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</front><body><![CDATA[ <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v57n2/nt_bra.gif"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v57n2/a05img01.gif"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3">URBANISMO</font></p>     <p><font size="3"><img src="/img/revistas/cic/v57n2/linhapt.gif"> </font></p>     <p><font size="4"><b>Periferia e faveliza&ccedil;&atilde;o avan&ccedil;am nas    grandes cidades da Am&eacute;rica Latina </b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3">As condi&ccedil;&otilde;es de pobreza e desigualdade social    na Am&eacute;rica Latina fazem com que 44% de sua popula&ccedil;&atilde;o viva    em favelas ou sub&uacute;rbios com estrutura prec&aacute;ria e condi&ccedil;&otilde;es    m&iacute;nimas de sobreviv&ecirc;ncia. Os dados, divulgados no in&iacute;cio    deste ano pela Comiss&atilde;o Econ&ocirc;mica para Am&eacute;rica Latina e    Caribe (Cepal), identificam a maior parte das favelas nas cidades, onde vivem    tr&ecirc;s de cada quatro latino-americanos. </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3">O estudo, intitulado "Pobreza e precariedade do habitat    na Am&eacute;rica Latina", mostra que a precariedade &eacute; maior nas    periferias das cidades do interior que, em sua maioria, n&atilde;o chegam a    receber ajuda federal. Dos domic&iacute;lios em bairros prec&aacute;rios, 76%    t&ecirc;m problemas de qualidade da constru&ccedil;&atilde;o e dos servi&ccedil;os    b&aacute;sicos, como saneamento e ilumina&ccedil;&atilde;o. E a maioria desses    domic&iacute;lios &eacute; chefiada por mulheres. </font></p>     <p><font size="3">A estimativa da Cepal para os pr&oacute;ximos 15 anos &eacute;    que a popula&ccedil;&atilde;o das grandes cidades crescer&aacute; 2%. Nos pa&iacute;ses    mais pobres da regi&atilde;o – Bol&iacute;via, Guatemala, Haiti, Honduras e    Paraguai – esse aumento ser&aacute; de 3%.</font></p>     <p><font size="3"> Dois estudos de pesquisadores brasileiros, divulgados na &uacute;ltima    reuni&atilde;o da SBPC em julho passado, em Cuiab&aacute;, evidenciam que o    problema das favelas ou da periferiza&ccedil;&atilde;o n&atilde;o &eacute; exclusivo    das metr&oacute;poles ou mesmo das cidades; tamb&eacute;m no meio rural existem    locais com p&eacute;ssimas condi&ccedil;&otilde;es de moradia. O soci&oacute;logo    Jo&atilde;o Batista Filho, hoje na Universidade Norte do Paran&aacute; (Unopar)    e sua ex-aluna na Universidade Estadual de Londrina (UEL) e atual docente do    Departamento de Sociologia e Pol&iacute;tica da Universidade Federal do Mato    Grosso (UFMT), Marineti Covezzi, realizaram estudos de caso para entender o    processo. O foco do trabalho de Jo&atilde;o Batista foi Londrina, cidade do    norte-paranaense, fundada por ingleses h&aacute; apenas 70 anos, com voca&ccedil;&atilde;o    agr&iacute;cola para os cultivos de caf&eacute; e algod&atilde;o, pela qualidade    de sua terra roxa. Projetada para um crescimento equilibrado, de forma a chegar    ao ano 2.000 com uma popula&ccedil;&atilde;o de 30 mil habitantes vivendo bem,    Londrina tem hoje, por&eacute;m, perto de 500 mil habitantes, e &eacute; marcada    pela especula&ccedil;&atilde;o imobili&aacute;ria e pela presen&ccedil;a de    latif&uacute;ndios urbanos. O Plano Diretor feito em 1997 identificava 43 n&uacute;cleos    de favelas e assentamentos; na atualidade, esse n&uacute;mero j&aacute; subiu    para 68 favelas e/ou assentamentos, contabiliza o pesquisador. </font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v57n2/a05img02.gif"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>     <p><font size="3">Marineti Covezzi escolheu Pocon&eacute; e Bar&atilde;o de Melga&ccedil;o,    munic&iacute;pios perif&eacute;ricos da capital mato-grossense, como objetos    de estudo. Cuiab&aacute; nasceu planejada, conta a pesquisadora, mas a partir    do incha&ccedil;o provocado por &aacute;reas de explora&ccedil;&atilde;o do    garimpo e em conseq&uuml;&ecirc;ncia de uma s&eacute;rie de condi&ccedil;&otilde;es    pr&oacute;prias da regi&atilde;o, da concentra&ccedil;&atilde;o de terras &agrave;    cr&ocirc;nica falta de emprego, sofre com problemas urbanos de metr&oacute;pole.    A pesquisa coordenada por Marineti come&ccedil;ou dentro do Programa de Pesquisas    Ecol&oacute;gicas de Longa Dura&ccedil;&atilde;o (Peld), patrocinado pelo CNPq.    O foco em Mato Grosso, portanto, era meio ambiente. Mas, rapidamente se percebeu    que a presen&ccedil;a do homem &eacute; fundamental para entender o bioma pantaneiro,    e esse vi&eacute;s foi crescendo durante o estudo. A principal quest&atilde;o    enfrentada pelo grupo de pesquisadores foi: quais as conseq&uuml;&ecirc;ncias,    ambientais e sociais, da exclus&atilde;o do homem, instalado h&aacute; mais    de 200 anos com atividade econ&ocirc;mica produtiva, de uma &aacute;rea de preserva&ccedil;&atilde;o?    </font></p>     <p><font size="3"><b>ESPA&Ccedil;O LEGAL</b> A pesquisa da Unopar iniciou com    a avalia&ccedil;&atilde;o da legitimidade de ocupa&ccedil;&atilde;o nas 12 favelas    mais centrais de Londrina. Como desdobramento, passou-se a apurar outras quest&otilde;es    como o direito de acesso &agrave; cidade que essa popula&ccedil;&atilde;o tem.    Afinal, hoje s&atilde;o 160 mil habitantes em Londrina vivendo em situa&ccedil;&otilde;es    de risco social, 35% deles com renda familiar de at&eacute; 2 sal&aacute;rios    m&iacute;nimos; 11 mil fam&iacute;lias em condi&ccedil;&atilde;o de mis&eacute;ria,    com renda de um d&oacute;lar por dia; e s&oacute; 12 mil fam&iacute;lias desse    universo atendidas por algum tipo de benef&iacute;cio social.</font> </p>     <p> <font size="3">"S&atilde;o pessoas que vivem na cidade e n&atilde;o a    cidade, com a caracter&iacute;stica de estarem sempre em tr&acirc;nsito".    Para Batista, o olhar da cidade a partir da favela equaliza todas as metr&oacute;poles.    Essas popula&ccedil;&otilde;es n&atilde;o t&ecirc;m identifica&ccedil;&atilde;o:    sua rua n&atilde;o tem nome, sua casa n&atilde;o tem n&uacute;mero, seu bairro    ningu&eacute;m sabe como chama. A origem das fam&iacute;lias que moram em situa&ccedil;&atilde;o    prec&aacute;rias &eacute; o pr&oacute;prio estado: 60% do norte paranaense;    32% de Londrina; 8% de outros estados. Essa &eacute; a dram&aacute;tica realidade    constatada pela pesquisa: "um estado rico favelando sua pr&oacute;pria    popula&ccedil;&atilde;o, com 16% de analfabetos e 83% com at&eacute; 1º grau",    acrescenta. </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><FONT SIZE="3"><b>OURO PANTANEIRO</b> Os pequenos munic&iacute;pios de Pocon&eacute;    e Bar&atilde;o de Melga&ccedil;o integram o quarto maior estado brasileiro em    territ&oacute;rio – 930 mil quil&ocirc;metros quadrados – mas com uma pequena    popula&ccedil;&atilde;o de 2,02 milh&otilde;es de habitantes e um crescimento    demogr&aacute;fico de 2% ao ano na &uacute;ltima d&eacute;cada. Mais de 80%    dos habitantes de Mato Grosso est&atilde;o concentrados nas &aacute;reas urbanas    de Cuiab&aacute;, Vargem Grande, Rondon&oacute;polis e C&aacute;ceres. Um movimento    totalmente contr&aacute;rio &agrave; proposta de coloniza&ccedil;&atilde;o das    d&eacute;cadas passadas, quando se pensou a ocupa&ccedil;&atilde;o do estado    a partir da atividade agr&iacute;cola."As dificuldades das terras do Cerrado    impulsionaram a popula&ccedil;&atilde;o para as cidades", assinala Marineti.</font></p>     <p><FONT SIZE="3"><b>POCON&Eacute; E BAR&Atilde;O DE MELGA&Ccedil;O</b> O foco    inicial da pesquisa da UFMT foi o Sesc-Pantanal, que colocou sua &aacute;rea    de reserva &agrave; disposi&ccedil;&atilde;o para os estudos ambientais propostos.    Por&eacute;m, rapidamente o problema social gerado com a retirada de fam&iacute;lias    daquelas terras se imp&ocirc;s. Essa popula&ccedil;&atilde;o, desenraizada e    sem atividade produtiva, passou a deslocar-se para o entorno e, entre os locais    de chegada, estavam Pocon&eacute; e Bar&atilde;o de Melga&ccedil;o, conta a    pesquisadora.</font></p>     <p><font size="3"> Pocon&eacute;, formada no s&eacute;culo XVIII em decorr&ecirc;ncia    da explora&ccedil;&atilde;o do ouro, "&eacute; o quarto munic&iacute;pio    de MT que surge quando a explora&ccedil;&atilde;o das minas se esgota".    Bar&atilde;o de Melga&ccedil;o nasce para atender as mon&ccedil;&otilde;es dos    bandeirantes; depois a produ&ccedil;&atilde;o de a&ccedil;&uacute;car atraiu    mais gente; mas foi somente na d&eacute;cada de 90 do s&eacute;culo XX que se    transformou em munic&iacute;pio. Bar&atilde;o do Melga&ccedil;o teve um crescimento    mais lento, pois apenas 25% de sua &aacute;rea &eacute; terra firme, e 50% de    sua popula&ccedil;&atilde;o est&aacute; no campo ou &eacute; ribeirinha. Pocon&eacute;    est&aacute; situada na plan&iacute;cie pantaneira e chegou a abrigar a maior    cria&ccedil;&atilde;o de gado do estado. Hoje tem 30,8 mil habitantes, em 18    bairros. O novo ciclo de explora&ccedil;&atilde;o recente do ouro em suas terras    a transformou: em 1990, Pocon&eacute; chegou a ter 47 mil moradores por conta    da minera&ccedil;&atilde;o de grandes empresas – em 1985 eram cerca de 10 mil    garimpeiros trabalhando, conta Covezzi. Com o fechamento das &aacute;reas de    explora&ccedil;&atilde;o, a popula&ccedil;&atilde;o ficou sem fonte de renda    e concentrou-se na cidade, com apenas 8,4 mil de seus habitantes fixados no    campo.</font></p>     <p><font size="3">O solo de Pocon&eacute;, hoje, lembra uma superf&iacute;cie    lun&aacute;tica, por causa das grandes perfura&ccedil;&otilde;es em busca do    ouro, cuja explora&ccedil;&atilde;o passou a ser controlada por oito grandes    mineradores. Al&eacute;m do incha&ccedil;o urbano, a situa&ccedil;&atilde;o    ambiental &eacute; igualmente grave. O abandono das &aacute;reas de explora&ccedil;&atilde;o    do ouro deixou crateras e microbacias contaminadas pelo esgoto. Bar&atilde;o    de Melga&ccedil;o tem apenas cinco bairros e economia centrada na pecu&aacute;ria    e na pesca. S&atilde;o 730 pescadores profissionais vivendo pr&oacute;ximos    &agrave;s grandes lagoas; mas as barragens constru&iacute;das pelas usinas reduziram    a vaz&atilde;o do rio Cuiab&aacute; e colocaram sua fonte de subsist&ecirc;ncia    em risco. O lixo despejado nessas regi&otilde;es desemboca nas bacias do Chaporor&eacute;    e Mariana, o que afeta a fauna pesqueira, conta a pesquisadora.</font></p>     <p><FONT SIZE="3"><b>INVISIBILIDADE</b> Como em Londrina, e provavelmente em todas    as cidades onde o favelamento n&atilde;o se acontece nas &aacute;reas nobres,    tamb&eacute;m nessas localidades mato-grossenses h&aacute; uma invisibilidade    dos bairros pobres em rela&ccedil;&atilde;o &agrave;s inst&acirc;ncias pol&iacute;ticas    e sociais de poder local.</font></p>     <p><font size="3"> S&atilde;o aglomera&ccedil;&otilde;es urbanas com elevadas    taxas de analfabetismo – Bar&atilde;o com 22% e Pocon&eacute; 21% – e n&iacute;veis    baixos de benfeitorias sociais, como &aacute;gua tratada – Bar&atilde;o 44%    e Pocon&eacute; 61% . Mas no Fundo de Participa&ccedil;&atilde;o dos Munic&iacute;pios,    os recursos n&atilde;o s&atilde;o t&atilde;o pequenos, diz Marineti: R$ 1,1    milh&atilde;o e R$ 2,2 milh&otilde;es, respectivamente. O fato &eacute; que    inexiste um plano de administra&ccedil;&atilde;o social para esses munic&iacute;pios,    considera a pesquisadora.</font></p>     <p><font size="3"> "A situa&ccedil;&atilde;o dessas duas cidades empurram    para um processo de faveliza&ccedil;&atilde;o semelhante ao das grandes cidades",    acrescenta a pesquisadora. Por falta de planejamento e de pol&iacute;ticas p&uacute;blicas    mais abrangentes, que conciliem o progresso econ&ocirc;mico e preserva&ccedil;&atilde;o    ambiental com o cuidado e aten&ccedil;&atilde;o aos direitos de cidadania de    sua popula&ccedil;&atilde;o mais pobre, as favelas v&atilde;o transformando    as cidades em aglomerados com a mesma fei&ccedil;&atilde;o.</font></p>     <p><font size="3">Dentre as propostas que tratam dessa quest&atilde;o, o professor    Jo&atilde;o Batista considera que a tend&ecirc;ncia mais progressista hoje n&atilde;o    &eacute; a erradica&ccedil;&atilde;o, mas a urbaniza&ccedil;&atilde;o das favelas.    Em alguns cen&aacute;rios existem moradores h&aacute; v&aacute;rias d&eacute;cadas    no mesmo local. "E essa popula&ccedil;&atilde;o n&atilde;o tem como voltar    para lugar nenhum: s&atilde;o pessoas que perderam o sistema comunit&aacute;rio    que existia antes, ou vieram de &aacute;reas que se transformaram em preserva&ccedil;&atilde;o    ambiental", complementa Marineti. </font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p ALIGN="RIGHT"><FONT SIZE="3"><b><i>Wanda Jorge</i></b></FONT></p>     ]]></body>
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