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</front><body><![CDATA[ <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v56n3/a14img01.gif"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size=5><b>CLONAGEM E C&Eacute;LULAS-TRONCO </b></font></p>     <p><FONT size="3"><b>Mayana Zatz</b></FONT></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3"><font size=5><b>A</b></FONT> proposta dessa s&eacute;rie de    artigos foi reunir opini&otilde;es de cientistas, de um professor de &eacute;tica    e de uma m&atilde;e de uma crian&ccedil;a afetada por uma grave doen&ccedil;a    neurodegenerativa (ainda incur&aacute;vel) em torno do tema clonagem. Por outro    lado, ainda existe muita confus&atilde;o em rela&ccedil;&atilde;o aos conceitos    de clonagem (reprodutiva e terap&ecirc;utica), c&eacute;lulas-tronco (embrion&aacute;rias    e n&atilde;o embrion&aacute;rias) e como isso pode afetar as nossas vidas. Portanto,    a proposta deste artigo &eacute; o de tentar definir esses conceitos e expressar    a minha posi&ccedil;&atilde;o n&atilde;o s&oacute; como cientista, mas tamb&eacute;m    como representante de in&uacute;meras fam&iacute;lias que v&ecirc;em nessa nova    tecnologia uma esperan&ccedil;a de cura para uma s&eacute;rie de doen&ccedil;as    neurodegenerativas, muitas vezes letais ou gravemente incapacitantes.</FONT></p>     <p><font size="3"><b>O QUE &Eacute; CLONAGEM?</b> A clonagem &eacute; um mecanismo    comum de propaga&ccedil;&atilde;o da esp&eacute;cie em plantas ou bact&eacute;rias.    De acordo com Webber (1903), um clone &eacute; definido como uma popula&ccedil;&atilde;o    de mol&eacute;culas, c&eacute;lulas ou organismos que se originaram de uma &uacute;nica    c&eacute;lula e que s&atilde;o id&ecirc;nticas &agrave; c&eacute;lula original    e entre elas. Em humanos, os clones naturais s&atilde;o os g&ecirc;meos id&ecirc;nticos    que se originam da divis&atilde;o de um &oacute;vulo fertilizado. A grande revolu&ccedil;&atilde;o    da Dolly, que abriu caminho para a possibilidade de clonagem humana, foi a demonstra&ccedil;&atilde;o,    pela primeira vez, que era poss&iacute;vel clonar um mam&iacute;fero, isto &eacute;,    produzir uma c&oacute;pia geneticamente id&ecirc;ntica a partir de uma <b>c&eacute;lula    som&aacute;tica diferenciada</b>. Para entendermos porque essa experi&ecirc;ncia    foi surpreendente precisamos recordar um pouco de embriologia.</font></p>     <p><font size="3">Todos n&oacute;s j&aacute; fomos uma c&eacute;lula &uacute;nica,    resultante da fus&atilde;o de um &oacute;vulo e um espermatoz&oacute;ide. Esta    primeira c&eacute;lula j&aacute; tem no seu n&uacute;cleo o DNA com toda a informa&ccedil;&atilde;o    gen&eacute;tica para gerar um novo ser. O DNA nas c&eacute;lulas fica extremamente    condensado e organizado em cromossomos . Com exce&ccedil;&atilde;o das nossas    c&eacute;lulas sexuais , o &oacute;vulo e o espermatoz&oacute;ide que tem 23    cromossomos, todas as outras c&eacute;lulas do nosso corpo tem 46 cromossomos.    Em cada c&eacute;lula, temos 22 pares que s&atilde;o iguais nos dois sexos,    chamados autossomos e um par de cromossomos sexuais : XX no sexo feminino e    XY no sexo masculino. Essas c&eacute;lulas com 46 cromossomos s&atilde;o chamadas    de <b>c&eacute;lulas som&aacute;ticas</b>. Voltemos, agora, &agrave; nossa primeira    c&eacute;lula resultante da fus&atilde;o do &oacute;vulo e do espermatoz&oacute;ide.    Logo ap&oacute;s a fecunda&ccedil;&atilde;o ela come&ccedil;a a se dividir:    uma c&eacute;lula em duas, duas em quatro, quatro em oito e assim por diante.    Pelo menos at&eacute; a fase de 8 c&eacute;lulas, cada uma delas &eacute; capaz    de se desenvolver em um ser humano completo. S&atilde;o chamadas de <b>totipotentes</b>.Na    fase de 8 a 16 c&eacute;lulas, as c&eacute;lulas do embri&atilde;o se diferenciam    em dois grupos: um grupo de c&eacute;lulas externas que v&atilde;o originar    a placenta e anexos embrion&aacute;rios, e uma massa de c&eacute;lulas internas    que vai originar o embri&atilde;o propriamente dito. Ap&oacute;s 72 horas, este    embri&atilde;o agora com cerca de 100 c&eacute;lulas &eacute; chamado de <b>blastocisto</b>.    &Eacute; nesta fase que ocorre a implanta&ccedil;&atilde;o do embri&atilde;o    na cavidade uterina. As c&eacute;lulas internas do blastocisto v&atilde;o originar    as centenas de tecidos que comp&otilde;em o corpo humano . S&atilde;o chamadas    de <b>c&eacute;lulas-tronco embrion&aacute;rias pluripotentes</b>. A partir    de um determinado momento, essas c&eacute;lulas som&aacute;ticas que ainda s&atilde;o    todas iguais come&ccedil;am a diferenciar-se nos v&aacute;rios tecidos que v&atilde;o    compor o organismo: sangue, f&iacute;gado, m&uacute;sculos, c&eacute;rebro,    ossos etc... Os genes que controlam esta diferencia&ccedil;&atilde;o e o processo    pelo qual isto ocorre ainda s&atilde;o um mist&eacute;rio. O que sabemos &eacute;    que, uma vez diferenciadas, as <b>c&eacute;lulas som&aacute;ticas</b> perdem    a capacidade de originar qualquer tecido. As c&eacute;lulas descendentes de    uma c&eacute;lula diferenciada v&atilde;o manter as mesmas caracter&iacute;sticas    daquela que as originou, isto &eacute;, c&eacute;lulas de f&iacute;gado v&atilde;o    originar c&eacute;lulas de f&iacute;gado, c&eacute;lulas musculares v&atilde;o    originar c&eacute;lulas musculares e assim por diante. Apesar do n&uacute;mero    de genes e do DNA ser igual em todas as c&eacute;lulas do nosso corpo, os genes    nas c&eacute;lulas som&aacute;ticas diferenciadas se expressam de maneiras diferentes    em cada tecido, isto &eacute;, a express&atilde;o g&ecirc;nica &eacute; espec&iacute;fica    para cada tecido. Com exce&ccedil;&atilde;o dos genes respons&aacute;veis pela    manuten&ccedil;&atilde;o do metabolismo celular (<I>housekeeping genes</I>)    que se mant&eacute;m ativos em todas as c&eacute;lulas do organismo, s&oacute;    ir&atilde;o funcionar em cada tecido ou &oacute;rg&atilde;o os genes importantes    para a manuten&ccedil;&atilde;o deste. Os outros se mant&ecirc;m "silenciados"    ou inativos. </font></p>     <p><font size="3"><b>O PROCESSO DE CLONAGEM REPRODUTIVA</b> A grande not&iacute;cia    da Dolly foi justamente a descoberta que uma c&eacute;lula som&aacute;tica de    mam&iacute;fero, j&aacute; diferenciada, poderia ser reprogramada ao est&aacute;gio    inicial e voltar a ser totipotente. Isto foi conseguido por meio da transfer&ecirc;ncia    do n&uacute;cleo de uma c&eacute;lula som&aacute;tica da gl&acirc;ndula mam&aacute;ria    da ovelha que originou a Dolly para um &oacute;vulo enucleado. Surpreendentemente,    este come&ccedil;ou a comportar-se como um &oacute;vulo rec&eacute;m-fecundado    por um espermatoz&oacute;ide. Isto provavelmente ocorreu porque o &oacute;vulo    quando fecundado tem mecanismos, para n&oacute;s ainda desconhecidos, para reprogramar    o DNA de modo a tornar todos os seus genes novamente ativos, o que ocorre no    processo normal de fertiliza&ccedil;&atilde;o .</font></p>     <p><font size="3">Para obten&ccedil;&atilde;o de um clone , este &oacute;vulo    enucleado no qual foi transferido o n&uacute;cleo da c&eacute;lula som&aacute;tica,    foi inserido em um &uacute;tero de uma outra ovelha. No caso da clonagem humana    reprodutiva, a proposta seria retirar-se o n&uacute;cleo de uma c&eacute;lula    som&aacute;tica, que teoricamente poderia ser de qualquer tecido de uma crian&ccedil;a    ou adulto, inserir este n&uacute;cleo em um &oacute;vulo e implant&aacute;-lo    em um &uacute;tero (que funcionaria como uma barriga de aluguel). Se este &oacute;vulo    se desenvolver teremos um novo ser com as mesmas caracter&iacute;sticas f&iacute;sicas    da crian&ccedil;a ou adulto de quem foi retirada a c&eacute;lula som&aacute;tica.    Seria como um g&ecirc;meo id&ecirc;ntico nascido posteriormente. </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3">J&aacute; sabemos que n&atilde;o &eacute; um processo f&aacute;cil.    Dolly s&oacute; nasceu depois de 276 tentativas que fracassaram. Al&eacute;m    disso, dentre as 277 c&eacute;lulas "da m&atilde;e de Dolly" que foram inseridas    em um &oacute;vulo sem n&uacute;cleo, 90% n&atilde;o alcan&ccedil;aram nem o    est&aacute;gio de blastocisto. A tentativa posterior de clonar outros mam&iacute;feros    tais como camundongos, porcos, bezerros, um cavalo e um veado, tamb&eacute;m    tem mostrado uma efici&ecirc;ncia muito baixa e uma propor&ccedil;&atilde;o    muito grande de abortos e embri&otilde;es malformados. Penta, a primeira bezerra    brasileira clonada a partir de uma c&eacute;lula som&aacute;tica adulta, em    2002, morreu com pouco mais de um m&ecirc;s. Ainda em 2002, foi anunciada a    clonagem do <I>copy cat,</I> o primeiro gato de estima&ccedil;&atilde;o clonado    a partir de uma c&eacute;lula som&aacute;tica adulta. Para isto foram utilizados    188 &oacute;vulos que geraram 87 embri&otilde;es e apenas um animal vivo. Na    realidade, experi&ecirc;ncias recentes com diferentes modelos animais t&ecirc;m    mostrado que essa reprograma&ccedil;&atilde;o dos genes, para o est&aacute;gio    embrion&aacute;rio, o processo que originou Dolly, &eacute; extremamente dif&iacute;cil.    </font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v56n3/a14fig01.gif"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3">O grupo liderado por Ian Wilmut, o cientista escoc&ecirc;s que    se tornou famoso por essa experi&ecirc;ncia, afirma que praticamente todos os    animais que foram clonados nos &uacute;ltimos anos a partir de c&eacute;lulas    n&atilde;o embrion&aacute;rias est&atilde;o com problemas (1). Entre os diferentes    defeitos observados nos pouqu&iacute;ssimos animais que nasceram vivos ap&oacute;s    in&uacute;meras tentativas, observa-se: tel&ocirc;meros encurtados; placentas    anormais; gigantismo em ovelhas e gado; defeitos card&iacute;acos em porcos;    problemas pulmonares em vacas, ovelhas e porcos; problemas imunol&oacute;gicos;    falha na produ&ccedil;&atilde;o de leuc&oacute;citos; defeitos musculares em    carneiros. De acordo com Hochedlinger e Jaenisch (2), os avan&ccedil;os recentes    em clonagem reprodutiva permitem quatro conclus&otilde;es importantes:</font></p>     <p><font size="3"><b>1)</b> A maioria dos clones morre no in&iacute;cio da gesta&ccedil;&atilde;o;    <b>2) </b>os animais clonados t&ecirc;m defeitos e anormalidades semelhantes,    independentemente da c&eacute;lula doadora ou da esp&eacute;cie; <b>3)</b> essas    anormalidades provavelmente ocorrem por falhas na reprograma&ccedil;&atilde;o    do genoma; <b>4) </b>a efici&ecirc;ncia da clonagem depende do est&aacute;gio    de diferencia&ccedil;&atilde;o da c&eacute;lula doadora. De fato, a clonagem    reprodutiva a partir de c&eacute;lulas embrion&aacute;rias tem mostrado uma    efici&ecirc;ncia de 10 a 20 vezes maior provavelmente porque os genes, que s&atilde;o    fundamentais no in&iacute;cio da embriog&ecirc;nese, est&atilde;o ainda ativos    no genoma da c&eacute;lula doadora (2). </font></p>     <p><font size="3">&Eacute; interessante que dentre todos os mam&iacute;feros que    j&aacute; foram clonados, a efici&ecirc;ncia &eacute; um pouco maior em bezerros    (cerca de 10% a 15%). Por outro lado, um fato intrigante &eacute; que ainda    n&atilde;o se tem not&iacute;cias de macaco ou cachorro que tenha sido clonado.    Talvez seja por isto que a cientista inglesa Ann McLaren afirme que as falhas    na reprograma&ccedil;&atilde;o do n&uacute;cleo som&aacute;tico podem se constituir    em uma barreira intranspon&iacute;vel para a clonagem humana. </font></p>     <p><font size="3">Mesmo assim, pessoas como o m&eacute;dico italiano Antinori    ou a seita dos raelianos defendem a clonagem humana, um procedimento que tem    sido proibido em todos os pa&iacute;ses. De fato, um documento assinado pelas    academias de ci&ecirc;ncias de 63 pa&iacute;ses, inclusive o Brasil, em 2003,    pedem o banimento da clonagem reprodutiva humana. O fato &eacute; que a simples    possibilidade de clonar humanos tem suscitado discuss&otilde;es &eacute;ticas    em todos os segmentos da sociedade, tais como:</font></p>     <p><font size="3">Por que clonar?    <br>   Quem deveria ser clonado ?    ]]></body>
<body><![CDATA[<br>   Quem iria decidir?    <br>   Quem ser&aacute; o pai ou a m&atilde;e do clone?    <br>   O que fazer com os clones que nascerem defeituosos?</font></p>     <p><font size="3"><b>Na realidade o maior problema &eacute;tico atual &eacute;    o enorme risco biol&oacute;gico associado &agrave; clonagem reprodutiva. No    meu entender, seria a mesma coisa que discutir os pr&oacute;s e os contras em    rela&ccedil;&atilde;o &agrave; libera&ccedil;&atilde;o de uma medica&ccedil;&atilde;o    nova, cujos efeitos s&atilde;o devastadores e ainda totalmente incontrol&aacute;veis.</b></font></p>     <p><font size="3">Apesar de todos esses argumentos contra a clonagem humana reprodutiva,    experi&ecirc;ncias com animais clonados t&ecirc;m nos ensinado muito acerca    do funcionamento celular. Por outro lado, a tecnologia de transfer&ecirc;ncia    de n&uacute;cleo para fins terap&ecirc;uticos, a chamada <b>clonagem terap&ecirc;utica</b>,    poder&aacute; ser extremamente &uacute;til para a obten&ccedil;&atilde;o de    c&eacute;lulas-tronco.</font></p>     <p><font size="3"><b>A T&Eacute;CNICA DE CLONAGEM TERAP&Ecirc;UTICA PARA A OBTEN&Ccedil;&Atilde;O    DE C&Eacute;LULAS-TRONCO</b> Se pegarmos esse mesmo &oacute;vulo cujo n&uacute;cleo    foi substitu&iacute;do por um de uma c&eacute;lula som&aacute;tica e, ao inv&eacute;s    de inseri-lo em um &uacute;tero, deixarmos que ele se divida no laborat&oacute;rio,    teremos a possibilidade de usar essas c&eacute;lulas, que na fase de blastocisto    s&atilde;o pluripotentes, para fabricar diferentes tecidos. Isto abriria perspectivas    fant&aacute;sticas para futuros tratamentos porque, hoje, s&oacute; em laborat&oacute;rio    se consegue cultivar c&eacute;lulas com as mesmas caracter&iacute;sticas do    tecido de onde foram retiradas. &Eacute; importante que as pessoas entendam    que na clonagem para fins terap&ecirc;uticos ser&atilde;o gerados s&oacute;    tecidos, em laborat&oacute;rio, sem implanta&ccedil;&atilde;o no &uacute;tero.    N&atilde;o se trata de clonar um feto at&eacute; alguns meses dentro do &uacute;tero    para depois lhe retirar os &oacute;rg&atilde;os como alguns acreditam.</font></p>     <p><font size="3">Uma pesquisa que acaba de ser publicada na revista <I>ScienceExpress</I>    por um grupo de cientistas coreanos (3) confirma a possibilidade de obter-se    c&eacute;lulas-tronco pluripotentes, a partir da t&eacute;cnica de clonagem    terap&ecirc;utica ou transfer&ecirc;ncia de n&uacute;cleos (TN). O trabalho    foi feito gra&ccedil;as &agrave; participa&ccedil;&atilde;o de 16 mulheres volunt&aacute;rias    que doaram ao todo 242 &oacute;vulos e c&eacute;lulas "<I>cumulus</I>" (c&eacute;lulas    que ficam ao redor dos &oacute;vulos) para contribuir com pesquisas visando    &agrave; clonagem terap&ecirc;utica. As c&eacute;lulas <I>cumulus</I>, que j&aacute;    s&atilde;o c&eacute;lulas diferenciadas, foram transferidas para os &oacute;vulos    dos quais haviam sido retirados os pr&oacute;prios n&uacute;cleos. Dentre esses,    25% conseguiram se dividir e chegar ao est&aacute;gio de blastocisto e capazes,    portanto, de produzir linhagens de c&eacute;lulas-tronco pluripotentes.</font></p>     <p><font size="3">A clonagem terap&ecirc;utica teria a vantagem de evitar rejei&ccedil;&atilde;o    se o doador fosse a pr&oacute;pria pessoa. Seria o caso, por exemplo, de reconstituir    a medula em algu&eacute;m que se tornou parapl&eacute;gico ap&oacute;s um acidente    ou para substituir o tecido card&iacute;aco em uma pessoa que sofreu um infarto.    Entretanto, essa t&eacute;cnica tem suas limita&ccedil;&otilde;es. O doador    n&atilde;o poderia ser a pr&oacute;pria pessoa no caso de afetados por doen&ccedil;as    gen&eacute;ticas, pois a muta&ccedil;&atilde;o patog&ecirc;nica causadora da    doen&ccedil;a est&aacute; presente em todas as c&eacute;lulas. No caso de usar-se    linhagens de c&eacute;lulas-tronco embrion&aacute;rias de outra pessoa ter-se-ia,    tamb&eacute;m, o problema da compatibilidade entre o doador e o receptor. Seria    o caso, por exemplo, de um afetado por distrofia muscular progressiva que necessita    substituir seu tecido muscular. Ele n&atilde;o poderia utilizar-se de suas pr&oacute;prias    c&eacute;lulas-tronco mas de um doador compat&iacute;vel que poderia ser eventualmente    um parente pr&oacute;ximo. Al&eacute;m disso, n&atilde;o sabemos se no caso    de c&eacute;lulas obtidas de uma pessoa idosa , por exemplo com doen&ccedil;a    de Alzheimer, se as c&eacute;lulas clonadas teriam a mesma idade do doador ou    seriam c&eacute;lulas jovens. Uma outra quest&atilde;o em aberto seria a reprograma&ccedil;&atilde;o    dos genes que poderiam inviabilizar o processo dependendo do tecido ou do &oacute;rg&atilde;o    a ser substitu&iacute;do. Em resumo, por mais que sejamos favor&aacute;veis    &agrave; clonagem terap&ecirc;utica, trata-se de uma tecnologia que necessita    de muita pesquisa antes de ser aplicada no tratamento cl&iacute;nico. Por esse    motivo, a grande esperan&ccedil;a no curto prazo <b>para a terapia celular</b>    vem da utiliza&ccedil;&atilde;o de c&eacute;lulas-tronco de outras fontes.</font></p>     <p><font size="3"><b>TERAPIA CELULAR COM OUTRAS FONTES DE C&Eacute;LULAS-TRONCO</b></FONT></p>     <p><font size="3">A) INDIV&Iacute;DUOS ADULTOS</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3">Existem c&eacute;lulas-tronco em v&aacute;rios tecidos (como    medula &oacute;ssea, sangue, f&iacute;gado) de crian&ccedil;as e adultos. Entretanto,    a quantidade &eacute; pequena e n&atilde;o sabemos ainda em que tecidos s&atilde;o    capazes de se diferenciar. Pesquisas recentes mostraram que c&eacute;lulas-tronco    retiradas da medula de indiv&iacute;duos com problemas card&iacute;acos foram    capazes de reconstituir o m&uacute;sculo do seu cora&ccedil;&atilde;o o que    abre perspectivas fant&aacute;sticas de tratamento para pessoas com problemas    card&iacute;acos. Mas a maior limita&ccedil;&atilde;o dessa t&eacute;cnica,    <b>o autotransplante</b>, &eacute; que ela n&atilde;o serviria para portadores    de doen&ccedil;as gen&eacute;ticas. <b>&Eacute; importante lembrar que as doen&ccedil;as    gen&eacute;ticas afetam 3-4% das crian&ccedil;as que nascem. Ou seja, mais de    5 milh&otilde;es de brasileiros para uma popula&ccedil;&atilde;o atual de 170    milh&otilde;es de pessoas. &Eacute; verdade que nem todas as doen&ccedil;as    gen&eacute;ticas poderiam ser tratadas com c&eacute;lulas-tronco, mas se pensarmos    somente nas doen&ccedil;as neuromusculares degenerativas, que afetam uma em    cada 1 mil pessoas, estamos falando de quase 200 mil pessoas.</b></font></p>     <p><font size="3">B) CORD&Atilde;O UMBILICAL E PLACENTA</font></p>     <p><font size="3">Pesquisas recentes v&ecirc;m mostrando que o sangue do cord&atilde;o    umbilical e da placenta s&atilde;o ricos em c&eacute;lulas-tronco. Entretanto,    tamb&eacute;m n&atilde;o sabemos ainda qual &eacute; o potencial de diferencia&ccedil;&atilde;o    dessas c&eacute;lulas em diferentes tecidos. Um trabalho que acaba de ser publicado    por pesquisadores da Duke University sugere que s&atilde;o capazes de se diferenciar    em m&uacute;sculo card&iacute;aco e sistema nervoso, um resultado extremamente    animador. Se as pesquisas com c&eacute;lulas-tronco de cord&atilde;o umbilical    derem os resultados esperados, isto &eacute;, se forem realmente capazes de    regenerar tecidos ou &oacute;rg&atilde;os, essa ser&aacute; certamente uma not&iacute;cia    fant&aacute;stica porque n&atilde;o envolveria quest&otilde;es &eacute;ticas.    Ter&iacute;amos, ent&atilde;o, que resolver o problema de compatibilidade entre    as c&eacute;lulas-tronco do cord&atilde;o doador e o receptor. Para isso ser&aacute;    necess&aacute;rio criar, com a maior urg&ecirc;ncia, bancos p&uacute;blicos    de cord&atilde;o &agrave; semelhan&ccedil;a dos bancos de sangue, como mostrado    pela doutora Patr&iacute;cia Pranke em seu artigo na p&aacute;gina 39. Isto    porque se sabe que quanto maior o n&uacute;mero de amostras de cord&atilde;o    em um banco, maior a chance de achar um compat&iacute;vel. Experi&ecirc;ncias    recentes j&aacute; demonstraram que o sangue do cord&atilde;o umbilical &eacute;    o melhor material para substituir a medula em casos de leucemia. Por isso a    cria&ccedil;&atilde;o de bancos de cord&atilde;o &eacute; uma prioridade que    j&aacute; se justifica somente para o tratamento de doen&ccedil;as sang&uuml;&iacute;neas,    mesmo antes de confirmarmos o resultado de outras pesquisas. </font></p>     <p><font size="3">C) C&Eacute;LULAS EMBRION&Aacute;RIAS</font></p>     <p><font size="3">Se as c&eacute;lulas-tronco de cord&atilde;o n&atilde;o forem    pluripotentes, a alternativa ser&aacute; o uso de c&eacute;lulas-tronco embrion&aacute;rias    obtidas de embri&otilde;es n&atilde;o utilizados, que s&atilde;o descartados    em cl&iacute;nicas de fertiliza&ccedil;&atilde;o. Os opositores ao uso de c&eacute;lulas    embrion&aacute;rias para fins terap&ecirc;uticos argumentam: que isto poderia    gerar um com&eacute;rcio de &oacute;vulos ou que haveria destrui&ccedil;&atilde;o    de "embri&otilde;es humanos" e n&atilde;o &eacute; &eacute;tico destruir uma    vida para salvar outra. </font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v56n3/a14fig02.gif"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3"><b>ASPECTOS &Eacute;TICOS</b> Apesar desses argumentos, o uso    de c&eacute;lulas-tronco embrion&aacute;rias para fins terap&ecirc;uticos, obtidas    tanto pela transfer&ecirc;ncia de n&uacute;cleo como de embri&otilde;es descartados    em cl&iacute;nicas de fertiliza&ccedil;&atilde;o, &eacute; defendido pelas in&uacute;meras    pessoas que poder&atilde;o se beneficiar por essa t&eacute;cnica, e pela maioria    dos cientistas. De fato, as 63 academias de ci&ecirc;ncia do mundo que se posicionaram    contra a clonagem reprodutiva defendem as pesquisas com c&eacute;lulas embrion&aacute;rias    para fins terap&ecirc;uticos. Em rela&ccedil;&atilde;o aos que acham que a clonagem    terap&ecirc;utica pode abrir caminho para clonagem reprodutiva devemos lembrar    que existe uma diferen&ccedil;a intranspon&iacute;vel entre os dois procedimentos:    a implanta&ccedil;&atilde;o ou n&atilde;o em um &uacute;tero humano. <b>Basta    proibir a implanta&ccedil;&atilde;o no &uacute;tero!</b> Se pensarmos que qualquer    c&eacute;lula humana pode ser teoricamente clonada e gerar um novo ser, poderemos    chegar ao exagero de achar que toda vez que tiramos a cut&iacute;cula ou arrancamos    um fio de cabelo, estamos destruindo uma vida humana em potencial. Afinal, o    n&uacute;cleo de uma c&eacute;lula da cut&iacute;cula poderia ser colocado em    um &oacute;vulo enucleado, inserido em um &uacute;tero e gerar uma nova vida!</font></p>     <p><font size="3">Por outro lado, a cultura de tecidos &eacute; uma pr&aacute;tica    comum em laborat&oacute;rio, apoiada por todos. A &uacute;nica diferen&ccedil;a    no caso seria o uso de &oacute;vulos (que quando n&atilde;o fecundados s&atilde;o    apenas c&eacute;lulas) que permitiriam a produ&ccedil;&atilde;o de qualquer    tecido no laborat&oacute;rio. Ou seja, ao inv&eacute;s de poder produzir-se    apenas um tipo de tecido, j&aacute; especializado, o uso de &oacute;vulos permitiria    fabricar qualquer tipo de tecido. O que h&aacute; de anti&eacute;tico nisto?</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3">Quanto ao com&eacute;rcio de &oacute;vulos, n&atilde;o seria    a mesma coisa que ocorre hoje com transplante de &oacute;rg&atilde;os? N&atilde;o    &eacute; mais f&aacute;cil doar um &oacute;vulo do que um rim? Cada uma de n&oacute;s    pode se perguntar: voc&ecirc; doaria um &oacute;vulo para ajudar algu&eacute;m?    Para salvar uma vida?</font></p>     <p><font size="3">Em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; destrui&ccedil;&atilde;o de    "embri&otilde;es humanos", de novo devemos lembrar que estamos falando de cultivar    tecidos ou, futuramente, &oacute;rg&atilde;os a partir de embri&otilde;es que    s&atilde;o normalmente descartados, que nunca ser&atilde;o inseridos em um &uacute;tero.    Sabemos que 90% dos embri&otilde;es gerados em cl&iacute;nicas de fertiliza&ccedil;&atilde;o    e que s&atilde;o inseridos em um &uacute;tero, nas melhores condi&ccedil;&otilde;es,    n&atilde;o geram vida. Al&eacute;m disso, um trabalho recente (4) mostrou que    c&eacute;lulas obtidas de embri&otilde;es de m&aacute; qualidade, que n&atilde;o    teriam potencial para gerar uma vida, mant&ecirc;m a capacidade de gerar linhagens    de c&eacute;lulas-tronco embrion&aacute;rias e, portanto de gerar tecidos. <b>Em    resumo, &eacute; justo deixar morrer uma crian&ccedil;a ou um jovem afetado    por uma doen&ccedil;a neuromuscular letal para preservar um embri&atilde;o cujo    destino &eacute; o lixo? Um embri&atilde;o que mesmo que fosse implantado em    um &uacute;tero teria um potencial baix&iacute;ssimo de gerar um indiv&iacute;duo?    Ao usar c&eacute;lulas-tronco embrion&aacute;rias para regenerar tecidos em    uma pessoa condenada por uma doen&ccedil;a letal, n&atilde;o estamos na realidade    criando vida? Isso n&atilde;o &eacute; compar&aacute;vel ao que se faz hoje    em transplante quando se retira os &oacute;rg&atilde;os de uma pessoa com morte    cerebral</b> (mas que poderia permanecer em vida vegetativa).</font></p>     <p><font size="3">&Eacute; extremamente importante que as pessoas entendam a diferen&ccedil;a    entre clonagem humana, clonagem terap&ecirc;utica e terapia celular com c&eacute;lulas-tronco    embrion&aacute;rias ou n&atilde;o. A maioria dos pa&iacute;ses da comunidade    europ&eacute;ia, o Canad&aacute;, a Austr&aacute;lia, o Jap&atilde;o, a China,    a Cor&eacute;ia e Israel aprovaram pesquisas com c&eacute;lulas embrion&aacute;rias    de embri&otilde;es at&eacute; 14 dias. Essa &eacute; tamb&eacute;m a posi&ccedil;&atilde;o    das academias de ci&ecirc;ncia de 63 pa&iacute;ses, inclusive o Brasil. &Eacute;    fundamental que a nossa legisla&ccedil;&atilde;o tamb&eacute;m aprove estas    pesquisas porque elas poder&atilde;o salvar in&uacute;meras vidas!</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3"><I><B>Mayana Zatz</b> &eacute; professora titular de gen&eacute;tica    humana e m&eacute;dica do Instituto de Bioci&ecirc;ncias da USP; coordenadora    do Centro de Estudos do Genoma Humano-IB-USP; presidente da Associa&ccedil;&atilde;o    Brasileira de Distrofia Muscular e membro da Academia Brasileira de Ci&ecirc;ncias.</I></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3"><b>REFER&Ecirc;NCIAS BIBLIOGR&Aacute;FICAS</b></FONT></p>     <p><font size="3">1. Rhind, S.M., Taylor, J.E., De Sousa, P.A., King, T.U.I.,    McGarry, M., Wilmut, I."Human Cloning: can it be made safe? "<i>Nature reviews</i>    4:855-864. 2003</FONT></p>     <p><font size="3">2. Hochedlinger, K., Jaenish, R. "Nuclear transplantation, embryonic    stem cells and the potential for cell therapy". <i>N. Engl. Journal of Medicine</i>    349:275-212. 2003</FONT></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3">3. Hwang, S.W., Ryu, Y.J., Park, J.H., Park, E.S., Lee, E.G.,    Koo, J.M. et al. "Evdence of a plurpotent embryonic stem cell line derived from    a cloned blastocyst". <i>ScienceExpress</i>. 2 de fevereiro. 2004</FONT></p>     <p><font size="3">4. Mitalipova, M., Calhoun, J., Shin, S., Wininger, D. et al.:    "Human embryonic stem cells lines derived from discarded embryos". <i>Stem cells</i>    21:521-526. 2003</FONT></p>      ]]></body>
</article>
