<?xml version="1.0" encoding="ISO-8859-1"?><article xmlns:mml="http://www.w3.org/1998/Math/MathML" xmlns:xlink="http://www.w3.org/1999/xlink" xmlns:xsi="http://www.w3.org/2001/XMLSchema-instance">
<front>
<journal-meta>
<journal-id>0009-6725</journal-id>
<journal-title><![CDATA[Ciência e Cultura]]></journal-title>
<abbrev-journal-title><![CDATA[Cienc. Cult.]]></abbrev-journal-title>
<issn>0009-6725</issn>
<publisher>
<publisher-name><![CDATA[Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência]]></publisher-name>
</publisher>
</journal-meta>
<article-meta>
<article-id>S0009-67252004000300005</article-id>
<title-group>
<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Rio Amazonas: tesouro descoberto]]></article-title>
</title-group>
<contrib-group>
<contrib contrib-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Val]]></surname>
<given-names><![CDATA[Vera de Almeida e]]></given-names>
</name>
<xref ref-type="aff" rid="A01"/>
</contrib>
<contrib contrib-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Val]]></surname>
<given-names><![CDATA[Adalberto]]></given-names>
</name>
<xref ref-type="aff" rid="A01"/>
</contrib>
</contrib-group>
<aff id="A01">
<institution><![CDATA[,Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia  ]]></institution>
<addr-line><![CDATA[ ]]></addr-line>
</aff>
<pub-date pub-type="pub">
<day>00</day>
<month>09</month>
<year>2004</year>
</pub-date>
<pub-date pub-type="epub">
<day>00</day>
<month>09</month>
<year>2004</year>
</pub-date>
<volume>56</volume>
<numero>3</numero>
<fpage>9</fpage>
<lpage>10</lpage>
<copyright-statement/>
<copyright-year/>
<self-uri xlink:href="http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=S0009-67252004000300005&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri><self-uri xlink:href="http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?script=sci_abstract&amp;pid=S0009-67252004000300005&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri><self-uri xlink:href="http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?script=sci_pdf&amp;pid=S0009-67252004000300005&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri></article-meta>
</front><body><![CDATA[ <p align="center"><b><img src="/img/revistas/cic/v56n3/a03img01.gif"></b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3">RESENHA</font></p>     <p><font size="3"><img src="/img/revistas/cic/v56n3/a03img02.gif"></font></p>     <p><font size="4"><b>Rio Amazonas: tesouro descoberto </b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3">A leitura das 1.219 p&aacute;ginas da obra de Padre Jo&atilde;o    Daniel - <I>Tesouro descoberto no m&aacute;ximo Rio Amazonas </I>– volumes I    e II – leva-nos a uma verdadeira viagem que, apesar de ter sido escrita h&aacute;    tanto tempo, nos remete aos mais atuais problemas e caracter&iacute;sticas da    regi&atilde;o amaz&ocirc;nica. Os dois volumes da obra trazem descri&ccedil;&otilde;es,    not&iacute;cias e conceitos que muito se aproximam aos dos dias atuais. Como    se tivesse sido redigida em pleno s&eacute;culo XXI, a obra de Padre Jo&atilde;o    Daniel revela, antes de qualquer coisa, o humanismo, a intelig&ecirc;ncia e    a sensibilidade desse jesu&iacute;ta, cronista da Companhia de Jesus, que viveu    na regi&atilde;o amaz&ocirc;nica entre 1741 e 1757, quando foi preso por ordem    do Marqu&ecirc;s de Pombal. Nos 18 anos em que viveu na pris&atilde;o – seus    &uacute;ltimos anos de vida – escreveu seus manuscritos de 766 p&aacute;ginas.    As cinco primeiras partes est&atilde;o depositadas nos acervos da Biblioteca    Nacional do Rio de Janeiro, desde 1808, quando D. Jo&atilde;o VI as trouxe juntamente    com outras obras que quis salvaguardar do ex&eacute;rcito de Napole&atilde;o    Bonaparte que avan&ccedil;ava pela Europa amea&ccedil;ando a soberania do reino    portugu&ecirc;s. A sexta parte, descoberta posteriormente, est&aacute; depositada    em &Eacute;vora, mas no Brasil h&aacute; uma c&oacute;pia em microfilme. </font></p>     <p><font size="3">O texto &eacute; rico e cheio de detalhes, tornando a leitura    extremamente interessante. A vis&atilde;o do autor &eacute; apaixonante e, por    tratar-se de obra redigida no s&eacute;culo XVIII, &eacute; entremeada de uma    vis&atilde;o m&iacute;stica que, traz ao leitor mais c&eacute;tico e ao pr&oacute;prio    cientista, t&eacute;cnico por obra do pr&oacute;prio of&iacute;cio, um fasc&iacute;nio    que impede a interrup&ccedil;&atilde;o da leitura. Inclusa nessa vis&atilde;o    m&iacute;stica do padre, que viveu desde os 19 anos na Amaz&ocirc;nia, est&aacute;    uma precis&atilde;o e riqueza de detalhes sobre a hist&oacute;ria do descobrimento    da regi&atilde;o, das grandes navega&ccedil;&otilde;es em busca de riquezas    e cidades "fabricadas em ouro" como "Manoa" que, dizia-se,    ter atra&iacute;do grandes expedi&ccedil;&otilde;es, a principal delas, liderada    por Gon&ccedil;alo Pizarro,...<I>com numerosa tropa de soldados</I> e <I>equipados    com 900 &iacute;ndios</I>..." em uma esquadra de embarca&ccedil;&otilde;es que    viria a fracassar por nunca encontrar a famosa cidade de grande riqueza. Padre    Jo&atilde;o Daniel explica, com sua fant&aacute;stica escrita, que foi por meio    dessas navega&ccedil;&otilde;es que se p&ocirc;de conhecer melhor o <I>'M&aacute;ximo    Rio Amazonas'</I>, ao qual tratou como um ente detentor de personalidade, dando-lhe    vida ao descrever sua geografia e caracter&iacute;sticas. De cap&iacute;tulos    curtos, os dois volumes seguem intercalando a hist&oacute;ria do descobrimento    do maior rio do mundo com a opini&atilde;o do autor que conta com detalhes a    hist&oacute;ria, ou lendas que sejam, sobre o nome Amazonas dado &agrave;s &iacute;ndias    guerreiras pelos espanh&oacute;is, por <I>"serem em tudo semelhantes &agrave;s    antigas amazonas de que fala Virg&iacute;lio..."</I> e por ousarem disputar    a navega&ccedil;&atilde;o da tropa de Pizarro, <I>"pelas alturas do rio    Trombetas... jogando com destreza os seus arcos, e flechas, e pelejando com    &acirc;nimo varonil..."</I> . </font></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v56n3/a05fig01.gif"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3"><b>POROROCA</b> Impressiona a paix&atilde;o e a mem&oacute;ria    com a qual descreve os principais rios que o Amazonas recebe, tanto ao norte    como ao sul, sem deixar de descrever suas principais caracter&iacute;sticas    f&iacute;sicas. Ao descrever o fen&ocirc;meno da pororoca traz ao leitor sua    sensa&ccedil;&atilde;o ao presenci&aacute;-la: <I>"... medonha, horrenda,    e exorbitante altera&ccedil;&atilde;o das &aacute;guas..." </I>que <I>"...    comp&otilde;e-se de um conglobado de &aacute;guas t&atilde;o encrespadas, bravas,    e t&atilde;o horrorosas ondas, que fazendo, e desfazendo em peda&ccedil;os quantas    embarca&ccedil;&otilde;es apanham, parece que querem aterrar, e fazer guerra    aos mesmos elementos...". </I>Para o leitor leigo, o fasc&iacute;nio est&aacute;    no modo da escrita e nas curiosidades que o livro traz sobre a Amaz&ocirc;nia    que, por mais antigas que sejam e recheadas das cren&ccedil;as da &eacute;poca,    s&atilde;o verdadeiras no que se refere &agrave; descri&ccedil;&atilde;o geogr&aacute;fica    e aos processos e caracter&iacute;sticas naturais. Entretanto, a maior j&oacute;ia    da obra reside na descri&ccedil;&atilde;o que faz sobre as caracter&iacute;sticas    dos povos da terra e sua cultura, chamados pelo padre, os <I>"naturais"</I>,    e dos animais e suas caracter&iacute;sticas, revelando nele o dom do historiador    natural. </font></p>     <p><font size="3"><b>PEIXES-ANF&Iacute;BIOS</b> A impressionante descri&ccedil;&atilde;o    do que denominou <I>"peixes anf&iacute;bios" </I>incluiu todos os    animais que dependem, de alguma maneira, da &aacute;gua, para viver, mas respiram    ar. N&atilde;o lhe escapa a biodiversidade, que descreve em detalhes nas variedades    de formas, tamanhos, cores e h&aacute;bitos, detalhes esses que n&atilde;o escapariam    ao bi&oacute;logo moderno. &Eacute; motivo para destaque a descri&ccedil;&atilde;o    do mutualismo entre o jacar&eacute;-a&ccedil;&uacute; e uma esp&eacute;cie de    p&aacute;ssaro: <I>"Como o seu sustento s&atilde;o ordinariamente carnes,    cujas sobras se lhes metem por entre os dentes, t&ecirc;m tamb&eacute;m seu    palito para os esgravatar e limpar. &Eacute; este palito um passarinho, que    metendo-se-lhe na boca, quando a tem aberta com o bico lhos esgaravata, e limpa,    servindo-lhe estas lavaduras de sustento, e como seu pajem o acompanha sempre,    j&aacute; dentro na boca, e j&aacute; na cabe&ccedil;a. Quando o jacar&eacute;    quer fechar a boca, para o comer, depois de ter os dentes aliviados, dizem que    o passarinho o fere com uma espinha, que tem nas costas, e o constrange a abri-la,    por cuja raz&atilde;o a avezinha sem susto, nem medo entra, e sai quando quer    pela bocarra do bruto, como quem entra por sua casa..." </i></font></p>     <p><font size="3">&Eacute; &oacute;bvia a preocupa&ccedil;&atilde;o do autor,    um naturalista nato, com a defesa e sustentabilidade do ambiente amaz&ocirc;nico.    Por isso nos encantou a atualidade da obra, mostrando sua preocupa&ccedil;&atilde;o    para que continuasse havendo abund&acirc;ncia de pescado nos rios e lagos da    regi&atilde;o. A descri&ccedil;&atilde;o do uso do timb&oacute; na pesca e do    despejo do baga&ccedil;o da cana de a&ccedil;&uacute;car pelos senhores de engenho    j&aacute; mostrava a exist&ecirc;ncia de pr&aacute;ticas indesej&aacute;veis    por parte do homem; preocupa&ccedil;&otilde;es que persistem ainda hoje por    raz&otilde;es &oacute;bvias. </font></p>     <p><font size="3">Imperd&iacute;vel, tamb&eacute;m, a apresenta&ccedil;&atilde;o    do historiador Vicente Salles. Ele assinala os pontos m&aacute;ximos que a obra    nos oferece e, paralelamente, nos brinda com uma aula de hist&oacute;ria, na    qual descreve as causas da pris&atilde;o de Jo&atilde;o Daniel e o porqu&ecirc;    da decis&atilde;o da Coroa em organizar o poder do Estado na rica regi&atilde;o    amaz&ocirc;nica. </font></p>     <p><font size="3">N&atilde;o poder&iacute;amos terminar este texto sem fazer uma    refer&ecirc;ncia ao t&iacute;tulo <I>"Tesouro descoberto no m&aacute;ximo    Rio Amazonas"</I> que, em nada nos causa estranheza, pela riqueza natural    e imensid&atilde;o do rio, que abriga a maior bacia hidrogr&aacute;fica do mundo.    A palavra <I>m&aacute;ximo</I>, descrita no dicion&aacute;rio Novo Aur&eacute;lio,    como –<I> maior que todos, que est&aacute; acima de todos; absoluto, rigoroso,    estrito, </I>entre outras qualifica&ccedil;&otilde;es – est&aacute; explicada    logo no in&iacute;cio de maneira singular. Deixamos as pr&oacute;prias palavras    de Padre Jo&atilde;o Daniel: </font></p>     <p><font size="3"><I>"&Eacute; sem d&uacute;vida o Amazonas o m&aacute;ximo    dos rios, sem inj&uacute;ria dos Nilos, N&uacute;bias e Zaires da &Aacute;frica,    dos Eufrates, Ganges e Indos da &Aacute;sia, dos Dan&uacute;bios e R&oacute;danos    da Europa, dos Pratas, Orinocos e Mississipis da mesma Am&eacute;rica, em cujo    meio ou centro o Amazonas se &#91;ileg&iacute;vel&#93; gigante, chamado com    raz&atilde;o pelos naturais mar branco, paran&aacute; petinga. E se J&uacute;lio    C&eacute;sar prometia ceder o imp&eacute;rio a quem lhe mostrasse a fonte do    grande Nilo, qual seria o pr&ecirc;mio a quem lhe apontasse a fonte do m&aacute;ximo    Amazonas, em cuja compara&ccedil;&atilde;o aquele se avaliaria pigmeu, ou pequeno    regato, e envergonhado, por n&atilde;o poder correr parelhas com este, fugiria    a esconder-se na sua pequena m&atilde;e?". </I></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="right"><font size="3"><I><b>Vera de Almeida e Val</b> e <b>Adalberto    Val</b> s&atilde;o pesquisadores do Instituto Nacional de Pesquisas da Amaz&ocirc;nia    (Inpa) </I></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v56n3/a05fig02.gif"></p>      ]]></body>
</article>
