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</front><body><![CDATA[ <P align="center"><img src="/img/revistas/cic/v57n1/a13img01.gif"></P>     <P>&nbsp;</P>     <P><font size=5><b>AINDA SOBRE A CI&Ecirc;NCIA COMO VOCA&Ccedil;&Atilde;O</b></font></P>     <P><font size="3"><b>Roberto Bartholo</b> </font></P>     <P>&nbsp;</P>     <P><font size="3"><font size=5><b>V</b></font>ivemos um tempo onde a confronta&ccedil;&atilde;o    com os poderes e conquistas tecnocient&iacute;ficas &eacute; constitutiva de    nosso cotidiano. A cren&ccedil;a numa onipot&ecirc;ncia para o Bem da interven&ccedil;&atilde;o    tecnocient&iacute;fica, elemento de base das ideologias do salvacionismo tecnocr&aacute;tico,    pressup&otilde;e a certeza de uma permanente capacidade auto-corretiva do vetor    tecnol&oacute;gico para eventuais efeitos externos indesej&aacute;veis, sem    que para isso se torne imperativa qualquer revis&atilde;o de seus par&acirc;metros    e crit&eacute;rios de efici&ecirc;ncia e efic&aacute;cia. Parte dos dilemas    de nosso tempo &eacute; o mal-estar quanto &agrave; corrobora&ccedil;&atilde;o    de tais premissas pelos fatos da experi&ecirc;ncia. </font></P>     <P><font size="3">Os caminhos da modernidade hegem&ocirc;nica contempor&acirc;nea,    dita <i>globalizada</i>, parecem uma espiral cumulativa de dist&uacute;rbios    irrevers&iacute;veis: degrada&ccedil;&atilde;o ambiental, exclus&atilde;o social,    viol&ecirc;ncia e injusti&ccedil;a se associam &agrave; emerg&ecirc;ncia de    estados patol&oacute;gicos transformados em norma. A aceitabilidade social e    a legitimidade &eacute;tico-pol&iacute;tica de sistemas tecnocient&iacute;ficos,    que corporificam em si decis&otilde;es gr&aacute;vidas de irreversibilidades    sobre modos de vida presentes e futuros, s&atilde;o o problema central para    as democracias.</font></P>     <P><font size="3">A neutraliza&ccedil;&atilde;o &eacute;tica da id&eacute;ia de    verdade e sua identifica&ccedil;&atilde;o com o conceito operacional de <i>corre&ccedil;&atilde;o    preditiva</i> de proposi&ccedil;&otilde;es relativas a rela&ccedil;&otilde;es    causais observ&aacute;veis (e mensur&aacute;veis) na descri&ccedil;&atilde;o    de eventos serve de suporte para uma identifica&ccedil;&atilde;o entre saber    e poder, congruente com a cl&aacute;ssica formula&ccedil;&atilde;o de Francis    Bacon (1). Essa constru&ccedil;&atilde;o permeia o redesenho iluminista europeu    do ideal do homem culto. Nele se expressa uma postura diante da vida a ser atingida    com base numa atividade espiritual aut&ocirc;noma, capaz de superar, de forma    dial&eacute;tica, a tutela imposta heteronomamente pela educa&ccedil;&atilde;o    religiosa popular. </font></P>     <P><font size="3">Essa perspectiva tem express&atilde;o de incompar&aacute;vel    clareza e concis&atilde;o nos versos do <i>Zahme Xenien</i> de J.W. Goethe:    "... Quem possui ci&ecirc;ncia e arte, tem tamb&eacute;m religi&atilde;o. Quem    ambas n&atilde;o possui, tem religi&atilde;o".</font></P>     <P><font size="3">A tecnoci&ecirc;ncia contempor&acirc;nea constitui-se em subst&acirc;ncia    de coes&atilde;o de um mundo artificial, fundado em hibridismos v&aacute;rios    onde n&atilde;o se vislumbra mais delimita&ccedil;&atilde;o clara entre o natural    e o sint&eacute;tico. Os riscos de tutela, contra os quais o libelo iluminista    se dirigia, mudam de face. N&atilde;o se trata mais de priorizar a necessidade    de destutelarizar o intelecto contra os grilh&otilde;es mentais da escol&aacute;stica    medieval. O anestesiamento do esp&iacute;rito cr&iacute;tico tem novos portadores.    Superar a domina&ccedil;&atilde;o tutelar de "pedagogos, terapeutas e planejadores    do sentido da vida" &eacute; um desafio que ganha renovadas dimens&otilde;es.    E uma atualiza&ccedil;&atilde;o dos versos de J.W. Goethe parece ser imperativa:    "... Quem possui capacidade de confronta&ccedil;&atilde;o &eacute;tica com a    modernidade tem tamb&eacute;m tecnoci&ecirc;ncia. Quem isso n&atilde;o possui,    tem tecnoci&ecirc;ncia".</font></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<P><font size="3">A simples amplia&ccedil;&atilde;o do espectro de poderes tecnocient&iacute;ficos    n&atilde;o pode ser identificada com um benef&iacute;cio para uma humanidade    abstrata e gen&eacute;rica. Se tanto, &eacute; poss&iacute;vel apenas associ&aacute;-la    ao benef&iacute;cio de um subconjunto social e historicamente determinado de    pessoas. E a identifica&ccedil;&atilde;o desse subconjunto com a totalidade    opera uma pervers&atilde;o do ideal da liberdade, para dele fazer elemento de    uma ret&oacute;rica a servi&ccedil;o da perpetua&ccedil;&atilde;o de privil&eacute;gios.</font></P>     <P><font size="3">J&aacute; fomos h&aacute; tempos advertidos por Max Weber de    que "nenhuma ci&ecirc;ncia &eacute; absolutamente isenta de pr&eacute;-condi&ccedil;&otilde;es"    (2). E uma pr&eacute;-condi&ccedil;&atilde;o fundamental &eacute; que o produto    do trabalho cient&iacute;fico seja algo valioso de ser conhecido. Esta valora&ccedil;&atilde;o    &eacute; pr&eacute;via ao trabalho cient&iacute;fico em sentido estrito. Os    objetos de conhecimento apresentam-se vinculados a contextos de interesse <i>n&atilde;o    tematizados na pesquisa</i>. Apenas nesse sentido pode ser l&iacute;cito afirmar    que a ci&ecirc;ncia <i>em ato</i> seja valorativamente cega. </font></P>     <P><font size="3">Mas isso n&atilde;o implica que, usando as palavras de Max Weber,    para a pr&aacute;xis cient&iacute;fica existam sempre diferentes <i>deuses</i>    a servi&ccedil;o dos quais ela possa ser exercida. &Eacute; em fun&ccedil;&atilde;o    de qual <i>deus</i> se segue, que s&atilde;o fixadas respostas ao questionamento    sobre o que &eacute; bom de ser conhecido. Desse modo, na perspectiva weberiana,    a ci&ecirc;ncia em si n&atilde;o &eacute; valorativamente neutra, embora as    decis&otilde;es sobre que <i>deus</i> seguir n&atilde;o possam ser consideradas    certas ou erradas, do ponto de vista cient&iacute;fico. A quest&atilde;o se    o programa de pesquisas tecnocient&iacute;ficas contemporaneamente hegem&ocirc;nico    segue ou n&atilde;o o <i>deus</i> verdadeiro n&atilde;o &eacute;, na perspectiva    weberiana, pass&iacute;vel de ser respondida pelos saberes tecnocient&iacute;ficos    especializados. Mas ela pode e deve ser colocada filosoficamente, como uma condi&ccedil;&atilde;o    para que a pr&aacute;tica cient&iacute;fica possa ter o valor de sua liberdade.</font></P>     <P><font size="3">Se a aposta origin&aacute;ria do Iluminismo inclu&iacute;a a    forma&ccedil;&atilde;o &eacute;tica da pessoa pelo valor pedag&oacute;gico da    ci&ecirc;ncia, a pr&aacute;xis tecnocient&iacute;fica corrente nos centros universit&aacute;rios    e institutos de pesquisa da modernidade contempor&acirc;nea d&aacute; cotidianas    evid&ecirc;ncias de n&atilde;o corresponder a isso. Atribuir a tal pr&aacute;xis    uma <i>pot&ecirc;ncia etizante</i> da vida seria mais que uma enganosa ilus&atilde;o,    uma verdadeira emp&aacute;fia. Mas se hoje a forma&ccedil;&atilde;o tecnocient&iacute;fica    n&atilde;o se deixa imediatamente identificar com uma <i>etiza&ccedil;&atilde;o    do car&aacute;ter da pessoa</i>, tampouco devemos desistir de dar ao v&iacute;nculo    entre ci&ecirc;ncia e vida aquela efetividade que Wilhelm von Humboldt (3) queria    associar &agrave; "id&eacute;ia moral", pois podemos, pelo menos, n&atilde;o    abrir m&atilde;o do empenho por unir os efeitos da cientifiza&ccedil;&atilde;o    das condi&ccedil;&otilde;es de vida com as virtudes da cientificidade: mod&eacute;stia,    prud&ecirc;ncia, objetividade, cr&iacute;tica e autocr&iacute;tica. Isso pode    e deve permanecer parte vinculante da pedagogia da "raz&atilde;o razo&aacute;vel".    E justamente "razo&aacute;vel" por n&atilde;o pretender fazer da objetiviza&ccedil;&atilde;o    do racional a raz&atilde;o de ser de toda realidade.</font></P>     <P><font size="3">Num escrito de 1982 (revisado e modificado em 1990) Edgar Morin    escreveu: "...sabemos cada vez mais que as disciplinas se fecham e n&atilde;o    se comunicam umas com as outras. Os fen&ocirc;menos s&atilde;o cada vez mais    fragmentados, e n&atilde;o se consegue conceber a sua unidade. &Eacute; por    isso que se diz cada vez mais: ´fa&ccedil;amos a interdisciplinaridade´. Mas    a interdisciplinaridade controla tanto as disciplinas como a ONU controla as    na&ccedil;&otilde;es. Cada disciplina pretende primeiro fazer reconhecer sua    soberania territorial, e, &agrave;s custas de algumas magras trocas, as fronteiras    confirmam-se em vez de se desmoronar" (4).</font></P>     <P><font size="3">Para al&eacute;m das querelas, mais ou menos formais, sobre    a supera&ccedil;&atilde;o da mera interdisciplinaridade pela transdisciplinaridade    como a tarefa epistemol&oacute;gica premente no nosso tempo, o texto se ocupava    fundamentalmente com duas quest&otilde;es: a necessidade de pensar/repensar    o saber, "... no atual estado de prolifera&ccedil;&atilde;o, dispers&atilde;o,    parcelamento dos conhecimentos"(5), e afirma&ccedil;&atilde;o do desafio epistemol&oacute;gico    da complexidade, cuja problem&aacute;tica era ent&atilde;o identificada como    ainda "... marginal no pensamento cient&iacute;fico, no pensamento epistemol&oacute;gico    e no pensamento filos&oacute;fico"(6). O escrito de Morin era, tamb&eacute;m,    um libelo contra a racionaliza&ccedil;&atilde;o da racionalidade, e o empenho    por fazer com que "... tudo aquilo que, na hist&oacute;ria humana, &eacute;    <i>ru&iacute;do e furor</i>, tudo aquilo que resiste &agrave; redu&ccedil;&atilde;o,    passe pela trituradora do princ&iacute;pio de economia-efic&aacute;cia" (7).    </font></P>     <P><font size="3">Em converg&ecirc;ncia com as proposi&ccedil;&otilde;es da chamada    Escola de Frankfurt e as advert&ecirc;ncias de Herbert Marcuse dos riscos de    emerg&ecirc;ncia de um homem unidimensional (8), Morin afirmava o risco de que    o desenvolvimento econ&ocirc;mico-tecnoburocr&aacute;tico das sociedades ocidentais    institu&iacute;sse uma racionaliza&ccedil;&atilde;o instrumental transformada    em fim em si mesma e valor mais alto da ordem social (9). Paralelamente, expunha    uma apologia da <i>raz&atilde;o aberta</i>, em contraposi&ccedil;&atilde;o ao    car&aacute;ter intrinsecamente simplificador da <i>raz&atilde;o fechada</i>    at&eacute; ent&atilde;o hegem&ocirc;nica. Para Morin, somente uma racionalidade    que recupere sua aptid&atilde;o de "abertura para o mundo" pode estar &agrave;    altura dos complexos desafios de nosso tempo.</font></P>     <P><font size="3">&Eacute; certo que n&atilde;o &eacute; apenas na contemporaneidade    que o poder se expressa na aptid&atilde;o para provocar transforma&ccedil;&otilde;es    e na consci&ecirc;ncia da vontade. Essa caracter&iacute;stica ultrapassa a data&ccedil;&atilde;o    hist&oacute;rica e pressup&otilde;e a liberdade humana de superar a "cega" inser&ccedil;&atilde;o    no contexto fenomenal prim&aacute;rio e a vig&ecirc;ncia elementar da causalidade,    para ousar uma dota&ccedil;&atilde;o de sentido (10). &Eacute; assim que o poder    humano remete para al&eacute;m da mera efetividade expressa numa obra, num feito    ou numa permiss&atilde;o, e abriga em si a indivis&iacute;vel possibilidade    de responsabiliza&ccedil;&atilde;o pessoal (11). Em outras palavras, o poder    humano n&atilde;o &eacute; an&ocirc;nimo. Ele se instaura junto &agrave; possibilidade    de responsabiliza&ccedil;&atilde;o de pessoas. Identificar os atos de poder    com uma pretensa inoc&ecirc;ncia do criar &eacute; um c&iacute;nico anestesiamento    &eacute;tico-pol&iacute;tico da coragem respons&aacute;vel. Fazer do sentido    do Dever uma enfermidade do moralismo &eacute; uma deser&ccedil;&atilde;o de    nossos humanos postos de vig&iacute;lia e uma capitula&ccedil;&atilde;o de nossa    capacidade de resist&ecirc;ncia e dignidade, fazendo delas n&atilde;o mais que    uma n&eacute;voa de f&aacute;cil dissipa&ccedil;&atilde;o.</font></P>     <P>&nbsp;</P>     <P align="center"><img src="/img/revistas/cic/v57n1/a21fig01.gif"></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<P>&nbsp;</P>     <P><font size="3">O exerc&iacute;cio do poder humano &eacute; sempre um discernimento    de possibilidade e perigos. Os golpes com que as promessas modernizantes feriram    o rosto das pessoas humanas, propiciaram, com maior ou menor atraso diante da    irreversibilidade das perdas sofridas, despertar a consci&ecirc;ncia para os    danos vinculados &agrave;s dimens&otilde;es mais <i>exteriores</i> de suas viol&ecirc;ncias    (armas de destrui&ccedil;&atilde;o massiva, degrada&ccedil;&atilde;o ambiental,    exclus&atilde;o social, mis&eacute;ria e morte). Mas ainda &eacute; pouca a    sensibilidade para o dano mais <i>interior e letal</i>: a desresponsabiliza&ccedil;&atilde;o.    Que sempre se d&aacute; quando n&atilde;o mais agimos, mas somos apenas perpassados    por cadeias an&ocirc;nimas de causalidades eficientes.</font></P>     <P><font size="3">Na abertura da raz&atilde;o <i>aberta</i>, proposta por Morin    como condi&ccedil;&atilde;o de possibilidade de confronta&ccedil;&atilde;o com    os desafios cruciais de nosso tempo, afirmam-se possibilidades de interlocu&ccedil;&atilde;o,    que implicam encontro, di&aacute;logo, resposta e responsabilidade. Neste contexto,    os reducionismos manique&iacute;stas s&atilde;o de nula serventia. &Eacute;    isso que adverte exemplarmente Hans Jonas: "... num primeiro olhar parece f&aacute;cil    diferenciar entre a t&eacute;cnica promotora do Bem e a nociva, se considerarmos    apenas os fins da utiliza&ccedil;&atilde;o das ferramentas. Arados s&atilde;o    bons, espadas s&atilde;o ruins. Na era messi&acirc;nica as espadas s&atilde;o    transformadas em arados, ou, traduzido em termos da tecnologia moderna: bombas    at&ocirc;micas s&atilde;o m&aacute;s, mas fertilizantes qu&iacute;micos, que    ajudam a alimentar a humanidade, s&atilde;o bons. Aqui salta aos olhos o dilema    mistificador da t&eacute;cnica moderna. Suas ‘legi&otilde;es de arados’ podem,    no longo prazo, ser t&atilde;o nocivas quanto suas ‘espadas’" (12).</font></P>     <P><font size="3">A imbrica&ccedil;&atilde;o entre ci&ecirc;ncia e t&eacute;cnica,    caracter&iacute;stica da chamada "evolu&ccedil;&atilde;o" da tecnologia moderna,    pode ter sua estrutura formal descrita na terminologia de Galileu Galilei como    o empenho por realizar uma sistem&aacute;tica transposi&ccedil;&atilde;o da    <i>via resolutiva</i> (ou seja, a an&aacute;lise) para a <i>via compositiva</i>    (ou seja, a s&iacute;ntese). O percurso pode ser caracterizado como uma sistem&aacute;tica    recomposi&ccedil;&atilde;o artificial do decomposto (ou seja, a produ&ccedil;&atilde;o    de novas s&iacute;nteses). A abertura progressiva dos novos horizontes de factibilidade    para a interven&ccedil;&atilde;o <i>engenheiral</i> inicia-se no &acirc;mbito    da mec&acirc;nica, para progressivamente se ampliar incorporando os da qu&iacute;mica,    da eletrodin&acirc;mica, da f&iacute;sica nuclear, da inform&aacute;tica, da    biologia molecular, num processo que parece desconhecer limites e interdi&ccedil;&otilde;es.    </font></P>     <P><font size="3">Na instaura&ccedil;&atilde;o desse processo devemos ter em mente    que a Revolu&ccedil;&atilde;o Industrial foi uma mudan&ccedil;a radical no modo    de produ&ccedil;&atilde;o, n&atilde;o apenas a introdu&ccedil;&atilde;o de novos    produtos. Mesmo quando os novos teares ingleses, movidos a vapor, ainda produzem    os mesmos produtos antigos, s&atilde;o ve&iacute;culos de radicais transforma&ccedil;&otilde;es.    Emerge com forte dinamismo um novo setor da economia, produtor dos meios de    produ&ccedil;&atilde;o necess&aacute;rios para as novas unidades produtivas,    com destaque para os insumos fundamentais: ferro e carv&atilde;o. As transforma&ccedil;&otilde;es    em curso implicam uma intricada rede de inter-rela&ccedil;&otilde;es: extra&ccedil;&atilde;o    de mat&eacute;ria bruta, produ&ccedil;&atilde;o de mat&eacute;ria-prima, instrumentaliza&ccedil;&atilde;o    econ&ocirc;mica da energia, transporte, mercado de trabalho. Somente ap&oacute;s    isso, a inova&ccedil;&atilde;o pode se instaurar com todo dinamismo nos setores    de produ&ccedil;&atilde;o de produtos finais. De in&iacute;cio, suprindo ainda    as antigas necessidades, at&eacute;, por fim, atingir a produ&ccedil;&atilde;o    artificial de novas necessidades de consumo e dos meios de sua satisfa&ccedil;&atilde;o.</font></P>     <P><font size="3">A qu&iacute;mica moderna abriu novos horizontes de factibilidade    para o novo modo de produ&ccedil;&atilde;o. Emerge um novo ramo industrial como    resultado da concretiza&ccedil;&atilde;o de possibilidades <i>te&oacute;ricas</i>    de interven&ccedil;&atilde;o, na busca consciente de solu&ccedil;&otilde;es    para a substitui&ccedil;&atilde;o artificial-sint&eacute;tica de subst&acirc;ncias    naturais escassas e caras. A petroqu&iacute;mica radicaliza o processo, viabilizando    a produ&ccedil;&atilde;o de subst&acirc;ncias radicalmente novas, n&atilde;o    meras c&oacute;pias de um modelo de refer&ecirc;ncia tradicional. E a produ&ccedil;&atilde;o    do inteiramente novo propicia aplica&ccedil;&otilde;es in&eacute;ditas. Esbo&ccedil;a-se    j&aacute; a puls&atilde;o mais caracter&iacute;stica da modernidade contempor&acirc;nea,    empreender uma interven&ccedil;&atilde;o que atinja "... a infra-estrutura da    mat&eacute;ria, pela qual s&atilde;o obtidas, atrav&eacute;s da reformula&ccedil;&atilde;o    de mol&eacute;culas, novas subst&acirc;ncias segundo especifica&ccedil;&otilde;es,    isto &eacute;, com caracter&iacute;sticas de utilidade planejadas" (13). </font></P>     <P><font size="3">A estrutura interior da mat&eacute;ria se transforma em objeto    de engenharia, isto &eacute;, de reconstru&ccedil;&atilde;o sint&eacute;tica    segundo um projeto abstrato. E a ind&uacute;stria el&eacute;trica se associa    a esse movimento, engendrando uma <i>for&ccedil;a universal</i> cuja emerg&ecirc;ncia    &eacute; fruto de uma possibilidade te&oacute;rica. Como situa Hans Jonas, "...    a eletricidade &eacute; um objeto abstrato, n&atilde;o-corp&oacute;reo, n&atilde;o-material,    invis&iacute;vel; na forma &uacute;til de ‘corrente’ ela &eacute; inteiramente    um artefato, produzido pela transforma&ccedil;&atilde;o sutil de formas grosseiras    de energia. Sua teoria teve que de fato estar completa, antes de suas aplica&ccedil;&otilde;es    pr&aacute;ticas come&ccedil;arem" (14). O percurso descrito foi levado &agrave;s    &uacute;ltimas conseq&uuml;&ecirc;ncias pela ind&uacute;stria at&ocirc;mica.</font></P>     <P><font size="3">A transi&ccedil;&atilde;o da ind&uacute;stria el&eacute;trica    para a eletr&ocirc;nica evidencia um novo padr&atilde;o de expans&atilde;o dos    poderes de interven&ccedil;&atilde;o da modernidade: a transi&ccedil;&atilde;o    das tecnologias "energ&eacute;ticas" para as "informacionais". Abrem-se novos    horizontes de factibilidade para a interven&ccedil;&atilde;o engenheiral, ao    mesmo tempo em que se insinua uma ruptura civilizat&oacute;ria, dada a radicalidade    das transforma&ccedil;&otilde;es aportadas pelas chamadas <i>novas tecnologias</i>    nos campos da microeletr&ocirc;nica, rob&oacute;tica, telem&aacute;tica, novos    materiais, qu&iacute;mica fina, engenharia gen&eacute;tica, etc. </font></P>     <P><font size="3">Mas a instrumentaliza&ccedil;&atilde;o "engenheiral" da informa&ccedil;&atilde;o    gen&eacute;tica &eacute;, hoje, o campo onde a transposi&ccedil;&atilde;o da    <i>via resolutiva</i> para a <i>via compositiva</i> atinge certamente maior    impacto. Se na engenharia do anorg&acirc;nico pressup&otilde;e-se uma livre    disponibilidade da mat&eacute;ria <i>morta</i> para a gera&ccedil;&atilde;o    de novas formas, na bioengenharia contempor&acirc;nea a morfologia dos organismos    &eacute; o dado pr&eacute;-existente, cujo "... ‘plano’ (= forma, organiza&ccedil;&atilde;o)    tem que ser descoberto, n&atilde;o inventado, para ent&atilde;o, numa de suas    corporifica&ccedil;&otilde;es individuais, se tornar objeto de ‘aprimoramento’    inventivo" (15). E as experi&ecirc;ncias bioengenheirais n&atilde;o s&atilde;o    feitas em modelos prot&oacute;tipos simuladores, pass&iacute;veis de sucessivos    testes e modifica&ccedil;&otilde;es, mas sim requerem disponibilidade sobre    os <i>originais</i>, ou, nas palavras de Hans Jonas "... sobre o objeto no sentido    mais completo, real e aut&ecirc;ntico" (16). </font></P>     <P>&nbsp;</P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<P align="center"><img src="/img/revistas/cic/v57n1/a21fig02.gif"></P>     <P>&nbsp;</P>     <P><font size="3">Nesse contexto, toda produ&ccedil;&atilde;o de informa&ccedil;&atilde;o    tecnocientificamente significativa &eacute; uma interfer&ecirc;ncia direta e    irrevers&iacute;vel: a introdu&ccedil;&atilde;o arbitr&aacute;ria de modifica&ccedil;&otilde;es    na cadeia gen&eacute;tico-informacional da cobaia. Nesse ato afirma-se uma radical    assimetria e unilateralidade de poder do presente sobre um futuro inerme. Diante    disso, o m&iacute;nimo que podemos nos perguntar &eacute;: "... qual o direito    de algu&eacute;m para, dessa forma, predeterminar homens futuros; e mesmo que    se suponha esse direito, que <i>sabedoria</i> lhe capacita a exerc&ecirc;-lo?"    (17). Situa&ccedil;&atilde;o tanto mais cr&iacute;tica e grave quando, o fundamento    usual da legitima&ccedil;&atilde;o dos poderes modernos, a id&eacute;ia de utilidade    para o g&ecirc;nero humano, torna-se absurda; quando o pr&oacute;prio ponto    fixo da refer&ecirc;ncia utilitarista, o g&ecirc;nero humano, torna-se vari&aacute;vel,    objeto da manipula&ccedil;&atilde;o. </font></P>     <P><font size="3">Tanto as preocupa&ccedil;&otilde;es de Morin com respeito &agrave;s    limita&ccedil;&otilde;es destrutivas da <i>raz&atilde;o fechada</i> como as    advert&ecirc;ncias de Jonas sobre os riscos de uma espiral cumulativa de poderes    tecnocient&iacute;ficos nutrida por um v&aacute;cuo &eacute;tico, podem encontrar    significativa resson&acirc;ncia nas proposi&ccedil;&otilde;es de Emmanuel L&eacute;vinas,    um dos mais not&aacute;veis pensadores do final do s&eacute;culo XX. </font></P>     <P><font size="3">No limiar dessa confronta&ccedil;&atilde;o est&aacute; uma afirmativa    apresentada, com incompar&aacute;vel poder de s&iacute;ntese, por L&eacute;vinas,    "... a teoria do conhecimento &eacute; uma teoria da verdade" (18). Diante da    simplicidade e da for&ccedil;a dessa proposi&ccedil;&atilde;o desfazem-se como    quimeras as querelas sobre a suposta pot&ecirc;ncia progressista ou os supostos    descaminhos manipulat&oacute;rios da tecnoci&ecirc;ncia contempor&acirc;nea.    A for&ccedil;a da palavra levinasiana reside em n&atilde;o deixar sucumbir no    esquecimento o compromisso primordial weberiano da "ci&ecirc;ncia como voca&ccedil;&atilde;o".    </font></P>     <P>&nbsp;</P>     <P><font size="3"><i><b>Roberto Bartholo</b>, doutor pela Universitat Erlangen-Nurnberg,    &eacute; atualmente diretor de programas da Capes e professor do Programa de    Engenharia de Produ&ccedil;&atilde;o da Coppe/UFRJ.</i></font></P>     <P>&nbsp;</P>     <P>&nbsp;</P>     <P><font size="3"><b>REFER&Ecirc;NCIAS BIBLIOGR&Aacute;FICAS</b></font></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><P><font size="3">1. Bacon, F. <i>Nova Atl&acirc;ntida</i> (tradu&ccedil;&atilde;o    de Jos&eacute; Aluysio Reis de Andrade), <i>in</i> Cole&ccedil;&atilde;o <i>Os    pensadores</i>, Abril Cultural, S&atilde;o Paulo. 1984. </font><!-- ref --><P><font size="3">2. Weber, M. "Wissenchaft als Beruf", <i>in Gesammelte aufs&auml;tze    zur wissenschaftslehre</i>, Mohr Verlag, J. C. B. T&uuml;bingen. 1981.</font><!-- ref --><P><font size="3">3. Bartholo, R. "Solid&atilde;o e liberdade: Notas sobre a contemporaneidade    de Wilhelm von Humboldt", <i>in</i> Bursztyn, M. (org.), <i>Ci&ecirc;ncia, &eacute;tica    e sustentabilidade. Desafios ao novo s&eacute;culo</i>, Ed. Cortez, S&atilde;o    Paulo. pp. 43-59. 2001. </font><!-- ref --><P><font size="3">4. Morin, E. <i>Ci&ecirc;ncia com consci&ecirc;ncia</i> (tradu&ccedil;&atilde;o    de M.D. Alexandre e M.A. Sampaio D&oacute;ria do original franc&ecirc;s revisto    e modificado pelo autor, publicado por Arth&eacute;me Fayard, 1982 e &Eacute;ditions    du Seuil, 1990), Bertrand Brasil, p. 135. 2001.</font><P><font size="3">5. Morin, E. <i>idem</i>, p. 137.</font></P>     <P><font size="3">6. Morin, E. <i>idem</i>, p. 175.</font></P>     <P><font size="3">7. Morin, E. <i>idem</i>, p. 160.</font></P>     <!-- ref --><P><font size="3">8. Marcuse, H. <i>The one-dimensional man. Studies in the ideology    of advanced industrial society</i>. Beacon Press, Boston. 1991.</font><P><font size="3">9. Morin, E. <i>op. cit</i>., p. 160-166. </font></P>     <!-- ref --><P><font size="3">10. Guardini, R. <i>Das ende der neuzeit – Die macht, Mainz</i>.    1986.</font><!-- ref --><P><font size="3">11. Jonas,H. <i>Das prinzip verantwortung. versuch einer ethik    f&uuml;r die technologische zivilisation</i>, Frankfurt am Main. 1979.</font><!-- ref --><P><font size="3">12 Jonas, H. <i>Technik, medizin und ethik. Praxis des prinzips    verantwortung</i>, Frankfurt am Main, p.49. 1987. </font><P><font size="3">13. Jonas, H. <i>idem</i>, p. 34.</font></P>     <P><font size="3">14. Jonas, H. <i>idem</i>, p. 36.</font></P>     <P><font size="3">15. Jonas, H. <i>idem</i> p. 165.</font></P>     <P><font size="3">16. Jonas, H. <i>idem</i>, p. 166.</font></P>     <P><font size="3">17. Jonas, H. <i>idem</i> p. 169.</font></P>     <!-- ref --><P><font size="3">18. L&eacute;vinas, E. "Martin Buber and the Theory of Knowledge",    <i>in</i> Schilpp, P. A. e Friedman, M. (org.) <i>The philosophy of Martin Buber</i>,    Open Court, LaSalle, Illinois. 1991.</font> ]]></body><back>
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