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</front><body><![CDATA[ <p><font size="4"><b>Cinema</b></font></p>     <p><font size=5><b><i>N<SMALL>INA</small></i><SMALL>, UMA VERS&Atilde;O BRASILEIRA    PARA</small> <i>C<SMALL>RIME E CASTIGO</small></i></b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3">A estr&eacute;ia do diretor Heitor Dhalia em seu primeiro longa-metragem    aconteceu no circuito alternativo de exibi&ccedil;&atilde;o nas principais capitais    brasileiras, no final do ano passado, trazendo premia&ccedil;&otilde;es de mostras    internacionais que participou. </font></p>     <p><font size="3">Enfrentar o desafio de adaptar uma obra com a densidade da matriz    russa de <i>Crime e castigo</i>, o cl&aacute;ssico de Dostoievski, n&atilde;o    intimidou o diretor. <i>Nina</i> ganhou o pr&ecirc;mio da cr&iacute;tica em    Moscou por conseguir capturar a atmosfera psicol&oacute;gica da obra original,    em sua atualiza&ccedil;&atilde;o para uma metr&oacute;pole urbana como S&atilde;o    Paulo.</font></p>     <p><font size="3">Nascido em Recife, Dhalia chegou a S&atilde;o Paulo em 1993,    onde se fixou, desenvolvendo uma carreira profissional como redator publicit&aacute;rio.    Sua passagem para o cinema deu-se gradualmente: como assistente de Alu&iacute;zio    Abranches no filme <i>Um copo de c&oacute;lera</i>; depois como roteirista de    <i>As tr&ecirc;s marias</i>; e, finalmente, como diretor do curta-metragem <i>Concei&ccedil;&atilde;o</i>.    </font></p>     <p><font size="3">"Jamais teria a pretens&atilde;o de adaptar Dostoievski. Vejo    o meu filme <i>Nina</i> como um caderno de anota&ccedil;&otilde;es sobre <i>Crime    e castigo</i>, me sinto como um estudante de pintura que vai ao museu e, fascinado    por um quadro do Rembrandt, tenta captar de alguma maneira a ess&ecirc;ncia    do g&ecirc;nio em seu pequeno bloco de esbo&ccedil;os". Dhalia diz que buscou    levar ao filme a est&eacute;tica do contraste do desenho, do claro e escuro,    sem qualquer influ&ecirc;ncia de sua experi&ecirc;ncia com a linguagem publicit&aacute;ria,    refutando a cr&iacute;tica que recebeu de um jornal paulistano. "Fiz um filme    com planos fechados, escuro, denso e psicol&oacute;gico, sem concess&otilde;es    e com clara influ&ecirc;ncia do expressionismo alem&atilde;o e russo. Numa linguagem    fragmentada e r&aacute;pida, &eacute; um filme pesado que mant&eacute;m o fio    de tens&atilde;o dram&aacute;tica esticado do come&ccedil;o ao fim".</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v57n1/a29fig01.gif"></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3"><i>Nina</i> inicia com a par&aacute;frase do estudante pobre    Raskolnik&oacute;v, que desenvolve uma teoria que divide os homens entre "ordin&aacute;rios"    e "extraordin&aacute;rios", uma escolha que foi bastante elogiada por onde o    filme j&aacute; passou no exterior. A alian&ccedil;a harmoniosa que consegue    com o desenho de Louren&ccedil;o Mutarelli, que antecipa os del&iacute;rios    de Nina, ela tamb&eacute;m uma desenhista no filme, &eacute; outra solu&ccedil;&atilde;o    feliz que o diretor conseguiu, ao aliar a est&eacute;tica dos cartuns &agrave;    narrativa do filme.</font></p>     <p><font size="3"><b>O CLIMA </b>"Vivi seis meses no centro paulistano, no ambiente    retratado pelo filme e o que vi, uma popula&ccedil;&atilde;o desesperada, &eacute;    muito similar aos personagens de Dostoievski em toda a sua mis&eacute;ria na    S&atilde;o Petersburgo do s&eacute;culo XIX". Lembrando sua forma&ccedil;&atilde;o,    com a forte presen&ccedil;a do av&ocirc; o incentivando a ler os cl&aacute;ssicos    da literatura, percebe que esta influ&ecirc;ncia foi decisiva para encarar tal    desafio, assim, logo em sua estr&eacute;ia em um longa-metragem.</font></p>     <p><font size="3">A trajet&oacute;ria internacional do filme tem suscitado rea&ccedil;&otilde;es    variadas, com sucesso de p&uacute;blico inesperado em pa&iacute;ses, como a    Cor&eacute;ia e a R&uacute;ssia. Com <i>Nina</i>, Dhalia pretendeu reafirmar    sua convic&ccedil;&atilde;o no cinema de autor. Cria situa&ccedil;&otilde;es    bastante diferentes da matriz original da hist&oacute;ria – a personagem principal    &eacute; mulher, o desenho antecipa seus del&iacute;rios e explica o estado    limite de sua insanidade. Por&eacute;m, o diretor se aproveita, tamb&eacute;m,    de elementos do romance como na cena em que o cavalo &eacute; espancado, uma    cita&ccedil;&atilde;o direta de <i>Crime e castigo</i>, e que se constitui no    gatilho para o assassinato que vai ocorrer.</font></p>     <p><font size="3">Toda a narrativa do filme &eacute; afetada pela doen&ccedil;a    mental de Nina, situa&ccedil;&atilde;o posta desde o in&iacute;cio e que interfere    no que &eacute; falso e verdadeiro na hist&oacute;ria. O peso da culpa est&aacute;    presente na a&ccedil;&atilde;o, nos personagens imagin&aacute;rios acusat&oacute;rios    que v&atilde;o surgindo no filme. O cartunista Louren&ccedil;o Mutarelli declara    que gostou da experi&ecirc;ncia de ser dirigido por um cineasta em sua produ&ccedil;&atilde;o,    e entrou na cabe&ccedil;a de Nina desde o in&iacute;cio de seu trabalho. Ele    j&aacute; tem 11 &aacute;lbuns distribu&iacute;dos no exterior e pretende trabalhar    com mais intensidade com o cinema. Seu tra&ccedil;o em nanquim &eacute; um forte    relato do que se passa na cabe&ccedil;a da personagem principal e imprime o    clima desejado pelo diretor.</font></p>     <p><font size="3">O roteirista Mar&ccedil;al Aquino seguiu &agrave; risca o que    dizia Fellini – a melhor imagem &eacute; a da lembran&ccedil;a – e decidiu n&atilde;o    reler o cl&aacute;ssico <i>Crime e castigo</i>, que conheceu em sua leitura    de adolescente aos 16 anos. "Ao escrever um roteiro, parto sempre do que pretende    o diretor ao abordar um livro. &Eacute; com base nessas inten&ccedil;&otilde;es    (no olhar escolhido) que se definem os cortes, acr&eacute;scimos (de situa&ccedil;&otilde;es    e de personagens). Com <i>Nina</i> foi exatamente assim". De cara, a primeira    mudan&ccedil;a do diretor, de tornar o personagem central, Raskolnik&oacute;v,    na mulher atormentada Nina, j&aacute; foi estimulante, diz Aquino.</font></p>     <p><font size="3">"O que interessava era o olhar proposto pelo Heitor, que queria    acima de tudo captar a atmosfera do livro, deixando de lado, onde julg&aacute;ssemos    necess&aacute;rio, a trama e personagens originais. Num primeiro momento, nossa    abordagem foi absolutamente livre". Nas vers&otilde;es subseq&uuml;entes do    roteiro, ele optou por aproximar-se outra vez do livro, resgatou algumas situa&ccedil;&otilde;es    narradas por Dostoievski e inseriu-as no filme, mantendo sempre a liberdade.    "Vejo <i>Nina</i> muito mais como um coment&aacute;rio sobre <i>Crime e castigo</i>    do que propriamente uma adapta&ccedil;&atilde;o", considera Aquino.</font></p>     <p><font size="3">Aquino iniciou sua carreira como jornalista, antes de se dedicar    &agrave; literatura e ao cinema. Entre seus principais contos est&atilde;o <i>Faroestes</i>    (2001) e <i>Fam&iacute;lias terrivelmente felizes</i> (2003). Atuou como roteirista,    em parceria com Beto Brant, nos filmes <i>Os matadores, A&ccedil;&atilde;o entre    amigos</i> e <i>O invasor</i>, este &uacute;ltimo baseado em novela do mesmo    nome, de 2002.</font></p>     <p><font size="3">Dhalia pensou em dirigir o filme, a partir de uma escolha: a    atriz Guta Stresser, que viveria a personagem principal e cujo trabalho conhecera    no teatro, em uma pe&ccedil;a do Hector Babenco. "Ela me impressionou por sua    vontade de correr riscos".</font></p>     <p><font size="3">Antes dos ensaios e da filmagem, durante tr&ecirc;s anos discutiram    o roteiro e a complexidade psicol&oacute;gica da personagem. </font></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v57n1/a29fig02.gif"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3">Outra figura fundamental para a dramaticidade que o filme alcan&ccedil;a    &eacute; o desempenho da atriz Myriam Muniz como Eul&aacute;lia, a velha avarenta    que explora e tortura Nina. Foram anos de palco, desde o Teatro Oficina e na    interpreta&ccedil;&atilde;o de cl&aacute;ssicos como Shakespeare, Moli&egrave;re,    Gogol at&eacute; autores brasileiros como Dias Gomes, Augusto Boal, para a atriz    chegar &agrave; s&iacute;ntese da crueldade em Eul&aacute;lia, criada com brilhantismo    pela fundadora do Teatro Escola Macuna&iacute;ma.</font></p>     <p><font size="3">A atmosfera opressiva e paran&oacute;ica do livro, de culpa    sem possibilidade de expia&ccedil;&atilde;o, &eacute; novamente revista com    intensidade nos becos do centro paulistano. Aquino diz que, ao optar por n&atilde;o    reler o romance, foi poss&iacute;vel trabalhar somente com a lembran&ccedil;a,    e mergulhar no clima da narrativa do escritor russo – "o epis&oacute;dio do    cego, um dos primeiros que propus, &eacute; um bom exemplo dessa liberdade de    abordagem. Posteriormente, nos tratamentos subseq&uuml;entes – acho que foram    onze, no total – a op&ccedil;&atilde;o foi por se aproximar um pouco mais do    livro, recuperando alguns epis&oacute;dios narrados pelo escritor, mas sempre    pelo vi&eacute;s de nossa personagem".</font></p>     <p><font size="3">Quanto aos cartuns, Aquino assinala que eles j&aacute; estavam    previstos desde a hora zero do roteiro. "O Heitor imaginou que a Nina tinha    contato com o Jap&atilde;o a partir de seus desenhos (era uma leitora voraz    de mang&aacute;s) e tamb&eacute;m de um namorado japon&ecirc;s, que retornava    a T&oacute;quio. Por fim, o namorado ficou de fora, mas a id&eacute;ia de que    ela desenhasse permaneceu". Ele acrescenta que se previu, desde o in&iacute;cio,    inserir anima&ccedil;&otilde;es que mostrassem como a Nina se via, em del&iacute;rio,    assassinando Eul&aacute;lia. "Perto da vers&atilde;o final do roteiro, apresentei    Louren&ccedil;o Mutarelli ao Heitor. Ele n&atilde;o s&oacute; se encantou pelo    <i>O cheiro do ralo</i>, livro de estr&eacute;ia do Louren&ccedil;o, como convidou    esse grande artista a fazer as anima&ccedil;&otilde;es. Deu no que se pode ver    no filme". Trata-se de uma alian&ccedil;a perfeita de duas linguagens, est&eacute;ticas    que se complementam.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="right"><font size="3"><i>Wanda Jorge</i></font></p>      ]]></body>
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