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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Clonagem: o que aprendemos com Dolly?]]></article-title>
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<institution><![CDATA[,Universidade de São Paulo Instituto de Biociências Centro de Estudos do Genoma Humano-Departamento de Biologia]]></institution>
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</front><body><![CDATA[ <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v56n3/a14img01.gif"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size=5><b>CLONAGEM – O QUE APRENDEMOS COM DOLLY? </b></font></p>     <p><FONT size="3"><b>Tatiana Jazedje da Costa Silva</b></FONT></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3"><b><font size=5>U</font></b>ma c&oacute;pia geneticamente    id&ecirc;ntica – defini&ccedil;&atilde;o muito simplista para um tema com muitas    interpreta&ccedil;&otilde;es – a clonagem ainda &eacute; motivo de alarme. A    palavra, por si s&oacute;, nos traz imediatamente &agrave; cabe&ccedil;a a imagem    de uma ovelha – Dolly – e de um personagem de uma novela recentemente exibida,    supostamente clonado. Provavelmente pelo impacto emocional que nos causa, a    clonagem reprodutiva, cuja finalidade &eacute; formar seres geneticamente id&ecirc;nticos,    &eacute; a mais marcante em nossa mem&oacute;ria. A clonagem terap&ecirc;utica,    no entanto, que visa a forma&ccedil;&atilde;o de tecidos ou &oacute;rg&atilde;os    para transplantes, &eacute; pouco conhecida e discutida.</FONT></p>     <p><font size="3">Em 5 de julho de 1996 nascia a ovelha Dolly, nascimento este    que s&oacute; foi divulgado em fevereiro do ano seguinte. Dolly foi o primeiro    mam&iacute;fero reproduzido a partir de uma c&eacute;lula som&aacute;tica de    uma ovelha adulta, com seis anos de idade. Curiosamente, esta ovelha, supostamente    "m&atilde;e biol&oacute;gica" de Dolly, j&aacute; estava morta e congelada,    o que levanta a seguinte pergunta: o que &eacute; necess&aacute;rio para se    conseguir o status de m&atilde;e biol&oacute;gica? No meu entendimento, at&eacute;    ent&atilde;o, todo animal tinha obrigatoriamente pai e m&atilde;e biol&oacute;gicos.    Eis ent&atilde;o uma confus&atilde;o de conceitos.</font></p>     <p><font size="3">A clonagem que deu origem a Dolly tamb&eacute;m &eacute; denominada    "transfer&ecirc;ncia de n&uacute;cleo", ou seja, o n&uacute;cleo de uma c&eacute;lula    som&aacute;tica &eacute; retirado e colocado em um &oacute;vulo cujo n&uacute;cleo    foi previamente retirado. Esta c&eacute;lula &eacute; capaz de se dividir e,    se o embri&atilde;o resultante for implantado em um &uacute;tero e conseguir    se desenvolver, poder&aacute; gerar um indiv&iacute;duo. Interessante, ou assustador,    foi saber que foram feitas 276 tentativas at&eacute; que Dolly nascesse, sendo    que a maioria dos &oacute;vulos utilizados, j&aacute; com o n&uacute;cleo trocado,    nem sequer se dividiu. E que, de todos os outros embri&otilde;es que conseguiram    se dividir e ser implantados, apenas Dolly nasceu. Todos os outros morreram    durante a gesta&ccedil;&atilde;o, muitos deles com altera&ccedil;&otilde;es    gen&eacute;ticas ou mal-forma&ccedil;&otilde;es graves.</font></p>     <p><font size="3">No dia 14 de fevereiro de 2003, aos seis anos e meio, Dolly    foi submetida a uma inje&ccedil;&atilde;o letal, pois era v&iacute;tima de uma    doen&ccedil;a pulmonar grave, de origem supostamente infecciosa. A comunidade    cient&iacute;fica espera at&eacute; hoje maiores explica&ccedil;&otilde;es sobre    a doen&ccedil;a que acometeu a ovelha mais famosa do mundo. Seria essa doen&ccedil;a    causada por um erro gen&eacute;tico resultante da clonagem? Os "criadores" de    Dolly, os pesquisadores escoceses do Instituto Roslin, disseram que a doen&ccedil;a    &eacute; comum em ovelhas e foi, provavelmente, adquirida. Mas como Dolly teria    sido exposta a uma doen&ccedil;a grav&iacute;ssima e fatal? Parece estranho.    Al&eacute;m disso, Dolly j&aacute; havia apresentado outros problemas possivelmente    relacionados &agrave; clonagem. Ela era grande, obesa e vivia confinada. Teve    tr&ecirc;s gesta&ccedil;&otilde;es e seis filhotes. Com pouco mais de cinco    anos e meio foi divulgada a informa&ccedil;&atilde;o de que Dolly sofria de    artrite na pata esquerda traseira.</font></p>     <p><font size="3">Tanto a artrite quanto a doen&ccedil;a pulmonar apresentadas    por Dolly s&atilde;o doen&ccedil;as caracter&iacute;sticas de ovelhas idosas.    A artrite, especificamente, foi atribu&iacute;da ao fato de Dolly ficar muito    tempo apoiada nas patas traseiras para "brincar" com os visitantes. Mas muitos    veterin&aacute;rios contestam essa justificativa. A hip&oacute;tese que tem    sido discutida &eacute; que essas doen&ccedil;as, comuns em animais mais velhos,    poderiam estar associadas ao encurtamento dos tel&ocirc;meros (seq&uuml;&ecirc;ncias    de DNA que ficam na ponta dos cromossomos). J&aacute; &eacute; bem conhecido    o fato dos cromossomos irem diminuindo de tamanho e perdendo pequenas por&ccedil;&otilde;es    de seu material gen&eacute;tico com o passar do tempo. Quando Dolly tinha tr&ecirc;s    anos de vida, seus tel&ocirc;meros eram caracter&iacute;sticos de um animal    de nove anos, idade esta que a ovelha doadora do n&uacute;cleo teria se estivesse    viva. Por&eacute;m, essa informa&ccedil;&atilde;o n&atilde;o &eacute; confirmada    por seus criadores, que contestam os resultados desses exames por eles terem    sido feitos apenas uma vez, em tecido sangu&iacute;neo. Al&eacute;m disso, outros    animais clonados n&atilde;o mostraram encurtamento de tel&ocirc;meros.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v56n3/a15fig01.gif"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3">O comportamento dos "genes imprintados", que se expressam de    maneira diferencial de acordo com a origem parental tamb&eacute;m &eacute; um    grande enigma na clonagem reprodutiva. Neste caso, das duas c&oacute;pias de    cada cromossomo recebidas, apenas uma &eacute; expressa: a c&oacute;pia proveniente    do pai ou a c&oacute;pia proveniente da m&atilde;e. Um erro na express&atilde;o    dos genes imprintados pode causar problemas muito graves. E como fica a express&atilde;o    destes genes nos animais clonados? Como um organismo clonado pode distinguir    genes provenientes do pai e da m&atilde;e?</font></p>     <p><font size="3">Desde que Dolly foi criada, muitos outros animais foram clonados    utilizando-se a mesma t&eacute;cnica de transfer&ecirc;ncia de n&uacute;cleo.    &Eacute; imposs&iacute;vel n&atilde;o correlacionar os problemas encontrados    nestes animais com caracter&iacute;sticas apresentada por Dolly. Muitos dos    animais clonados pela mesma t&eacute;cnica s&atilde;o grandes e obesos. Al&eacute;m    disso, &eacute; comum que morram cedo, muitas vezes horas ap&oacute;s o nascimento    e de forma s&uacute;bita. As placentas s&atilde;o muito maiores do que as placentas    de animais concebidos de forma natural, fato este que p&otilde;e em risco a    integridade f&iacute;sica da f&ecirc;mea gestante.</font></p>     <p><font size="3">A partir de 1997, camundongos, porcos, ovelhas, bovinos, cabras,    cavalos e e at&eacute; um veado j&aacute; foram clonados com a mesma metodologia.    A taxa de sucesso, em m&eacute;dia, &eacute; de 1%. N&atilde;o se t&ecirc;m    not&iacute;cias at&eacute; hoje de sucesso na clonagem de outros animais, como    c&atilde;es ou macacos. Um &uacute;nico gato foi obtido por clonagem – a gata    CC (<I> copy cat</I> ou c&oacute;pia carbono) – que, para espanto dos cientistas    respons&aacute;veis, n&atilde;o apresentava a mesma cor de pelagem da gata doadora    do n&uacute;cleo. Isto porque a cor da pelagem dos gatos est&aacute; relacionada    a diversos fatores ambientais. Nesse caso, qual seria ent&atilde;o a vantagem    de obter um animal clonado se ele n&atilde;o &eacute; id&ecirc;ntico ao doador    escolhido?</font></p>     <p><font size="3">Mas, aparentemente, sup&otilde;e-se que existam clones "normais".    Em bovinos, um estudo mostra que em 15% dos clones sobreviventes ainda n&atilde;o    foram encontradas evid&ecirc;ncias de anormalidades. Mas &eacute; importante    lembrar que 75% dos animais utilizados nesse estudo morreram <I>in utero</I>,    e os 10% restantes, logo ap&oacute;s o nascimento. Al&eacute;m disso, esses    animais ainda n&atilde;o viveram o suficiente para avaliar se ter&atilde;o uma    expectativa de vida normal ou se poder&atilde;o ter problemas mais tarde. Dolly,    a princ&iacute;pio, era normal. Hoje, mais de sete anos ap&oacute;s seu nascimento,    temos fortes ind&iacute;cios de que muitos problemas ocorridos com ela eram    derivados da clonagem, especialmente o envelhecimento precoce.</font></p>     <p><font size="3">Sobre a clonagem reprodutiva, a &uacute;nica certeza &eacute;    que se trata de um processo muito ineficiente e nada nos garante que os clones    que conseguiram nascer ser&atilde;o totalmente normais at&eacute; o fim da vida.    </font></p>     <p><font size="3">Apesar disso, algumas pessoas s&atilde;o a favor da clonagem    reprodutiva em humanos. O m&eacute;dico italiano Severino Antinori revelou que    tentaria clonar seres humanos, com o objetivo de ajudar casais com dificuldades    reprodutivas. Um ex-rep&oacute;rter esportivo franc&ecirc;s chamado Claude Vorilhon,    que depois de ser supostamente abduzido por seres extraterrestres gosta de ser    chamado de Ra&euml;l, fundou uma seita "religiosa" e prega a seus fi&eacute;is    que a clonagem &eacute; um direito, um modo de alcan&ccedil;ar a vida eterna.    Para isso, e de forma pitoresca, ele diz ser poss&iacute;vel a transmiss&atilde;o    de toda a mem&oacute;ria adquirida para o corpo do clone. A maior semelhan&ccedil;a    entre esses dois cidad&atilde;os &eacute; o fato de ambos gostarem muito dos    <I>flashes</I> dos fot&oacute;grafos. Antinori anunciou o nascimento de um clone    pelo menos duas vezes e at&eacute; hoje n&atilde;o escutamos nada a respeito    e nem vimos as crian&ccedil;as. Mas o que teria acontecido com o beb&ecirc;    que nasceria em novembro 2002? Deixou de existir? E o clone que nasceria em    janeiro de 2003? J&aacute; alguns raelianos (fi&eacute;is de Ra&euml;l) supostamente    cientistas, dizem que produziram cinco clones humanos, mas se negam a realizar    um simples teste de DNA para comprovar publicamente o feito. </font></p>     <p><font size="3">Outras pessoas, tamb&eacute;m favor&aacute;veis &agrave; clonagem    humana, dizem que apenas grandes g&ecirc;nios deveriam ser clonados, para que    estes possam contribuir para a evolu&ccedil;&atilde;o da humanidade. &Eacute;    certo que tais g&ecirc;nios t&ecirc;m predisposi&ccedil;&atilde;o a serem mais    inteligentes, mas esta predisposi&ccedil;&atilde;o n&atilde;o &eacute; apenas    gen&eacute;tica. O ambiente e, principalmente, as oportunidades de aprendizado    influenciam diretamente no que nos tornamos.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3">Al&eacute;m disso, ser&aacute; que n&atilde;o existem "g&ecirc;nios    em potencial" espalhados pelos orfanatos brasileiros?</font></p>     <p><font size="3">Mais importante do que discutir a clonagem reprodutiva, que    &eacute; banida pela grande maioria dos cientistas, sem d&uacute;vida &eacute;    discutir a clonagem terap&ecirc;utica. O procedimento — transfer&ecirc;ncia    do n&uacute;cleo de uma c&eacute;lula adulta para um &oacute;vulo sem n&uacute;cleo    — &eacute; o mesmo. A maior diferen&ccedil;a entre as clonagens reprodutiva    e terap&ecirc;utica &eacute; a finalidade. </font></p>     <p><font size="3">A clonagem terap&ecirc;utica visa formar c&eacute;lulas saud&aacute;veis    para que estas possam substituir c&eacute;lulas ou tecidos doentes como, por    exemplo, no caso de uma pessoa que sofreu uma les&atilde;o na coluna e perdeu    os movimentos. Para tentar regenerar a coluna lesada, seria retirado o n&uacute;cleo    de uma c&eacute;lula som&aacute;tica dessa pessoa, que seria inserido em um    &oacute;vulo enucleado. Esse &oacute;vulo poderia ser de uma doadora ou da pr&oacute;pria    pessoa no caso de uma mulher em idade f&eacute;rtil. Ap&oacute;s a inser&ccedil;&atilde;o    do n&uacute;cleo do paciente no &oacute;vulo, este seria cultivado em laborat&oacute;rio    para formar c&eacute;lulas-tronco (ou c&eacute;lulas progenitoras) capazes de    se diferenciar em c&eacute;lulas nervosas. Tais c&eacute;lulas, j&aacute; diferenciadas    ou n&atilde;o, seriam injetadas no local da les&atilde;o e reparariam o tecido    danificado se fossem "programadas" adequadamente. A vantagem de utilizar-se    as pr&oacute;prias c&eacute;lulas &eacute; evitar a rejei&ccedil;&atilde;o.    Obviamente, esse procedimento n&atilde;o &eacute; simples, mas poder&aacute;,    em um futuro pr&oacute;ximo, trazer a cura de defici&ecirc;ncias graves e at&eacute;    ent&atilde;o incur&aacute;veis.</font></p>     <p><font size="3">Pessoas portadoras de doen&ccedil;as gen&eacute;ticas tamb&eacute;m    poderiam utilizar a clonagem terap&ecirc;utica na esperan&ccedil;a de encontrarem    uma cura, ou uma melhora significativa de seu quadro cl&iacute;nico. Neste &uacute;ltimo    caso, por&eacute;m, o n&uacute;cleo doado n&atilde;o poderia ser do paciente,    porque a muta&ccedil;&atilde;o causadora da doen&ccedil;a gen&eacute;tica est&aacute;    presente em todas as suas c&eacute;lulas. A solu&ccedil;&atilde;o seria utilizar    o n&uacute;cleo da c&eacute;lula de outro indiv&iacute;duo, geneticamente saud&aacute;vel,    para a obten&ccedil;&atilde;o de c&eacute;lulas progenitoras para uso terap&ecirc;utico.    Uma alternativa para este procedimento, mais fact&iacute;vel em curto prazo,    seria a utiliza&ccedil;&atilde;o de embri&otilde;es descartados pelas cl&iacute;nicas    de fertiliza&ccedil;&atilde;o que ainda preservam a capacidade de se dividir    e formar c&eacute;lulas-tronco. Essas c&eacute;lulas poderiam ajudar a salvar    a vida de uma pessoa doente.</font></p>     <p><font size="3">O conceito da palavra "vida" tamb&eacute;m &eacute; pol&ecirc;mico.    Para os pesquisadores interessados no avan&ccedil;o da ci&ecirc;ncia m&eacute;dica    atrav&eacute;s da clonagem terap&ecirc;utica, um embri&atilde;o em est&aacute;gio    inicial &eacute; apenas um amontoado de c&eacute;lulas-tronco indiferenciadas    e id&ecirc;nticas entre si. Estas c&eacute;lulas est&atilde;o vivas, mas n&atilde;o    se trata de uma pessoa viva. J&aacute; a igreja cat&oacute;lica, entre outras    religi&otilde;es, defende que um &oacute;vulo fecundado por um espermatoz&oacute;ide    j&aacute; &eacute; uma pessoa potencialmente viva, independente do est&aacute;gio    de diferencia&ccedil;&atilde;o que se encontra o embri&atilde;o. Como muitos    embri&otilde;es s&atilde;o congelados e depois descartados pelas cl&iacute;nicas    de fertiliza&ccedil;&atilde;o assistida, os cientistas defendem a utiliza&ccedil;&atilde;o    desses embri&otilde;es para a pesquisa cient&iacute;fica. S&atilde;o c&eacute;lulas    preciosas que poderiam estar salvando vidas.</font></p>     <p><font size="3">Mas antes que a clonagem terap&ecirc;utica se torne uma realidade,    muitas quest&otilde;es devem ser respondidas. Como a clonagem depende de um    &oacute;vulo, o fato do DNA mitocondrial (DNAmit) do &oacute;vulo ser diferente    do DNAmit do indiv&iacute;duo doador do n&uacute;cleo chamou a aten&ccedil;&atilde;o    da comunidade cient&iacute;fica, principalmente no que se refere &agrave; rejei&ccedil;&atilde;o    de tecidos transplantados, obtidos por essa tecnologia. Para verificar esta    possibilidade de rejei&ccedil;&atilde;o <I>in vivo</I>, Lanza e colegas produziram    em laborat&oacute;rio tecidos card&iacute;aco, muscular esquel&eacute;tico e    renal utilizando n&uacute;cleos de fibroblastos bovinos. Tais tecidos foram    transplantados para os indiv&iacute;duos doadores dos n&uacute;cleos e nenhuma    rejei&ccedil;&atilde;o foi notada, provando que o m&eacute;todo &eacute; eficiente,    mesmo em animais que possuem um sistema imunol&oacute;gico mais complexo. Como    os indiv&iacute;duos transplantados n&atilde;o apresentavam nenhuma enfermidade,    n&atilde;o cabe a esse experimento o conceito de clonagem terap&ecirc;utica.    Mas o resultado &eacute; importante para futuros experimentos ou tratamentos    que dependam da clonagem de c&eacute;lulas do pr&oacute;prio indiv&iacute;duo    como, por exemplo, as les&otilde;es medulares. </font></p>     <p><font size="3">O tempo &eacute; o principal inimigo daqueles que possuem uma    doen&ccedil;a incur&aacute;vel e precisam de um tratamento. Os longos debates    entre os governantes, muitos deles completamente leigos no assunto, e a falta    de informa&ccedil;&atilde;o da sociedade em geral, constituem uma barreira para    tomada de decis&otilde;es. Para um pai, a vida de um filho vale mais do que    tudo o que ele tem, vale mais que a sua pr&oacute;pria vida. E se existe uma    possibilidade de salvar a vida de um filho, por mais diminuta que seja, essa    passa a ser sua prioridade. Com esse intuito, um grupo de pais e pacientes com    doen&ccedil;as graves, e at&eacute; ent&atilde;o incur&aacute;veis, formou no    Brasil o movimento "M&otilde;vitae" (Movimento em prol da Vida), que luta pela    libera&ccedil;&atilde;o do uso de c&eacute;lulas embrion&aacute;rias para fins    terap&ecirc;uticos. Esse movimento foi criado porque ainda n&atilde;o foi cientificamente    provado que as c&eacute;lulas-tronco adultas s&atilde;o capazes de se diferenciarem    em todos os tecidos. Se isso for demonstrado, o problema &eacute;tico do uso    de embri&otilde;es para a clonagem terap&ecirc;utica deixar&aacute; de existir.</font></p>     <p><font size="3">Enquanto n&atilde;o &eacute; liberado o uso de embri&otilde;es    humanos para pesquisa, muitos trabalhos t&ecirc;m sido desenvolvidos em humanos    com c&eacute;lulas-tronco de sangue de cord&atilde;o umbilical e de medula &oacute;ssea    de adultos. Em camundongos, c&eacute;lulas retiradas da medula &oacute;ssea    se diferenciaram em m&uacute;sculo esquel&eacute;tico e card&iacute;aco, e em    c&eacute;lulas hep&aacute;tica, <I>in vitro</I>, provando que as c&eacute;lulas-tronco    da medula n&atilde;o servem apenas para repor as c&eacute;lulas sangu&iacute;neas,    como se pensava at&eacute; ent&atilde;o. Da mesma forma, c&eacute;lulas retiradas    de tecidos adultos, como m&uacute;sculo e c&eacute;rebro, tamb&eacute;m se diferenciaram    em c&eacute;lulas sangu&iacute;neas.</font></p>     <p><font size="3">Em humanos, c&eacute;lulas-tronco adultas, retiradas da medula    de um doador compat&iacute;vel, s&atilde;o utilizadas h&aacute; muito tempo    para o tratamento de leucemias. No caso, as c&eacute;lulas-tronco da medula    do indiv&iacute;duo doador &eacute; que s&atilde;o respons&aacute;veis pela    recupera&ccedil;&atilde;o da medula do indiv&iacute;duo receptor. Uma alternativa    &eacute; a substitui&ccedil;&atilde;o da medula do doador. Por outro lado, o    transplante com c&eacute;lulas-tronco de cord&atilde;o umbilical e placent&aacute;rio    de rec&eacute;m-nascidos, que s&atilde;o geneticamente mais jovens, t&ecirc;m    mostrado resultados excelentes. Observou-se que os tel&ocirc;meros s&atilde;o    maiores nas c&eacute;lulas-tronco obtidas de cord&atilde;o umbilical do que    naquelas retiradas da medula. Sabe-se que os tel&ocirc;meros diminuem de tamanho    com o envelhecimento da c&eacute;lula, isto &eacute;, quanto maiores os tel&ocirc;meros,    maior a capacidade de divis&atilde;o da c&eacute;lula, o que explicaria os melhores    resultados obtidos com c&eacute;lulas-tronco de cord&atilde;o umbilical. Isto    que dizer que al&eacute;m dos tel&ocirc;meros estarem preservados, a capacidade    de se dividir e multiplicar das c&eacute;lulas no corpo do receptor &eacute;    maior, devido ao fato de todas as c&eacute;lulas do corpo, incluindo as c&eacute;lulas-tronco,    possu&iacute;rem uma quantidade limitada de divis&otilde;es. Portanto, quanto    maior a idade da c&eacute;lula, mais encurtados s&atilde;o seus tel&ocirc;meros    e menor sua capacidade de divis&atilde;o.</font></p>     <p><font size="3">N&atilde;o devemos aceitar que o desenvolvimento da ci&ecirc;ncia    seja interrompido. Bons resultados com a utiliza&ccedil;&atilde;o de c&eacute;lulas-tronco    adultas n&atilde;o excluem a possibilidade das c&eacute;lulas-tronco embrion&aacute;rias    apresentarem melhores resultados. &Eacute; evidente que a clonagem terap&ecirc;utica,    vista de uma forma geral e sem crit&eacute;rios, &eacute; perigosa. Por esse    motivo deve ser praticada por pessoas interessadas no bem estar do pr&oacute;ximo    e que tenham respeito &agrave; vida. </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><font size="3"><I><B>Tatiana Jazedje da Costa Silva</b> &eacute; pesquisadora    do Centro de Estudos do Genoma Humano-Departamento de Biologia, Instituto de    Bioci&ecirc;ncias, Universidade de S&atilde;o Paulo (USP).</I></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3"><b>BIBLIOGRAFIA CONSULTADA</b></FONT></p>     <p><font size="3">Campbell, K.H., McWhir, J., Ritchie, W.A., Wilmut, I. "Sheep    cloned by nuclear transfer from a cultured cell line". <i>Nature</i>. Mar 7;380(6569):64-6.    1996.</FONT></p>     <p><font size="3">Shiels, P.G., Kind, A.J., Campbell, K.H., Waddington, D., Wilmut,    I., Colman, A., Schnieke, A.E. "Analysis of telomere lengths in cloned sheep".    <i>Nature</i>. May 27;399(6734):316-7. 1999.</FONT></p>     <p><font size="3">Lanza, R.P., Chung, H.Y., Yoo, J.J., Wettstein, PJ., Blackwell,    C., Borson, N., Hofmeister, E,. Schuch, G., Soker, S., Moraes, C.T., West, M.D.,    Atala, A. "Generation of histocompatible tissues using nuclear transplantation".    <i>Nat Biotechnol</i>. Jul;20(7):689-96. 2002.</FONT></p>     <p><font size="3">Mayani, H., Lansdorp, P.M. "Biology of human umbilical cord    blood-derived hematopoietic stem/progenitor cells". <i>Stem Cells</i>.;16(3):153-65.    1998.</FONT></p>      ]]></body>
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