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</front><body><![CDATA[ <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v56n4/a26img01.gif"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><FONT size="3"><b>CINEMA</b></FONT></p>     <p><font size="3"> A <small>HORA E AVEZ DO DOCUMENT&Aacute;RIO</small></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3"> O document&aacute;rio vive, hoje, uma verdadeira efervesc&ecirc;ncia    tanto na produ&ccedil;&atilde;o como na pesquisa. Apesar de ainda n&atilde;o    desfrutar dos grandes investimentos da ind&uacute;stria cinematogr&aacute;fica,    nem tampouco obter o sucesso comercial de filmes como <i>O senhor dos an&eacute;is</i>    ou <i>Kill Bill</i>, o n&uacute;mero de produ&ccedil;&otilde;es tem crescido,    chegando &agrave;s salas de cinema mundo afora, e seus diretores voltam a ter    o talento reconhecido. </font></p>     <p><font size="3">Para o pesquisador Fern&atilde;o Ramos, professor do Instituto    de Artes da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), "o document&aacute;rio    deixou de ser marginal e est&aacute;, cada vez mais, ocupando um lugar central    no cinema". A evid&ecirc;ncia mais recente desse fen&ocirc;meno &eacute; <i>Fahrenheit    9/11</i>, que ganhou a Palma de Ouro no Festival de Cannes, conquista que apenas    outro document&aacute;rio, <i>O mundo do sil&ecirc;ncio</i>, de Jacques Cousteau    e Louis Malle, havia conseguido antes, em 1956, quando o pr&ecirc;mio ainda    nem tinha o mesmo nome. O pol&ecirc;mico documentarista norte-americano, Michael    Moore, j&aacute; havia emplacado outro document&aacute;rio anteriormente, <i>Tiros    em Columbine</i>, e chamado a aten&ccedil;&atilde;o para o g&ecirc;nero. </font></p>     <p><font size="3">Na Fran&ccedil;a, Nicholas Philibert conseguiu uma performance    semelhante para o seu document&aacute;rio <i>Ser e ter</i> (<i>&Ecirc;tre et    avoir</i>) que aborda o cotidiano de alunos de uma pequena escola rural, respons&aacute;vel,    inclusive, por uma pol&ecirc;mica sobre direitos autorais para o professor retratado    no filme, chegando at&eacute; a uma disputa judicial em torno dos lucros obtidos    com a exibi&ccedil;&atilde;o. </font></p>     <p><font size="3">A produ&ccedil;&atilde;o brasileira, igualmente, vem ganhando    maior visibilidade e tem no festival internacional de document&aacute;rios <i>&Eacute;    tudo verdade</i> um quadro representativo desse cen&aacute;rio. Em 1996, quando    foi criado, o festival reuniu 50 filmes produzidos no pa&iacute;s; neste ano,    o n&uacute;mero foi cinco vezes maior.</font></p>     <p><font size="3">Essa explos&atilde;o de interesse pelo g&ecirc;nero deve-se,    em grande parte, ao surgimento da c&acirc;mera digital, que barateou a produ&ccedil;&atilde;o.    Para Ramos, cresceu, igualmente, a demanda por narrativas que reflitam sobre    as imagens relacionadas com a realidade concreta que as pessoas vivem. "Hoje,    a audi&ecirc;ncia do document&aacute;rio j&aacute; domina cerca de 15% das exibi&ccedil;&otilde;es    no pa&iacute;s, o que &eacute; um salto muito grande ao &iacute;ndice de 1%    a 2% de anos atr&aacute;s".</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><FONT SIZE="3"><b>COMERCIALIZA&Ccedil;&Atilde;O DIF&Iacute;CIL</b> Embora distribuidores    e p&uacute;blico estejam mais receptivos ao document&aacute;rio, ainda h&aacute;    dificuldades em se manter em cartaz no circuito comercial de cinema. "Entrar    nas salas &eacute; dif&iacute;cil, mas poss&iacute;vel. O problema &eacute;    que, se o filme n&atilde;o alcan&ccedil;ar um p&uacute;blico razo&aacute;vel    na estr&eacute;ia, a tend&ecirc;ncia &eacute; que reduzam hor&aacute;rios, mudem    para uma sala pior, o que significa tamb&eacute;m uma tend&ecirc;ncia a fazer    um p&uacute;blico menor na semana seguinte". Kiko Goifman, diretor de <i>33</i>    e <i>Morte densa</i>, acrescenta que o document&aacute;rio brasileiro enfrenta,    ainda, a concorr&ecirc;ncia dos estrangeiros e dos filmes de fic&ccedil;&atilde;o.    "Se voc&ecirc; chega ao circuito comercial sem verba para publicidade e c&oacute;pias,    seu filme ficar&aacute; pouco tempo em cartaz, explica. </font></p>     <p><font size="3">O circuito de festivais e as TVs s&atilde;o os meios de exibi&ccedil;&atilde;o    mais comuns para o g&ecirc;nero, mas a parceria com canais a cabo ainda &eacute;    fraca no Brasil. O surgimento do canal GNT animou os documentaristas, mas a    emissora n&atilde;o tem verba para a produ&ccedil;&atilde;o dos filmes, pois    "&eacute; mais barato comprar pacotes internacionais", lamenta Goifman.</font></p>     <p><FONT SIZE="3"><b>MAIS SEDU&Ccedil;&Atilde;O</b> O cineasta defende pol&iacute;ticas    de est&iacute;mulo para que o p&uacute;blico entre no cinema para conhecer a    produ&ccedil;&atilde;o atual de document&aacute;rios, o que inclui at&eacute;    a redu&ccedil;&atilde;o do pre&ccedil;o do ingresso. Existe hoje uma produ&ccedil;&atilde;o    mais instigante e sedutora", diz. O pr&oacute;prio Goifman fez um document&aacute;rio    autobiogr&aacute;fico, o <i>33</i>, onde trata da quest&atilde;o de ado&ccedil;&atilde;o,    ao registrar a busca por sua m&atilde;e biol&oacute;gica. O filme se estrutura    de forma parecida com a fic&ccedil;&atilde;o, como aponta o cr&iacute;tico e    professor de cinema Jean-Claude Bernardet. </font></p>     <p><font size="3">"O bom document&aacute;rio tende &agrave; fic&ccedil;&atilde;o;    a boa fic&ccedil;&atilde;o tende ao document&aacute;rio", nas palavras do cineasta    franc&ecirc;s Jean-Luc Godard ao se referir ao cinema de seu compatriota, Jean    Rouch, que morreu no in&iacute;cio deste ano. Rouch transcende o terreno do    document&aacute;rio, misturando procedimentos e influ&ecirc;ncias da fic&ccedil;&atilde;o    no desenvolvimento de seus filmes. Em <i>Eu, um negro</i> (<i>Moi, un noir</i>),    de 1958, os personagens, reais, "fazem de conta" que s&atilde;o atores conhecidos    do cinema americano, ficcionalizando a si pr&oacute;prios. "Os filmes de Rouch    s&atilde;o, de certa forma, ficcionais", avalia Bernardet.</font></p>     <p><font size="3">"O document&aacute;rio n&atilde;o tem que informar, educar,    n&atilde;o &eacute; jornalismo; mostra maneiras de se ver o mundo", pondera    o cineasta Eduardo Coutinho de <i>Cabra marcado para morrer</i> e <i>Edif&iacute;cio    Master</i>. Goifman entende o abandono do didatismo como um dos fatores para    esse bom momento do cinema n&atilde;o-ficcional. O diretor empresta seu olhar    mas n&atilde;o reproduz a realidade em si, diz Goifman citando o filme <i>Prisioneiro    da grade de ferro</i>, de Paulo Sacramento, sobre o pres&iacute;dio Carandiru,    mas sem pretender desvendar a totalidade dos fatos.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v56n4/a26img02.gif"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="right"><font size="3"><b><i>Ana Carolina Freitas</i></b></font></p>      ]]></body>
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