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</front><body><![CDATA[ <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v57n1/a03img01.gif"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3">MEIO URBANO</font></p>     <p><img src="/img/revistas/cic/v57n1/a03img02.gif"></p>     <p><font size="4"><b>Corpos blindados na cidade </b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3">Pessoas dormindo, lendo, ouvindo m&uacute;sica com fones de    ouvido ou simplesmente olhando para fora, muitas vezes com olhos fixos no nada.    Essas cenas corriqueiras nos transportes coletivos foram objeto de estudo para    Ricardo Santos, psic&oacute;logo cl&iacute;nico e pesquisador do programa de    psicologia social da Universidade de S&atilde;o Paulo (USP). Sua principal pergunta:    o que estaria envolvido nessa situa&ccedil;&atilde;o, permitindo sua perman&ecirc;ncia    e repeti&ccedil;&atilde;o em nosso meio social? Em seu trabalho, o pesquisador    busca responder a quest&atilde;o.Voltou a debater o tema em outubro, no IV Encontro    Internacional Giros na Cidade, realizado pelo Laborat&oacute;rio de Estudos    Urbanos (Labeurb) da Unicamp, tra&ccedil;ando diferen&ccedil;as entre a conceitua&ccedil;&atilde;o    psicanal&iacute;tica de <i>n&atilde;o-lugar</i>, e o mesmo conceito na perspectiva    antropol&oacute;gica de Marc Aug&eacute;. </font></p>     <p><font size="3">O pesquisador explica que tanto os instrumentos de reprodu&ccedil;&atilde;o    de &aacute;udio, livros e revistas, quanto o olhar perdido na paisagem em movimento,    o sil&ecirc;ncio &aacute;spero, marcado pelos ru&iacute;dos da rua e dos ve&iacute;culos,    o isolamento numa poltrona &uacute;nica e, at&eacute; mesmo, o sono podem ser    entendidos como recursos utilizados para proteger o sujeito em sua perman&ecirc;ncia    no que ele denominou <i>n&atilde;o-lugar</i>, um lugar ut&oacute;pico onde cada    um, a seu modo, busca permanecer. Apesar de id&ecirc;ntica, a express&atilde;o    <i>n&atilde;o-lugar</i> diferencia-se do termo adotado por Aug&eacute;. Para    Santos, os dois conceitos – o psicanal&iacute;tico e o antropol&oacute;gico    – s&atilde;o fios de um mesmo tecido a entrecruzar o olhar sobre o transporte    p&uacute;blico em grandes centros urbanos, mas partem de pressupostos te&oacute;ricos    distintos, gerando diferentes conceitos.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v57n1/a05fig01.gif"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3">Na perspectiva do psic&oacute;logo, a id&eacute;ia de <i>n&atilde;o-lugar</i>    vem da literatura de Jorge Luis Borges, mais especificamente do conto "A utopia    de um homem que est&aacute; cansado", publicado em <i>O livro de areia</i>,    de 1975. "&Eacute; justamente para um lugar inexistente que, no conto, dirige-se    o narrador. Ele vai parar no futuro, onde encontra uma pessoa que o esperava.    Os dois conversam amistosamente e, pelas contraposi&ccedil;&otilde;es estabelecidas,    vemos, naquele mundo futuro, o mundo ideal do narrador", diz Santos, que na    &eacute;poca ainda n&atilde;o conhecia o trabalho de Aug&eacute;. Em seu estudo,    ele usa a literatura como <i>interpretante</i> para questionar o sentido rotineiro    de lugar e, em Borges, v&ecirc; a possibilidade de visita a lugares inexistentes.    </font></p>     <p><font size="3">No transporte p&uacute;blico, a perman&ecirc;ncia no <i>n&atilde;o-lugar</i>    &eacute; conseguida por meio de instrumentos de blindagem do corpo, como livros    ou <i>walkmans</i>, por exemplo. A blindagem corporal protege contra qualquer    um disposto a conversar e, tamb&eacute;m, contra a cidade e suas demandas. </font></p>     <p><font size="3">No romance de Anne Tyler, <i>O turista acidental</i>, transposto    para o cinema com o mesmo nome, o personagem principal dedica-se a escrever    guias de viagens para executivos norte-americanos que desejam, igualmente, uma    esp&eacute;cie de blindagem frente ao mundo em que s&atilde;o obrigados a circular.    O escritor, ele pr&oacute;prio com s&eacute;ria dificuldade de relacionamento    social, d&aacute; dicas para evitar a conviv&ecirc;ncia em situa&ccedil;&otilde;es    p&uacute;blicas, como viagens a&eacute;reas, e sugere recursos para reproduzir    o ambiente familiar e acolhedor de seu lar, em qualquer paisagem que o viajante    seja obrigado a transitar.</font></p>     <p><font size="3">Na caracteriza&ccedil;&atilde;o do estudo de Santos, o sujeito    mant&eacute;m-se numa <i>presen&ccedil;a-ausente</i> durante o trajeto, tornando    tamb&eacute;m o espa&ccedil;o do transporte p&uacute;blico em uma esp&eacute;cie    de <i>n&atilde;o-lugar</i> prop&iacute;cio a que outros recursos ps&iacute;quicos    atuem, como nossa capacidade de imaginar, de construirmos imagens, colocando    o mundo como um nada. Para o psic&oacute;logo, o interior do transporte coletivo    &eacute; um espa&ccedil;o com regras inconscientes que determinam as inter-rela&ccedil;&otilde;es    entre os passageiros, aquilo que pode ou n&atilde;o ser pensado, aquilo que    &eacute; permitido em seu interior. "Uma descri&ccedil;&atilde;o do campo relacional    entre corpos blindados, entre presen&ccedil;as ausentes, poderia ser a seguinte:    <i>ele est&aacute; lendo, melhor n&atilde;o importun&aacute;-lo; est&aacute;    ouvindo m&uacute;sica, melhor deix&aacute;-lo; aquele outro est&aacute; calado    e pensativo, deixemo-lo</i>", diz Santos.</font></p>     <p><font size="3">O ingresso e a perman&ecirc;ncia nesse <i>n&atilde;o-lugar</i>    podem ser entendidos, da perspectiva psicol&oacute;gica, tamb&eacute;m como    uma forma de prote&ccedil;&atilde;o da subjetividade. "Antes o espa&ccedil;o    do transporte p&uacute;blico era tido como um lugar unicamente de deslocamento,    o sono relacionava-se ao cansa&ccedil;o e as leituras a uma grande disposi&ccedil;&atilde;o;    agora, podemos pens&aacute;-lo como fruto de uma intensa produ&ccedil;&atilde;o    intersubjetiva, cujas regras organizam rela&ccedil;&otilde;es marcadas por sil&ecirc;ncio    e isolamento enquanto imagens (e emo&ccedil;&otilde;es) se constroem no &iacute;ntimo    de cada um, tendo como organizador o desejo, presente nesse <i>n&atilde;o-lugar</i>    constitu&iacute;do psiquicamente", conclui Santos.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="right"><font size="3"><i><b>Marta Kanashiro</b></i></font></p>      ]]></body>
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