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</front><body><![CDATA[ <P align="center"><img src="/img/revistas/cic/v56n4/a13img01.gif"></P>     <P>&nbsp;</P>     <P><font size="4"><b>DOM QUIXOTE E SANCHO PAN&Ccedil;A: A BUSCA DO EU NO OUTRO</b></font></P>     <P><font size="3"><b>Luiz Carlos Uch&ocirc;a Junqueira Filho</b></font></P>     <P>&nbsp;</P>     <P>&nbsp;</P>     <P><font size="3"><b>INTRODU&Ccedil;&Atilde;O</b> A psican&aacute;lise &eacute;    um m&eacute;todo de investiga&ccedil;&atilde;o da vida mental que utiliza como    mat&eacute;ria-prima os elementos de vida emocional que surgem, inevitavelmente,    quando duas personalidades se encontram. O encontro &eacute;, portanto, condi&ccedil;&atilde;o    fundamental para o estabelecimento e a continuidade do processo psicanal&iacute;tico.    &Eacute; necess&aacute;rio, por&eacute;m, que esse encontro ocorra num <i>setting</i>    espec&iacute;fico, arquitetado com a finalidade de propiciar condi&ccedil;&otilde;es    &oacute;timas de observa&ccedil;&atilde;o da vida emocional, bem como de permitir    as interven&ccedil;&otilde;es interativas inerentes ao processo de investiga&ccedil;&atilde;o.</font></P>     <P><font size="3">Classicamente, a psican&aacute;lise foi descrita como uma <i>talking    cure</i>, uma cura pela fala, mas a experi&ecirc;ncia acumulada ao longo de    sua curta exist&ecirc;ncia j&aacute; nos mostrou que esse r&oacute;tulo n&atilde;o    se sustenta. N&atilde;o &eacute; vi&aacute;vel, hoje, a entendermos exclusivamente    como uma cura no sentido m&eacute;dico, e muito menos localizarmos o seu n&uacute;cleo    funcional s&oacute; na palavra.</font></P>     <P><font size="3">O encontro entre o analista e o analisando reproduz em ess&ecirc;ncia    um encontro humano comum, no qual os participantes se enredam num torvelinho    de experi&ecirc;ncias que inclui, naturalmente, a possibilidade do desencontro.    A experi&ecirc;ncia emocional implica, necessariamente, na presen&ccedil;a de    pelo menos duas personalidades que, em &uacute;ltima inst&acirc;ncia, podem    concordar ou divergir. Desde seus prim&oacute;rdios, a psican&aacute;lise ocupou-se    dessas nuvens de concord&acirc;ncia e discord&acirc;ncia que se formam nos consult&oacute;rios,    desenvolvendo recursos t&eacute;cnicos para promover as "precipita&ccedil;&otilde;es    pluviom&eacute;tricas" que nos colocam em contato com as part&iacute;culas    elementares da vida emocional.</font></P>     <P><font size="3">Esse processo, no entanto, sendo parte da natureza humana, deve    ter existido desde tempos imemoriais, tendo interessado aos fil&oacute;sofos    antes do surgimento dos psicanalistas como nos atestam, entre outros, os di&aacute;logos    plat&ocirc;nicos e a mai&ecirc;utica socr&aacute;tica. O assunto continua a    interessar aos fil&oacute;sofos contempor&acirc;neos, como Martin Buber e Emmanuel    L&eacute;vinas, al&eacute;m de estar no centro da universalidade da boa fic&ccedil;&atilde;o    liter&aacute;ria como a produzida por Shakespeare, Cervantes ou Dostoievski.    Desde que formularam a dualidade sujeito-objeto, os fil&oacute;sofos t&ecirc;m    insistido na intera&ccedil;&atilde;o dial&eacute;tica que determina n&atilde;o    s&oacute; a estrutura de cada termo, mas tamb&eacute;m o seu conv&iacute;vio.    Coube, por&eacute;m, aos psicanalistas e a seus analisandos encarnarem essas    figuras conceituais, animando-as com o sopro da vida emocional e, a partir dessa    experi&ecirc;ncia, revelarem as modalidades de mecanismos, e a multiplicidade    de usos, subjacentes &agrave; constitui&ccedil;&atilde;o do Eu com a ajuda do    Outro: foram eles, ainda, que revelaram que a verdadeira empatia se funda na    percep&ccedil;&atilde;o que o objeto &eacute; tamb&eacute;m um sujeito.</font></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<P><font size="3">Como tributo ao aprendizado que n&oacute;s psicanalistas temos    auferido com os in&uacute;meros relatos liter&aacute;rios da intera&ccedil;&atilde;o    &iacute;ntima entre duas personalidades, dispus-me a fazer uma leitura comentada    do <i>Dom Quixote</i> de Miguel de Cervantes, para ilustrar a busca do Eu no    Outro mediante o relacionamento entre os personagens de Dom Quixote e de Sancho    Pan&ccedil;a.</font></P>     <P><font size="3">Vali-me, para tanto, da edi&ccedil;&atilde;o publicada pela    Editora Logos de S&atilde;o Paulo, em 1955, que nos oferece uma tradu&ccedil;&atilde;o    dos Viscondes de Castilho e de Azevedo com as famosas ilustra&ccedil;&otilde;es    de Gustave Dor&eacute;. Para facilitar a contextualiza&ccedil;&atilde;o, apresentarei    primeiro o trecho selecionado (seja na &iacute;ntegra, seja de forma resumida)    para oferecer em seguida o meu coment&aacute;rio: o n&uacute;mero em algarismo    romano refere-se ao volume, a primeira parte publicada em 1605 constitui o volume    I, enquanto a segunda parte publicada em 1615 est&aacute; contida no volume    II.</font></P>     <P><font size="3"><b>LEITURA COMENTADA</b></font></P>     <P><font size="3"><b>I, pg. 28:</b> <i>&#91;...&#93; e que todos os Cavaleiros Andantes    levaram as capangas cheias para o que desse e viesse, e que igualmente levaram    camisas, e uma caixinha pequena cheia de ung&uuml;entos para curar as feridas    que recebessem a n&atilde;o ser que tivessem por amigo algum s&aacute;bio encantador    o qual, quando estivessem feridos, lhes enviasse pelo ar, em alguma nuvem, uma    donzela ou an&atilde;o com alguma redoma cheia de tais poderes que, em provando    de uma s&oacute; gota, sarassem de suas feridas. Mas, se isto n&atilde;o fosse    poss&iacute;vel, todos os cavaleiros providenciavam que seus escudeiros trouxessem    dinheiro, camisas e ung&uuml;entos.</i></font></P>     <P><font size="3">Essa passagem nos sugere que a magnitude da miss&atilde;o dos    Cavaleiros Andantes, o seu significado &eacute;tico e moral, o desprendimento    de suas a&ccedil;&otilde;es, tudo isto implica num interesse pelo semelhante    e, num certo sentido, no abandono de seus interesses pessoais. Assim sendo,    o Cavaleiro Andante tinha uma expectativa, e talvez at&eacute; uma cren&ccedil;a    na exist&ecirc;ncia de uma rede de mobiliza&ccedil;&atilde;o social ou mesmo    m&iacute;stica, no sentido de ampar&aacute;-lo. Nesse trecho, s&atilde;o mencionados    como personagens pass&iacute;veis de vir em seu aux&iacute;lio, as donzelas    e os an&otilde;es, quer dizer, figuras m&iacute;ticas cuja fun&ccedil;&atilde;o    prec&iacute;pua seria atend&ecirc;-lo e assessor&aacute;-lo. Na aus&ecirc;ncia,    no entanto, desses seres sobrenaturais, esp&eacute;cie de "g&ecirc;nios    da l&acirc;mpada" que pudessem socorr&ecirc;-lo mediante um estalar de    dedos, restava-lhe a presen&ccedil;a terrena de um fiel escudeiro. Esse escudeiro,    curiosamente, deveria portar pelo menos tr&ecirc;s objetos, dinheiro, camisas    e ung&uuml;entos, ou seja, elementos simb&oacute;licos do poder de troca, do    poder protetor e do poder curativo. Est&aacute; impl&iacute;cito aqui que o    escudeiro &eacute; um mero "portador" desses objetos, sendo o seu    uso e significado de compet&ecirc;ncia exclusiva do Cavaleiro Andante, que poderia    solicit&aacute;-los na medida das suas necessidades. Essa quest&atilde;o comporta,    por&eacute;m, uma sutileza j&aacute; que sendo o escudeiro um "esp&iacute;rito    pr&aacute;tico" que se contrap&otilde;e ao "mundo da lua" do    seu amo, ele possui uma sabedoria material a respeito do uso dos objetos sob    sua guarda que lhe confere, de fato, uma opini&atilde;o de valor.</font></P>     <P><font size="3"><b>I, pg. 58:</b><i> Neste meio tempo, Dom Quixote come&ccedil;ou    a persuadir um lavrador seu vizinho, homem de bem (se tal t&iacute;tulo se pode    dar a um pobre), mas de pouca intelig&ecirc;ncia, a sair consigo como escudeiro:    tanto lhe martelou, que o pobre coitado concordou. Dizia-lhe, entre outras coisas,    que deveria ir de bom grado, pois poderia ocorrer de ter a sorte de ganhar uma    ilha, da qual poderia ser governador.</i></font></P>     <P><font size="3">O "aliciamento" de Sancho na empreitada fantasiosa    de Dom Quixote nos &eacute; descrita como fruto de uma manobra astuciosa, impingida    a um esp&iacute;rito simpl&oacute;rio e de pouca intelig&ecirc;ncia que se deixa    enganar pela isca sedutora de ser presenteado, ao final das aventuras, com a    governan&ccedil;a de uma ilha hipot&eacute;tica. Parece-me interessante indagarmo-nos    a respeito do significado dessa oferta. Por que uma ilha? Se o intuito verdadeiro    fosse conferir-lhe um poder genu&iacute;no, o natural seria a outorga de algum    feudo e n&atilde;o a posse de uma ilha, prontamente associ&aacute;vel &agrave;    id&eacute;ia de ex&iacute;lio ou desterro. Fica-se aqui com a falsa impress&atilde;o    de que Sancho embarcar&aacute; enganado nas aventuras e n&atilde;o, como me    parece ser o caso, que ambos necessitam um ao outro, para encontrar-se.</font></P>     <P><font size="3"><b>I, pg. 64:</b> <i> E &eacute; verdade  respondeu Dom Quixote     e se me n&atilde;o queixo com a dor, &eacute; porque aos Cavaleiros Andantes    n&atilde;o &eacute; dado lastimarem-se de feridas, ainda que por elas lhe saiam    as tripas.</i></font></P>     <P><font size="3"><i> Sendo assim, j&aacute; estou calado  respondeu Sancho     mas sabe Deus se eu n&atilde;o achava melhor que Vossa Merc&ecirc; se queixasse    quando lhe doesse alguma coisa. De mim sei eu, que, em me doendo seja o que    for, hei de por for&ccedil;a berrar, se &eacute; que a tal regra, de n&atilde;o    dar mostras de sentir, n&atilde;o chega tamb&eacute;m aos escudeiros do Cavaleiro    Andante.</i></font></P>     <P><font size="3">O pr&oacute;prio Dom Quixote, no entanto, encontra-se exilado    num mundo irreal de sonhos e fabula&ccedil;&otilde;es que o deixa alienado n&atilde;o    s&oacute; de seu grupo social e do momento hist&oacute;rico em que vive, mas    tamb&eacute;m de seu pr&oacute;prio corpo, como explicitado nessa postura de    "anestesia moral" que ele assume, colocando-se acima e a salvo das    mazelas do corpo. Sancho, por seu turno, deixa expl&iacute;cito que, doendo-lhe    alguma coisa ele n&atilde;o hesitaria em "botar a boca no trombone",    reivindicando assim qualquer tipo de ajuda que pudesse lhe aliviar o sofrimento.    Temos aqui dois sistemas de funcionamento: um est&oacute;ico o outro hedonista;    o mais significativo, por&eacute;m, &eacute; que, permitindo-se sofrer a dor    Sancho, em princ&iacute;pio, dava-se a chance de aprender com a experi&ecirc;ncia    enquanto Dom Quixote negando a dor, anulava concomitantemente o valor da experi&ecirc;ncia,    al&ccedil;ando-se a um universo idealista.</font></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<P><font size="3"><b>I, pg. 76:</b> Das graciosas argumenta&ccedil;&otilde;es    que ocorreram entre Dom Quixote e seu escudeiro Sancho Pan&ccedil;a:</font></P>     <P><font size="3"><i> Que b&aacute;lsamo &eacute; este</i> (B&aacute;lsamo de    Ferrabraz) <i> disse Sancho Pan&ccedil;a.</i></font></P>     <P><font size="3"><i> &Eacute; um b&aacute;lsamo  respondeu Dom Quixote  do    qual tenho a receita na mem&oacute;ria, com o qual n&atilde;o precisam ter medo    da morte, nem pensar em morrer por qualquer ferimento; e assim, quando o tiver    preparado e o entregar a voc&ecirc;, se constatar que me partiram o corpo ao    meio em alguma batalha, como muitas vezes pode acontecer, recolha o peda&ccedil;o    do corpo que tenha ca&iacute;do ao solo (com muito cuidado, antes que o sangue    fique gelado) e a coloques sobre a outra metade que tiver ficado na sela assegurando-se    que estejam bem encaixadas; a seguir, me fa&ccedil;a beber s&oacute; dois tragos    do referido b&aacute;lsamo e ver&aacute;s que eu estarei mais saud&aacute;vel    que uma ma&ccedil;&atilde;.</i></font></P>     <P><font size="3"><i>Se isto for verdade  disse Sancho Pan&ccedil;a  renuncio    agora mesmo &agrave; governan&ccedil;a da ilha prometida e nada mais quero em    pagamento de meus muitos e bons servi&ccedil;os, do que receber de Vossa Merc&ecirc;    a receita desta bebida milagrosa, que tenho para mim se poder&aacute; vender    a olhos fechados cada on&ccedil;a dela por mais de quatro vint&eacute;ns. N&atilde;o    preciso mais para passar o resto da vida louvadamente e com todo o descanso.    O que falta saber, &eacute; se n&atilde;o ser&aacute; muito custoso arranj&aacute;-la.</i></font></P>     <P><font size="3"><i> Com menos de 3 reais se pode fazer camada e meia  respondeu    Dom Quixote.</i></font></P>     <P><font size="3"><i> Valha-me Deus!  replicou Sancho. E o que Vossa Merc&ecirc;    est&aacute; esperando para me ensinar?</i></font></P>     <P><font size="3"><i> Cala-te, amigo  respondeu Dom Quixote  que maiores segredos    penso lhe ensinar e com maiores favores lhe obsequiar; mas , por enquanto, vamos    nos curar, pois minha orelha est&aacute; doendo mais do que eu gostaria.</i></font></P>     <P><font size="3">O b&aacute;lsamo de Ferrabraz, subst&acirc;ncia milagrosa cuja    f&oacute;rmula Dom Quixote guarda em sua "mem&oacute;ria" tem n&atilde;o    s&oacute; o poder radical de afastar a morte, mas tamb&eacute;m o poder reparador    de reconstituir o todo, mediante o rejunte de suas partes. As instru&ccedil;&otilde;es    que Sancho recebe para recolher a metade do corpo de Dom Quixote que possa ter    ca&iacute;do ao solo, encaixando-a na outra metade que tenha permanecido na    sela, acompanhadas por uma s&eacute;rie de cuidados (presteza para impedir o    congelamento do sangue e ministra&ccedil;&atilde;o de dois goles do b&aacute;lsamo),    ilustra com clareza a busca do Eu no Outro. De fato, a f&oacute;rmula que Dom    Quixote guarda na mem&oacute;ria a respeito de sua unicidade, &eacute; algo    te&oacute;rico que para completar-se depende de um complemento pr&aacute;tico    a ser instrumentalizado por Sancho. Note-se que nessa divis&atilde;o de fun&ccedil;&otilde;es    do par humano, encontramos uma repeti&ccedil;&atilde;o da cis&atilde;o artificial    sofrida por um corpo que &eacute; dividido em dois por um golpe de espada. Mas,    qual ser&aacute; o "b&aacute;lsamo" que "cola" a parte fantasiosa    da dupla (Dom Quixote) com a parte realista (Sancho Pan&ccedil;a)? Socorrendo-nos    aqui da psican&aacute;lise, dir&iacute;amos que esse conectivo &eacute; o elemento    subjacente a todas as teorias de intersubjetividade, que nos ensinam, em resumo,    que a unidade funcional do ser humano &eacute; o par ou seja, o sujeito se constitui    atrav&eacute;s do objeto, e o objeto atrav&eacute;s do sujeito.</font></P>     <P><font size="3">Na parte final do di&aacute;logo, observamos uma invers&atilde;o    na colabora&ccedil;&atilde;o m&uacute;tua: Dom Quixote aplaca a cobi&ccedil;a    de Sancho inflada pela perspectiva de enriquecer com o elixir milagroso, advertindo-o    de que n&atilde;o se deslumbrasse com o ganho f&aacute;cil pois assim, diz Dom    Quixote, "maiores segredos poderei lhe ensinar".</font></P>     <P><font size="3">A analogia entre o indiv&iacute;duo reconciliado consigo mesmo,    mediante a jun&ccedil;&atilde;o de suas partes, e a ma&ccedil;&atilde;, ilustra    o cuidado simb&oacute;lico com que Cervantes revestia as suas met&aacute;foras,    se lembrarmos ser a ma&ccedil;&atilde; o fruto da liberdade e do conhecimento    que garante a juventude, a renova&ccedil;&atilde;o e o frescor eternos.</font></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<P><font size="3"><b>I, pg. 82: </b>Cena da refei&ccedil;&atilde;o com os cabreiros    onde Dom Quixote, emocionado com o esp&iacute;rito democr&aacute;tico do grupo,    convida Sancho a sentar-se a seu lado:</font></P>     <P><font size="3"><i> Viva muitos anos  respondeu Sancho  mas devo dizer a    Vossa Merc&ecirc; que, se fosse para comer bem, eu preferia comer sozinho e    de p&eacute;, do que sentado junto a um imperador. E para ser sincero ainda    saboreio mais aquilo que como no meu cantinho sem cerim&ocirc;nias ou melindres,    mesmo que n&atilde;o passe de p&atilde;o e cebola, do que os perus de outras    mesas com a obriga&ccedil;&atilde;o de mastigar devagar, beber pouco, me limpar    o tempo todo, n&atilde;o espirrar nem tossir quando me der vontade, nem fazer    outras coisas que a solid&atilde;o e a liberdade permitem. Portanto, meu senhor,    as honras que Vossa Merc&ecirc; quer me dar por ser eu ministro da cavalaria    andante e seu escudeiro, troque-as por outras coisas que me sejam de melhor    proveito pois, se bem que estas me agradem, dispenso-as desde j&aacute; at&eacute;    ao fim do mundo.</i></font></P>     <P><font size="3"><i>Apesar disso h&aacute;s de te sentar, porque Deus celebra    quem se humilha.</i></font></P>     <P><font size="3"><i>&#91;...&#93; Dom Quixote: - Ditosa idade e afortunados s&eacute;culos    aqueles, a que os antigos puseram o nome de dourados, n&atilde;o porque nesses    tempos o ouro (que nesta idade de ferro tanto se estima) se alcan&ccedil;asse    sem fadiga alguma, mas sim porque ent&atilde;o se ignoravam as palavras <b>teu</b>    e <b>meu</b>.</i></font></P>     <P><font size="3">Nesta cena, Dom Quixote emociona-se com a generosidade dos cabreiros    que convidaram nossos her&oacute;is a compartilhar de sua frugal refei&ccedil;&atilde;o    e, num rompante de igualitarismo democr&aacute;tico, convida Sancho a sentar-se    a seu lado. Sancho recusa o convite tirando da algibeira uma argumenta&ccedil;&atilde;o    incontest&aacute;vel, segundo a qual n&atilde;o se pode abrir m&atilde;o da    sem-cerim&ocirc;nia natural em prol dos artificialismos da etiqueta &agrave;    mesa. Sentindo-se acuado, Dom Quixote sai pela tangente prescrevendo a Sancho    uma esp&eacute;cie de prov&eacute;rbio diagn&oacute;stico: "Apesar disso    h&aacute;s de te sentar porque Deus exalta quem se humilha"; sua finalidade    &eacute; calar a boca do outro metendo-lhe goela abaixo uma frase feita.</font></P>     <P><font size="3">&Eacute; preciso entender que, numa tal circunst&acirc;ncia,    a dispensa do outro &eacute; s&oacute; aparente j&aacute; que fruto de uma argumenta&ccedil;&atilde;o    que incomoda o sujeito em fun&ccedil;&atilde;o de sua veracidade, obrigando-o    a interromper temporariamente a fonte contestat&oacute;ria, tendo em mente ou    uma digest&atilde;o posterior do inc&ocirc;modo, ou uma ilus&oacute;ria elimina&ccedil;&atilde;o    arrogante do mesmo.</font></P>     <P><font size="3">Atente-se que, ao final, Dom Quixote vale-se de uma bela imagem    que n&atilde;o s&oacute; exalta a aus&ecirc;ncia da possessividade, mas tamb&eacute;m    implicitamente, a forma&ccedil;&atilde;o de um campo emocional comum entre quem    oferece e quem recebe.</font></P>     <P><font size="3"> <b>I, pg. 120: </b>Na estalagem que Dom Quixote imaginava ser    Castelo, Sancho explica &agrave; empregada o que &eacute; um "Cavaleiro    de Aventuras":</font></P>     <P><font size="3"><i>Sancho:  Pois sabei, irm&atilde;, que cavaleiro de aventuras    &eacute; um sujeito que num instante tanto pode ser desancado, quanto ser um    imperador. Hoje &eacute; a criatura mais necessitada e desgra&ccedil;ada do    mundo, amanh&atilde; ter&aacute; duas ou tr&ecirc;s coisas reais para dar a    seu escudeiro.</i></font></P>     <P><font size="3">O "Cavaleiro de Aventuras" surge aqui como a vers&atilde;o    sanchiana do Cavaleiro Andante. Sua vers&atilde;o, como sempre, &eacute; concisa    e expressiva: "&Eacute; um sujeito que, num instante, tanto pode ser desancado,    quanto ser um imperador. Hoje &eacute; a criatura mais necessitada e desgra&ccedil;ada    do mundo, amanh&atilde; ter&aacute; duas ou tr&ecirc;s coisas reais para dar    a seu escudeiro".</font></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<P><font size="3">Sancho destaca de modo enf&aacute;tico, a instabilidade e a    transitoriedade da condi&ccedil;&atilde;o do Cavaleiro Andante, preferindo assim    caracteriz&aacute;-lo melhor como um aventureiro, muito mais uma v&iacute;tima    do destino do que seu construtor. Ao puxar a sardinha para o seu lado, ele,    no entanto, est&aacute; tamb&eacute;m nos informando a respeito da sua consci&ecirc;ncia    de que, na condi&ccedil;&atilde;o de beneficiado, sua situa&ccedil;&atilde;o    tamb&eacute;m &eacute; inst&aacute;vel e conjuntural.</font></P>     <P><font size="3">Eu me surpreendi quando, pesquisando o significado do termo    "escudeiro" descobri que o verbo escudeirar, na sua acep&ccedil;&atilde;o    transitiva tem n&atilde;o s&oacute; um sentido de suportar uma prova&ccedil;&atilde;o,    ag&uuml;entar um roj&atilde;o, enfrentar sem vacilo ou recuo uma empreitada,    mas tamb&eacute;m a conota&ccedil;&atilde;o de colocar de p&eacute;, endireitar,    fixar firmemente numa dada posi&ccedil;&atilde;o. O escudeiro, portanto, antes    de ser uma figura passiva, submissa e dependente do fado de seu senhor, &eacute;    mais um colaborador ativo, uma inst&acirc;ncia vigorosa de apoio e solidariedade,    tanto o co-criador de um destino quanto o co-respons&aacute;vel por sua fixa&ccedil;&atilde;o.</font></P>     <P><font size="3"><b>I, pg. 218: </b>Sancho argumentando a impropriedade de Dom    Quixote tomar as dores da Rainha Madasima, que fora injuriada pelo louco de    Serra Morena ao descrev&ecirc;-la como amancebada, optando por um princ&iacute;pio    &eacute;tico:</font></P>     <P><font size="3"><i> Eu c&aacute; n&atilde;o o profiro nem o penso  respondeu    Sancho  os outros l&aacute;, se avenham: e se os maus caldos mexerem, tais    os bebam. Se foram amancebados ou n&atilde;o, contas s&atilde;o essas que j&aacute;    dariam a Deus; venho da minha vida, n&atilde;o sei mais nada. Que me importam    as vidas alheias? Quem compra e mente na bolsa o sente; quanto mais, que eu    vim ao mundo e nu me vejo: nem perco nem ganho. E tamb&eacute;m que o fossem,    que me faz isso a mim? Muitas vezes n&atilde;o mais as vozes que as nozes; mas    quem pode ter m&atilde;o em l&iacute;nguas de praguentos, se nem Cristo se livrou    delas?</i></font></P>     <P><font size="3"><i> Valha-me Deus! disse Dom Quixote  que de tolices vais    enfiando Sancho! Que tem que ver o nosso caso com os ad&aacute;gios que est&aacute;s    arreatando? Por vida tua, homem, que te cales; daqui em diante ocupa-te em esporear    o teu asno, quando o tiveres, e n&atilde;o te metas no que te n&atilde;o importa,    e entende com todos os teus cinco sentidos, que tudo quanto eu fiz, fa&ccedil;o    ou farei, &eacute; muito posto em raz&atilde;o e mui conforme as regras de cavalaria,    que as sei melhor eu que todos os cavaleiros do mundo.</i></font></P>     <P><font size="3">Os princ&iacute;pios &eacute;ticos de Dom Quixote est&atilde;o    pautados por regras apreendidas por ele nos romances de cavalaria, constituindo-se    desse modo num conhecimento livresco, ou seja, enquadrando-o na concep&ccedil;&atilde;o    pura de pedantismo. Sancho, no entanto, nos oferece uma bela demonstra&ccedil;&atilde;o    de humildade ao revelar ter aprendido, ao longo de sua vida que, tendo nascido    nu como os demais, n&atilde;o lhe competia opinar sobre a vida alheia, muito    menos emitindo ju&iacute;zos de valor. Para refor&ccedil;ar a solidez de sua    argumenta&ccedil;&atilde;o, ele invoca dois prov&eacute;rbios sendo que o segundo    ilustra com perfei&ccedil;&atilde;o o poder injurioso das palavras conferindo    preced&ecirc;ncia &agrave;s vozes em rela&ccedil;&atilde;o &agrave;s nozes,    isto &eacute;, destacando que a palavra pode ser manipulada de tal modo a deturpar    a realidade que ela representa (a cal&uacute;nia que o louco imputara &agrave;    Rainha Madasima).</font></P>     <P><font size="3"> <b>I, pg. 446: </b>Reencontro de Dorot&eacute;ia com D. Fernando    na estalagem:</font></P>     <P><font size="3"><i>Dom Quixote:  Partamos pois, o quanto antes. Sancho, vai    selar o Rocinante, aparelha o teu jumento e o cavalo da rainha, e depois de    nos despedirmos do castel&atilde;o e destes senhores, partamos sem demora.</i></font></P>     <P><font size="3"><i>Sancho que participara de tudo, disse abanando a cabe&ccedil;a:    Ai, senhor, senhor! Nem tudo o que reluz &eacute; ouro; com perd&atilde;o seja    dito do ouro verdadeiro &#91;...&#93;. Se o senhor se irritar, eu me calarei, deixando    de dizer aquilo a que sou obrigado, como leal escudeiro e bom criado, a seu    amo.</i></font></P>     <P><font size="3"><i>Dom Quixote:  Dize o que quiseres, conquanto que suas palavras    n&atilde;o visem me atemorizar; assuma o seu medo, se o tiveres, que eu procederei    como quem n&atilde;o tem, se for o caso.</i></font></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<P><font size="3"><i>Sancho:  N&atilde;o se trata disso; cruz credo!  respondeu    Sancho  mas sim de que tenho certeza de que esta senhora que diz ser a rainha    do grande reino de Micomic&atilde;o, n&atilde;o o &eacute; mais do que minha    m&atilde;e; se ela o fosse, n&atilde;o andaria distribuindo olhares amorosos    e ternos, para um dos aqui presentes.</i></font></P>     <P><font size="3"><i>Ah! Deus sant&iacute;ssimo, que f&uacute;ria teve Dom Quixote    ao ouvir as palavras de seu escudeiro! Foi de tal monta que, com voz atrapalhada,    gaguejando e lan&ccedil;ando fogo pelos olhos disse: - Oh! Velhaco, vil&atilde;o,    atrevido, ignorante, desbocado, fofoqueiro e maledicente! Que palavras s&atilde;o    estas que ousastes dizer em minha presen&ccedil;a e destas senhoras, como &eacute;    que ousastes por na tua imagina&ccedil;&atilde;o semelhantes desonestidades    e atrevimentos? Vai-te da minha presen&ccedil;a monstro da natureza, deposit&aacute;rio    de mentiras e embuste, inventor de maldades, publicador de sandices, inimigo    do respeito que se deve &agrave;s pessoas reais; vai-te, e n&atilde;o apare&ccedil;as    diante de mim sob pena de minha ira.</i></font></P>     <P><font size="3">Ao longo da hist&oacute;ria, Cervantes vai tecendo uma sutil    dial&eacute;tica comunicativa entre Dom Quixote e Sancho Pan&ccedil;a caracterizada    pela fala desassombradamente &eacute;pica do primeiro, em contraposi&ccedil;&atilde;o    &agrave; fala espontaneamente crua do segundo, a qual, por saber-se portadora    da verdade inc&ocirc;moda e antecipando a rea&ccedil;&atilde;o irada de seu    amo, freq&uuml;entemente se cala atemorizada.</font></P>     <P>&nbsp;</P>     <P align="center"><img src="/img/revistas/cic/v56n4/a18img01.gif"></P>     <P>&nbsp;</P>     <P><font size="3">Ora, Dom Quixote como todo bom sujeito que tem sua curiosidade    agu&ccedil;ada pela insinua&ccedil;&atilde;o de um interlocutor de que possui    algo a dizer, mas n&atilde;o o faz por temer repres&aacute;lias, lan&ccedil;a    a Sancho um repto, desafiando-o a "assumir o seu medo, se o tiveres, que    eu procederei como quem n&atilde;o o tem se for o caso" e, al&eacute;m    do mais, advertindo-o para que "suas palavras n&atilde;o visem me atemorizar".</font></P>     <P><font size="3">Vislumbramos, aqui, o mecanismo psicol&oacute;gico da proje&ccedil;&atilde;o    na medida em que Dom Quixote transfere a Sancho o seu pr&oacute;prio medo de    n&atilde;o suportar a verdade, sem debitar a este estratagema sua pseudo-habilidade    de "proceder como quem n&atilde;o o tem". O interessante a observarmos    &eacute; que, sendo a mentira um poderoso veneno para a vida mental, a personalidade    reage vigorosa e involuntariamente a ele, do mesmo modo que sendo atingido por    um g&aacute;s t&oacute;xico o organismo tosse, lacrimeja e se debate.</font></P>     <P><font size="3">Foi esta, exatamente, a rea&ccedil;&atilde;o de Dom Quixote:    em vez de admitir a identidade pleb&eacute;ia de Dorot&eacute;ia, ele se insurge    furioso contra a insinua&ccedil;&atilde;o caluniosa de Sancho de que ela estaria    lan&ccedil;ando olhares langorosos para um homem que, afinal de contas, n&atilde;o    passava de seu pr&oacute;prio marido. O jorro de improp&eacute;rios, a variedade    de senten&ccedil;as condenat&oacute;rias, a den&uacute;ncia do perigo p&uacute;blico    encerrado nesse "monstro da natureza" nos atestam o quanto Sancho    tinha raz&atilde;o em duvidar da capacidade de seu amo de lidar com a verdade,    comprovando assim, mais uma vez, que tal capacidade deveria ser exercida pelo    escudeiro, inst&acirc;ncia, como vimos, apta a suportar a frustra&ccedil;&atilde;o    que sempre nos &eacute; imposta pela realidade.</font></P>     <P><font size="3"><b>I, p&aacute;gs. 462-501:</b> No cap&iacute;tulo 47 da edi&ccedil;&atilde;o    ilustrada por Gustave Dor&eacute; vemos um desenho onde Dom Quixote est&aacute;    recostado com ar sorumb&aacute;tico no interior da gaiola onde o colocaram,    enquanto por fora da grade um risonho Sancho Pan&ccedil;a espreita em segundo    plano com tal grau de alegria, que sua imagem expansiva "salta" a    imagem retra&iacute;da de Dom Quixote, impondo-se assim a n&oacute;s, malgrado    estar na posi&ccedil;&atilde;o de fundo e n&atilde;o de figura.</font></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<P><font size="3">Destaco essa imagem como uma met&aacute;fora poderosa da rela&ccedil;&atilde;o    entre Dom Quixote e Sancho Pan&ccedil;a. De fato, podia-se dizer que o Cavaleiro    da Triste Figura est&aacute; preso permanentemente num universo vision&aacute;rio    onde, sendo a sombra de Cavaleiros Andantes, torna-se-lhe imposs&iacute;vel    experimentar uma identidade pr&oacute;pria. Seu escudeiro, no entanto, apesar    de ser, por defini&ccedil;&atilde;o, a sombra de seu Senhor, exerce sempre essa    fun&ccedil;&atilde;o a partir de sua "vis&atilde;o de mundo" destilando    sempre com naturalidade seus desejos e valores.</font></P>     <P><font size="3">Tomando como marco o epis&oacute;dio do engaiolamento, a narrativa    de Cervantes toma um rumo muito interessante, a meu ver, j&aacute; que nos permite    perceber, com clareza, a pobreza dos desejos e puls&otilde;es no Quixote em    contraste com a riqueza destes elementos em Sancho.</font></P>     <P><font size="3">Dom Quixote contesta, inicialmente, sua condi&ccedil;&atilde;o    de engaiolado invocando, como sempre, argumentos pseudo-racionais como a lentid&atilde;o    do carro de bois, incompat&iacute;vel com a "estranha ligeireza" com    que os Cavaleiros Andantes costumam ser transportados seja por nuvens, carros    de fogo ou hipogrifos. Sancho retruca, espontaneamente, que aqueles acontecimentos    n&atilde;o eram nada cat&oacute;licos, deixando entrever sua suspeita de que    o encantamento que gerara o engaiolamento, n&atilde;o passara de uma arma&ccedil;&atilde;o    do grupo interessado em mandar Dom Quixote de volta para sua casa sem outras    trapalhadas. Foi o bastante para Dom Quixote instaurar uma nova discuss&atilde;o,    agora a respeito da imaterialidade dos dem&ocirc;nios que o enjaularam, o que    extraiu de Sancho coment&aacute;rios nascidos da observa&ccedil;&atilde;o pr&aacute;tica    como, por exemplo, a materialidade carnal daquelas pessoas ou a qualidade nada    sulfurosa de seus perfumes.</font></P>     <P><font size="3">A seguir, no momento da partida, Dom Quixote se despede formal    e cavalheirescamente das "damas do Castelo", em realidade, a vendeira,    sua filha e a empregada, enquanto os demais homens estavam &agrave;s voltas    com os belos personagens femininos, as donzelas Lucinda e Dorot&eacute;ia, e    a sensual Zoraida.</font></P>     <P><font size="3">Parece-me oportuno a esta altura fazermos uma observa&ccedil;&atilde;o    a respeito da aus&ecirc;ncia de erotismo e sensualidade no Quixote, para quem    os atrativos femininos est&atilde;o condenados ao amor plat&ocirc;nico que ele    devota &agrave; imagin&aacute;ria Dulcin&eacute;ia del Toboso, cuja exist&ecirc;ncia    n&atilde;o ultrapassa as fronteiras de seu mundo mental. Sancho, em contraparte,    exala n&atilde;o s&oacute; a objetividade pr&aacute;tica requerida pelas lides    do cotidiano, mas tamb&eacute;m a aceita&ccedil;&atilde;o do mundo dos desejos    e das puls&otilde;es, o envolvimento passional com os apetites do corpo e do    esp&iacute;rito.</font></P>     <P><font size="3">&Eacute; importante ressaltar que a apreens&atilde;o desse quadro    n&atilde;o ocorre na narrativa ficcional mediante uma informa&ccedil;&atilde;o    direta, mas sim por meio de descri&ccedil;&otilde;es disseminadas ao longo do    relato, que v&atilde;o impregnando insensivelmente o leitor. Assim, por exemplo,    contestando a reitera&ccedil;&atilde;o estereotipada de Dom Quixote que informara    a um grupo de transeuntes estar engaiolado por for&ccedil;a de encantamento,    Sancho retruca com os p&eacute;s no ch&atilde;o: "&#91;...&#93; verdade &eacute;    que o senhor Dom Quixote vai a&iacute; t&atilde;o encantado como minha m&atilde;e    que Deus haja; ele est&aacute; em todo o seu ju&iacute;zo, come e bebe e faz    todas as suas necessidades, como os outros homens e como as fazia ontem antes    que o engaiolassem". E, face &agrave; intimida&ccedil;&atilde;o do barbeiro    que o amea&ccedil;a de engaiol&aacute;-lo tamb&eacute;m caso insistisse em denunciar    o embuste que tinham armado para conter Dom Quixote, prossegue Sancho em defesa    de seu direito de receber uma ilha para governar: "&#91;...&#93; ainda que pobre,    sou crist&atilde;o, velho e n&atilde;o devo nada a ningu&eacute;m; e se desejo    ilhas, outros desejam coisas piores; e cada qual &eacute; filho de suas obras;    e sendo homem, posso vir a ser papa, quanto mais governador de uma ilha, podendo    meu amo ganhar tantas, que lhe falte a quem as d&ecirc;".</font></P>     <P><font size="3">Por outro lado, estabelece-se na seq&uuml;&ecirc;ncia um di&aacute;logo    entre o Cura e o C&ocirc;nego que por ali transitava, a respeito dos malef&iacute;cios    dos romances de cavalaria, por estimularem irrealidades e ilus&otilde;es. Isto    nos evoca, curiosamente, a conclus&atilde;o formulada pelo <i>establishment</i>    cient&iacute;fico do final do s&eacute;culo XVIII a respeito dos quadros de    possess&atilde;o demon&iacute;aca, sonambulismo e m&uacute;ltipla personalidade,    todos entendidos como frutos de "doen&ccedil;as da imagina&ccedil;&atilde;o".    O Cura, entretanto, n&atilde;o deixa de reconhecer o outro lado da moeda, ressaltando    a virtude de que <i>Sendo isto feito com apraz&iacute;vel estilo e engenhosa    inven&ccedil;&atilde;o, que se aproxime da verdade tanto quanto poss&iacute;vel,    h&aacute; de compor sem d&uacute;vida uma fina tela, entretecida de fios formos&iacute;ssimos    que, depois de acabada, se mescle t&atilde;o perfeita e linda, que consiga o    fim melhor a que se aspira nesses escritos que &eacute; ensinar e deleitar;    porque a solta contextura destes livros d&aacute; lugar a que o autor possa    mostrar-se &eacute;pico, l&iacute;rico, tr&aacute;gico, c&ocirc;mico, com todas    as partes que encerram em si as dulc&iacute;ssimas e agrad&aacute;veis ci&ecirc;ncias    da poesia e da orat&oacute;ria  que a epop&eacute;ia tanto pode escrever-se    em prosa como em verso.</i></font></P>     <P><font size="3">Ora, a ironia ressaltada por Cervantes &eacute; que Dom Quixote    realiza suas fa&ccedil;anhas "<i>by the book</i>", ou seja, tentando    transpor a fic&ccedil;&atilde;o para a realidade sem adapta&ccedil;&otilde;es    enquanto Sancho, por seu turno, consegue ser espontaneamente tr&aacute;gico,    c&ocirc;mico e mesmo &eacute;pico. Al&eacute;m do mais, quando se faz necess&aacute;rio,    Sancho mostra-se criativo dando um xeque-mate em Dom Quixote no momento que    o obriga a duvidar de seu encantamento pelo simples fato de ainda estar escravo    de suas necessidades fisiol&oacute;gicas, exortando-o, inclusive, a sair da    gaiola para poder evacuar.</font></P>     <P><font size="3">Esse contraponto reaparece nas cenas seguintes onde nos deparamos    primeiro com um duelo intelectual entre o C&ocirc;nego e Dom Quixote, a respeito    da autenticidade das hist&oacute;rias de cavalaria e, por conseguinte, da sanidade    mental de um e de outro. A dimens&atilde;o de conhecimento que aqui est&aacute;    em jogo &eacute; aquela que, atrav&eacute;s de acumula&ccedil;&otilde;es explicativas    e sistem&aacute;ticas, confunde o dom&iacute;nio das for&ccedil;as da natureza    com a erudi&ccedil;&atilde;o livresca, em vez de localiz&aacute;-la no aprendizado    intuitivo que nos &eacute; fornecido pelas experi&ecirc;ncias da vida, dentre    as quais a sexualidade &eacute;, com certeza, uma das mais significativas.</font></P>     <P><font size="3">Talvez por isso Cervantes encerra a tert&uacute;lia intelectual    mediante a apari&ccedil;&atilde;o da sexualidade animal, representada pelo pastor    Eug&ecirc;nio e sua cabra. Ambos surgem em cena em fun&ccedil;&atilde;o da inquietude    do animal que fugia do seu dono, s&oacute; estancando quando se deparou com    o grupo que escoltava Dom Quixote. A fala do cabreiro para seu animal &eacute;    elucidativa da eclos&atilde;o da sexualidade, abstraindo-se o vi&eacute;s machista    a&iacute; impl&iacute;cito: <i> Ah! Serrana, serrana; malhada, malhada; porque    foges tu? Que lobos te espantam, filha? N&atilde;o me dir&aacute;s que &eacute;    isto, linda? Mas que pode ser, sen&atilde;o que &eacute;s f&ecirc;mea, e n&atilde;o    podes estar sossegada? Volta, volta, amiga, que, se n&atilde;o estiveres t&atilde;o    satisfeita, pelo menos estar&aacute; segura no teu aprisco ou com as tuas companheiras,    que se tu, que as h&aacute; de guiar e encaminhar andas t&atilde;o desencaminhada    e t&atilde;o sem ju&iacute;zo, onde parar&atilde;o elas?</i></font></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<P><font size="3">A irrup&ccedil;&atilde;o dessa energia procriativa das entranhas    do vale buc&oacute;lico onde se encontravam ressoou tamb&eacute;m no pr&oacute;prio    C&ocirc;nego, s&oacute; que agora depurada da distor&ccedil;&atilde;o preconceituosa:    <i>Sossegai um pouco irm&atilde;o</i>, disse ele ao cabreiro, <i>e n&atilde;o    vos azafameis a fazer voltar t&atilde;o depressa a cabra para o rebanho que,    se ela &eacute; f&ecirc;mea, como dizeis, h&aacute; de seguir o seu natural    instinto, por muito que vos ponhais a estorv&aacute;-la.</i></font></P>     <P><font size="3">Considerando-se que o cabreiro conta a seguir a sua hist&oacute;ria,    que se resume a uma desilus&atilde;o amorosa em fun&ccedil;&atilde;o de sua    amada ter sido enganada por um sedutor interessado mais em seu dinheiro do que    em sua sexualidade, torna-se patente que ele e sua cabra representam a "sabedoria    instintiva natural" com a qual Sancho est&aacute; identificado. A comprova&ccedil;&atilde;o    disto nos &eacute; dada, dentre m&uacute;ltiplos exemplos, pela fala onde o    escudeiro destaca a import&acirc;ncia da libido oral: <i>&#91;...&#93; vou com esta    empada para a beira daquele regato, onde tenciono fartar-me por tr&ecirc;s dias,    porque tenho ouvido dizer ao meu senhor Dom Quixote, que um escudeiro de Cavaleiro    Andante deve comer quando se lhe oferecer ocasi&atilde;o, at&eacute; n&atilde;o    poder mais, porque &agrave;s vezes, tem de se meter por uma relva t&atilde;o    intrincada, que n&atilde;o podem sair dela nem em seis dias, e se um homem n&atilde;o    vai farto, ou de alforges bem fornecidos, ali poder&aacute; ficar, como muitas    vezes fica, mudado em esqueleto</i>; j&aacute; a import&acirc;ncia da libido    genital est&aacute; impl&iacute;cita na primeira indaga&ccedil;&atilde;o que    sua esposa Teresa Pan&ccedil;a lhe faz ap&oacute;s sua longa aus&ecirc;ncia:    <i>Louvado seja Deus  redarg&uuml;iu ela  que tanto bem me tem feito; mas    conta-me agora, que lucrastes com as tuas escuderices? Que saiote me trazes?</i></font></P>     <P><font size="3">Dom Quixote, por seu turno, ao retornar para casa depara-se    t&atilde;o somente com duas figuras femininas sexualmente neutras, a sobrinha    e a ama, que o acolheram com cuidados maternais, despindo-o e colocando-o na    cama.</font></P>     <P><font size="3"><b>II, pg. 105.</b><i> Tom&eacute; Cecial:  Temos de certo,    senhor Sans&atilde;o Carrasco, o que merecemos; com facilidade se pensa e se    acomete uma empresa, mas com dificuldade se sai a gente dela, pela maior parte    das vezes. Dom Quixote &eacute; doido e n&oacute;s somos ajuizados; ele vai-se    rindo, s&atilde;o e salvo; Vossa Merc&ecirc; fica mo&iacute;do e triste. Saibamos    pois agora, quem &eacute; mais doido; quem o &eacute; porque se n&atilde;o conhece,    ou quem o &eacute; por sua vontade?</i></font></P>     <P><font size="3"><i> A diferen&ccedil;a que h&aacute; entre estes dois doidos,    respondeu Carrasco, &eacute; que o doido a valer h&aacute; de s&ecirc;-lo sempre,    e, o que o &eacute; por vontade deixar&aacute; de o ser logo que o queira.</i></font></P>     <P><font size="3"><i> Perfeitamente, respondeu Tom&eacute; Cecial, eu fui doido    por vontade, quando me quis fazer escudeiro de Vossa Merc&ecirc;; pois agora,    por vontade tamb&eacute;m, quero deixar de o ser, e voltar para a minha casa.</i></font></P>     <P><font size="3">A tem&aacute;tica da loucura verdadeira e da loucura fingida    &eacute; parte essencial e fundante da narrativa cervantina no Quixote. Tom&eacute;    Cecial, que se mancomunara com o bacharel Sans&atilde;o Carrasco para forjar    um falso combate com Dom Quixote, arrepende-se da empreitada j&aacute; que o    tiro sa&iacute;ra pela culatra, seu pseudo-amo levara uma surra e ele, c&ocirc;nscio    de suas prerrogativas de falso-doido, reivindicava o seu direito de recuperar    a lucidez e abandonar a farsa infeliz.</font></P>     <P>&nbsp;</P>     <P align="center"><img src="/img/revistas/cic/v56n4/a18img02.gif"></P>     <P>&nbsp;</P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<P><font size="3"><b>II, pg. 136:</b> Confrontada nossa dupla com o malfadado    amor de Bas&iacute;lio por Quit&eacute;ria, abortado pela interfer&ecirc;ncia    do pai da noiva que a preferiu cas&aacute;-la com o abonado Camacho, expressa    Sancho a sua opini&atilde;o: <i>Eu n&atilde;o desejava sen&atilde;o que o bom    desse Bas&iacute;lio, a quem j&aacute; vou me afei&ccedil;oando, casasse com    a senhora Quit&eacute;ria, e m&aacute; peste mate os que estorvam que se casem    os que se querem bem.</i></font></P>     <P><font size="3">A este coment&aacute;rio singelo de Sancho, Dom Quixote contrap&ocirc;s    sua r&iacute;gida opini&atilde;o eivada de moralismo:</font></P>     <P><font size="3"> <i>- Se casassem todos os que se querem, tirava-se aos pais    a escolha e a jurisdi&ccedil;&atilde;o de casarem os seus filhos com quem devem    e quando querem, e se ficasse &agrave; vontade das filhas escolher os maridos,    haveria tal que escolheria o criado do pai, e outra o que viu passar na rua,    no seu entender bizarro e jeitoso mancebo, ainda que fosse um espadachim valdevinos;    que o amor e a afei&ccedil;&atilde;o facilmente cegam os olhos do entendimento,    t&atilde;o necess&aacute;rios para escolher estado; e no matrim&ocirc;nio &eacute;    muito perigoso o erro, e &eacute; mister grande tento e particular favor do    c&eacute;u para acertar.</i></font></P>     <P><font size="3">E, diante do temor de que o amante preterido pudesse se entregar    &agrave; morte quando a noiva "proferisse o sim fatal", ponderou Sancho    com sabedoria: </font></P>     <P><font size="3"><i>Deus o far&aacute; melhor, quem d&aacute; o mal d&aacute;    o rem&eacute;dio; ningu&eacute;m sabe o que est&aacute; por vir; tenho visto    chover e fazer sol ao mesmo tempo; a gente deita-se s&atilde;o e acorda doente;    e digam-me se h&aacute; porventura quem se gabe do ter travado a roda da fortuna;    entre o sim e o n&atilde;o da mulher n&atilde;o me atrevia eu a meter uma ponta    de alfinete, porque n&atilde;o caberia; queria Quit&eacute;ria de cora&ccedil;&atilde;o    e deveras a Bas&iacute;lio, e pode este contar com um saco de ventura, que o    amor, pelo que tenho ouvido dizer, vela de tal maneira que o cobre lhe parece    ouro.</i></font></P>     <P><font size="3">Dom Quixote, ao que tudo indica, sentiu-se amea&ccedil;ado com    a lucidez de Sancho: <i>Aonde vais parar Sancho, amaldi&ccedil;oado sejas, que    em tu come&ccedil;ando a enfiar prov&eacute;rbios e contos, s&oacute; te pode    apanhar o diabo que te leve! Dize-me animal, que sabes tu de rodas, de alfinetes,    nem de coisa nenhuma?</i></font></P>     <P><font size="3"><i> Pois se me n&atilde;o entendeu  respondeu Sancho  n&atilde;o    me admira que minhas senten&ccedil;as sejam lidas como disparates; mas, n&atilde;o    me importa, eu c&aacute; me entendo, e sei que n&atilde;o disse asneira; mas    Vossa Merc&ecirc;, senhor meu, &eacute; sempre "friscal" dos meus    ditos e das minhas a&ccedil;&otilde;es.</i></font></P>     <P><font size="3">Apesar do ran&ccedil;o moralista, &eacute; s&aacute;bia a pondera&ccedil;&atilde;o    de Dom Quixote de que "o amor e a afei&ccedil;&atilde;o facilmente cegam    os olhos do entendimento". A sabedoria do amo parece contagiar o escudeiro    que nos brinda com uma r&eacute;plica que desvela o outro lado da moeda, ou    seja, que o amor tamb&eacute;m funciona como lubrificante da roda da fortuna,    contribuindo desse modo para corrigir os desvios do destino. Sancho aventura-se,    inclusive, a expressar seu bom senso metaf&iacute;sico, ao mencionar sua f&eacute;    numa divindade justa que "d&aacute; o mal, mas tamb&eacute;m d&aacute;    o rem&eacute;dio". Por estar impregnado das ang&uacute;stias terrenas,    Sancho admite a sua insignific&acirc;ncia diante de Deus-Todo-Poderoso, enquanto    Dom Quixote, imaginando-se portador de um status sobrenatural, confunde-se constantemente    com o poder divino "fiscalizador" da precariedade humana.</font></P>     <P><font size="3"><b>II, pg. 271  Carta de Sancho Pan&ccedil;a a Teresa Pan&ccedil;a,    sua mulher:</b><i> &#91;...&#93; A duquesa, minha senhora, beija-te mil vezes as m&atilde;os;    retroca-lhe com duas mil, que n&atilde;o h&aacute; coisa que saia mais barata,    segundo diz meu amo, do que os bons comedimentos.</i></font></P>     <P><font size="3">O sistema fantasioso de Dom Quixote assemelha-se a um pa&iacute;s    cercado por fronteiras r&iacute;gidas que s&oacute; permite o acesso a seu interior    mediante a apresenta&ccedil;&atilde;o de um passaporte diplom&aacute;tico que    ateste a cren&ccedil;a de seu portador na exist&ecirc;ncia da Cavalaria Andante.    No entanto, uma vez ultrapassada esta alf&acirc;ndega ideol&oacute;gica, adentra-se    a um universo altamente organizado onde o viajante tem muito a aprender em termos    de hist&oacute;ria, pol&iacute;tica, religi&atilde;o, e mesmo a respeito das    coisas triviais que proliferam na vida cotidiana. Em momentos como estes, Dom    Quixote trata a Sancho como a um filho dileto com quem compartilhamos f&oacute;rmulas    eficazes de conv&iacute;vio social, como este singelo lembrete de que "n&atilde;o    h&aacute; coisa que saia mais barata do que os bons comedimentos".</font></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<P><font size="3"><b>II, pg. 393: </b>Tendo abandonado a governan&ccedil;a da    "ilha" e tomando seu caminho de volta &agrave; sua vida regular, encontra-se    Sancho com um antigo vizinho, um tal de Ricote, mouro foragido que voltara disfar&ccedil;ado    &agrave; Espanha para resgatar um tesouro que escondera. Esse inesperado personagem    oferece a Sancho uma parte de seu tesouro, caso ele se disponha a ajud&aacute;-lo    na empreitada mas, escaldado por sua frustrada ambi&ccedil;&atilde;o de al&ccedil;ar-se    a uma condi&ccedil;&atilde;o que n&atilde;o era a sua, ele recusa, dizendo:    <i>&#91;...&#93; Ricote, segue o teu caminho em boa hora e deixa-me seguir o meu, que    bem sei que o que bem se ganhou, perde-se facilmente; mas o que mal se ganhou,    perde-se ele e perde-se a gente.</i></font></P>     <P><font size="3"><b>II, pg. 400: </b>Sancho, ao ser salvo da cova por Dom Quixote    e reencontrando os duques: <i>Sa&iacute;, como digo, da ilha, sem mais acompanhamento    que o do meu ru&ccedil;o; ca&iacute; numa cova, vim por ela adiante at&eacute;    que esta manh&atilde;, com a luz do sol vi a sa&iacute;da mas t&atilde;o dif&iacute;cil    que, a n&atilde;o me deparar o c&eacute;u o senhor Dom Quixote, ali ficaria    at&eacute; ao fim do mundo. Assim, portanto, duque e duquesa meus senhores,    aqui est&aacute; o vosso governador Sancho Pan&ccedil;a que nestes dez dias    de governo, s&oacute; lucrou o ficar sabendo que n&atilde;o serve de nada ser    governador de uma ilha, nem governador do mundo inteiro. E com isto os n&atilde;o    enfado mais e, beijando os p&eacute;s a Vossas Merc&ecirc;s, dou um pulo do    governo abaixo, e passo para o servi&ccedil;o do meu amo Dom Quixote que, enfim    com ele, ainda que coma o p&atilde;o com sobressalto, ao menos sempre me farto;    e eu c&aacute;, em me fartando, pouco me importo que seja com feij&otilde;es    com que seja com perdizes.</i></font></P>     <P><font size="3">A frustrada experi&ecirc;ncia de "ser Rei por dez dias"    funcionou para Sancho como um choque de realidade, convencendo-o, facilmente,    que os seus recursos pessoais eram insuficientes para sustentar a ambi&ccedil;&atilde;o    de ser rico e poderoso. Esta li&ccedil;&atilde;o foi incorporada por ele com    tal solidez que, tendo o destino promovido o seu reencontro com este Ricote    que novamente lhe ofereceu um ganho f&aacute;cil, ele recusa de modo perempt&oacute;rio,    oferecendo como argumenta&ccedil;&atilde;o que "o que mal se ganhou",    ou seja, o ganho corrompido, &eacute; fonte de envenenamento para o pr&oacute;prio    eu.</font></P>     <P><font size="3">Esta s&aacute;bia pondera&ccedil;&atilde;o, fruto do aprendizado    emocional rec&eacute;m-adquirido, prepara no fundo o retorno do filho pr&oacute;digo    o qual, estando mergulhado na escurid&atilde;o do arrependimento, "v&ecirc;    a luz do sol", ou seja, a presen&ccedil;a salvadora do pai-patr&atilde;o    Dom Quixote que veio ao seu encontro para receb&ecirc;-lo de volta. Ao retornar,    no entanto, Sancho traz consigo a f&oacute;rmula redentora de como o ser humano    pode aprender a modificar suas frustra&ccedil;&otilde;es, garantindo assim a    sua perman&ecirc;ncia no reino da realidade. Talvez esse tenha sido o fator    crucial na recupera&ccedil;&atilde;o da lucidez por parte de Dom Quixote, o    qual, estando no leito de morte ditando seu testamento, readquiriu a identidade    prosaica de Alonso Quijano, o Bom, a distribuir com bondade os seus bens entre    aqueles que o amaram com lealdade, a come&ccedil;ar, naturalmente com seu querido    Sancho Pan&ccedil;a.</font></P>     <P>&nbsp;</P>     <P><font size="3"><b><i>Luiz Carlos Uch&ocirc;a Junqueira Filho</i></b> <i>&eacute;    membro efetivo da Sociedade Brasileira de Psican&aacute;lise de S&atilde;o Paulo,    filiada &agrave; International Psychoanalytical Association.</i></font></P>      ]]></body>
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