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</front><body><![CDATA[ <p><font size="3"><b>PSICAN&Aacute;LISE</b></font></p>     <p><font size="3"> <small>A NOVA TRADU&Ccedil;&Atilde;O BRASILEIRA DAS OBRAS DE</small>    S<small>IGMUND</small> F<small>REUD</small> </font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3">A partir dos anos 1970, o debate em torno da tradu&ccedil;&atilde;o    da obra de Freud transbordou para al&eacute;m do campo dos especialistas ganhando    destaque na comunidade psicanal&iacute;tica. Naquela &eacute;poca, as cr&iacute;ticas    centravam-se fundamentalmente nos termos psicanal&iacute;ticos adotados pela    prestigiosa tradu&ccedil;&atilde;o inglesa de James Strachey, a <i>Standard    edition of Sigmund Freud complete psychanalytical works</i>, que havia estabelecido    um padr&atilde;o terminol&oacute;gico internacional. Discutia-se uma poss&iacute;vel    revis&atilde;o dos termos "t&eacute;cnicos" psicanal&iacute;ticos, cuja tradu&ccedil;&atilde;o    passou a ser considerada por muitos como demasiado medicalizada e biologizante    e afastada da linguagem original freudiana – mais ligada &agrave; experi&ecirc;ncia    cotidiana e afetiva. Contudo, ap&oacute;s 1980, empreenderam-se mais estudos    abarcando n&atilde;o s&oacute; a <i>Standard edition</i>, mas outras importantes    tradu&ccedil;&otilde;es em outros idiomas enfocando tamb&eacute;m as circunst&acirc;ncias    pessoais, hist&oacute;ricas e ideol&oacute;gicas que afetavam os projetos de    tradu&ccedil;&atilde;o. Novos aspectos se foram acrescentando aos debates. Tamb&eacute;m    se desenvolveram novas pesquisas conceituais na interface entre psican&aacute;lise    e teoria da tradu&ccedil;&atilde;o.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v56n4/a23img01.gif"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3">In&uacute;meras distor&ccedil;&otilde;es e falta de distin&ccedil;&otilde;es    conceituais foram mapeadas nas tradu&ccedil;&otilde;es em geral, colocando-as,    de certa forma, todas sob suspeita e incentivando um movimento de revis&atilde;o    e re-feitura de tradu&ccedil;&otilde;es nos diversos idiomas. A tradu&ccedil;&atilde;o    brasileira, a <i>Edi&ccedil;&atilde;o standard brasileira das obras psicol&oacute;gicas    completas de Sigmund Freud</i> passou por um processo an&aacute;logo. Al&eacute;m    de ter envelhecido, padeceu do defeito de ter sido traduzida do ingl&ecirc;s,    e uma nova tradu&ccedil;&atilde;o, a partir do alem&atilde;o e conforme crit&eacute;rios    mais atuais, se fazia necess&aacute;ria. Entretanto, mesmo buscando incorporar    esses avan&ccedil;os, &eacute; prov&aacute;vel que nenhuma das novas tradu&ccedil;&otilde;es,    incluindo a nossa nova edi&ccedil;&atilde;o brasileira, sobreviva inc&oacute;lume    ao atual crivo cr&iacute;tico. </font></p>     <p><font size="3">O paradoxal &eacute; que, embora Freud seja o autor de l&iacute;ngua    alem&atilde; cuja tradu&ccedil;&atilde;o &eacute; de longe a mais debatida e    estudada, seus textos n&atilde;o s&atilde;o resistentes &agrave; tradu&ccedil;&atilde;o    quando comparados a outros da &eacute;poca. Freq&uuml;entemente Freud escrevia    visando divulga&ccedil;&atilde;o da psican&aacute;lise e, em geral, seus textos    eram redigidos em estilo acess&iacute;vel. Por que ent&atilde;o Freud transformou-se    num dos maiores desafios &agrave; tradu&ccedil;&atilde;o contempor&acirc;nea?    </font></p>     <p><font size="3">Parte do problema reside no fato de que o texto de Freud n&atilde;o    &eacute; apenas lido, mas estudado, a partir de diferentes perspectivas. Na    universidade Freud &eacute; estudado n&atilde;o s&oacute; por psic&oacute;logos    cl&iacute;nicos, mas tamb&eacute;m por outros especialistas e te&oacute;ricos    da literatura, cada qual exigindo diferentes aten&ccedil;&otilde;es do tradutor.    Por&eacute;m, as escolas de psican&aacute;lise, cada uma com sua terminologia    e distin&ccedil;&otilde;es conceituais, desenvolveram concep&ccedil;&otilde;es    de tradu&ccedil;&atilde;o t&atilde;o divergentes, que acabaram por gerar um    verdadeiro "cisma" no campo. </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3">Entretanto, uma tradu&ccedil;&atilde;o de Freud destina-se a    servir a toda comunidade de leitores. Assim, optamos por debater essas quest&otilde;es    com especialistas, alunos e leigos e finalmente organizamos um encontro interdisciplinar    na Faculdade de Letras da USP, em outubro de 2003, com psicanalistas, tradutores    e germanistas. Desses debates obviamente n&atilde;o surgiu um consenso, mas    amadureceu uma op&ccedil;&atilde;o: por um lado levar em conta os aspectos estil&iacute;sticos,    a clareza do texto freudiano e a naturalidade da terminologia psicanal&iacute;tica,    buscando resgatar o prazer de ler Freud e, por outro, oferecer um corpo de notas    e coment&aacute;rios que aborde quest&otilde;es conceituais-sem&acirc;nticas    essenciais a um estudo mais aprofundado. Al&eacute;m disso, ficou clara a necessidade    de uma tradu&ccedil;&atilde;o cr&iacute;tica, que permita diversos tipos de    leitura. </font></p>     <p><font size="3">Um instrumento fundamental para realizar essa tarefa &eacute;    a sem&acirc;ntica contrastiva (compara&ccedil;&otilde;es entre tra&ccedil;os    sem&acirc;nticos de dois idiomas a partir do idioma de chegada). Historicamente,    importantes contribui&ccedil;&otilde;es para a an&aacute;lise estil&iacute;stica    e sem&acirc;ntica dos textos de Freud ocorreram a partir de sua recep&ccedil;&atilde;o    no exterior e gra&ccedil;as aos estudos realizados por estrangeiros e &agrave;    leitura contrastiva. Este fen&ocirc;meno n&atilde;o &eacute; exclusivo do campo    psicanal&iacute;tico, e ocorre tamb&eacute;m em an&aacute;lises liter&aacute;rias.    S&atilde;o os estrangeiros que muitas vezes revelam, tamb&eacute;m para o leitor    nativo, a riqueza do idioma de partida, bem como peculiaridades do ambiente    cultural da obra, das quais, pela naturalidade com que o falante nativo as encara,    ele mesmo n&atilde;o se d&aacute; conta. </font></p>     <p><font size="3">Contudo, embora tradutores e comentadores estrangeiros tenham    em muito enriquecido a leitura de Freud, a margem para uma recria&ccedil;&atilde;o    tradutiva ficou cada vez mais estreita devido &agrave; crescente conceptualiza&ccedil;&atilde;o    do campo. Muitos termos ficaram engessados em uma "terminologia t&eacute;cnica",    semanticamente pobre. Essa tend&ecirc;ncia, at&eacute; certo ponto, &eacute;    o inevit&aacute;vel resultado do amadurecimento da psican&aacute;lise e da necessidade    de ado&ccedil;&atilde;o de certos padr&otilde;es terminol&oacute;gicos. Por    outro lado, Freud se serve constantemente daquilo que ele via como a sabedoria    psicol&oacute;gica embutida nos idiomas, para apontar para nexos e origens,    compartilhados entre fen&ocirc;menos ps&iacute;quicos aparentemente desconectados.    Tirava partido da vivacidade de certas palavras, das conota&ccedil;&otilde;es    sutis e da facilidade de se construir palavras em alem&atilde;o (por meio de    composi&ccedil;&atilde;o), para descrever processos inconscientes fundamentais    que estariam presentes na pr&oacute;pria estrutura&ccedil;&atilde;o das l&iacute;nguas.    Assim, dado o uso que Freud faz da linguagem, a conceitualiza&ccedil;&atilde;o    crescente da psican&aacute;lise cria para o tradutor um impasse insuper&aacute;vel    entre dois g&ecirc;neros de rigor conceitual, aquele apoiado na fixa&ccedil;&atilde;o    dos termos em um c&oacute;digo terminol&oacute;gico r&iacute;gido e semanticamente    mais pobre, ou o rigor conceitual apoiado na elucida&ccedil;&atilde;o dos nexos    sem&acirc;nticos e nos sin&ocirc;nimos que circunscrevem o conceito. Por exemplo,    a palavra <i>befriedigung</i> deve ser traduzida sempre como "satisfa&ccedil;&atilde;o",    ou, conforme o contexto, ora como "apaziguamento", como "sacia&ccedil;&atilde;o"    ou como "gozo" ? Nos casos em que optamos pela terminologiza&ccedil;&atilde;o    r&iacute;gida, usamos notas sobre os aspectos sem&acirc;nticos n&atilde;o resgatados    em portugu&ecirc;s, nos casos em que deixamos o termo flutuar livremente, advertimos    que se trata do mesmo termo alem&atilde;o. </font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v56n4/a23img02.gif"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3">Assim, se, em algum grau, todo tradutor leva em conta a sem&acirc;ntica    contrastiva, em nosso trabalho sentimos a necessidade de sistematizar este instrumento.    Esses e outros crit&eacute;rios que nortearam o trabalho ser&atilde;o detalhados    na apresenta&ccedil;&atilde;o do primeiro volume. Ao final da apresenta&ccedil;&atilde;o,    consta um pequeno trecho especialmente dif&iacute;cil de se traduzir retirado    do artigo "O Recalque" (1915), cuja tradu&ccedil;&atilde;o &eacute; discutida    passo a passo e comparada com outras tradu&ccedil;&otilde;es existentes.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="right"><font size="3"><i><b> Luiz Alberto Hanns</b></i></font></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><FONT SIZE="3"><i><b>Luiz Alberto Hanns</b> &eacute; doutor em psicologia cl&iacute;nica,    psicanalista, autor do Dicion&aacute;rio comentado do alem&atilde;o de Freud    e de A teoria pulsional na cl&iacute;nica de Freud e editor da nova tradu&ccedil;&atilde;o    das obras de Freud para o portugu&ecirc;s. &Eacute; professor do curso de p&oacute;s    gradua&ccedil;&atilde;o latu-sensu em psican&aacute;lise no Instituto de Psicologia    da USP.</i></FONT></p>      ]]></body>
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