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</front><body><![CDATA[ <p ALIGN="center"><img src="/img/revistas/cic/v57n2/nt_bra.gif"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3">LINGUAGEM</font></p>     <p><img src="/img/revistas/cic/v57n2/linhapt.gif"></p>     <p><font size="4"><b>Fazer chiste n&atilde;o &eacute; fazer piada </b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><FONT SIZE="3">O m&aacute;ximo de sentido para um m&iacute;nimo de suporte. A    brevidade &eacute; uma das principais marcas ling&uuml;&iacute;sticas do humor.    O chiste &eacute; breve, e &eacute; nele que reside, por assim dizer, a gra&ccedil;a.    E pode ajudar a descarregar uma agressividade que tem de ser reprimida. O chiste    funciona, isto &eacute;, provoca hilaridade ou riso, por meio da brevidade que    se expressa com a condensa&ccedil;&atilde;o: dois campos de significados se    fundem, causando surpresa.</FONT></p>     <p><FONT SIZE="3"> "Podem ser usadas palavras ou frases que tenham sentidos    semelhantes ou sejam elas mesmas parecidas entre si. Por exemplo, detergente:    a palavra pode ser desmembrada em 'deter gente', produzindo outro sentido",    explica o ling&uuml;ista S&iacute;rio Possenti, da Universidade Estadual de    Campinas (Unicamp). </FONT></p>     <p><FONT SIZE="3">Um exemplo conhecido vem do pr&oacute;prio Freud, que conta o    chiste do 'familion&aacute;rio', que condensa os voc&aacute;bulos familiar e    milion&aacute;rio.</FONT></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><FONT SIZE="3"> Em outro chiste que o pr&oacute;prio Freud narra, um homem convida    uma jovem italiana a dan&ccedil;ar. Ela aceita, mas dan&ccedil;a muito mal.    O homem pergunta: — Todas as italianas dan&ccedil;am t&atilde;o mal? E ela responde:    — <i>Non tutti, ma buona parti</i>. (Nem todas, mas boa parte). <i>Buona parti</i>    ou <i>Buonaparti</i> (Napole&atilde;o)? Parafrasear ou traduzir o neologismo    assim formado pode retirar toda a gra&ccedil;a, a n&atilde;o ser que a tradu&ccedil;&atilde;o    se d&ecirc; para l&iacute;nguas latinas", afirma a ling&uuml;ista e psicanalista    Viviane Veras. A dificuldade de tradu&ccedil;&atilde;o coloca em evid&ecirc;ncia    a necessidade de um substrato culturalmente compartilhado, para que a opera&ccedil;&atilde;o    seja bem sucedida.</FONT></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v57n2/a04img01.gif"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><FONT SIZE="3"><b>IMAGENS</b> Para Possenti, os mesmos mecanismos funcionam quando    entram em quest&atilde;o as imagens. "A caricatura coloca em grande realce    algo que seria um defeito, o que se faz de acordo com os padr&otilde;es culturais    vigentes num lugar, numa &eacute;poca". Isso deve contribuir para que a    linguagem humor&iacute;stica visual alcance uma comunica&ccedil;&atilde;o quase    que imediata com o p&uacute;blico.</font></p>     <p><FONT SIZE="3">Para haver chiste &eacute; preciso haver riso. De acordo com Veras,    Freud tentou, de in&iacute;cio, compreender o chiste, como outros haviam tentado,    mas se descobriu compreendido no pr&oacute;prio mecanismo do chiste, que exige    o riso. "Um efeito que se torna, afinal, a causa do chiste", explica.    Assim acreditava Freud, que acabou se vendo diante de um grande dilema. "Se    ele teorizasse apenas, deixando de fora o riso, isto &eacute;, se o pr&oacute;prio    Freud n&atilde;o risse, n&atilde;o teria um chiste e, portanto, n&atilde;o teria    seu objeto de estudo", pondera Veras. "Por outro lado, se risse, se    envolveria eliminando a dist&acirc;ncia necess&aacute;ria &agrave; neutralidade    caracter&iacute;stica da atitude cient&iacute;fica". Freud publicou <i>O    chiste e sua rela&ccedil;&atilde;o com o inconsciente</i> em 1905, apenas cinco    anos depois do seminal <i>A interpreta&ccedil;&atilde;o dos sonhos</i>. </FONT></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v57n2/a04img02.gif"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><FONT SIZE="3"><b>CHISTE</b> O riso da audi&ecirc;ncia, do outro, est&aacute;    embutido no pr&oacute;prio conceito de chiste. Trata-se de uma opera&ccedil;&atilde;o    que n&atilde;o prescinde de seus efeitos para se constituir como la&ccedil;o    social ou seu oposto. "Vamos supor que algu&eacute;m est&aacute; conversando    comigo e diz algo 'que n&atilde;o queria dizer'. Se rio disso e, esse algu&eacute;m    ri junto, fez-se um chiste; se ele ficar envergonhado, como se pego em flagrante,    s&oacute; ter&aacute; havido um lapso. Ora, a distin&ccedil;&atilde;o &eacute;    moment&acirc;nea, e pode ser lapso", diz Veras.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><FONT SIZE="3"><b>PIADAS</b> As piadas, por sua vez, podem ter gra&ccedil;a ou    n&atilde;o. Por outro lado, a brevidade caracter&iacute;stica do chiste poderia,    em princ&iacute;pio, estender-se a esse g&ecirc;nero textual, mas n&atilde;o    necessariamente. Muitas vezes, a piada envolve uma narrativa que, em si, n&atilde;o    &eacute; o que produz o riso. No entanto, &eacute; parte inextric&aacute;vel    da performance daqueles que se convencionou considerar bons contadores de piada.    A descri&ccedil;&atilde;o dos tipos, dos personagens, das situa&ccedil;&otilde;es,    de certa forma, apenas envolve a audi&ecirc;ncia e a prepara para um desfecho    c&ocirc;mico. E tamb&eacute;m retoma os estere&oacute;tipos que s&atilde;o t&atilde;o    caros a esse g&ecirc;nero de humor. "O g&ecirc;nero textual 'piada' sempre    p&otilde;e em quest&atilde;o, dois pontos de vista, duas culturas. E acontece    que eu lhe conto uma piada sobre X, mas ela na verdade se d&aacute; sobre Y",    afirma Possenti.</font></p>     <p><FONT SIZE="3">Piadas em geral incidem sobre campos socialmente controversos.    Segundo Possenti, o texto parece querer dizer uma coisa e diz outra. Mas a controv&eacute;rsia    deve estar suficientemente popularizada, tem de ser conhecida para que o texto    possa surtir o efeito desejado. "Dentre os campos em que h&aacute; disputa,    deve-se destacar: a sexualidade (bem ou mal comportada); as institui&ccedil;&otilde;es    (escola, religi&atilde;o, fam&iacute;lia, governo); mortes, desgra&ccedil;as,    acidentes", afirma Possenti. Quando se trata de eventos tr&aacute;gicos,    n&atilde;o se ri por divers&atilde;o. O riso pautado na trag&eacute;dia exprime    o esfor&ccedil;o humano em n&atilde;o se render e superar cat&aacute;strofes    pessoais ou coletivas. Mas tem limites. Como Possenti faz notar, pouco ou nada    se riu do recente epis&oacute;dio do tsunami no Pac&iacute;fico, pela magnitude    do n&uacute;mero de mortos. </FONT></p>     <p><FONT SIZE="3">As piadas, no entanto, n&atilde;o refletem a complexidade das    controv&eacute;rsias nas quais se ap&oacute;iam. "O prazer deriva do reencontro    de uma situa&ccedil;&atilde;o familiar, como estar em casa ou voltar &agrave;    inf&acirc;ncia", compara Possenti. "O adulto n&atilde;o brinca com    as palavras t&atilde;o freq&uuml;entemente quanto as crian&ccedil;as e os humoristas".    No n&iacute;vel da linguagem, h&aacute; diversas complexidades morfol&oacute;gicas,    ortogr&aacute;ficas, sint&aacute;ticas, que as crian&ccedil;as cometem por experimentarem    com um c&oacute;digo n&atilde;o completamente assimilado; quanto aos adultos,    ocorrem por distra&ccedil;&atilde;o, brincadeira, ironia, agressividade. N&atilde;o    &eacute; &agrave; toa que, desde Arist&oacute;teles, outra caracter&iacute;stica    considerada distintiva do humor &eacute; o rebaixamento. "Nesse caso, o    riso brota de algu&eacute;m que &eacute; feio, faz ou diz bobagens, trope&ccedil;a,    cai – um pol&iacute;tico que rouba, um fil&oacute;sofo que propaga incongru&ecirc;ncias",    explica Possenti. Al&eacute;m do rebaixamento, &eacute; preciso haver algo de    surpreendente. E &agrave; surpresa se acrescenta a genialidade, o talento que    um indiv&iacute;duo tem para forjar a rela&ccedil;&atilde;o surpreendente. "A    pr&oacute;pria opera&ccedil;&atilde;o gera um prazer est&eacute;tico no 'receptor'    quando este acredita ter percebido o que o outro quis dizer", conclui o    ling&uuml;ista. </FONT></p>     <p>&nbsp;</p>     <p ALIGN="RIGHT"><FONT SIZE="3"><b><i>Fl&aacute;via Nat&eacute;rcia</i></b></FONT></p>      ]]></body>
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