &eacute; o da cidade, severas leis suntu&aacute;rias ensinam    a simplicidade. A febre dos construtores avassala Filarete no seu sonho prometeico:    mais que uma cidade, &eacute; um novo mundo o que ele deseja construir; o urbanista    torna-se demiurgo e, ao transformar a cidade, transforma o homem e lhe indica    seu destino terreno. Os tempos estavam maduros para a primeira utopia moderna.    </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3">Mesmo o modelo urban&iacute;stico de Leonardo da Vinci, um desenho    de cidade perfeita, detalhava como deveriam ser as ruas, casas, esgotos, etc.    Pelas ruas altas n&atilde;o deveriam andar carros nem outras coisas similares,    mas apenas gentis-homens; pelas baixas deveriam andar carros e outras coisas    somente para uso e comodidade do povo. De uma casa a outra, deixando a rua baixa    no meio, por onde chegam vinho, lenha, etc. Pelas ruas subterr&acirc;neas estariam    as estrebarias e outras coisas f&eacute;tidas. De um arco a outro devem existir    300 bra&ccedil;as, por onde entraria luz, e cada arco deveria ter uma escada    em caracol. "Tanto seja larga a rua quanto &eacute; a universal altura das casas".    Fa&ccedil;am-se fontes em cada uma das pra&ccedil;as. E assim por diante. A    cidade descrita por Leonardo j&aacute; &eacute;, de certa forma, utopia; &eacute;    uma exig&ecirc;ncia completamente racional, que espera ser traduzida em pr&aacute;tica.    </font></p>     <p><font size="3">Thomas Morus n&atilde;o foi um sonhador, mas brilhante pol&iacute;tico    nomeado, em 1529, gr&atilde;o- chanceler da Inglaterra. O Renascimento foi um    per&iacute;odo de crises e instabilidades cont&iacute;nuas, e Morus conhecia    os problemas de seu tempo: foi pensando neles que publicou em 1516 a sua <i>Utopia</i>.    </font></p>     <p><font size="3">Utopia &eacute; minuciosamente descrita, sendo uma ilha com    formato de meia lua, circundada de montanhas que oferecem uma boa defesa natural.    Houve um tempo, 1760 anos antes, em que o pa&iacute;s se chamava Abraxa e era    unido ao continente; o rei Utopo o conquistou, e, para separ&aacute;-lo da terra    firme, fez escavar um istmo. Por isso, as rela&ccedil;&otilde;es externas s&atilde;o    raras, pois os habitantes dos mundos imagin&aacute;rios se contentam com suas    autarquias, e esse isolamento lhes preserva da corrup&ccedil;&atilde;o externa.    </font></p>     <p><font size="3">Em Utopia existem 54 cidades, perfeitamente id&ecirc;nticas,    constru&iacute;das com base no mesmo projeto e compreendendo edif&iacute;cios    iguais, tanto que &eacute; suficiente descrever uma s&oacute; para conhecer-se    todas. Amauroto &eacute; a capital da ilha. Circundada de muros, atravessada    pelo rio Anidro, &eacute; limpa, salubre e alegrada por graciosos jardins. O    sistema pol&iacute;tico &eacute; democr&aacute;tico e parlamentar. A c&eacute;lula    de base &eacute; a fam&iacute;lia camponesa composta de 40 membros; existindo    6 mil fam&iacute;lias em cada cidade, a popula&ccedil;&atilde;o da ilha atingir&aacute;    13 milh&otilde;es de habitantes. A propriedade privada &eacute; completamente    ausente. Cada cidade &eacute; circundada de terras cultivadas pelos cidad&atilde;os    que t&ecirc;m a obriga&ccedil;&atilde;o de fornecer &agrave; comunidade dois    anos de servi&ccedil;o agr&iacute;cola, independentemente do of&iacute;cio que    pratiquem. </font></p>     <p><font size="3">Os utopianos s&atilde;o asc&eacute;ticos e frugais, e vestem    h&aacute;bitos iguais. Preocupam-se com a dignidade do trabalho, a planifica&ccedil;&atilde;o    da produ&ccedil;&atilde;o e a frutuosa organiza&ccedil;&atilde;o do tempo livre.    Morus &eacute; sobretudo atento a um desenvolvimento harm&ocirc;nico do indiv&iacute;duo.    A organiza&ccedil;&atilde;o social &eacute; minuciosa, e o governo se preocupa    com o equil&iacute;brio da popula&ccedil;&atilde;o: se uma cidade &eacute; excessivamente    povoada, a popula&ccedil;&atilde;o em excesso &eacute; mandada para uma cidade    com menos habitantes. </font></p>     <p><font size="3">Cada cidade &eacute; dividida em quatro bairros, e possui mercados    nos quais os chefes de fam&iacute;lia se abastecem do necess&aacute;rio sem    precisarem recorrer &agrave; troca ou ao dinheiro. Os alimentos s&atilde;o consumidos    em comum, segundo disposi&ccedil;&otilde;es imut&aacute;veis; velhos e jovens    sentam-se uns ao lado dos outros, afim de que a severa sabedoria dos anci&atilde;os    inspire os jovens; a refei&ccedil;&atilde;o &eacute; precedida por uma leitura    moral. Isto contribui para formar uma comunidade pac&iacute;fica e fraterna,    da qual foi removida at&eacute; o m&iacute;nimo motivo de rivalidade. Nos hospitais,    eficientes e abertos a todos, &eacute; praticada a eutan&aacute;sia nos doentes    e nos velhos que a requerem. O adult&eacute;rio &eacute; punido com a escravid&atilde;o    ou com a morte. Os escravos s&atilde;o aqueles que transgridem as leis, os prisioneiros    de guerra e os trabalhadores bra&ccedil;ais pobres das regi&otilde;es vizinhas:    esses s&atilde;o bem tratados, mas ficam acorrentados e condenados aos trabalhos    for&ccedil;ados; n&atilde;o constituem em realidade uma classe social porque    os seus filhos nascem livres. </font></p>     <p><font size="3">Morus escolheu um tipo de economia fundada essencialmente sobre    a agricultura: &eacute; uma constante do utopista, fisiocr&aacute;tico inato.    A agricultura – simples e natural – &eacute; a &uacute;nica atividade a estar    em harmonia com um comunismo integral, e a consentir num imediato desfrute dos    bens. Dinheiro e com&eacute;rcio s&atilde;o intermedi&aacute;rios infernais    entre a necessidade e a sua leg&iacute;tima satisfa&ccedil;&atilde;o. A essa    economia igualit&aacute;ria corresponde um ordenamento pol&iacute;tico que elimina    as diferen&ccedil;as sociais. Nessa federa&ccedil;&atilde;o democr&aacute;tica    de condados aut&ocirc;nomos – compromisso entre cidade antiga e Estado moderno    – a coes&atilde;o se ap&oacute;ia sobre <i>consensus omnium</i>: a vontade coletiva    &eacute; maior que a soma das vontades individuais. </font></p>     <p><font size="3"><i>Utopia</i> se apresenta definitivamente como um livro da    raz&atilde;o; por&eacute;m, no Para&iacute;so de Utopia existem inquietantes    sintomas de opress&atilde;o. O indiv&iacute;duo est&aacute; sempre exposto ao    olhar coletivo, e "o estar sob os olhos de todos gera a necessidade de dedicar-se    ao trabalho usual ou a lazeres n&atilde;o desonestos": este mito da transpar&ecirc;ncia    est&aacute; eternamente atento ao perigoso desvio individual. O dilema que atormenta    Morus &eacute; comum a todos os utopistas: para salvaguardar a institui&ccedil;&atilde;o    ideal, criada na sua origem para o indiv&iacute;duo, ele corre o risco de, ao    contr&aacute;rio, oprimi-lo, e como todos os utopistas resolve o problema pressupondo    que cada cidad&atilde;o reconhe&ccedil;a a coincid&ecirc;ncia entre necessidade    e liberdade: a opress&atilde;o n&atilde;o est&aacute; nas inten&ccedil;&otilde;es,    mas nos fatos. Morus &eacute; homem do Renascimento, por sua f&eacute; na ci&ecirc;ncia    e no conhecimento como fonte de progresso, inclusive moral. A sua utopia &eacute;    uma constru&ccedil;&atilde;o do intelecto, mas tamb&eacute;m uma obra de f&eacute;    e de confian&ccedil;a na a&ccedil;&atilde;o no mundo real. </font></p>     <p><font size="3">Morus deixou claro o aspecto irreal da sua cria&ccedil;&atilde;o:    Utopia &eacute; um pa&iacute;s de nenhum lugar, Amauroto significa cidade fantasma,    o Anidro o rio sem &aacute;gua, o pr&iacute;ncipe &eacute; Ademo, isto &eacute;,    sem povo. A Utopia &eacute; a especula&ccedil;&atilde;o de um humanista. A perspectiva    de Morus n&atilde;o &eacute; econ&ocirc;mica, mas &eacute;tica: &eacute; aquela    de um homem da ordem que quer a felicidade do povo, mas n&atilde;o atrav&eacute;s    do povo, do qual teme a viol&ecirc;ncia. Morus fixou por muito tempo as caracter&iacute;sticas    amb&iacute;guas da utopia. </font></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v56n2/a21fig02.gif"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3"><i>O mundo s&aacute;bio e louco</i> (1552), do florentino Anton    Francesco Doni, foi a primeira obra desse g&ecirc;nero na literatura italiana.    Recordando-se da <i>Sforzinda</i> de Filarete – que foi escrita antes mas que    n&atilde;o tem um enredo ficcional, &eacute; um projeto urban&iacute;stico ut&oacute;pico,    mas n&atilde;o &eacute; uma utopia enquanto g&ecirc;nero liter&aacute;rio –    Doni imagina uma cidade com a planta em formato de estrela, tendo ao centro    uma igreja mais alta que a catedral de Floren&ccedil;a; este templo possui cem    portas das quais partem cem ruas em dire&ccedil;&atilde;o &agrave;s cem sa&iacute;das    da cidade. Reencontramos aqui a paix&atilde;o pelo urbanismo, pela simetria    e pelo equil&iacute;brio geom&eacute;trico, reflexo de uma harmoniosa organiza&ccedil;&atilde;o    humana. H&aacute; ecos de Plat&atilde;o, Morus, Alberti, Leonardo, Guevara.    As ruas s&atilde;o ocupadas pelos of&iacute;cios complementares: se de um lado    est&atilde;o os m&eacute;dicos, do outro estar&atilde;o os botic&aacute;rios;    aqui os sapateiros, e em frente os comerciantes de peles; e assim por diante.    Doni exige uma igualdade rigorosa, um comunismo integral – o mais pr&oacute;ximo    poss&iacute;vel &agrave; lei da natureza – que exclua inclusive a fam&iacute;lia.    Duas ruas constituem o bairro das mulheres, comuns a todos: "Deste modo n&atilde;o    existiam parentelas e se ignorava de quem algu&eacute;m era filho". Todos possuem    moradias iguais, a mesma comida: "quem n&atilde;o trabalha n&atilde;o come".    Os hospitais acolhem os doentes, os velhos e os enfermos, mas se pratica uma    severa eugenia (as crian&ccedil;as deformadas s&atilde;o jogadas num po&ccedil;o).    Portanto todos os homens do novo mundo s&atilde;o "belos, bons, s&atilde;os    e frescos". Esta utopia n&atilde;o tem uma forma precisa de governo e n&atilde;o    possui leis, nem pol&iacute;cia, nem tribunais, nem ex&eacute;rcito. As crian&ccedil;as    criadas em comum aprendem um of&iacute;cio e n&atilde;o se preocupam muito com    os estudos. A religi&atilde;o &eacute; sem ritos, ainda que o povo a cada sete    dias reze no templo. Doni n&atilde;o se preocupou muito com problemas religiosos:    a sua cidade ideal, essencialmente pleb&eacute;ia, &eacute; uma cidade terrena    na qual as preocupa&ccedil;&otilde;es pol&iacute;ticas e econ&ocirc;micas superam    as aspira&ccedil;&otilde;es espirituais. O transcendente n&atilde;o &eacute;    esquecido mas relegado a segundo plano, e &eacute; apenas a raz&atilde;o que    organiza e legisla. Trata-se de um radical nivelamento social. </font></p>     <p><font size="3">Doni &eacute; um caso excepcional no <i>Cinquecento</i>: n&atilde;o    cr&ecirc; nem nos valores human&iacute;sticos, nem na religi&atilde;o que n&atilde;o    se ocupa dos males terrenos. Elementar e igualit&aacute;rio, o comunismo de    Doni &eacute;, sobretudo, uma rea&ccedil;&atilde;o violenta contra as estruturas    sociais existentes: isso &eacute; de inspira&ccedil;&atilde;o pleb&eacute;ia,    n&atilde;o humanista. Diferentemente de Morus, Doni n&atilde;o se prop&otilde;e    elevar o esp&iacute;rito do homem, de torn&aacute;-lo consciente da nobreza    de seus deveres. A simples elimina&ccedil;&atilde;o da nobreza, do clero parasita    e das diferen&ccedil;as sociais parece-lhe suficiente para assegurar &agrave;    maioria uma possibilidade material de vida. A sua iniciativa &eacute; essencialmente    destrutiva: na sua cidade n&atilde;o existe nem mesmo um governo modelo, porque    Doni, que tem pouca confian&ccedil;a na natureza humana, n&atilde;o acredita    em qualquer forma de governo. Ao sonho humanista da cidade ideal prefere a seguran&ccedil;a    de uma exist&ecirc;ncia elementar, conforme a lei da natureza. Doni &eacute;    um escritor que, diferentemente de outros autores de utopias do <i>Cinquecento</i>,    n&atilde;o escreve para pr&iacute;ncipes e s&aacute;bios, mas para o povo, desejoso    de solu&ccedil;&otilde;es simples e diretas. </font></p>     <p><font size="3">Campanella &eacute; o autor que escreveu, depois de Morus, a    utopia mais complexa e mais rigidamente estruturada. Sua utopia, (<i>Citt&agrave;    del Sole</i>, 1602), foi composta durante os seus 27 anos de vida carcer&aacute;ria,    e publicada apenas em 1623. O enredo deve muito &agrave; <i>Utopia</i> de Morus.    A obra adota a forma de di&aacute;logo entre o grande – mestre dos hospital&aacute;rios    e um capit&atilde;o genov&ecirc;s – anteriormente timoneiro de Crist&oacute;v&atilde;o    Colombo – que, durante uma escala em Taprobana, descobriu a Cidade do Sol, no    centro de uma vasta plan&iacute;cie. Essa &eacute; formada por sete zonas conc&ecirc;ntricas,    bem fortificadas, em forma circular e com o nome dos sete planetas; no centro    se ergue um templo redondo: &eacute; o cora&ccedil;&atilde;o da cidade. </font></p>     <p><font size="3">O regime pol&iacute;tico recorda o sistema hierocr&aacute;tico:    no v&eacute;rtice da hierarquia est&aacute; Hoh – o Metaf&iacute;sico ou o Sol    – acompanhado por um triunvirato, um conselho supremo. Pon, ou a Pot&ecirc;ncia,    decide sobre a guerra e a paz. Sob sua vigil&acirc;ncia, homens, mulheres e    crian&ccedil;as s&atilde;o submetidos a um cont&iacute;nuo adestramento militar,    apesar dos Solares serem pac&iacute;ficos e s&oacute; empunharem as armas por    defesa ou para manter o equil&iacute;brio de poder na regi&atilde;o. Sin, ou    a Sapi&ecirc;ncia, dirige as artes e o saber. Por sua decis&atilde;o, todos    os muros da cidade s&atilde;o recobertos de pinturas que representam figuras    matem&aacute;ticas, cartas geogr&aacute;ficas, animais, grandes personagens,    plantas etc. Esse povo ama, acima de tudo, o saber. Enfim, Mor, ou o Amor, supervisiona    o matrim&ocirc;nio e a procria&ccedil;&atilde;o. Esses governantes supremos    s&atilde;o acompanhados por magistrados que levam o nome das virtudes que encarnam:    temperan&ccedil;a, magnanimidade, justi&ccedil;a, dilig&ecirc;ncia. Na Cidade    do Sol existem poucas leis, n&atilde;o existem pris&otilde;es, e os crimes graves    s&atilde;o punidos com a morte. </font></p>     <p><font size="3">O Estado se ocupa das crian&ccedil;as, que s&atilde;o instru&iacute;das    desde a idade de um ano, brincando ao longo dos muros da cidade. N&atilde;o    s&atilde;o orientadas a seguir suas inclina&ccedil;&otilde;es pessoais, mas    no sentido da compreens&atilde;o de todas as &aacute;reas do saber; assim, aprendem    todos os of&iacute;cios, escolhendo uma ocupa&ccedil;&atilde;o definitiva apenas    depois de terminada a sua instru&ccedil;&atilde;o geral. O resultado exemplar    dessa educa&ccedil;&atilde;o enciclop&eacute;dica &eacute; Hoh o Metaf&iacute;sico,    criatura onisciente, ao mesmo tempo cientista e fil&oacute;sofo. </font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v56n2/a21fig03.gif"></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3">Arregimentado do nascimento at&eacute; a morte, duramente privado    de qualquer vontade an&aacute;rquica, o Solar deve prestar contas ao Estado    at&eacute; das suas menores a&ccedil;&otilde;es e pensamentos. N&atilde;o conhece    amor e fam&iacute;lia, e &eacute; anulado na coletividade em confort&aacute;vel    anonimato, e &eacute;, aparentemente, muito feliz. A quest&atilde;o &eacute;    saber se uma vida constru&iacute;da exclusivamente por l&oacute;gica rigorosa,    que ignore outras inst&acirc;ncias constitutivas do homem real, n&atilde;o conduzir&aacute;,    em nome da felicidade e da virtude, a um mundo de campos de concentra&ccedil;&atilde;o,    nos quais seus habitantes ser&atilde;o ao mesmo tempo carrascos e v&iacute;timas.    As cidades ut&oacute;picas n&atilde;o s&atilde;o fundadas pelo j&aacute; existente,    mas vem do "alto", da Id&eacute;ia, como contraposi&ccedil;&otilde;es ao j&aacute;    existente, e projetam a vida melhor. Elas n&atilde;o s&atilde;o produtos de    um del&iacute;rio, mas nascem da necessidade de combater o destino, de fundar    uma "segunda natureza" para o homem – a Hist&oacute;ria . </font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3"><i><b>Carlos Eduardo Ornelas Berriel</b> &eacute; professor    doutor de literatura do IEL-Unicamp. Coordena o Grupo de Estudos sobre Renascimento    e Utopia, e organiza uma antologia de utopias italianas do Renascimento.</i></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3"> <b>Bibliografia consultada </b></font></p>     <p><font size="3">Berriel, C. E. O. "Uma utopia do <i>cinquecento</i>: "<i>Mondo    savio e pazzo</i>", de Anton Francesco Doni". <i>In Remate de Males</i> n. 22,    IEL-Unicamp, 2002. </font></p>     <p><font size="3">Codignola, M. M.. "Critica della ragione utopica: l'idea di    felicit&agrave; e i suoi paradossi." <i>In</i>: Minerva, N. (org.). <i>Per una    definizione dell'utopia. Metodologie e discipline a confronto</i>. Ravenna:    Longo, 1992. </font></p>     <p><font size="3">Colombo, A. (org.). <i>Utopia e distopia</i>. Bari: Edizioni    Dedalo, 1993 </font></p>     <p><font size="3">Ghibaudi, S. R.. "Metodi d'analisi dell'utopia: osservazioni    critiche." <i>In</i>: Minerva, N. (org.). <i>Per una definizione dell'utopia.    Metodologie e discipline a confronto</i>. Ravenna: Longo, 1992. </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3">L&oacute;pez, M. M. "The Life of Thomas More and the Life of    the Utopians. An Anatomy of Paradox." <i>In</i>: Fortunati, V. (org.). Vite    di utopia. Ravenna: Longo Editore, 1997. </font></p>     <p><font size="3">Moro, E. "Dall'utopia all'eutopia: dal disegno ideale della    citt&agrave; alla sua concretizzazione." <i>In</i>: Minerva, N. (org.). <i>Per    una definizione dell'utopia. Metodologie e discipline a confronto</i>. Ravenna:    Longo, 1992. </font></p>     <p><font size="3">Nuzzo, E.. "Vite e Luoghi dell'Anima e della Citt&agrave; Ideale    in Platone." <i>In</i>: Fortunati, V. (org.). <i>Vite di utopia</i>. Ravenna:    Longo Editore, 1997. </font></p>     <p><font size="3">Quarta, C.. "L'Utopia di Thomas More: L'Aggancio alla storia."    <i>In</i>: Fortunati, V. (org.). <i>Vite di utopia</i>. Ravenna: Longo Editore,    1997. </font></p>     <p><font size="3">Sberlati, F. "The Ideal City in Italy during the Renaissance    and the Counter-Reformation: A literary and political utopia." <i>In</i>: Spinozzi,    P. (ed.). <i>Utopianism/ literary utopias and national cultural identities:    A comparative perspective</i>. Bologna: Cotepra, 2001. </font></p>     <p><font size="3">Trousson, R. "Utopie et utopisme". <i>In</i>: Minerva, N. (org.).    <i>Per una definizione dell'utopia. Metodologie e discipline a confronto</i>.    Ravenna: Longo, 1992.</font></p>      ]]></body>
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