<?xml version="1.0" encoding="ISO-8859-1"?><article xmlns:mml="http://www.w3.org/1998/Math/MathML" xmlns:xlink="http://www.w3.org/1999/xlink" xmlns:xsi="http://www.w3.org/2001/XMLSchema-instance">
<front>
<journal-meta>
<journal-id>0009-6725</journal-id>
<journal-title><![CDATA[Ciência e Cultura]]></journal-title>
<abbrev-journal-title><![CDATA[Cienc. Cult.]]></abbrev-journal-title>
<issn>0009-6725</issn>
<publisher>
<publisher-name><![CDATA[Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência]]></publisher-name>
</publisher>
</journal-meta>
<article-meta>
<article-id>S0009-67252004000300025</article-id>
<title-group>
<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[1949/1954: um sonho do cinema brasileiro]]></article-title>
</title-group>
<contrib-group>
<contrib contrib-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Jorge]]></surname>
<given-names><![CDATA[Wanda]]></given-names>
</name>
</contrib>
</contrib-group>
<aff id="A">
<institution><![CDATA[,  ]]></institution>
<addr-line><![CDATA[ ]]></addr-line>
</aff>
<pub-date pub-type="pub">
<day>00</day>
<month>09</month>
<year>2004</year>
</pub-date>
<pub-date pub-type="epub">
<day>00</day>
<month>09</month>
<year>2004</year>
</pub-date>
<volume>56</volume>
<numero>3</numero>
<fpage>54</fpage>
<lpage>55</lpage>
<copyright-statement/>
<copyright-year/>
<self-uri xlink:href="http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=S0009-67252004000300025&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri><self-uri xlink:href="http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?script=sci_abstract&amp;pid=S0009-67252004000300025&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri><self-uri xlink:href="http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?script=sci_pdf&amp;pid=S0009-67252004000300025&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri></article-meta>
</front><body><![CDATA[ <p><FONT size="4"><b>Vera cruz </b></FONT></p>     <p><font size=5> <b>1949/1954 <SMALL>UM SONHO DO CINEMA BRASILEIRO</SMALL></b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3">No final da d&eacute;cada de 1940, o anseio de moderniza&ccedil;&atilde;o    envolvia uma disputa entre Rio e S&atilde;o Paulo pela hegemonia cultural. A    r&aacute;dio Nacional, iniciativa governamental, j&aacute; havia se consolidado    na d&eacute;cada anterior e o cinema se transformara num bem de consumo de massa:    as chanchadas da Atl&acirc;ntida lotavam as salas de cinema de todo pa&iacute;s,    numa distribui&ccedil;&atilde;o eficiente do empres&aacute;rio Severiano Ribeiro,    do Rio de Janeiro, que cuidava tamb&eacute;m da exibi&ccedil;&atilde;o e da    produ&ccedil;&atilde;o.</font></p>     <p><font size="3">Nesses primeiros anos do cinema falado, por&eacute;m, a produ&ccedil;&atilde;o    paulista foi quase inexistente. Para reverter esse cen&aacute;rio, havia o desejo    em S&atilde;o Paulo de materializar uma concep&ccedil;&atilde;o de cultura cosmopolita    e urbana que correspondesse &agrave; representa&ccedil;&atilde;o que a sociedade    paulistana – e, mais que ela, a nova burguesia industrial – tinha de si pr&oacute;pria.    Com o projeto de criar um cinema de qualidade para o pa&iacute;s, o industrial    de ascend&ecirc;ncia italiana, Francisco <I>Ciccilo</I> Matarazzo Sobrinho,    convida seu amigo de inf&acirc;ncia, o engenheiro Franco Zampari, para fundar    a Cia. Cinematogr&aacute;fica Vera Cruz em 1949.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v56n3/a25fig01.gif"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3">O modelo que inspirou a cria&ccedil;&atilde;o da Vera Cruz foi    Hollywood, mas a m&atilde;o-de-obra qualificada foi importada da Europa. Mais    de 25 nacionalidades chegaram a trabalhar na companhia. A dupla de origem italiana    sonhava trazer para o ABC paulista a posi&ccedil;&atilde;o ocupada pela carioca    Atl&acirc;ntida. Para dar in&iacute;cio ao projeto, <I>Ciccilo</I> cedeu parte    do terreno de sua granja, em S&atilde;o Bernardo do Campo (SP), para erguer    os est&uacute;dios da Cia. Cinematogr&aacute;fica, que durou at&eacute; 1954.    Um grande est&uacute;dio foi montado, com dimens&otilde;es que impressionam    at&eacute; os dias de hoje. Numa &aacute;rea de 100 mil metros quadrados e um    investimento de 7,5 milh&otilde;es de cruzeiros – uma fortuna para a &eacute;poca    – os est&uacute;dios receberam equipamentos importados, os melhores dispon&iacute;veis    no exterior. </font></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v56n3/a25fig02.gif"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3">Al&eacute;m dos equipamentos, a primeira grande "importa&ccedil;&atilde;o"    de talento foi do diretor Alberto Cavalcanti, um brasileiro que come&ccedil;ou    sua carreira na d&eacute;cada de 1930 na Fran&ccedil;a, em produ&ccedil;&otilde;es    dos est&uacute;dios franceses de Joinville, e se consolidou como um grande nome    da renova&ccedil;&atilde;o do document&aacute;rio brit&acirc;nico. O montador    Mauro Alice, que participou no primeiro filme do diretor, <I>O cai&ccedil;ara</I>,    como ajudante de proje&ccedil;&atilde;o para mixagem do est&uacute;dio de som,    lembra da excel&ecirc;ncia t&eacute;cnica para a &eacute;poca. "J&aacute; se    trabalhava com 13 cabe&ccedil;as de som, o que s&oacute; recentemente foi usado    em algumas produ&ccedil;&otilde;es". Alice montou v&aacute;rios filmes, desde    os de Mazzaropi aos do diretor Hector Babenco, inclusive o mais recente<I> Carandiru.</i></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v56n3/a25fig03.gif"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3">De 1949 a 1954, a Vera Cruz realizou 22 filmes de longa-metragem.    Apesar de ter durado pouco, a qualidade t&eacute;cnica e art&iacute;stica marcaram    &eacute;poca, os filmes ganharam pr&ecirc;mios internacionais e comprovaram    a viabilidade do cinema brasileiro. Mas o sonho de uma grande ind&uacute;stria    cinematogr&aacute;fica durou poucos anos. Em 1954, a Companhia Vera Cruz entrou    em decl&iacute;nio. Entre os motivos de sua decad&ecirc;ncia est&aacute; a aus&ecirc;ncia    de um sistema pr&oacute;prio de distribui&ccedil;&atilde;o. Distribuidores e    exibidores – Col&uacute;mbia e Universal – ficavam com mais de 60% da arrecada&ccedil;&atilde;o.    Havia ainda a dificuldade de colocar o filme brasileiro no competitivo mercado    internacional. A companhia sofreu, tamb&eacute;m, a concorr&ecirc;ncia desigual    com os filmes estrangeiros no Brasil. O fracasso comercial da Vera Cruz – apesar    do sucesso art&iacute;stico e de p&uacute;blico – mostrou a impossibilidade    de sobreviver numa estrutura que n&atilde;o remunera corretamente a produ&ccedil;&atilde;o.    </font></p>     <p><font size="3">A heran&ccedil;a da Vera Cruz est&aacute; presente at&eacute;    hoje, ap&oacute;s cinq&uuml;enta anos, no cinema publicit&aacute;rio paulista,    praticamente fundado pelos t&eacute;cnicos estrangeiros trazidos para compor    seu quadro de funcion&aacute;rios, formados no ideal do rigor tecnol&oacute;gico    fomentado pelos seus modernos laborat&oacute;rios. Propiciou, tamb&eacute;m,    o aparecimento de uma gera&ccedil;&atilde;o de cineastas importantes para o    pa&iacute;s. Alguns estudiosos chegam, inclusive, a atribuir o m&eacute;rito    da cria&ccedil;&atilde;o de um novo g&ecirc;nero cinematogr&aacute;fico, o filme    de canga&ccedil;o, ao <I>O cangaceiro</I>, de Lima Barreto, um filme que, com    <I>Sinh&aacute; mo&ccedil;a,</I> de Tom Payne, tamb&eacute;m de 1953, abriu    espa&ccedil;o no exigente circuito europeu, al&eacute;m de ter obtido a primeira    grande premia&ccedil;&atilde;o internacional de nosso cinema. </font></p>     <p><font size="3"><I>O cangaceiro</i> recebeu o pr&ecirc;mio de melhor filme de    aventura no Festival de Cannes e faturou, s&oacute; no mercado brasileiro, US$    1.5 milh&atilde;o. Rendeu &agrave; Vera Cruz, por&eacute;m, apenas US$ 500 mil    desse total, pouco mais da metade do custo do filme que foi de US$ 750 mil;    j&aacute; no exterior, na d&eacute;cada de 1950, foi considerado uma das maiores    bilheterias da Columbia Pictures. Mesmo assim, nenhum d&oacute;lar a mais veio    para a Vera Cruz, pois toda comercializa&ccedil;&atilde;o internacional pertencia    &agrave; distribuidora norte-americana. No auge do sucesso, a Vera Cruz estava    financeiramente quebrada. Pode-se dizer que o seu maior sucesso virou seu maior    preju&iacute;zo, acelerando definitivamente sua fal&ecirc;ncia em 1954. </font></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p align="right"><font size="3"><I><b>Wanda Jorge</b></I></font></p>      ]]></body>
</article>
