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</front><body><![CDATA[ <P align="center"><img src="/img/revistas/cic/v56n4/a13img01.gif"></P>     <P>&nbsp;</P>     <P><font size="4"><b><a name="tx"></a>DESTRUI&Ccedil;&Atilde;O DA CULTURA, DESTRUI&Ccedil;&Atilde;O    DE SIGNIFICADOS E REPRESENTA&Ccedil;&Otilde;ES<a href="#nt"><sup>*</sup></a></b></font></P>     <P><font size="3"><b>Leopold Nosek</b></font></P>     <P>&nbsp;</P>     <P><font size=5><b>O</b></font><font size="3">s rituais e os mitos toleram poderosas    doses de fantasia e deforma&ccedil;&otilde;es da realidade se cumprirem sua    fun&ccedil;&atilde;o de permitir o fluir da vida, a ordena&ccedil;&atilde;o    da experi&ecirc;ncia pessoal e o viver comum. Permitem que n&atilde;o necessitemos    pensar a cada momento e a cada experi&ecirc;ncia. Encontramos um aparelho cultural    j&aacute; pr&eacute;-existente que nos encaminha nas b&ecirc;n&ccedil;&atilde;os    do nascimento, nos trajetos de passagem para a vida sexual e adulta e para os    cerimoniais da morte como tamb&eacute;m para as rotinas da reprodu&ccedil;&atilde;o    social e encaminhamento de nossas necessidades subjetivas. Freud nos dizia em    <i>Totem e tabu</i> como os cerimoniais de luto nos protegem da alegria, por    termos sobrevivido, ou do &oacute;dio por sermos abandonados.</font></P>     <P><font size="3">Nada se encontra mais no lugar de costume e, se est&aacute;vamos    distra&iacute;dos, o 11 de setembro e o 11 de mar&ccedil;o n&atilde;o nos permitiram    mais a cegueira. Causaram um choque perceptivo que nos obriga &agrave; reflex&atilde;o.    Por&eacute;m, a viol&ecirc;ncia &eacute; apenas mais barulhenta. O que aconteceu    na Fran&ccedil;a quando oito mil idosos morreram pelo calor do ver&atilde;o    de 2003? Foram afetados pelas altas temperaturas ou pelo abandono social e isolamento,    ou pelo fato de terem-se tornado estrangeiros em sua cidade, bairro, rua, edif&iacute;cio    e fam&iacute;lia? O n&uacute;mero de idosos falecidos &eacute; tr&ecirc;s vezes    o n&uacute;mero de v&iacute;timas no atentado ao WTC. Realmente a reflex&atilde;o    n&atilde;o se realiza, obrigatoriamente, pois como a psican&aacute;lise ensina,    poderemos reagir ao trauma repetindo indefinidamente as mensagens recebidas    e, utilizando velhos recursos, rotinas, formas habituais de pensar, recusar    o pensamento cr&iacute;tico e criativo e assim permanecer inalterados em nosso    aparente saber. Buscamos nessa repeti&ccedil;&atilde;o atenuar o choque e fazer    triunfar a perman&ecirc;ncia do consagrado. Em outro trajeto, podemos tamb&eacute;m    demonizar o estranho ou, com um pouco mais de recurso, chamando a for&ccedil;a    e a pol&iacute;cia, podemos afastar de nosso campo de sensibilidades o que traz    risco para a nossa sacralizada paz. Nada disso &eacute; muito obscuro, tudo    faz parte dos recursos b&aacute;sicos do esp&iacute;rito para lidar com a vida    pessoal desde muito precocemente. Vemos isso todos os dias em nossas salas de    an&aacute;lise. Com um pouco mais de expediente, encontraremos explica&ccedil;&otilde;es    positivas e seguras, compreenderemos e tomaremos provid&ecirc;ncias eficazes,    ser cient&iacute;fico &eacute; o apelo. O que n&atilde;o soubermos – e n&atilde;o    suportamos tal in&eacute;pcia – chamaremos de Deus, e mais uma vez retornaremos    ao saber seguro, ao fundamentalismo.</font></P>     <P><font size="3">Mas, como Marlow, o narrador de <i>O cora&ccedil;&atilde;o das    trevas</i>, de Joseph Conrad, gosto de pensar que:</font></P>     <P><font size="3">"The yarns of seamen have a direct simplicity, the whole    meaning of which lies within the shell of a cracked nut. But Marlow was not    typical (if his propensity to spin yarns be excepted), and to him the meaning    of an episode was not inside like a kernel but outside, enveloping the tale    which brought it out only as a glow brings out a haze, in the likeness of one    of these misty halos that sometimes are made visible by the spectral illumination    of moonshine".</font></P>     <P><font size="3">De fato n&atilde;o temos os diagn&oacute;sticos e as solu&ccedil;&otilde;es.    Mas ainda assim a reflex&atilde;o se imp&otilde;e. Como a Marlow, apenas algumas    reflex&otilde;es espectrais se mostram a mim.</font></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<P><font size="3">O mundo se move e o esp&iacute;rito o persegue como T&acirc;ntalo,    sem nunca abra&ccedil;&aacute;-lo. Otto Rauk dizia que a cultura &eacute; como    o sonho da humanidade. Devemos dormir todos os dias para que possamos sonhar    e assim darmos conta do traum&aacute;tico cotidiano ou, o que tamb&eacute;m    &eacute; verdade, porque sonhamos, dormimos. Sabemos que poucos dias sem dormir    bastam para que se instale a loucura. Dizendo de outro modo, a loucura, por    ser carente de sonhos impede a percep&ccedil;&atilde;o do novo. Podemos sobreviver    por mais tempo sem alimento ou abrigo do que sem dormir. Ali&aacute;s, alimenta&ccedil;&atilde;o    e abrigo s&atilde;o o que necessita uma plantinha, acrescente-se afeto e estamos    no campo do que requerem os animais dom&eacute;sticos. A cultura &eacute;, portanto,    o sonho que nos humaniza. Aqui penso em cultura como a roupa que vestimos, o    livro que lemos, a m&uacute;sica que ouvimos, a maneira como saudamos nosso    semelhante. S&atilde;o os mitos, os rituais que recheiam nossa vida de significado    e sentido. O conjunto &eacute; como uma po&eacute;tica que elabora o passado,    significa o presente e projeta o futuro. No entanto, este acervo &eacute; insuficiente    para dar conta do movimento do mundo, para fazermos frente &agrave; individualidade,    ao fato de termos um corpo, um sexo, amores, paix&otilde;es e morte. Aqui estamos    no campo do traum&aacute;tico. A simples exist&ecirc;ncia de um porvir j&aacute;    &eacute; traum&aacute;tica. </font></P>     <P><font size="3">Eric Hobsbawn no seu livro <i>Interesting times</i> fala que    a segunda metade do s&eacute;culo XX foi um per&iacute;odo inusitado da hist&oacute;ria    da humanidade e que, a n&atilde;o ser por deflagra&ccedil;&otilde;es e guerras    localizadas, nunca a humanidade viveu um estado de paz e prosperidade t&atilde;o    evidentes. O ritmo de produ&ccedil;&atilde;o de mercadorias atingiu uma ordem    universal com uma &uacute;ltima afirma&ccedil;&atilde;o triunfante marcada e    simbolizada pela queda do Muro de Berlim. A economia de mercado se torna hegem&ocirc;nica,    superando as tentativas de acumula&ccedil;&atilde;o primitiva mediadas pela    centraliza&ccedil;&atilde;o do Estado.</font></P>     <P><font size="3">A acumula&ccedil;&atilde;o por parte de empresas privadas &eacute;    de tal monta que supera o poder do Estado causando, pela concorr&ecirc;ncia,    n&atilde;o somente a fal&ecirc;ncia do leste europeu, como gerando mudan&ccedil;as    em toda parte, em toda a organiza&ccedil;&atilde;o social, afetando, em &uacute;ltima    an&aacute;lise, as formas de organiza&ccedil;&atilde;o de nossa subjetividade.    A globaliza&ccedil;&atilde;o n&atilde;o &eacute; a marca que disting&uuml;e    nossa &eacute;poca. Ela j&aacute; estava presente na transforma&ccedil;&atilde;o    do mundo na &eacute;poca das grandes navega&ccedil;&otilde;es. Assim, a chegada    &agrave; Europa das riquezas provenientes do Novo Mundo acentua as transforma&ccedil;&otilde;es    que s&atilde;o sua conseq&uuml;&ecirc;ncia. Os estados nacionais que surgem    t&ecirc;m a&iacute; um fator de acelera&ccedil;&atilde;o. A infla&ccedil;&atilde;o    que surge na Espanha, fruto da chegada de quantidades enormes de prata do Peru    e da Bol&iacute;via &eacute; fator determinante na <i>d&eacute;b&acirc;cle</i>    da grande armada de Felipe II e no surgimento de uma nova pot&ecirc;ncia colonial    – a Inglaterra.</font></P>     <P><font size="3"><b>GLOBALIZA&Ccedil;&Atilde;O</b> A vinda de escravos da &Aacute;frica    ao Brasil entranha as estruturas sociais de ambas as regi&otilde;es at&eacute;    hoje. Assim, globaliza&ccedil;&atilde;o &eacute; um termo que ofusca mais do    que ilumina as novas quest&otilde;es. Talvez o conceito de p&oacute;s-modernidade    tamb&eacute;m n&atilde;o seja esclarecedor, j&aacute; que n&atilde;o h&aacute;    de fato uma mudan&ccedil;a no paradigma do viver social, mas sim uma agudiza&ccedil;&atilde;o    e uma radicaliza&ccedil;&atilde;o nas formas tradicionais de organiza&ccedil;&atilde;o    da sobreviv&ecirc;ncia e reprodu&ccedil;&atilde;o das estruturas sociais e econ&ocirc;micas.</font></P>     <P><font size="3">Continuamos a viver num mundo produtor de mercadorias e em busca    do lucro. A acumula&ccedil;&atilde;o para a produ&ccedil;&atilde;o &eacute;    um problema tanto das economias liberais como das estatizantes. O que caracteriza    nossa &eacute;poca &eacute; um salto tecnol&oacute;gico que &eacute; correlato    &agrave; centraliza&ccedil;&atilde;o de capitais. Esta &eacute; de tal ordem    que empresas privadas t&ecirc;m um poder de investimento que supera o da maior    parte dos Estados nacionais. O Estado deixa de ser um ordenador da economia    e torna-se, inclusive, um empecilho para a livre circula&ccedil;&atilde;o do    capital. Perde seu poder de suprir educa&ccedil;&atilde;o, sa&uacute;de, guarda    de fronteiras e seguran&ccedil;a aos seus cidad&atilde;os. Tudo se privatiza.    O ac&uacute;mulo de recursos torna mais eficiente a produ&ccedil;&atilde;o.    O espectro da fome desaparece e a gama de produtos dispon&iacute;veis ao viver,    &agrave; comunica&ccedil;&atilde;o, ao lazer, nunca foi t&atilde;o ampla. Ao    mesmo tempo, massas de pessoas s&atilde;o deslocadas de seu fazer habitual.    O pr&oacute;prio trabalho requer crescente concentra&ccedil;&atilde;o de efic&aacute;cia.    N&atilde;o basta a universidade, o MBA ou um PHD para ter a garantia de emprego.</font></P>     <P><font size="3">Por&eacute;m, o desenvolvimento cont&eacute;m um paradoxo: as    popula&ccedil;&otilde;es letradas aumentam, a liberdade individual se amplia    mas a inseguran&ccedil;a tamb&eacute;m aumenta. O ciclo econ&ocirc;mico se acelera.    A riqueza se avoluma, mas para indiv&iacute;duos envolvidos em atividades de    ponta na economia, n&atilde;o &eacute; nenhuma surpresa tornar-se obsoleto aos    quarenta anos. Vivemos mais, mas nos tornamos anacr&ocirc;nicos mais cedo. Esse    movimento social amplia as massas de l&uacute;mpens, a classe trabalhadora e    a classe m&eacute;dia se dissolvem. Ao lado do incremento da riqueza e das possibilidades    &eacute; inevit&aacute;vel a explos&atilde;o de massas de exclu&iacute;dos.    A produ&ccedil;&atilde;o requer menos indiv&iacute;duos envolvidos e o setor    terci&aacute;rio se agiganta. A pr&oacute;pria riqueza se apresenta mais explicitamente    para ilustrar a exclus&atilde;o: desenvolvem-se em condom&iacute;nios e espa&ccedil;os    exclusivos das cidades guetos de privilegiados. Al&eacute;m disso, essa acumula&ccedil;&atilde;o    ocorre tamb&eacute;m em p&oacute;los internacionais de desenvolvimento e assim    se d&aacute; a marginaliza&ccedil;&atilde;o e a lumpeniza&ccedil;&atilde;o de    culturas, civiliza&ccedil;&otilde;es e povos inteiros. Mas isto j&aacute; &eacute;    outra discuss&atilde;o.</font></P>     <P><font size="3">&Eacute; neste campo de inseguran&ccedil;a que vou introduzir    uma reflex&atilde;o psicanal&iacute;tica. Ter&aacute; como prop&oacute;sito    como que uma microscopia do conceito de Durkheim de anomia, ou seja, a perda    de valores morais e culturais, produto de mudan&ccedil;as da estrutura econ&ocirc;mica    e social.</font></P>     <P><font size="3"><b>MUDAN&Ccedil;AS</b> Minha gera&ccedil;&atilde;o ficou adulta    no final dos anos 1960. Participou talvez da maior convuls&atilde;o pol&iacute;tica    e social que precedeu as mudan&ccedil;as a que assistimos hoje. Vou dar alguns    exemplos do cotidiano para ilustrar as mudan&ccedil;as em jogo. Em 1970, o Brasil    foi tricampe&atilde;o mundial de futebol, enquanto muitos de minha gera&ccedil;&atilde;o    eram presos ou &eacute;ramos chamados de terroristas. Terrorista, ent&atilde;o,    era um termo gen&eacute;rico que se aplicava a todos que se opunham aos regimes    militares na Am&eacute;rica Latina. Vejam que o termo hoje implica em formula&ccedil;&otilde;es    diferentes. Diferentes dos anarquistas do s&eacute;culo XIX e dos de minha juventude.</font></P>     <P><font size="3">Mas, voltando ao futebol, o goleiro do Brasil passava a bola    para o lateral que caminhava com ela at&eacute; perto do centro do campo. Ent&atilde;o,    ele a tocava para G&eacute;rson, meio de campo genial que tamb&eacute;m n&atilde;o    corria (sabia-se que ele fumava). Da&iacute; G&eacute;rson dava um passe de    40 metros para Jairzinho, este sim era excelente corredor, e s&oacute; a&iacute;    ent&atilde;o apareciam no v&iacute;deo (pela primeira vez v&iacute;amos uma    copa do mundo pela TV) alguns advers&aacute;rios italianos como que a perscrutar    o que o brasileiro estava a fazer ali perto do gol. N&oacute;s gost&aacute;vamos    quando a bola chegava a Pel&eacute; e ele, fazendo algum malabarismo fant&aacute;stico,    a colocava para dentro do gol advers&aacute;rio. Era o tempo do milagre econ&ocirc;mico    brasileiro.</font></P>     <P><font size="3">Hoje, quando o goleiro passa a bola para o defensor, este j&aacute;    est&aacute; sob forte ass&eacute;dio dos marcadores. Corre-se hoje por todo    o espa&ccedil;o, tudo est&aacute; sob marca&ccedil;&atilde;o. Como no futebol,    que &eacute; popular como &eacute; porque mimetiza a vida. &Eacute; o esporte    que se caracteriza pela imprevisibilidade, onde a l&oacute;gica e a justi&ccedil;a    n&atilde;o predominam, pois o melhor n&atilde;o vence, necessariamente, o pior    e, al&eacute;m disso, &agrave;s vezes o juiz rouba. Tudo faz parte do jogo.</font></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<P><font size="3">Naquela &eacute;poca, para quem quisesse estar em forma havia    o manual da for&ccedil;a a&eacute;rea canadense, que apregoava que doze minutos    de gin&aacute;stica di&aacute;ria asseguravam boa sa&uacute;de f&iacute;sica.    A seguir, se torna popular a prescri&ccedil;&atilde;o de Cooper de fazer tr&ecirc;s    quil&ocirc;metros de corrida em 14 minutos. Hoje, no entanto, se n&atilde;o    se corre uma maratona o que se faz n&atilde;o &eacute; levado a s&eacute;rio.    </font></P>     <P><font size="3">Como psiquiatra e terapeuta iniciante no come&ccedil;o dos anos    1970, vi dois casos de anorexia, nenhum de bulimia ou p&acirc;nico, e epidemias    de obesidade n&atilde;o estavam no horizonte. Discutia-se se a produ&ccedil;&atilde;o    de alimentos acompanharia a explos&atilde;o demogr&aacute;fica. Quando havia    um roubo numa cidade pequena, se sabia onde morava o ladr&atilde;o. O louco    oficial era tolerado e as crian&ccedil;as brincavam com ele na pra&ccedil;a.    Como analista, tinha uma preocupa&ccedil;&atilde;o de a&ccedil;&atilde;o pr&oacute;xima    &agrave; da vis&atilde;o que se popularizou – a de que atrav&eacute;s da psican&aacute;lise    o inconsciente se tornaria consciente.</font></P>     <P><font size="3">Eis o que eu fazia: procurava, a partir do que se manifestava,    encontrar significados ocultos que, quando revelados, levariam a uma amplia&ccedil;&atilde;o    do recurso pessoal e desfariam os sintomas. Estes estavam de acordo com a formula&ccedil;&atilde;o    de Freud: "estas maravilhosas constru&ccedil;&otilde;es est&eacute;ticas    que s&atilde;o os sintomas". Eram plenos de mist&eacute;rio, engenho e    significado. A consigna era "onde havia inconsciente para haver consciente".</font></P>     <P><font size="3">Hoje, as patologias e os fen&ocirc;menos que vemos predominantemente    nos consult&oacute;rios t&ecirc;m outra organiza&ccedil;&atilde;o. O que vemos    &eacute; pobreza construtiva no que nos falam os pacientes de dist&uacute;rbios    alimentares, p&acirc;nico, humores depressivos ou at&eacute; mesmo os que apresentam    queixas expl&iacute;citas de falta de sentido. N&atilde;o falam muito, pouco    se estendem em suas formula&ccedil;&otilde;es ou, quando o fazem, n&atilde;o    abstraem sua apresenta&ccedil;&atilde;o, t&ecirc;m uma concretude dura, uma    exterioridade densa, e pouca possibilidade de suspeitarem da exist&ecirc;ncia    de uma interioridade. Meu olhar foi mudando ou mudou a subjetividade com a qual    nos deparamos? Acredito que encontramos a mente n&atilde;o mais em epis&oacute;dios    desconstrutivos, mas sim em estado de n&atilde;o constru&ccedil;&atilde;o. Estaria    ent&atilde;o a psican&aacute;lise ultrapassada? Entramos na era das medica&ccedil;&otilde;es    e das variantes de velhas abordagens de condicionamentos?</font></P>     <P><font size="3"><b>CONSTRU&Ccedil;&Atilde;O DO ESP&Iacute;RITO</b> A reflex&atilde;o    que se imp&otilde;e, ent&atilde;o, &eacute; como se constr&oacute;i o esp&iacute;rito,    tanto na vertente individual como a do indiv&iacute;duo imerso na sociedade.    A cultura fornece, com a l&iacute;rica, conte&uacute;do e conhecimentos, mas    n&atilde;o apenas isso. Fornece pela sua forma, como vemos na arte, a estrutura    do pensar. Funciona como o sonho da humanidade. Retomando a id&eacute;ia de    barreira de contato do psicanalista ingl&ecirc;s W. Bion, podemos dizer que    os sonhos, ou melhor, os elementos on&iacute;ricos constroem o territ&oacute;rio    do inconsciente e do consciente, d&atilde;o a raiz associativa de m&uacute;ltiplo    trajeto para o estar no mundo e para responder a ele. Por esta membrana criam    a estrutura da intimidade. V&atilde;o dar, tamb&eacute;m, a forma que separa    masculino do feminino, vivo do morto e interno e externo. Na constru&ccedil;&atilde;o    dessa membrana constitui-se como que um aparelho de permeabilidade seletiva    que nos protege do excesso de est&iacute;mulos. Para tomar apenas um exemplo,    sem a membrana on&iacute;rica os nossos olhos nada veriam, ou a vis&atilde;o    seria ca&oacute;tica e excessiva. N&atilde;o poder&iacute;amos lidar com a luz,    as formas, as texturas etc. O mesmo ocorre em qualquer &oacute;rg&atilde;o dos    sentidos ou para a consci&ecirc;ncia de nossos desejos e emo&ccedil;&otilde;es.    Ou seja, a formula&ccedil;&atilde;o central dessa reflex&atilde;o &eacute; que    os sonhos n&atilde;o somente povoam o esp&iacute;rito como tamb&eacute;m lhe    fornecem sua arquitetura e possibilitam a vida de rela&ccedil;&atilde;o com    as pessoas e com o mundo. Lembro Freud que, numa linda met&aacute;fora, nos    dizia que os sonhos s&atilde;o como as estrelas, pois est&atilde;o sempre a&iacute;.    Mas para enxerg&aacute;-los &eacute; preciso que se fa&ccedil;a o escuro. Os    processos on&iacute;ricos n&atilde;o se interrompem na vig&iacute;lia, apenas    passam desapercebidos.</font></P>     <P><font size="3">O Brasil de 1970 tinha 90 milh&otilde;es de habitantes dos quais    45 milh&otilde;es moravam nas cidades. No censo de 2000 t&iacute;nhamos ao redor    de 170 milh&otilde;es, 80% vivendo nas cidades. Ou seja, nossas cidades foram    palco de uma enorme migra&ccedil;&atilde;o, sofrendo uma explos&atilde;o demogr&aacute;fica    espantosa. Isso ocorre por ocasi&atilde;o do chamado milagre econ&ocirc;mico    brasileiro que foram anos de estupendo crescimento da economia. Beneficiado    por aportes de capital estrangeiro, o PNB cresceu por anos seguidos a uma taxa    aproximada de 10% ao ano. Com a entrada desses capitais no campo, a estrutura    da agricultura se modifica rapidamente. Desaparecem os colonos, os meeiros,    a agricultura de subsist&ecirc;ncia, e o trabalho se torna assalariado. H&aacute;,    tamb&eacute;m, incremento dos modos de produ&ccedil;&atilde;o, que se torna    maquinizada e concentrada. As popula&ccedil;&otilde;es deslocam-se para a periferia    das zonas agr&iacute;colas e, ou conseguem trabalho na agricultura ou, dado    o menor n&uacute;mero de trabalhadores necess&aacute;rios para a produ&ccedil;&atilde;o,    v&atilde;o procurar novas formas de inser&ccedil;&atilde;o social. Ao mesmo    tempo, nas cidades grandes vemos tamb&eacute;m um crescimento da concentra&ccedil;&atilde;o    de capitais e a revolu&ccedil;&atilde;o tecnol&oacute;gica que transforma poderosamente    o modo de viver. Ocorrem mudan&ccedil;as no sistema sindical e, como em toda    parte, o Estado perde seu poder de interven&ccedil;&atilde;o tanto como organizador    da economia quanto como instrumento de garantia de seguran&ccedil;a da popula&ccedil;&atilde;o.    Seu poder de investimento decai, o que resulta em atraso de obras de infraestrutura,    educa&ccedil;&atilde;o, saneamento etc. Assistimos &agrave; privatiza&ccedil;&atilde;o    de todas as &aacute;reas. Uma crise cr&ocirc;nica se instala e o Brasil, que    no in&iacute;cio dos anos 1980 chega a ser a 8&ordf; economia mundial em termos    da medida do PNB, atravessa a passagem do s&eacute;culo ainda mergulhado na    crise.</font></P>     <P><font size="3">Como podemos incorporar 80 milh&otilde;es de novos habitantes    urbanos? N&atilde;o podemos. As favelas crescem, n&atilde;o se criam novos empregos,    sobrevive-se de expedientes, h&aacute; um crescimento vertiginoso da criminalidade    e da viol&ecirc;ncia urbana. Classes mais abastadas vivem em resid&ecirc;ncias    de muros altos, condom&iacute;nios fechados, com cada edif&iacute;cio possuindo    seu pr&oacute;prio sistema de seguran&ccedil;a especializado. As ruas, as pra&ccedil;as    se tornam lugares de passagem e os shopping centers tomam o lugar dos espa&ccedil;os    p&uacute;blicos. A mulher chega ao mercado de trabalho e, comumente nas classes    mais desfavorecidas, ela se torna o eixo da sobreviv&ecirc;ncia pois, ganhando    menos, tem acesso facilitado. </font></P>     <P><font size="3">Isso tudo ocorre vertiginosamente e n&atilde;o h&aacute; tempo    suficiente para se organizar socialmente: n&atilde;o somente um sistema de viver    como, tamb&eacute;m, estruturas culturais para fornecer o meio espec&iacute;fico,    o tecido conjuntivo intersticial que liga as classes, os grupos sociais, os    habitantes de uma mesma localidade, seja ela uma regi&atilde;o, cidade, bairro    ou quarteir&atilde;o. Perdem-se os modos tradicionais e n&atilde;o h&aacute;    tempo de se organizar, o que seria mais compat&iacute;vel com os tempos que    correm. Em <i>Vinhas da ira</i>, de John Steinbeck, vemos os plantadores de    laranja tendo o tempo de adapta&ccedil;&atilde;o na sua migra&ccedil;&atilde;o    quando chegam &agrave; Calif&oacute;rnia. </font></P>     <P><font size="3"><b>BARB&Aacute;RIE</b> Hoje, o ciclo econ&ocirc;mico &eacute;    t&atilde;o mais r&aacute;pido que &eacute; de se pensar se essa adapta&ccedil;&atilde;o    vai ocorrer ou se teremos apenas ilhas de civiliza&ccedil;&atilde;o cercadas    de barb&aacute;rie crescente. Isto ocorre no interior dos pa&iacute;ses como,    por exemplo, o Brasil, e tamb&eacute;m entre regi&otilde;es, na divis&atilde;o    internacional do capital e do trabalho. Como dito antes, o corol&aacute;rio    desta din&acirc;mica traz, ao lado do incremento de riquezas, a possibilidade    de destrui&ccedil;&atilde;o do sentido e das representa&ccedil;&otilde;es necess&aacute;rias    para, por assim dizer, deixar a vida correr. No plano social h&aacute; a destrui&ccedil;&atilde;o    da cultura tradicional, o que leva a altera&ccedil;&otilde;es na estrutura familiar:    desaparece o tempo do lazer, do conv&iacute;vio, do flanar, do brincar, da intera&ccedil;&atilde;o    criativa. Os adultos, mergulhados na quest&atilde;o da sobreviv&ecirc;ncia,    as fam&iacute;lias desfeitas, as novas formas das rela&ccedil;&otilde;es entre    os sexos n&atilde;o permitem que se estruture a rela&ccedil;&atilde;o que promove    o acervo individual de sonhos. &Eacute; comum encontrar numa fam&iacute;lia    da periferia de S&atilde;o Paulo o pai desempregado, a m&atilde;e trabalhando    fora e os filhos de 6 anos cuidando dos filhos menores. &Eacute; tamb&eacute;m    comum a gravidez entre adolescentes e todas as mazelas sociais imagin&aacute;veis.</font></P>     <P><font size="3">Como disse antes, acostumamo-nos com a id&eacute;ia da psican&aacute;lise    como descobridora de significados ocultos que, ao serem revelados, desfariam    os n&oacute;s que causam os sintomas e os sofrimentos do esp&iacute;rito. Esta    &eacute;, inclusive, a vis&atilde;o que a sociedade tem da nossa pr&aacute;tica.    Numa formula&ccedil;&atilde;o freudiana, seria a nossa tarefa tornar o inconsciente    consciente. Na formula&ccedil;&atilde;o kleiniana cl&aacute;ssica, seria encontrar    a ang&uacute;stia, a defesa e as fantasias. Essas formas de encarar o trabalho    cl&iacute;nico pressup&otilde;em que existe um territ&oacute;rio separado do    outro, ou seja, que o inconsciente j&aacute; est&aacute; estruturado. Pressup&otilde;em    que existe uma fronteira que separa os dois territ&oacute;rios. H&aacute; que    cuidar que essa vis&atilde;o espacial &eacute; apenas uma met&aacute;fora para    dar conta da compreens&atilde;o do aparelho ps&iacute;quico. No entanto, como    &eacute; cl&aacute;ssica, vou me manter nela.</font></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<P><font size="3">Vimos como as estruturas cl&aacute;ssicas que encontramos nos    consult&oacute;rios foram se transformando. N&atilde;o encontramos mais com    freq&uuml;&ecirc;ncia a possibilidade confort&aacute;vel de trabalharmos com    outra subjetividade, mantendo-nos com exist&ecirc;ncia garantida. Encontramos    ou pobreza associativa ou, o que &eacute; mais comum, a fala com fun&ccedil;&atilde;o    de a&ccedil;&atilde;o ou de al&iacute;vio. Se n&atilde;o houver a fala de livre    associa&ccedil;&atilde;o tamb&eacute;m n&atilde;o h&aacute; trajeto para interpretarmos    o inconsciente. As subjetividades se misturam e isso deve ser permitido ou n&atilde;o    h&aacute; trabalho anal&iacute;tico, apenas uma esp&eacute;cie de doutrina&ccedil;&atilde;o,    de explica&ccedil;&otilde;es psicanal&iacute;ticas que podem oferecer, quando    muito, um campo artificial de seguran&ccedil;a.</font></P>     <P><font size="3">Assim, coloca-se imediatamente a quest&atilde;o da mat&eacute;ria    de que s&atilde;o feitas as fronteiras. Como se organizam e se s&atilde;o apenas    separa&ccedil;&atilde;o virtual entre inst&acirc;ncias ps&iacute;quicas ou se    essas membranas s&atilde;o elas mesmas estruturas em si. Vimos com Bion que,    por justaposi&ccedil;&atilde;o de elementos on&iacute;ricos, estabelecem-se    duas faces – uma de conte&uacute;dos manifestos e outra de conte&uacute;dos    latentes. A constru&ccedil;&atilde;o de sonhos permite a estrutura&ccedil;&atilde;o    desses dois espa&ccedil;os do consciente e do inconsciente. O mesmo autor nos    mostra como tal processo de constru&ccedil;&atilde;o &eacute; social. Uma subjetividade    se encarrega de sonho imposs&iacute;vel para a outra, e lhe fornece elementos    mais simples para que a primeira possa organizar tanto sua capacidade de sonhar    as experi&ecirc;ncias &agrave;s quais est&aacute; submetida como seu sonho individual    espec&iacute;fico. Esta entrega que, em geral, associamos a uma fun&ccedil;&atilde;o    materna, &eacute; a raiz de toda a &eacute;tica, corresponde ao olhar absolutamente    gratuito de um ser humano sobre outro. Num outro contexto talvez pud&eacute;ssemos    discutir a &eacute;tica derivada do superego, mas de qualquer forma deixo isto    aqui apontado. </font></P>     <P><font size="3">&Eacute; nesse espa&ccedil;o que Bauman Z. diz ocorrer uma das    rupturas mais radicais da p&oacute;s-modernidade. Bauman retoma a id&eacute;ia    de Levinas E. da &eacute;tica ser origin&aacute;ria da entrega de um ser humano    a outro n&atilde;o em fun&ccedil;&atilde;o da efic&aacute;cia social ou qualquer    outra, apenas por ser uma face humana. Assim, o que &eacute; insuport&aacute;vel    para algu&eacute;m pode encontrar abrigo nas entranhas do Outro. O Estranho    encontra hospedagem e o hospedeiro se fertiliza em sua ess&ecirc;ncia. Desse    encontro nasce o novo que &eacute; adequado ao tempo em que &eacute; concebido.</font></P>     <P><font size="3">&Eacute;, sem d&uacute;vida, nesse universo microsc&oacute;pico    que as rupturas na vida cultural se abatem. Onde n&atilde;o h&aacute; possibilidade    de a membrana on&iacute;rica se instalar ou funcionar &eacute; o territ&oacute;rio    do traum&aacute;tico, e a&iacute; retornamos a Freud, mas a outro Freud, aquele    das formula&ccedil;&otilde;es sobre o traum&aacute;tico e da descri&ccedil;&atilde;o    da ves&iacute;cula que protege o aparelho ps&iacute;quico tal como descrito    em <i>Al&eacute;m do princ&iacute;pio do prazer</i>. </font></P>     <P><font size="3">Voltando um pouco, essa tela de sonhos &eacute; que vai tamb&eacute;m    separar corp&oacute;reo de ps&iacute;quico, masculino de feminino, morto e vivo.    Traum&aacute;tico, ent&atilde;o, se torna tudo o que n&atilde;o tem trajeto    on&iacute;rico a percorrer. O futuro &eacute; traum&aacute;tico quando carente    de utopia, e para o traum&aacute;tico do presente cotidiano necessitamos dormir    todos os dias para que os trajetos ocorram. De outra forma, apenas poder&iacute;amos    usar mecanismos que impe&ccedil;am que tenhamos a experi&ecirc;ncia do ocorrer    da vida. Vivemos o momento do mundo como excessivo e intoler&aacute;vel. Temos    a mesma experi&ecirc;ncia com as emo&ccedil;&otilde;es. O mundo interno e externo    se torna in&oacute;spito.</font></P>     <P><font size="3">Em outro contexto, autores que estudaram abusos de crian&ccedil;as    encontram vazios construtivos do esp&iacute;rito. Shengold L. postulou o termo    "assassinato de almas", para descrever a estimula&ccedil;&atilde;o    excessiva que sofre a alma infantil submetida ao abuso de intrus&otilde;es sexuais    ou priva&ccedil;&otilde;es extremas. Com alguma licen&ccedil;a, n&atilde;o creio    ser absurdo falarmos de genoc&iacute;dio de almas para as movimenta&ccedil;&otilde;es    sociais e culturais que citamos acima. Numa experi&ecirc;ncia simples da minha    pr&aacute;tica hospitalar, era comum as fam&iacute;lias pobres dizerem que n&atilde;o    deixavam as crian&ccedil;as brincarem na rua porque as pessoas da vizinhan&ccedil;a    n&atilde;o prestavam. Ocorre a&iacute; n&atilde;o somente a perda de v&iacute;nculos    de solidariedade como tamb&eacute;m o n&atilde;o reconhecimento no grupo que    poderia ser seu espelho. Quando se pede para essas pessoas desenharem a figura    humana &eacute; regra faltarem peda&ccedil;os significativos da anatomia. Tamb&eacute;m    se pode perguntar como se constroem esp&iacute;ritos como vemos em oper&aacute;rios    da constru&ccedil;&atilde;o civil. H&aacute; os que podem colocar tijolos uns    sobre os outros, mas encontramos tamb&eacute;m os que n&atilde;o conseguem faz&ecirc;-lo    e que, na divis&atilde;o do trabalho, apenas misturam cimento, areia e &aacute;gua.    Mais surpreendente ainda &eacute; haver os que nem isso conseguem e que, ent&atilde;o,    s&oacute; levam os materiais num carrinho de m&atilde;o de um local a outro.    N&atilde;o h&aacute; constru&ccedil;&atilde;o da mente que permita uma vis&atilde;o    espacial ou temporal. Nesta mis&eacute;ria construtiva, passar do impulso para    a a&ccedil;&atilde;o &eacute; uma regra. E como socialmente faremos frente a    ajudarmos a construir um esp&iacute;rito que n&atilde;o fez um patrim&ocirc;nio,    um acervo m&iacute;nimo de sonhos?</font></P>     <P><font size="3">Relembro um conto de Truman Capote, publicado quando tinha 17    anos, no livro <i>A &aacute;rvore da vida</i>. Conta-nos de uma mo&ccedil;a    que vem para a cidade grande, Nova York, para fazer a vida. Mas suas tentativas    v&atilde;o resultando infrut&iacute;feras e ela passa a freq&uuml;entar um grupo    de desocupados e marginais. Ela, ent&atilde;o, descobre que estes para sobreviver,    quando t&ecirc;m um sonho, vendem-no a um poderoso e interesseiro personagem    por cinco d&oacute;lares. Tamb&eacute;m ela come&ccedil;a a viver desse expediente.    Depois de um tempo, por&eacute;m, ao se dar conta que sua vida n&atilde;o tem    sentido, pensa em voltar para sua cidade natal. Todavia n&atilde;o pode voltar,    algo a prende onde est&aacute;. Percebe que n&atilde;o pode voltar sem seus    sonhos. Ela, ent&atilde;o, arranja um trabalho e guarda o dinheiro para compr&aacute;-los    de volta. Quando procura o poderoso cidad&atilde;o e lhe prop&otilde;e a recompra,    ouve dele a surpreendente resposta: "Isto &eacute; imposs&iacute;vel. N&atilde;o    posso vend&ecirc;-los pois j&aacute; os consumi."</font></P>     <P><font size="3">Que poderosa met&aacute;fora p&ocirc;de um jovem escritor nos    presentear. Ela ilustra bem o que estou lhes estou apresentando.</font></P>     <P><font size="3">Freud no <i>Projeto para uma psicologia cientifica</i> j&aacute;    nos dizia que a raiz de toda a &eacute;tica &eacute; a depend&ecirc;ncia prolongada    do ser humano em sua inf&acirc;ncia. &Eacute; nessa depend&ecirc;ncia prim&aacute;ria    que se estrutura a capacidade para produzir sonhos, ou seja, &eacute; uma estrutura    b&aacute;sica j&aacute; de in&iacute;cio dependente de outro ser humano, social,    portanto. </font></P>     <P><font size="3">O conto de fadas que serve &agrave; elabora&ccedil;&atilde;o    do esp&iacute;rito infantil n&atilde;o &eacute; feito de mat&eacute;ria que    possa ser vista simplesmente na televis&atilde;o. Necessita do aconchego de    algu&eacute;m que conte a hist&oacute;ria. Assim &eacute; desde o nascimento.    </font></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<P><font size="3">Finalizo, conjeturando: quem aconchegar&aacute; o necessitado    contador de hist&oacute;rias para que este possa receber o desamparo de quem    precisa dessas hist&oacute;rias para crescer?</font></P>     <P>&nbsp;</P>     <P><font size="3"><i><b>Leopold Nosek</b> &eacute; m&eacute;dico, psicanalista,    membro efetivo da Sociedade Brasileira de Psican&aacute;lise de S&atilde;o Paulo.</i></font></P>     <P>&nbsp;</P>     <P>&nbsp;</P>     <P><font size="3"><a name="nt"></a><a href="#tx">*</a> Este texto &eacute; uma    vers&atilde;o da confer&ecirc;ncia dada no evento "Interdisciplinary conference    on terror, violence and society", em Berlim, abril de 2004.</font></P>      ]]></body>
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