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</front><body><![CDATA[ <P align="center"><img src="/img/revistas/cic/v57n1/a13img01.gif"></P>     <P>&nbsp;</P>     <P><font size=5><b>PESQUISA EM SA&Uacute;DE E REFORMA SANIT&Aacute;RIA</b></font></P>     <P><font size="3"><b>Reinaldo Guimar&atilde;es</b></font></P>     <P>&nbsp;</P>     <P><font size="3"><font size=5><b>C</b></font>om a poss&iacute;vel exce&ccedil;&atilde;o    da pesquisa militar, a sa&uacute;de &eacute; o setor que despende a maior quantidade    de recursos em termos mundiais. Em 1998, estimava-se terem sido algo como US$    73,5 bilh&otilde;es (1), dos quais mais de 90% nos pa&iacute;ses ricos e visando    resolver os seus pr&oacute;prios problemas. </font></P>     <P><font size="3">Em contrapartida, o esfor&ccedil;o realizado pelo Brasil no    terreno da pesquisa em sa&uacute;de &eacute; admir&aacute;vel. No plano hist&oacute;rico,    ela &eacute; a mais antiga e a que acumula as maiores contribui&ccedil;&otilde;es    em n&iacute;vel mundial. Hoje em dia, em termos setoriais, &eacute; a que det&eacute;m    o maior n&uacute;mero de pesquisadores, linhas e grupos de pesquisa ativos.    At&eacute; julho de 2002, eram quase 5 mil grupos com pelo menos uma linha de    pesquisa em sa&uacute;de e cerca de 18 mil pesquisadores (11 mil doutores) envolvidos    nas mesmas. Dependendo da forma de medir, isso representa entre 25% e 30% do    esfor&ccedil;o total de pesquisa no pa&iacute;s.</font></P>     <P><font size="3">Mas quando se formula a pergunta – "Qual o grau de intera&ccedil;&atilde;o    da pesquisa em sa&uacute;de com a Pol&iacute;tica Nacional de Sa&uacute;de no    Brasil de hoje?" – h&aacute; motivos para preocupa&ccedil;&atilde;o, pois ela    parece estar aqu&eacute;m do desej&aacute;vel. Se pud&eacute;ssemos contar quantos    dentre os pesquisadores mencionados acima definem suas prioridades de pesquisa    em conson&acirc;ncia com prioridades expl&iacute;citas de pesquisa oriundas    da Pol&iacute;tica Nacional de Sa&uacute;de, provavelmente chegar&iacute;amos    a um resultado pouco animador. Apesar de evoluir desde os anos 1950, essa dificuldade    foi enunciada com clareza apenas em 1994, na 1ª Confer&ecirc;ncia Nacional de    Ci&ecirc;ncia e Tecnologia em Sa&uacute;de cuja resolu&ccedil;&atilde;o final    estabeleceu que "a pol&iacute;tica de pesquisa em sa&uacute;de &eacute; um componente    da Pol&iacute;tica Nacional de Sa&uacute;de". Na simplicidade da frase se esconde    uma tarefa de dif&iacute;cil execu&ccedil;&atilde;o e, de fato, passados quase    dez anos da 1ª Confer&ecirc;ncia, ela ainda n&atilde;o foi realizada.</font></P>     <P><font size="3">Mas, no plano hist&oacute;rico, houve tempo em que essa intera&ccedil;&atilde;o    foi muito maior. Portanto, talvez n&atilde;o se trate apenas de introduzir um    padr&atilde;o original de pr&aacute;tica de pesquisa, mas de recuperar uma tradi&ccedil;&atilde;o    centen&aacute;ria em nosso pa&iacute;s, posto que ela est&aacute; na raiz da    pesquisa em sa&uacute;de no Brasil, no Instituto Bacteriol&oacute;gico de S&atilde;o    Paulo (com Adolfo Lutz), no Instituto de Manguinhos (com Oswaldo Cruz), no Instituto    Butantan (com Vital Brasil) e no Instituto Biol&oacute;gico de S&atilde;o Paulo    (com Artur Neiva e Rocha Lima). Essas institui&ccedil;&otilde;es, desde o final    do s&eacute;culo XIX e at&eacute; os anos 30 do s&eacute;culo XX, nada mais    fizeram do que praticar uma pesquisa com intensos v&iacute;nculos com as pol&iacute;ticas    de sa&uacute;de, inspiradas no modelo de Pasteur. Um pouco mais tarde, podemos    citar tamb&eacute;m o Instituto Evandro Chagas de Bel&eacute;m, tendo &agrave;    frente o seu patrono. Nelas, cada uma a seu modo, fez-se uma pesquisa experimental,    muitas vezes de fronteira, que nunca teve dificuldade em manter seus compromissos    com o atendimento &agrave;s necessidades de sa&uacute;de da popula&ccedil;&atilde;o.    Que foi capaz de amalgamar as aquisi&ccedil;&otilde;es dessa pesquisa com a    observa&ccedil;&atilde;o cl&iacute;nica e com a interven&ccedil;&atilde;o populacional    de sa&uacute;de p&uacute;blica, bem como tratou de transferir muitas de suas    descobertas para o terreno da produ&ccedil;&atilde;o industrial (como no caso    dos soros e vacinas). E que, finalmente, n&atilde;o deixou de formar recursos    humanos qualificados e de disseminar seus achados atrav&eacute;s de revistas    cient&iacute;ficas de excelente n&iacute;vel, algumas existentes at&eacute;    hoje.</font></P>     <P><font size="3">Naturalmente, nossa realidade atual &eacute; muito diferente    da que existiu no tempo da funda&ccedil;&atilde;o da pesquisa em sa&uacute;de    no Brasil. S&atilde;o novas institui&ccedil;&otilde;es, a magnitude das tarefas    e dos problemas &eacute; muito maior e os interesses nacionais e internacionais    em jogo s&atilde;o gigantescos. No entanto, numa perspectiva heur&iacute;stica,    a experi&ecirc;ncia hist&oacute;rica deve chamar nossa aten&ccedil;&atilde;o    para a possibilidade de uma redefini&ccedil;&atilde;o dos padr&otilde;es de    pesquisa em sa&uacute;de no pa&iacute;s. Deve, al&eacute;m disso, sugerir uma    dire&ccedil;&atilde;o para a mudan&ccedil;a, na qual um olhar mais atento da    comunidade cient&iacute;fica e tecnol&oacute;gica &agrave;s necessidades e &agrave;s    pol&iacute;ticas de sa&uacute;de n&atilde;o signifique um empobrecimento de    sua capacidade de inven&ccedil;&atilde;o ou uma perda de sua autonomia criativa.</font></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<P><font size="3">A pol&iacute;tica brasileira de C&amp;T privilegia a elei&ccedil;&atilde;o    de setores de atividade econ&ocirc;mica como base de sua concep&ccedil;&atilde;o    e orienta&ccedil;&atilde;o (2). Esta &ecirc;nfase, embora compreens&iacute;vel    como dire&ccedil;&atilde;o geral, tem deixado de lado uma outra vis&atilde;o    das pol&iacute;ticas de C&amp;T, em setores que possuem uma enorme relev&acirc;ncia    no Brasil e nos quais a atividade de pesquisa deveria ocupar um lugar muito    mais central do que ocupa hoje e do que jamais ocupou. Trata-se do olhar em    dire&ccedil;&atilde;o aos setores de atividade social, em particular os de alimenta&ccedil;&atilde;o,    sa&uacute;de, habita&ccedil;&atilde;o e educa&ccedil;&atilde;o.</font></P>     <P><font size="3">Esse olhar da pol&iacute;tica de C&amp;T em dire&ccedil;&atilde;o    &agrave;s pol&iacute;ticas sociais possui, tamb&eacute;m, a virtude de operar    um deslocamento na dire&ccedil;&atilde;o de um novo projeto nacional no qual    possa ser mais valorizado o mercado interno e as necessidades da popula&ccedil;&atilde;o    brasileira. Por exemplo, no que se refere &agrave; alimenta&ccedil;&atilde;o,    ao lado de aumentar a competitividade das <i>commodities</i> brasileiras de    exporta&ccedil;&atilde;o (o que &eacute;, sem d&uacute;vida, importante), ser&aacute;    essencial inaugurar linhas de apoio &agrave; pesquisa com vistas, por exemplo,    a uma pol&iacute;tica de seguran&ccedil;a alimentar. Uma nova pol&iacute;tica    de ci&ecirc;ncia e tecnologia em sa&uacute;de ter&aacute;, portanto, o desafio    de, ao mesmo tempo, fomentar o avan&ccedil;o do conhecimento cient&iacute;fico    no setor de sa&uacute;de, orientar os vetores de desenvolvimento tecnol&oacute;gico    e de inova&ccedil;&atilde;o da ind&uacute;stria de equipamentos, medicamentos,    imunizantes e outros insumos b&aacute;sicos &agrave; sa&uacute;de, sempre sem    perder de vista os mecanismos de apropria&ccedil;&atilde;o societ&aacute;ria    dos resultados alcan&ccedil;ados no conjunto de suas a&ccedil;&otilde;es.</font></P>     <P><font size="3">A desigualdade &eacute; o calcanhar de Aquiles da civiliza&ccedil;&atilde;o    brasileira. Todo o progresso conquistado por gera&ccedil;&otilde;es, em todos    os campos em que isso foi observado, esbarra na marca infame – muitas vezes    crescente – da desigualdade. N&atilde;o &eacute; diferente no campo da sa&uacute;de.    Os indicadores regionais e os referentes a diferentes grupos sociais dentro    de cada regi&atilde;o demonstram a profunda discrimina&ccedil;&atilde;o social    quanto &agrave; sa&uacute;de, seja nos padr&otilde;es de morbidade, de mortalidade,    no acesso aos servi&ccedil;os, na qualidade do atendimento, na disponibilidade    de infra-estrutura sanit&aacute;ria, enfim em qualquer aspecto da interven&ccedil;&atilde;o    p&uacute;blica ou privada atinente &agrave; mesma. O compromisso de combater    a marca da desigualdade no campo da sa&uacute;de (aumentar os padr&otilde;es    de eq&uuml;idade do sistema de sa&uacute;de) deve ser o primeiro fundamento    b&aacute;sico da pol&iacute;tica de ci&ecirc;ncia, tecnologia e inova&ccedil;&atilde;o    em sa&uacute;de, e deve orientar todos os seus aspectos, todas as suas escolhas,    em todos os momentos.</font></P>     <P><font size="3">Em artigo recente, publicado no <i>Bulletin of the World Health    Organization</i>, l&ecirc;-se: "Se o sistema de pesquisa em sa&uacute;de de    um pa&iacute;s pode ser considerado como o ‘c&eacute;rebro’ do seu sistema de    sa&uacute;de, ent&atilde;o a &eacute;tica constitui a sua ‘consci&ecirc;ncia’.    &Eacute; imperativo que sistemas de sa&uacute;de operem segundo as mais altas    aspira&ccedil;&otilde;es &eacute;ticas e de justi&ccedil;a distributiva" (3).    N&atilde;o resta d&uacute;vida de que as crescentes restri&ccedil;&otilde;es    observadas nos pa&iacute;ses centrais quanto aos experimentos in anima nobile    dentro de suas fronteiras t&ecirc;m estimulado a exporta&ccedil;&atilde;o de    projetos de pesquisa, em particular de protocolos de ensaios cl&iacute;nicos    e terap&ecirc;uticos para serem executados em popula&ccedil;&otilde;es de pa&iacute;ses    em desenvolvimento, em condi&ccedil;&otilde;es que seriam legalmente proibidas    porque eticamente inaceit&aacute;veis no pa&iacute;s de origem. </font></P>     <P><font size="3">A busca da eq&uuml;idade e a sustenta&ccedil;&atilde;o de padr&otilde;es    &eacute;ticos na pesquisa em sa&uacute;de s&atilde;o os dois fundamentos b&aacute;sicos    de uma nova pol&iacute;tica de ci&ecirc;ncia, tecnologia e inova&ccedil;&atilde;o    em sa&uacute;de. A responsabilidade pela sua implanta&ccedil;&atilde;o cabe    essencialmente ao Minist&eacute;rio da Sa&uacute;de, em cuja miss&atilde;o constitucional    inclui-se a guarda e o desenvolvimento da pol&iacute;tica nacional de sa&uacute;de.    E o fato &eacute; que, diferentemente da maioria dos pa&iacute;ses do mundo    que possuem alguma tradi&ccedil;&atilde;o de pesquisa, o nosso Minist&eacute;rio    da Sa&uacute;de, jamais, em 51 anos de vida, cuidou de estruturar o esfor&ccedil;o    de pesquisa em sa&uacute;de no Brasil. &Eacute; tempo de come&ccedil;ar a faz&ecirc;-lo.</font></P>     <P>&nbsp;</P>     <P><font size="3"><i><b>Reinaldo Guimar&atilde;es</b> &eacute; diretor do Departamento    de Ci&ecirc;ncia e Tecnologia do Minist&eacute;rio da Sa&uacute;de e membro    do GT de Ci&ecirc;ncia e Tecnologia da Associa&ccedil;&atilde;o Brasileira de    P&oacute;s-Gradua&ccedil;&atilde;o em Sa&uacute;de Coletiva ( Abrasco). </i></font></P>     <P>&nbsp;</P>     <P>&nbsp;</P>     <P><font size="3"><b>NOTAS E REFER&Ecirc;NCIAS BIBLIOGR&Aacute;FICAS</b></font></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><P><font size="3">1. OMS/Global Forum – <i>Tracking Financing Flows in Health    Research</i>. 2001. Considerando que o or&ccedil;amento dos National Institutes    of Health (USA) duplicou nos &uacute;ltimos cinco anos, a cifra correspondente    para 2003 deve ter ultrapassado US$ 100 bilh&otilde;es.</font><P><font size="3">2. Orienta&ccedil;&atilde;o que pode ser observada com nitidez    na arquitetura e na opera&ccedil;&atilde;o dos Fundos Setoriais, pelo Minist&eacute;rio    da Ci&ecirc;ncia e Tecnologia.</font></P>     <!-- ref --><P><font size="3">3. Buttha, A. <i>Bulletin of the World Health Organization</i>.    2002.</font> ]]></body><back>
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