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</front><body><![CDATA[ <P align="center"><img src="/img/revistas/cic/v56n4/a13img01.gif"></P>     <P>&nbsp;</P>     <P><font size="4"><b>INTERFACE PSICAN&Aacute;LISE-CULTURA</b></font></P>     <P><font size="3"><b>Henrique Honigsztejn</b></font></P>     <P>&nbsp;</P>     <P>&nbsp;</P>     <P><font size="3">Interface implica em comunica&ccedil;&atilde;o estabelecida    entre os componentes que a originam. Utilizando o dicion&aacute;rio Webster,    destaco as seguintes defini&ccedil;&otilde;es de cultura:</font></P>     <P><font size="3"><b>a)</b> o estado de ter sido cultivado; a ilumina&ccedil;&atilde;o    e excel&ecirc;ncia de gosto adquiridas por um treino intelectual e art&iacute;stico;    refinamento de maneiras, gosto e pensamento.</font></P>     <P><font size="3"><b>b)</b> o padr&atilde;o total de comportamento    humano e seus produtos corporificados em pensamento, fala, a&ccedil;&atilde;o    e artefatos, dependente da capacidade humana para o aprendizado e para a transmiss&atilde;o    de conhecimento &agrave;s sucessivas gera&ccedil;&otilde;es, por meio do uso    de instrumentos, da linguagem e de sistemas de pensamento abstrato.</font></P>     <P><font size="3">Buscarei, no que vou desenvolver, sugerir em que medida e de    que maneira a cultura pode refinar o gosto e o pensamento do analista. Para    Freud, a psican&aacute;lise "n&atilde;o se prop&otilde;e nem oferece nada    mais al&eacute;m da descoberta do inconsciente"(1-pag 377), utilizando-se    da aten&ccedil;&atilde;o flutuante do analista, aten&ccedil;&atilde;o essa que    busca captar atrav&eacute;s das associa&ccedil;&otilde;es livres do analisando    as chaves para essa descoberta. Essa descoberta se d&aacute; no campo emocional,    que flui, ou n&atilde;o, no contato de dois indiv&iacute;duos. Antes disse –    refinar o gosto e o pensamento – mas diria melhor agora: o ouvido, o tato do    analista. Para tornar mais claro o que quero dizer, e juntamente com Freud,    usemos algo do <i>Hamlet</i>. </font></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<P><font size="3">Freud considera – em <i>Sobre psicoterapia</i> (2- pag.114)    – que o instrumento da alma n&atilde;o &eacute; nada f&aacute;cil de ser tocado    e, a respeito disso, cita Hamlet que, diante de uma tentativa de dois cortes&atilde;os    de obterem dele segredos, mostra-lhes uma flauta da qual, a seu pedido tentaram,    mas n&atilde;o conseguiram emitir uma nota sequer: "<i>Agora, vede, que    coisa desprez&iacute;vel fazeis de mim. Quereis me tocar, quereis penetrar no    cora&ccedil;&atilde;o de meu mist&eacute;rio; ...pensais que eu sou mais f&aacute;cil    de tocar do que uma flauta? Tomai-me por qual instrumento v&oacute;s quereis,    v&oacute;s podeis me desafinar, por&eacute;m n&atilde;o usar-me</i>". </font></P>     <P><font size="3">Da mesma forma, podemos nos questionar: Como a cultura pode    ser &uacute;til ao analista para que ele n&atilde;o fa&ccedil;a seu paciente    sentir-se uma m&iacute;sera coisa? E de que modo a psican&aacute;lise pode contribuir    com a cultura? </font></P>     <P><font size="3">Carlos Fuentes, um grande escritor da atualidade, refere-se,    de um modo dram&aacute;tico, ao efeito da cultura em sua sensibilidade e assim    em sua cria&ccedil;&atilde;o, por meio da leitura anual de Dom Quixote "as    minhas emo&ccedil;&otilde;es ficam envolvidas na m&aacute;gica desse livro",    e acrescenta que a&iacute; estaria inclu&iacute;da a pr&oacute;pria sexualidade.    O que permite que tal efeito lhe ocorra, em contraste com a rea&ccedil;&atilde;o    que a obra causa em tantos outros leitores que afastam essa obra, assustados    pela sua vastid&atilde;o, ou j&aacute; a tomando de antem&atilde;o como um cansativo    desenrolar das loucuras de um velho? Para essa resposta vou utilizar Freud em    sua concep&ccedil;&atilde;o do narcisismo, e tamb&eacute;m Winnicott em suas    concep&ccedil;&otilde;es sobre o objeto transicional e o papel da ilus&atilde;o.    Al&eacute;m disso, tamb&eacute;m fa&ccedil;o refer&ecirc;ncia a contribui&ccedil;&otilde;es    importantes de outras figuras da cultura.</font></P>     <P><font size="3">A primeira figura a cultivar um ser humano &eacute; sua m&atilde;e,    e desse contato fundamental quase tudo brota. Passagens de Freud iluminam muito    esse campo:</font></P>     <P><font size="3"><i>1) "O organismo humano &eacute;, em seu in&iacute;cio,    incapaz de levar a cabo a a&ccedil;&atilde;o espec&iacute;fica, realizando-a    por meio da assist&ecirc;ncia alheia ao chamar a aten&ccedil;&atilde;o de uma    pessoa experiente sobre o estado em que se encontra a crian&ccedil;a, mediante    a condu&ccedil;&atilde;o de descarga por via da altera&ccedil;&atilde;o interna.    Esta via de descarga adquire assim a important&iacute;ssima fun&ccedil;&atilde;o    secund&aacute;ria de comunica&ccedil;&atilde;o..."</i> (3 - pag.431).</font></P>     <P><font size="3"><i>2) "H&aacute; muito mais continuidade entre a vida intra-uterina    e a primeira inf&acirc;ncia do que a impressionante cesura do ato do nascimento    nos teria feito acreditar. O que acontece &eacute; que a situa&ccedil;&atilde;o    biol&oacute;gica da crian&ccedil;a como feto &eacute; substitu&iacute;da para    ela por uma rela&ccedil;&atilde;o de objeto ps&iacute;quico quanto a sua m&atilde;e"</i>    (4-,pag. 278).</font></P>     <P><font size="3"><i>3) "...devemos observar que a hip&oacute;tese de que    no indiv&iacute;duo n&atilde;o existe, desde o in&iacute;cio uma unidade compar&aacute;vel    ao eu, &eacute; absolutamente necess&aacute;ria...Em troca os instintos auto-er&oacute;ticos    s&atilde;o primordiais. Para constituir o narcisismo deve agregar-se ao auto-erotismo    algum outro elemento, um novo ato ps&iacute;quico" </i>(5- pag.44).</font></P>     <P><font size="3">Ligo essa &uacute;ltima cita&ccedil;&atilde;o &agrave; primeira    para aclarar o que seria o novo ato ps&iacute;quico. A meu ver, esta seria a    a&ccedil;&atilde;o da pessoa experiente conectada &agrave;s necessidades do    beb&ecirc;, essa pessoa que vai refazer para este o &uacute;tero biol&oacute;gico    perdido e permitir assim que prossiga o fluir de um desenvolvimento.</font></P>     <P><font size="3">Utilizo-me de Winnicott que, no meu entender, colocou lentes    de grande aumento para detalhar as nuances da rela&ccedil;&atilde;o b&aacute;sica,    permitindo entender assim o que Freud escreveu sobre Goethe: "<i>Agora,    bem: j&aacute; dissemos em outro lugar que quando algu&eacute;m foi o favorito    indiscut&iacute;vel de sua m&atilde;e, conserva atrav&eacute;s de toda a vida,    aquela seguran&ccedil;a de conquistar, aquela confian&ccedil;a no &ecirc;xito,    que muitas vezes basta para logr&aacute;-lo. E assim, Goethe poderia ter encabe&ccedil;ado    sua biografia com uma observa&ccedil;&atilde;o como esta: "Toda minha for&ccedil;a    tem sua raiz na minha rela&ccedil;&atilde;o com minha m&atilde;e</i>" (6-    pag.266). Winnicott – em <i>Playing and reality</i> (7- pag.11) – ilumina o    processo pelo qual o beb&ecirc; estabelece ra&iacute;zes na m&atilde;e:</font></P>     <P><font size="3"><i>"A m&atilde;e, ao in&iacute;cio, por uma adapta&ccedil;&atilde;o    quase perfeita, oferece ao beb&ecirc; a oportunidade para a ilus&atilde;o de    que seu peito &eacute; parte do beb&ecirc;. &Eacute; como se ela estivesse sob    o controle m&aacute;gico do beb&ecirc;...Onipot&ecirc;ncia &eacute; quase um    fato da experi&ecirc;ncia. A tarefa final da m&atilde;e &eacute;, gradualmente,    a de desiludir o beb&ecirc;, por&eacute;m ela n&atilde;o ter&aacute; a esperan&ccedil;a    de sucesso a n&atilde;o ser que, inicialmente, ela tenha sido capaz de oferecer    suficiente oportunidade para ilus&atilde;o.</i></font></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<P><font size="3"><i>Em outra linguagem, o peito &eacute; criado pelo beb&ecirc;    repetidamente a partir de sua capacidade para o amor ou (pode-se dizer) a partir    da necessidade. Desenvolve-se no beb&ecirc; um fen&ocirc;meno subjetivo ao qual    chamamos o peito da m&atilde;e".</i></font></P>     <P><font size="3">Se a m&atilde;e permite a ilus&atilde;o, algo fundamental acontece:</font></P>     <P><font size="3"><i>"Se a m&atilde;e pode participar disso por um longo    tempo, sem admitir impedimentos (por assim dizer), ent&atilde;o o beb&ecirc;    ter&aacute; alguma experi&ecirc;ncia de controle m&aacute;gico...</i></font></P>     <P><i><font size="3">Confian&ccedil;a na m&atilde;e cria uma &aacute;rea de brincar    intermedi&aacute;ria aqu&eacute;m da qual se origina a id&eacute;ia de magia,    j&aacute; que o beb&ecirc; em certa extens&atilde;o vivenciou onipot&ecirc;ncia...Chamo    a isso de &aacute;rea de brincar porque o brincar origina-se aqui. Essa &aacute;rea    &eacute; um espa&ccedil;o potencial entre a m&atilde;e e o beb&ecirc; ou de    liga&ccedil;&atilde;o m&atilde;e e beb&ecirc;". </font></i></P>     <P><font size="3">Vai-se criando e ampliando a &aacute;rea intermedi&aacute;ria,    ou seja, a &aacute;rea do brincar, o <i>playground</i> que, segundo ele, "&eacute;    a &aacute;rea que &eacute; permitida entre a criatividade prim&aacute;ria e    a percep&ccedil;&atilde;o objetiva baseada no teste da realidade".</font></P>     <P><font size="3">Winnicott – (8 - pags.130-131) em suas considera&ccedil;&otilde;es    sobre a criatividade, presume que existe uma criatividade potencial e que o    beb&ecirc; na sua primeira mamada te&oacute;rica j&aacute; tem uma contribui&ccedil;&atilde;o    pessoal a fazer, e que essa criatividade &eacute; reconhecida antes de tudo    pela sensa&ccedil;&atilde;o individual de realidade da experi&ecirc;ncia do    objeto. Continuo a cit&aacute;-lo ap&oacute;s suas considera&ccedil;&otilde;es    acima: <i>"O mundo &eacute; criado de novo por cada ser humano, que come&ccedil;a    o seu trabalho no m&iacute;nimo t&atilde;o cedo quanto o momento do seu nascimento    e da primeira mamada te&oacute;rica. Aquilo que o beb&ecirc; cria depende em    grande parte daquilo que &eacute; apresentado no momento da criatividade, pela    m&atilde;e que se adapta ativamente &agrave;s necessidades do beb&ecirc;. Mas    se a criatividade do beb&ecirc; est&aacute; ausente, os detalhes apresentados    pela m&atilde;e n&atilde;o ter&atilde;o sentido.</i></font></P>     <P><font size="3"><i>Sabemos que o mundo estava l&aacute; antes do beb&ecirc;,    mas o beb&ecirc; n&atilde;o sabe disso, e no in&iacute;cio tem a ilus&atilde;o    de que o que ele encontra foi por ele criado. Esse estado de coisas, no entanto,    s&oacute; ocorre quando a m&atilde;e age de maneira suficientemente boa. O problema    da criatividade prim&aacute;ria foi discutido como pertencendo &agrave; mais    tenra inf&acirc;ncia; mas, para sermos precisos, trata-se de um problema que    jamais deixa de ter sentido enquanto o indiv&iacute;duo estiver vivo".    </i> </font></P>     <P><font size="3">Winnicott permite que se possa acompanh&aacute;-lo em sua penetra&ccedil;&atilde;o    em &aacute;reas t&atilde;o obscuras, e com ele perceber como se vai estabelecendo    a experi&ecirc;ncia de onipot&ecirc;ncia e a da ilus&atilde;o como algo fundamental    para que o mundo exterior ao <b>eu</b> possa ser encontrado com certa familiaridade,    algo no qual se pode brincar. Winnicott, por suas obras, circula na &aacute;rea    intermedi&aacute;ria, no espa&ccedil;o potencial entre o indiv&iacute;duo e    o mundo externo, onde ocorrem os fen&ocirc;menos transicionais que, segundo    ele mesmo: "representam os est&aacute;gios precoces do uso da ilus&atilde;o    sem os quais n&atilde;o h&aacute; para o ser humano significado na id&eacute;ia    de rela&ccedil;&atilde;o com um objeto que &eacute; percebido pelos outros como    externo a esse ser".</font></P>     <P><font size="3">No mundo transicional o mundo se torna familiar, circula-se    nele com a seguran&ccedil;a de algu&eacute;m que participou e participa na sua    cria&ccedil;&atilde;o e que continua aqui a desenvolver-se, apoiado na confian&ccedil;a    e no fluir natural de um processo possibilitado pela m&atilde;e conectada (a    que reconstitui o &uacute;tero biol&oacute;gico perdido). O espa&ccedil;o potencial    separa e ao mesmo tempo conecta m&atilde;e e beb&ecirc;.</font></P>     <P><font size="3">Eu me estendo nas cita&ccedil;&otilde;es de Winnicott, pois    &eacute; um prazer para mim que espero ser usufru&iacute;do por quem estiver    lendo estas linhas. &Eacute; um brincar, onde id&eacute;ias se encadeiam, despertam    outras, e facilitam encontros de outras id&eacute;ias, de outros autores. A    ilus&atilde;o firmando a onipot&ecirc;ncia como um fato da experi&ecirc;ncia    p&otilde;e a inveja ao largo e a familiaridade predomina. E, assim, se pode    experimentar o contato com a cultura como fertilizadora. A leitura de Winnicott    afinou meus ouvidos, clareou meus olhos para encontrar um pequeno ensaio de    Schiller que toca na quest&atilde;o de um funcionamento mental favorecedor de    maior sensibilidade no encontro com outro.</font></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<P><font size="3">O t&iacute;tulo envolveu-me de imediato: <i>Sobre a utilidade    moral de costumes est&eacute;ticos</i>. Transcrevo-o em alguns trechos: (9-    pag.411)</font></P>     <P><font size="3"><i>"Um sentimento vivo e puro despertado pela Beleza tem    sobre a vida moral a mais feliz influ&ecirc;ncia e disso vou tratar aqui".</i></font></P>     <P><font size="3">Entre muitos outros, que s&atilde;o um est&iacute;mulo para    pensamento e cria&ccedil;&atilde;o, destaco:</font></P>     <P><font size="3"><i>"O instinto sensual n&atilde;o reconhece nenhuma lei    moral e quer ver seu objetivo realizado, o que quer que a Raz&atilde;o possa    dizer...Mentes cruas, &agrave;s quais falta igualmente uma educa&ccedil;&atilde;o    moral e est&eacute;tica recebem suas leis diretamente dos desejos, e agem meramente    como agrada a seus sentidos. Mentes morais, a quem falta por&eacute;m a educa&ccedil;&atilde;o    est&eacute;tica, tem sua lei dada pela Raz&atilde;o e &eacute; apenas visando    ao dever que elas vencem a tenta&ccedil;&atilde;o. Nas almas refinadas esteticamente    existe uma inst&acirc;ncia a mais, que n&atilde;o raramente substitui a virtude    onde ela falta e ilumina onde ela est&aacute;. Essa inst&acirc;ncia &eacute;    o Gosto. O bom gosto requer comedimento e dec&ecirc;ncia, ele detesta tudo que    &eacute; anguloso, duro, violento e se inclina para tudo que se encaixe suave    e harmonicamente". </i><b>Gosto</b> (<i>Geschmack</i>) poderia se traduzir    como: tato, sobriedade. Um exemplo que tem repercuss&atilde;o para mim como    psicanalista &eacute; o descrito por Freud em seu ensaio autobiogr&aacute;fico:</font></P>     <P><font size="3"><i>"Quando eu livrei um dia do seu sofrimento a uma da    minhas mais d&oacute;ceis pacientes, na qual a hipnose possibilitou os mais    acrob&aacute;ticos feitos..., ela ao despertar enla&ccedil;ou meu pesco&ccedil;o.    Eu era s&oacute;brio (</i>n&uuml;chtern<i>) o bastante para n&atilde;o colocar    essa situa&ccedil;&atilde;o por conta de minha irresistibilidade e acreditei    ter captado o elemento m&iacute;stico que age pela hipnose" </i>(10-pag.58).    </font></P>     <P><font size="3">Freud foi s&oacute;brio o bastante para n&atilde;o se arrastar    por um impulso sensual do momento e ter a condi&ccedil;&atilde;o de perceber    algo fundamental, subjacente, levando-o a uma experi&ecirc;ncia de expans&atilde;o    do <i>self</i>, pela descoberta. O que quero dizer com expans&atilde;o do <i>self</i>?    Em que se baseia? Novamente recorro a Winnicott, em <i>Capacidade de estar s&oacute;</i>    (11-pag.35):</font></P>     <P><font size="3"><i>"Em uma pessoa normal uma experi&ecirc;ncia altamente    satisfat&oacute;ria como a que pode ser obtida em um concerto ou em um teatro    ou em uma amizade pode merecer o termo, tal como "orgasmo de ego"    que chama a aten&ccedil;&atilde;o para o cl&iacute;max e a import&acirc;ncia    do cl&iacute;max. Pode-se pensar como inadequado o uso da palavra nesse contexto,    eu penso que mesmo assim h&aacute; lugar para uma discuss&atilde;o do cl&iacute;max    que pode ocorrer em uma rela&ccedil;&atilde;o de ego satisfat&oacute;rio. &Eacute;    verdade que mesmo na brincadeira feliz de uma crian&ccedil;a tudo pode ser interpretado    em termos de impulso do id...No entanto n&oacute;s deixamos de fora algo vital    se n&atilde;o nos lembrarmos que a brincadeira de uma crian&ccedil;a n&atilde;o    &eacute; feliz quando complicada por excita&ccedil;&otilde;es corporais com    seus cl&iacute;maxes f&iacute;sicos... Em minha opini&atilde;o se n&oacute;s    comparamos a brincadeira feliz de uma crian&ccedil;a ou a experi&ecirc;ncia    de um adulto em um concerto com uma experi&ecirc;ncia sexual, a diferen&ccedil;a    &eacute; t&atilde;o grande que n&atilde;o ser&aacute; prejudicial nos permitirmos    um termo diferente para a descri&ccedil;&atilde;o das duas experi&ecirc;ncias".    </i></font></P>     <P><font size="3">E no final desse artigo, no sum&aacute;rio:</font></P>     <P><font size="3"><i>"O tipo de rela&ccedil;&atilde;o que existe entre uma    crian&ccedil;a e a m&atilde;e sustentadora do ego, merece um estudo especial.    Embora outros termos tenham sido usados, eu sugiro que rela&ccedil;&atilde;o    egoica, possa ser um bom termo para uso tempor&aacute;rio ...Gradualmente o    ambiente sustentador &eacute; introjetado na personalidade do indiv&iacute;duo,    de modo que se origina a capacidade presente de estar s&oacute;. Mesmo assim,    teoricamente h&aacute; algu&eacute;m sempre presente, algu&eacute;m que &eacute;    igualado por fim e inconscientemente com a m&atilde;e, a pessoa que nos primeiros    dias e semanas identificou-se temporariamente com seu beb&ecirc; e, nesse tempo,    n&atilde;o tinha interesse em nada a n&atilde;o ser o cuidado de seu pr&oacute;prio    beb&ecirc;".</i></font></P>     <P><font size="3">O quanto ao se contatar com uma obra de arte esse ser sente-se    revivendo todo o cuidado de uma m&atilde;e dedicada, por meio do ritmo que a    obra transmite, a concretiza&ccedil;&atilde;o do ritmo vivido pelo criador na    rela&ccedil;&atilde;o com sua m&atilde;e, o ritmo presente nos cuidados maternos    em seu manuseio (<i>handing</i>) e suporte emocional (<i>holding</i>) de seu    beb&ecirc; e nas respostas deste (12-pags.29-31), e no campo emocional assim    criado. Assim como o beb&ecirc; sente-se o criador da m&atilde;e e assim se    vai desenvolvendo, ao crescer ele sentir-se-&aacute; criador da obra com a qual    se encontra e assim se expande. </font></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<P><font size="3">Desenvolve-se um ser que se sente em casa ao circular pelo campo    cultural, cujos objetos n&atilde;o lhe objetam mas, ao contr&aacute;rio, lhe    s&atilde;o familiares. A cultura torna-se, ou melhor, recria o espelho que foi    para ele o rosto da m&atilde;e e que lhe permitiu come&ccedil;ar a saber dele    mesmo (Winnicott). Assim, como diz G. Simmel: "Para sair de sua anonimidade    animal e imediata e come&ccedil;ar a saber a seu respeito, a vida deve-se fazer    conhecida por ela mesma e tornar-se objetiva nas e com as formas, que ela mesma    cunha e descobre". (13)</font></P>     <P><font size="3">O mundo cultural seria assim o espelho pelo qual n&atilde;o    apenas se aprende sobre si mas que leva &agrave; expans&atilde;o, no exerc&iacute;cio    da criatividade, na confian&ccedil;a, na alegria. Cada objeto ser&aacute; encontrado    como &iacute;ntimo, pois j&aacute; fez parte do sujeito que guarda o registro    de ter sido o criador da m&atilde;e, podendo assim ser amado. "Ama o teu    pr&oacute;ximo, pois ele &eacute; como tu". S&oacute; dando-se conta de    quem &eacute;, merecedor de amor, pode algu&eacute;m estender-se para o amor    ao outro. E, como um dos modos dessa extens&atilde;o, est&aacute; a cria&ccedil;&atilde;o    cultural. Freud referiu-se, em uma das tradicionais reuni&otilde;es das quartas-feiras,    &agrave; import&acirc;ncia do velamento da obra de arte em oposi&ccedil;&atilde;o    a uma obra que se revela nua e crua e que seria assim a seu ver, um documento    psicopatol&oacute;gico. A obra de arte pelo seu velamento permite ser desvelada    na medida poss&iacute;vel a quem a encontra. E penso que a grande obra de arte,    fruto de um "criador de sua m&atilde;e", j&aacute; por si traz o velamento    da ilus&atilde;o que o marca. Nesse espa&ccedil;o potencial, cito mais um criador,    para dar mais ensejo &agrave; circula&ccedil;&atilde;o de id&eacute;ias:</font></P>     <P><font size="3"><i>"Tudo que &eacute; vivo necessita em volta de si uma    atmosfera, uma atmosfera plena de mist&eacute;rio; se algu&eacute;m lhe tira    esta camada protetora, se algu&eacute;m condena uma religi&atilde;o, uma arte,    um g&ecirc;nio, a circular como constela&ccedil;&atilde;o sem atmosfera, n&atilde;o    se deve admirar de seu r&aacute;pido murchar, enrijecer, esterilizar"</i>...    e adiante: ... <i>"Sim, o homem sente-se triunfante de que agora a ci&ecirc;ncia    come&ccedil;a a dominar sobre a vida, &eacute; poss&iacute;vel que o homem alcance    isso, por&eacute;m uma vida dominada assim &eacute; algo que n&atilde;o vale    a pena, porque &eacute; muito pouca vida, e garante muito menos a vida para    o futuro do que a vida dominada pelo instinto e pela ilus&atilde;o" </i>(14-    pag. 298) . E junto a circular nesse espa&ccedil;o as palavras de um grande    cientista:</font></P>     <P><font size="3"><i>"...nossa experi&ecirc;ncia hist&oacute;rica nos ensina    que, olhando por baixo da superf&iacute;cie das coisas encontramos mais e mais    beleza...Para n&oacute;s, tamb&eacute;m, a beleza das teorias atuais &eacute;    uma antecipa&ccedil;&atilde;o, uma premoni&ccedil;&atilde;o, da beleza da teoria    final".</i> S&atilde;o palavras de um Pr&ecirc;mio Nobel da F&iacute;sica,    Steven Weinberg, no livro <i>Sonhos de uma teoria final</i>.</font></P>     <P><font size="3">Essa beleza circulante ao fundo n&atilde;o seria a da bela m&atilde;e    em sua harmonia de gestos e emo&ccedil;&otilde;es, modulando e deixando-se modular    pelo seu beb&ecirc;? Algu&eacute;m que n&atilde;o p&ocirc;de desfrutar dessa    beleza circula pelo mundo sem a camada protetora da ilus&atilde;o, e ser&aacute;    algu&eacute;m que, conforme suas possibilidades, buscar&aacute; trazer &agrave;    cultura um rompimento dessa atmosfera (de ilus&atilde;o).</font></P>     <P><font size="3">Configura-se o que chamo de cultura destrutiva, gerada pelas    personalidades narc&iacute;sicas destrutivas, personalidades que impossibilitadas    de fluir confiantemente, movimentam-se em espasmos, descargas do &oacute;dio    com o qual buscam se estruturar, como num exemplo: um paciente, sujeito a uma    constante amea&ccedil;a de desintegra&ccedil;&atilde;o do <i>self</i>, levantou-se    numa sess&atilde;o e, diante de mim, buscava estimular em si um estado de contra&ccedil;&atilde;o    muscular e, ap&oacute;s alguns momentos, referiu: "estou chamando meu &oacute;dio,    ele faz com que meus m&uacute;sculos fiquem duros e assim sinto que sou forte    e ningu&eacute;m abusa de mim como se eu fosse um fraquinho qualquer".    Esse paciente &eacute; um dram&aacute;tico exemplo de algu&eacute;m que, pela    falta em sua rela&ccedil;&atilde;o b&aacute;sica de uma possibilidade de experimentar    a onipot&ecirc;ncia, cria como compensa&ccedil;&atilde;o a onipot&ecirc;ncia    secund&aacute;ria que, segundo Winnicott, &eacute; a express&atilde;o de falta    de esperan&ccedil;a em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; depend&ecirc;ncia (15).    Em lugar da onipot&ecirc;ncia permitindo o fluir confiante, temos aqui um poder    originado dos acompanhantes de uma desesperan&ccedil;a n&atilde;o total: humilha&ccedil;&atilde;o,    f&uacute;ria, inveja, &oacute;dio. Cria-se um estado contr&aacute;rio ao fluir    de emo&ccedil;&otilde;es e pensamentos, contr&aacute;rio &agrave; criatividade.    Um m&eacute;dico fil&oacute;sofo, J.R. Elkinton, escreveu que o rim com seu    mecanismo de concentra&ccedil;&atilde;o, retendo &aacute;gua no organismo, liberou    o homem do oceano, raz&atilde;o pela qual chamou-o de "o pr&eacute;-requisito    da liberdade". Em analogia: a presen&ccedil;a no mundo interno do beb&ecirc;    do objeto subjetivo "criado e recriado pelo beb&ecirc; a partir da capacidade    de amor deste ou (pode-se dizer) a partir da necessidade" seria seu meio    l&iacute;quido facilitador de interc&acirc;mbio, cria&ccedil;&otilde;es, recria&ccedil;&otilde;es    com os objetos e com seu pr&oacute;prio mundo interno; seria o pr&eacute;-requisito    &agrave; livre express&atilde;o de seu ser. A cultura nos permite encontrar,    por meio de dois poetas, a descri&ccedil;&atilde;o da melodia, do ritmo que    flui no contato desse ser com o mundo:</font></P> <table width="42%" border="0" align="center">   <tr>      <td colspan="3"><font size="3"><i>"....luego envia</i></font></td>   </tr>   <tr>      <td colspan="3"><font size="3"><i>consonante respuesta,</i></font></td>   </tr>   <tr>      <td colspan="3"><font size="3"><i>y entre ambos a porfia</i></font></td>   </tr>   <tr>      <td colspan="3"><font size="3"><i>Se mezcla una dulcissima armonia</i></font></td>   </tr>   <tr>      <td colspan="3"><font size="3"><i>Aqui la alma navega</i></font></td>   </tr>   <tr>      <td colspan="3"><font size="3"><i>Por un mar de dulzura..."</i></font></td>   </tr>   <tr>      <td width="8%">&nbsp;</td>     <td colspan="2"><font size="3">(Fray Luiz de Leon em <i>Ode a Francisco Salinas</i>)</font></td>   </tr>   <tr>      <td colspan="3">&nbsp;</td>   </tr>   <tr>      <td colspan="3"><font size="3"><i>"...blest the Babe,</i></font></td>   </tr>   <tr>      <td colspan="3"><font size="3"><i>Nursed in his Mother's arms, who sinks to        sleep</i></font></td>   </tr>   <tr>      <td colspan="3"><font size="3"><i>Drinks in the feeling of his Mother's eye</i></font></td>   </tr>   <tr>      <td colspan="3">&nbsp;</td>   </tr>   <tr>      <td colspan="3"><font size="3"><i>Along his infant veins are        infused </i></font></td>   </tr>   <tr>      <td colspan="3"><font size="3"><i>The gravitation and the filial bond </i></font></td>   </tr>   <tr>      <td colspan="3"><font size="3"><i>Of Nature that connect him with the world"</i></font></td>   </tr>   <tr>      <td colspan="2">&nbsp;</td>     <td width="70%"><font size="3">(Worsdworth em <i>The Prelude-III</i>)</font></td>   </tr> </table>     <P><font size="3">Esses trechos de poemas estimulam e clareiam emo&ccedil;&otilde;es    e pensamentos, frutos de uma experi&ecirc;ncia de seus criadores, que os conectou    &agrave;s ra&iacute;zes da Natureza, lhes ofertada pela m&atilde;e suficientemente    boa, e que, pela cria&ccedil;&atilde;o ofertam a quem os encontra, como Carlos    Fuentes no seu contato com o "Quixote".</font></P>     <P><font size="3">A m&atilde;e possibilitadora da cria&ccedil;&atilde;o &eacute;    aquela que possibilitou a seu beb&ecirc; experimentar a conten&ccedil;&atilde;o    das mais fortes ang&uacute;stias, pelos seus cuidados, possibilitando a ilus&atilde;o    da onipot&ecirc;ncia ser vivida pelo beb&ecirc; e assim faz&ecirc;-lo ter um    registro que o permite se aventurar no que seriam os mais arrojados esportes    radicais no campo da alma humana. Freud escreveu numa carta a Stefan Zweig,    em 2 de junho de 1932 (16), que Breuer tinha a chave nas m&atilde;os que lhe    teria aberto o caminho para as m&atilde;es, por&eacute;m que a deixou cair,    e que ele em seus dons espirituais n&atilde;o tinha o componente f&aacute;ustico,    ou seja, n&atilde;o tinha a confian&ccedil;a do conquistador que pode se lan&ccedil;ar    a &aacute;reas totalmente inexploradas, como o do reino das m&atilde;es, descrito    por Goethe no <i>Fausto II</i>, onde impera a escurid&atilde;o e o sil&ecirc;ncio    total, e onde n&atilde;o h&aacute; como saber onde ir&aacute; pousar o p&eacute;    que se lan&ccedil;a para um passo. </font></P>     <P><font size="3">Freud revelou &agrave; cultura a import&acirc;ncia da sexualidade,    o dinamismo do inconsciente e suas leis, o conflito b&aacute;sico entre cria&ccedil;&atilde;o    e destrui&ccedil;&atilde;o. Com essa revela&ccedil;&atilde;o fertilizou-a possibilitando    a novas fertiliza&ccedil;&otilde;es. Os grandes criadores, por seus mergulhos,    passam a espelhar o que circula nos reinos subterr&acirc;neos do mundo do esp&iacute;rito,    assim como os grandes cientistas revelam as leis que regem os fen&ocirc;menos    naturais. Na pseudo-cultura n&atilde;o h&aacute; revela&ccedil;&otilde;es e    sim encena&ccedil;&otilde;es que levam e buscam que se concretize o dom&iacute;nio    dos que a organizam. Em lugar de favorecer ou melhor, fornecer o campo potencial    possibilitador do brincar, e assim da expans&atilde;o, essa pseudo-cultura leva    a uma unifica&ccedil;&atilde;o de um grupo no qual os indiv&iacute;duos se anulam:    "Um povo, um Reich, um F&uuml;hrer" &eacute; o grito martelado. Essa    pseudo-cultura, constru&iacute;da artificialmente a partir de l&iacute;deres    com o narcisismo destrutivo (tonificado, ou melhor, estruturado pelo &oacute;dio)    n&atilde;o alimenta os que nela circulam pois n&atilde;o se conecta com as fontes    naturais, entre elas: o inconsciente humano, ou melhor n&atilde;o se conectam    com nada j&aacute; que ela &eacute; constru&iacute;da artificialmente por peda&ccedil;os    que se juntam: um pouco de teoria da evolu&ccedil;&atilde;o aqui, a exist&ecirc;ncia    de uma pseudo-ra&ccedil;a pura, (a ariana) acol&aacute; e assim por diante.    Est&aacute; claro que exemplifico aqui o nazismo com a sua <i>Weltanschauung</i>.    Ao mesmo tempo, busco aclarar de que modo a psican&aacute;lise pode ajudar a    entender, e assim ser uma das armas de combate contra as pseudo-constru&ccedil;&otilde;es    culturais, que, visando ao dom&iacute;nio de uma sociedade, buscam a anula&ccedil;&atilde;o    do sujeito. Cabe aqui um trecho, datado provavelmente de janeiro de 1942 na    Alemanha, de um escrito de Sophie Scholl, combatente cat&oacute;lica do regime    nazista e no qual se expressa o valor da real experi&ecirc;ncia cultural(17):</font></P>     <P><font size="3"><i>"Na conversa sobre a fome da alma e sobre o alimento    que poderia silenciar essa fome, come&ccedil;amos a falar de m&uacute;sica...    A m&uacute;sica poderia aplacar a fome da alma? Algo que vem da alma poderia    ser seu meio de alimenta&ccedil;&atilde;o?...</i></font></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<P><font size="3"><i>Eu experimentara que um esp&iacute;rito duro sem um cora&ccedil;&atilde;o    d&oacute;cil devia ser t&atilde;o infrut&iacute;fero como um cora&ccedil;&atilde;o    d&oacute;cil sem um esp&iacute;rito duro. Eu creio, a frase vem de Maritain:</i>    Il faut avoir l’ esprit dur et le coeur tendre. <i>Uma palavra n&atilde;o vivenciada    pela alma &eacute; uma palavra morta, e um sentimento que n&atilde;o &eacute;    o &uacute;tero de um pensamento, &eacute; v&atilde;o. M&uacute;sica por&eacute;m    faz o cora&ccedil;&atilde;o d&oacute;cil; ela organiza sua confus&atilde;o,    libera sua contra&ccedil;&atilde;o e cria assim uma disposi&ccedil;&atilde;o    para a a&ccedil;&atilde;o do esp&iacute;rito na alma, na qual ele antes batia    em v&atilde;o, nos seus port&otilde;es fortemente trancados. Bem, totalmente    em sil&ecirc;ncio e sem viol&ecirc;ncia, a m&uacute;sica abre as portas da alma.    Agora elas est&atilde;o abertas! Agora ela est&aacute; pronta, a receber. Esse    &eacute; o efeito &uacute;ltimo, que a m&uacute;sica efetua em mim, a qual a    torna necess&aacute;ria para mim nessa vida". </i></font></P>     <P><font size="3">E escrevendo sobre o que poderia ser a experi&ecirc;ncia de    um p&uacute;blico ouvindo um concerto numa vesperal, sob o regime nazista:</font></P>     <P><font size="3"><i>"O gosto, o qual uma vesperal de concerto tem hoje em    si, &eacute; o insosso, aguado gosto de burguesia. E por&eacute;m n&atilde;o    poderia ser que a m&uacute;sica apesar de tudo tocasse um entre muitos e a vesperal    assim ganhasse um sentido"?</i></font></P>     <P><font size="3">Esse efeito da cultura como contra-veneno a quem &eacute; &uacute;til?    Ser&aacute; que s&oacute; aos que j&aacute; tem com ela um v&iacute;nculo, possibilitado    pela rela&ccedil;&atilde;o b&aacute;sica? Certamente a esses ela marca mais    intensamente pois t&ecirc;m vias de acesso e vias de circula&ccedil;&atilde;o,    mas aos que n&atilde;o tem isto algo acaba por ser encontrado, e a meu ver,    especialmente se h&aacute; como veiculador uma presen&ccedil;a que possibilita    ao futuro receptor uma experi&ecirc;ncia de sentir-se reconhecido, validado.    Aos poucos, a cultura por suas obras, vai sendo um objeto reconhecedor do sujeito    e assim validando-o, chama-o a tomar posse do que &eacute; seu, assim como no    caso espec&iacute;fico do psicanalista torna-se um meio de afinar seu ouvido    e apurar seu tato, por, a exemplo de Freud, deixar circular em si os ritmos,    as emo&ccedil;&otilde;es das grandes obras e "na m&aacute;gica dessas obras    se deixar", repetindo Fuente, "viver". </font></P>     <P><font size="3">Uma experi&ecirc;ncia minha ao ler Freud numa extens&atilde;o    maior do que a de uma simples consulta &eacute; a de me sentir uma pessoa melhor,    uma experi&ecirc;ncia de expans&atilde;o. Recordo palavras de Goethe: "Todo    objeto bem contemplado abre em n&oacute;s um novo &oacute;rg&atilde;o".    Volto algumas p&aacute;ginas atr&aacute;s, ao falar da intimidade de um ser    com seu mundo, a intimidade com os objetos que n&atilde;o fazem obje&ccedil;&otilde;es    &agrave; sua exist&ecirc;ncia, objetos que o contemplam bem – esse &eacute;    o mundo cultural pleno de objetos que por nos contemplarem bem, nos abrem um    &oacute;rg&atilde;o a mais para que por nossa parte possamos ver melhor. Certamente    Freud na intimidade com Dom Quixote, com Fausto, abriu em si alguns &oacute;rg&atilde;os    a mais que lhe permitiram ver, naquilo que era considerado o lixo da psiquiatria:    histeria e sonhos, um sentido e a chave do inconsciente e suas leis.</font></P>     <P>&nbsp;</P>     <P><font size="3"><b><i>Henrique Honigsztejn</i></b> <i>&eacute; psicanalista,    membro efetivo e analista qualificado a analisar e supervisionar candidatos    da Sociedade Brasileira de Psican&aacute;lise do Rio de Janeiro. &Eacute; autor    de A psicologia da cria&ccedil;&atilde;o (l990).</i></font></P>     <P>&nbsp;</P>     <P>&nbsp;</P>     <P><font size="3"><b>REFER&Ecirc;NCIAS BIBLIOGR&Aacute;FICAS:</b></font></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><P><font size="3">1.  Freud, S. (1917). <i>Vorlesungen zur Einfiihrung in die    Psychoanalyse und Neue Folge</i> – III Teil,24. <i>Confer&ecirc;ncias introdut&oacute;rias    sobre psican&aacute;lise</i>. parte III – 24 Band I – S. Fischer Verlag . Frankfurt    am Main – 1969. (Ed. Standard Brasileira – vol. XVI (pag. 453). Imago Editora    - Rio de Janeiro. 1976.</font><!-- ref --><P><font size="3">2.  Freud. S. (1904) &Uuml;ber Psychotherapie – Studienausgabe-    1904 (S.A) S. Ficher Verlag – <i>Frankfurter am main</i>. 1975 (Ed. Standard,    Brasileira – vol. VII pag. 245 e sg.) 1989.</font><!-- ref --><P><font size="3">3. Freud. S. (1895) <i>Projeto para uma psicologia cient&iacute;fica</i>    (1950) Ed. Standard Brasileira – vol. I Imago Editora Rio de Janeiro. 1990.</font><!-- ref --><P><font size="3">4.  Freud, S. (1926) <i>Hemmung, symptom und angst</i> –    S. A. vol VI – <i>Inibi&ccedil;&otilde;es, sintomas e ansiedade</i>, pag. 162.    Ed. St. Bras. Imago, vol. XX. 1976.</font><!-- ref --><P><font size="3">5.  Freud. S. (1914) <i>Zur einf&uuml;hrung der narzissmus</i>    –S.A vol. III. 1914. 1975; Ed. St. Bras Imago –vol. XIV pg. 93. 1974.</font><!-- ref --><P><font size="3">6.  Freud, S. (1917) Eine Kindheitserinnerung aus Dichtung    und Wahreit – S. A . vol. X – 1969; <i>Uma recorda&ccedil;&atilde;o de inf&acirc;ncia    de Dichtung und Wahreit</i>. Ed; St. Bras. Imago – vol. XVII. 1976. </font><!-- ref --><P><font size="3">7.  Winnicott, D. W. "Transitional objects and transitional    phenomena" in: <i>Playing and reality</i>. Tavistock Publications, London.    1971.</font><!-- ref --><P><font size="3">8.  Winnicott, D. W. (1954) "Estabelecimento da rela&ccedil;&atilde;o    com a realidade externa – criatividade prim&aacute;ria" <i>in: Natureza    humana</i>. Imago Editora Rio. 1990.</font><!-- ref --><P><font size="3">9.  Schiller, J.C.F.(1796) <i>in: Schillers Werke</i> – vol.    VIII Meyers Klassker – Ausgaben – Leipzig und Wien s.d.</font><!-- ref --><P><font size="3">10.  Freud, S. (1925) <i>Selbstdarstellung</i> – Fischer    Taschenbuch Verlag 1971 – <i>Um estudo autobiogr&aacute;fico</i>. Ed. St. Bras.    Vol. XX. 1976. </font><!-- ref --><P><font size="3">11.  Winnicott, D. W. (1958) – "The capacity to be alone"    <i>in The maturational processes and the faciliting environment</i>. The Hogarth    Press, London. 1965.</font><!-- ref --><P><font size="3">12.  Honigsztejn, H. <i>A psicologia da cria&ccedil;&atilde;o</i>.    Ed. Imago, Rio. 1990.</font><!-- ref --><P><font size="3">13.  Simmel, G. – citado no verbete Kultur da <i>Historiches    worterbuch der philosophie</i> – Wissenschaftliche Buchgesellschaft – Darmstadt.    1976.</font><!-- ref --><P><font size="3">14.  Nietzsche, F. <i>Unzeitgem&auml;sse betrachtungen II    kritische studienausgabe</i> – vol. I – Deutscher Taschenbuch Verlag – de Gruyter    – Munchen, Berlin, New York. 1980.</font><!-- ref --><P><font size="3">15.  Winnicott, D. W. "Dreaming, fantasying and living"    <i>in: Playing and reality</i>. 1971.</font><!-- ref --><P><font size="3">16.  Freud, S. (1932) – <i>Briefe 1873 – 1939</i> – S. Fischer    Verlag Frankfurt am Main. 1960.</font><!-- ref --><P><font size="3">17.  Scholl, Hans e Sophie – <i>Briefe und aufzeichnungen</i>.    Fischer Taschenbuch Verlag – Frankfurt am Main. 1988.</font> ]]></body><back>
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