<?xml version="1.0" encoding="ISO-8859-1"?><article xmlns:mml="http://www.w3.org/1998/Math/MathML" xmlns:xlink="http://www.w3.org/1999/xlink" xmlns:xsi="http://www.w3.org/2001/XMLSchema-instance">
<front>
<journal-meta>
<journal-id>0009-6725</journal-id>
<journal-title><![CDATA[Ciência e Cultura]]></journal-title>
<abbrev-journal-title><![CDATA[Cienc. Cult.]]></abbrev-journal-title>
<issn>0009-6725</issn>
<publisher>
<publisher-name><![CDATA[Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência]]></publisher-name>
</publisher>
</journal-meta>
<article-meta>
<article-id>S0009-67252004000200028</article-id>
<title-group>
<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Incentivo fiscal e busca da identidade nacional na retomada]]></article-title>
</title-group>
<contrib-group>
<contrib contrib-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Cunha]]></surname>
<given-names><![CDATA[Rodrigo]]></given-names>
</name>
</contrib>
</contrib-group>
<aff id="A">
<institution><![CDATA[,  ]]></institution>
<addr-line><![CDATA[ ]]></addr-line>
</aff>
<pub-date pub-type="pub">
<day>00</day>
<month>04</month>
<year>2004</year>
</pub-date>
<pub-date pub-type="epub">
<day>00</day>
<month>04</month>
<year>2004</year>
</pub-date>
<volume>56</volume>
<numero>2</numero>
<fpage>28</fpage>
<lpage>28</lpage>
<copyright-statement/>
<copyright-year/>
<self-uri xlink:href="http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=S0009-67252004000200028&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri><self-uri xlink:href="http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?script=sci_abstract&amp;pid=S0009-67252004000200028&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri><self-uri xlink:href="http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?script=sci_pdf&amp;pid=S0009-67252004000200028&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri></article-meta>
</front><body><![CDATA[ <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v56n2/a28fig01.gif"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="4"><b>Cinema brasileiro</b></font></p>     <p><font size=5><b>I<small>NCENTIVO FISCAL E BUSCA DA IDENTIDADE NACIONAL NA RETOMADA</small></b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3">Os filmes nacionais, desde o in&iacute;cio da d&eacute;cada    de 1990, t&ecirc;m conquistado um espa&ccedil;o cada vez maior no mercado cinematogr&aacute;fico    brasileiro, e segundo a empresa FilmeB, especializada no ramo, tr&ecirc;s t&iacute;tulos    ficaram entre os dez mais assistidos em 2003: <i>Carandiru</i>, <i>Lisbela e    o prisioneiro</i> e <i>Os normais</i>. Dados da Ag&ecirc;ncia Nacional de Cinema    (Ancine) mostram que os filmes brasileiros saltaram de 0,05% do total de bilheteria    no pa&iacute;s em 1992, para 8% em 2002. E at&eacute; novembro do ano passado,    os t&iacute;tulos nacionais j&aacute; haviam sido vistos por mais de 21 milh&otilde;es    de espectadores, superando em 20% a estimativa da Ancine para 2003.</font></p>     <p><font size="3">A pesquisadora T&acirc;nia Pellegrini, da Universidade Federal    de S&atilde;o Carlos (UFSCar), em seu estudo sobre o cinema brasileiro dos anos    1990, vincula o ciclo da retomada dos filmes nacionais a mecanismos governamentais    de incentivo, como a Lei Rouanet, de 1991, que permite &agrave;s empresas patrocinadoras    de cultura abater at&eacute; 5% no Imposto de Renda, e a Lei do Audiovisual,    que garante desconto fiscal de 3% para pessoas jur&iacute;dicas e de 5% para    pessoas f&iacute;sicas que comprarem cotas de filmes em produ&ccedil;&atilde;o.</font></p>     <p><font size="3">A pesquisadora considera, ainda, as parcerias adotadas no Brasil    entre produtoras de cinema e redes de televis&atilde;o, uma f&oacute;rmula de    sucesso como j&aacute; ocorre nos Estados Unidos e na Alemanha. Um exemplo desse    modelo deu-se em 1999, com a produtora de Lucy e Lu&iacute;s Carlos Barreto    e a Rede Globo, na produ&ccedil;&atilde;o do filme <i>Bossa Nova</i>, dirigido    por Bruno Barreto. Com sua esposa Amy Irving no elenco e uma trilha sonora com    m&uacute;sicas de Tom Jobim cantadas em portugu&ecirc;s e ingl&ecirc;s, <i>Bossa    Nova</i> arrecadou, no primeiro semestre daquele ano, cerca de US$ 1,5 milh&atilde;o,    apenas nos Estados Unidos; no Brasil rendeu acima de R$ 3 milh&otilde;es em    15 semanas em cartaz. Al&eacute;m desse filme, tr&ecirc;s grandes sucessos do    diretor Guel Arraes sa&iacute;ram primeiro na televis&atilde;o para depois conquistar    o p&uacute;blico no cinema: <i>O auto da compadecida</i>, de 1999, <i>Caramuru</i>    – a inven&ccedil;&atilde;o do Brasil, de 2001, e <i>Lisbela e o prisioneiro</i>,    de 2003.</font></p>     <p><font size="3">Nessa fase de retomada, por&eacute;m, &eacute; a busca da identidade    nacional que se constitui na principal caracter&iacute;stica apontada por T&acirc;nia    em sua pesquisa. Um grande n&uacute;mero de filmes inspira-se no passado distante    ou recente, gerando uma produ&ccedil;&atilde;o ficcional brasileira que busca    fazer um &quot;retrato&quot; do pa&iacute;s. Ela exemplifica essa tend&ecirc;ncia    com o filme de Carla Camurati, <i>Carlota Joaquina, a princesa do Brasil</i>,    que conta hist&oacute;ria da vinda da fam&iacute;lia imperial para o Brasil,    em 1808, e que atingiu cerca de 1 milh&atilde;o de espectadores em 1996; <i>O    quatrilho</i>, de F&aacute;bio Barreto que, no mesmo ano, foi indicado ao Oscar    de melhor filme estrangeiro e trata da imigra&ccedil;&atilde;o italiana no sul    do pa&iacute;s; a adapta&ccedil;&atilde;o de <i>Os sert&otilde;es</i>, de Euclides    da Cunha, por S&eacute;rgio Rezende no filme <i>Guerra de Canudos</i>, de 1997,    que custou US$ 6 milh&otilde;es, at&eacute; ent&atilde;o o maior or&ccedil;amento    da hist&oacute;ria do cinema nacional; e <i>O que &eacute; isso companheiro?</i>,    de Bruno Barreto, livre adapta&ccedil;&atilde;o do livro hom&ocirc;nimo de Fernando    Gabeira, sobre o seq&uuml;estro do embaixador americano no Brasil, Charles Elbrick,    em 1969, produ&ccedil;&atilde;o tamb&eacute;m indicada para o Oscar em 1998.</font></p>     <p><font size="3">A quest&atilde;o da identidade est&aacute; presente n&atilde;o    apenas em produ&ccedil;&otilde;es de tem&aacute;tica hist&oacute;rica, mas tamb&eacute;m    em filmes como <i>Eu, tu, eles</i>, de Andrucha Waddington, e <i>Abril despeda&ccedil;ado</i>    e <i>Central do Brasil</i>, ambos de Walter Salles. Este &uacute;ltimo mostra    &quot;um Brasil pobre, primitivo e terrivelmente real, que h&aacute; tempos    andava longe das telas, como se tivesse deixado de existir&quot;, analisa T&acirc;nia.    A pesquisadora tra&ccedil;a um paralelo da nova onda de produ&ccedil;&atilde;o    brasileira com o Cinema Novo dos anos 1960, — que tem nos filmes <i>Vidas secas</i>,    de Nelson Pereira dos Santos, <i>Terra em transe</i>, de Glauber Rocha, e <i>Macuna&iacute;ma</i>,    de Joaquim Pedro de Andrade os seus marcos. &quot;No filme de Walter Salles,    s&atilde;o os mesmos exclu&iacute;dos que o Cinema Novo resgatou do anonimato,    s&oacute; que em <i>Central do Brasil</i> n&atilde;o existe a ret&oacute;rica    da den&uacute;ncia, apenas a da (re)descoberta; n&atilde;o existe uma li&ccedil;&atilde;o    revolucion&aacute;ria, mas a da possibilidade da aprendizagem de olhar o pa&iacute;s    com outros olhos&quot;.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3">Produ&ccedil;&otilde;es recentes, como <i>Cidade de Deus</i>,    de Fernando Meirelles, indicado em quatro categorias para o Oscar deste ano,    e <i>Carandiru</i>, de Hector Babenco, visto por mais de 4,5 milh&otilde;es    de espectadores em 2003, apesar da tem&aacute;tica da den&uacute;ncia social,    n&atilde;o t&ecirc;m o car&aacute;ter revolucion&aacute;rio do Cinema Novo.    &quot;Em <i>Carandiru</i> e <i>Cidade de Deus</i> existe, sim, uma ret&oacute;rica    da den&uacute;ncia, mas sem os pressupostos pol&iacute;tico-ideol&oacute;gicos    do Cinema Novo. Isso faz uma grande diferen&ccedil;a. &Eacute; a diferen&ccedil;a    entre a simples 'constata&ccedil;&atilde;o' de que existe um terr&iacute;vel    submundo paralelo ao das classes m&eacute;dias, numa esp&eacute;cie de 'exotismo'    palat&aacute;vel, servindo de tema para um cinema industrial, e a antiga 'contesta&ccedil;&atilde;o'    revolucion&aacute;ria de exibir os exclu&iacute;dos como tema, mas em filmes    fora do sistema industrial&quot;, argumenta.</font></p>     <p><font size="3">O cineasta Cac&aacute; Diegues, que fez parte da gera&ccedil;&atilde;o    dos anos 1960 e que acaba de emplacar um sucesso de bilheteria em 2003 com <i>Deus    &eacute; brasileiro</i>, tamb&eacute;m reflete sobre o tema e a nova gera&ccedil;&atilde;o    de cineastas do ciclo da retomada, no di&aacute;rio que escreveu sobre a realiza&ccedil;&atilde;o    desse filme e que o transformou em livro. &quot;Os objetivos do Cinema Novo    e de minha gera&ccedil;&atilde;o eram muito simples e apenas tr&ecirc;s: mudar    a hist&oacute;ria do cinema, a do Brasil e a do mundo. Por tr&aacute;s dessa    megalomania, estava uma coragem saud&aacute;vel, uma febre ardente de fazer,    uma disposi&ccedil;&atilde;o para todas as experi&ecirc;ncias. N&atilde;o sei    dizer se o Cinema Novo inventou um cinema para o pa&iacute;s ou um pa&iacute;s    no cinema. S&oacute; sei que foi uma bela utopia cinematogr&aacute;fica, que    envolvia moral, pol&iacute;tica e est&eacute;tica&quot;, diz o cineasta.</font></p>     <p><font size="3"><i>Deus &eacute; brasileiro</i>, 15º filme de Diegues, foi visto    por mais de 1,6 milh&otilde;es de espectadores no per&iacute;odo em que ficou    em cartaz. Diegues v&ecirc; com entusiasmo a nova gera&ccedil;&atilde;o de cineastas    brasileiros e lamenta que o cinema nacional tenha que passar por tantas &quot;retomadas&quot;.    &quot;Um cinema nacional capaz de produzir filmes com <i>Eu, tu, eles</i> n&atilde;o    pode viver de sustos, nem no acanhamento de penetra na festa dos outros, em    nosso pr&oacute;prio mercado. &Eacute; preciso que ele se torne uma atividade    permanente, sem as crises que levam aos desaparecimentos peri&oacute;dicos.    N&atilde;o &eacute; poss&iacute;vel que se desperdice impunemente tanto talento,    capaz de atravessar d&eacute;cadas e gera&ccedil;&otilde;es, se renovando sempre&quot;,    conclui Diegues.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="right"><b><i><font size="3">Rodrigo Cunha</font></i></b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v56n2/a28fig02.gif"></p>      ]]></body>
</article>
