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</front><body><![CDATA[ <P align="center"><img src="/img/revistas/cic/v57n2/linguabr.gif"></P>     <P>&nbsp;</P>     <P><FONT SIZE="5"><b>SOBRE AS L&Iacute;NGUAS IND&Iacute;GENAS E SUA PESQUISA NO    BRASIL</b></font></P>     <P><FONT SIZE="3"><b>Aryon Dall'Igna Rodrigues</b></font></P>     <P>&nbsp;</P>     <P><FONT SIZE="3"> <b>DIVERSIDADE E MULTIPLICIDADE LING&Uuml;&Iacute;STICA NO    PASSADO </b>A &uacute;nica estimativa de que dispomos sobre a diversidade das    l&iacute;nguas ind&iacute;genas existentes no Brasil h&aacute; 500 anos, antes    do in&iacute;cio da coloniza&ccedil;&atilde;o desta parte da Am&eacute;rica    do Sul pelos europeus, &eacute; a que foi apresentada, em 1992, na Reuni&atilde;o    Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ci&ecirc;ncia (Rodrigues,    1993a, 1993b). Segundo essa estimativa, teria sido de cerca de 1,2 mil o n&uacute;mero    de diferentes l&iacute;nguas faladas em nosso atual territ&oacute;rio pelos    povos ind&iacute;genas. O ponto de partida para essa estimativa foi uma rela&ccedil;&atilde;o    de 76 povos ind&iacute;genas que se encontravam numa estreita faixa paralela    &agrave; costa leste, desde o rio S&atilde;o Francisco, ao norte, at&eacute;    o Rio de Janeiro, ao sul, feita pelo padre jesu&iacute;ta Fern&atilde;o Cardim    no s&eacute;culo XVI (Cardim, 1978 &#91;manuscrito de 1584&#93;). Nessa lista, Cardim    referiu-se explicitamente &agrave; identidade ou &agrave; diferen&ccedil;a das    l&iacute;nguas faladas por esses povos, deixando claro que, ao todo, se tratava    de 65 l&iacute;nguas distintas entre si e distintas da l&iacute;ngua dos &iacute;ndios    da costa, que eram os tupinamb&aacute;s (que incluem os tupiniquins, caet&eacute;s,    potiguaras, tamoios etc.), com os quais os portugueses mantinham contacto. Como    alguns nomes na lista est&atilde;o claramente na l&iacute;ngua dos tupinamb&aacute;s    – a mesma que hoje tamb&eacute;m &eacute; chamada de tupi antigo e que no s&eacute;culo    XVII foi denominada <i>l&iacute;ngua bras&iacute;lica</i> – e os demais est&atilde;o    grafados &agrave; maneira como os jesu&iacute;tas escreviam essa l&iacute;ngua,    pode-se supor que as fontes de informa&ccedil;&atilde;o tenham sido os &iacute;ndios    tupinamb&aacute;s e que aquela enumera&ccedil;&atilde;o representasse o conhecimento    destes sobre seus vizinhos mais imediatos. Ela deve ser bastante representativa    para a &aacute;rea coberta, embora possa n&atilde;o ser exaustiva.</font></P>     <P><FONT SIZE="3">Apesar da grande diversidade de povos nativos no interior mais    imediato &agrave; costa atl&acirc;ntica, uma caracter&iacute;stica da coloniza&ccedil;&atilde;o    europ&eacute;ia do Brasil, n&atilde;o s&oacute; da portuguesa, mas tamb&eacute;m    das tentativas francesas, foi a de privilegiar o conhecimento do idioma dos    tupinamb&aacute;s que era, como j&aacute; no fim do s&eacute;culo XVI foi consignado    no t&iacute;tulo da gram&aacute;tica feita por Jos&eacute; de Anchieta, "a    l&iacute;ngua mais usada na costa do Brasil" (Anchieta, 1595). Para a comunica&ccedil;&atilde;o    com os outros povos recorria-se a int&eacute;rpretes ind&iacute;genas. Uma conseq&uuml;&ecirc;ncia    dessa situa&ccedil;&atilde;o &eacute; que, durante os tr&ecirc;s s&eacute;culos    do per&iacute;odo colonial fizeram-se gram&aacute;ticas e dicion&aacute;rios    de somente tr&ecirc;s l&iacute;nguas ind&iacute;genas: do pr&oacute;prio tupinamb&aacute;,    de que foram feitas duas (Anchieta, 1595, e Figueira, 1621), da l&iacute;ngua    kirir&iacute; (Mamiani, 1699) e da l&iacute;ngua dos maramonins ou guarulhos.    Desta &uacute;ltima, elaborada pelo Padre Manuel Viegas com o aux&iacute;lio    do Padre Anchieta, est&atilde;o, entretanto, perdidos todos os manuscritos (gram&aacute;tica,    vocabul&aacute;rio e catecismo). As gram&aacute;ticas do tupinamb&aacute; e    do kirir&iacute; foram publicadas nos s&eacute;culos XVI e XVII e, assim, sobreviveram    e puderam ser reproduzidas em novas edi&ccedil;&otilde;es (a de Figueira j&aacute;    no s&eacute;culo XVII, as de Anchieta e Mamiani s&oacute; no s&eacute;culo XIX),    mas a de Viegas n&atilde;o foi publicada e se perdeu, assim como seus outros    trabalhos sobre a l&iacute;ngua. Tamb&eacute;m n&atilde;o foi publicado o dicion&aacute;rio    da l&iacute;ngua tupinamb&aacute;, mas deste foram felizmente preservadas umas    poucas c&oacute;pias manuscritas, uma delas datada de 1621. Tamb&eacute;m o    manuscrito do dicion&aacute;rio do kirir&iacute;, feito por um padre de nome    Jo&atilde;o de Barros, at&eacute; hoje n&atilde;o foi encontrado, da mesma forma    como ainda n&atilde;o se tem not&iacute;cia sobre a poss&iacute;vel sobreviv&ecirc;ncia    de manuscritos de gram&aacute;tica e dicion&aacute;rio dos capuchinhos franceses    que atuaram no fim do s&eacute;culo XVII e no in&iacute;cio do XVIII no rio    S&atilde;o Francisco, junto a um povo estreitamente aparentado aos kirir&iacute;s,    o povo dzubuku&aacute;, em cuja l&iacute;ngua Frei Bernardo de Nantes publicou    um catecismo (Nantes, 1709).</FONT></P>     <P><FONT SIZE="3"><b>DIVERSIDADE E MULTIPLICIDADE LING&Uuml;&Iacute;STICA NO PRESENTE</b>    Presentemente, s&atilde;o faladas no Brasil 181 l&iacute;nguas ind&iacute;genas.    Esse n&uacute;mero admite pequena margem de erro para mais ou para menos, devido    principalmente &agrave; imprecis&atilde;o, em alguns casos, da distin&ccedil;&atilde;o    entre l&iacute;nguas e dialetos (estes s&atilde;o variedades de uma l&iacute;ngua    t&atilde;o pouco diferenciadas, que n&atilde;o dificultam a comunica&ccedil;&atilde;o    entre seus respectivos falantes). Nesse n&uacute;mero podem estar inclu&iacute;das    duas ou tr&ecirc;s l&iacute;nguas que deixaram de ser faladas nos &uacute;ltimos    cinco anos. Por outro lado, o Departamento de &Iacute;ndios Isolados da Funai,    que monitora as informa&ccedil;&otilde;es sobre a exist&ecirc;ncia de povos    ind&iacute;genas ainda sem contacto aberto com segmentos da nossa sociedade,    admite que s&atilde;o perto de 20 os grupos de pessoas nessa situa&ccedil;&atilde;o.    Alguns desses grupos podem falar l&iacute;nguas compartilhadas com outros j&aacute;    conhecidos, mas v&aacute;rios deles podem ser detentores de idiomas ainda desconhecidos.    </font></P>     <P><FONT SIZE="3">A classifica&ccedil;&atilde;o cient&iacute;fica das l&iacute;nguas    &eacute; de natureza gen&eacute;tica: incluem-se em uma mesma classe l&iacute;nguas    para as quais h&aacute; evid&ecirc;ncias de serem provenientes de uma mesma    l&iacute;ngua ancestral, analogamente &agrave; situa&ccedil;&atilde;o das l&iacute;nguas    rom&acirc;nicas ou latinas, que prov&ecirc;m do latim falado na Europa ocidental    h&aacute; cerca de 2.000 anos. Um conjunto de l&iacute;nguas que compartilham    assim a mesma origem &eacute; o que tecnicamente se chama uma <i>fam&iacute;lia    ling&uuml;&iacute;stica</i>. Na medida em que progride o seu conhecimento, as    l&iacute;nguas ind&iacute;genas brasileiras v&ecirc;m sendo classificadas em    fam&iacute;lias gen&eacute;ticas. Presentemente s&atilde;o distinguidas 43 fam&iacute;lias,    algumas das quais consistem em uma s&oacute; l&iacute;ngua e caracterizam o    que tamb&eacute;m se chama de "l&iacute;ngua isolada", termo pouco    significativo, uma vez que freq&uuml;entemente esse isolamento decorre de acidentes    hist&oacute;ricos e, no caso das l&iacute;nguas do Brasil, mais provavelmente    do processo colonizador, que exterminou os povos que falavam outras l&iacute;nguas    de uma mesma fam&iacute;lia. De algumas fam&iacute;lias, embora haja documenta&ccedil;&atilde;o    dos s&eacute;culos passados que permite determin&aacute;-las ao menos aproximadamente,    j&aacute; morreram todas as l&iacute;nguas e, portanto, a pr&oacute;pria fam&iacute;lia    est&aacute; morta. Esse &eacute; o caso de v&aacute;rias fam&iacute;lias ling&uuml;&iacute;sticas    do Brasil oriental, como a karir&iacute;, a kamak&atilde; e a pur&iacute;. Por    outro lado, entre algumas fam&iacute;lias t&ecirc;m sido reconhecidas propriedades    comuns de natureza tal que s&oacute; podem ser explicadas por uma origem comum    mais remota do que as que justificaram a constitui&ccedil;&atilde;o de cada    fam&iacute;lia. Nesse caso postula-se uma classe gen&eacute;tica mais abrangente    e de maior profundidade temporal, o <i>tronco ling&uuml;&iacute;stico</i>. No    Brasil reconhece-se um tronco bem estabelecido, o tupi, que compreende dez fam&iacute;lias,    e outro de car&aacute;ter ainda bastante hipot&eacute;tico, o macro-j&ecirc;,    abrangendo doze fam&iacute;lias. No <a href="/img/revistas/cic/v57n2/a14qdr01.gif"><b>quadro    1</b></a> figuram as fam&iacute;lias ling&uuml;&iacute;sticas segundo o estado    atual do conhecimento, com as respectivas l&iacute;nguas, as siglas dos estados    em que estas s&atilde;o faladas e o n&uacute;mero de falantes. </FONT></P>     <P><FONT SIZE="3"><b>A PERDA DA DIVERSIDADE</b> A redu&ccedil;&atilde;o de 1200    para 180 l&iacute;nguas ind&iacute;genas nos &uacute;ltimos 500 anos foi o efeito    de um processo colonizador extremamente violento e continuado, o qual ainda    perdura, n&atilde;o tendo sido interrompido nem com a independ&ecirc;ncia pol&iacute;tica    do pa&iacute;s no in&iacute;cio do s&eacute;culo XIX, nem com a instaura&ccedil;&atilde;o    do regime republicano no final desse mesmo s&eacute;culo, nem ainda com a promulga&ccedil;&atilde;o    da "Constitui&ccedil;&atilde;o Cidad&atilde;" de 1988. Embora esta    tenha sido a primeira carta magna a reconhecer direitos fundamentais dos povos    ind&iacute;genas, inclusive direitos ling&uuml;&iacute;sticos, as rela&ccedil;&otilde;es    entre a sociedade majorit&aacute;ria e as minorias ind&iacute;genas pouco mudou.    Gra&ccedil;as &agrave; Constitui&ccedil;&atilde;o em vigor est&aacute; havendo    diversos desenvolvimentos importantes para muitas dessas minorias em v&aacute;rios    planos, inclusive no acesso a projetos de educa&ccedil;&atilde;o mais espec&iacute;ficos    e com considera&ccedil;&atilde;o de suas l&iacute;nguas nativas. Entretanto,    ainda s&atilde;o grandes a hostilidade e a viol&ecirc;ncia, alimentadas n&atilde;o    s&oacute; por ambi&ccedil;&otilde;es de natureza econ&ocirc;mica, mas tamb&eacute;m    pela desinforma&ccedil;&atilde;o sobre a diversidade cultural do pa&iacute;s,    sobre a import&acirc;ncia dessa diversidade para a na&ccedil;&atilde;o e para    a humanidade e sobre os direitos fundamentais das minorias.</font></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<P><FONT SIZE="3">Os dados demogr&aacute;ficos apresentados no <a href="/img/revistas/cic/v57n2/a14qdr01.gif">quadro1</a>    t&ecirc;m diferentes graus de precis&atilde;o. Alguns s&atilde;o exagerados    para mais, outros para menos, em geral para mais, pois grande parte deles se    refere &agrave; popula&ccedil;&atilde;o e n&atilde;o ao n&uacute;mero de falantes    da l&iacute;ngua ind&iacute;gena, que em muitos casos &eacute; inferior. Assim    mesmo esses dados s&atilde;o reveladores da situa&ccedil;&atilde;o extremamente    grave em que se encontra a maioria das l&iacute;nguas ind&iacute;genas. No plano    mundial tem-se considerado que hoje qualquer l&iacute;ngua falada por menos    de 100 mil pessoas tem sua sobreviv&ecirc;ncia amea&ccedil;ada e necessita de    especial aten&ccedil;&atilde;o. Todas as l&iacute;nguas ind&iacute;genas no    Brasil t&ecirc;m menos de 40 mil falantes, sendo que a mais forte, a tik&uacute;na,    falada no alto Solim&otilde;es, apenas ultrapassa a marca de 30 mil. O aspecto    mais grave est&aacute;, por&eacute;m, no outro lado do espectro demogr&aacute;fico,    nas l&iacute;nguas infimamente minorit&aacute;rias, com popula&ccedil;&otilde;es    que n&atilde;o v&atilde;o al&eacute;m de 1 mil pessoas. Essa &eacute; a situa&ccedil;&atilde;o    de tr&ecirc;s quartos (76%) das nossas l&iacute;nguas ind&iacute;genas e significa    que &eacute; tarefa de alta prioridade e urg&ecirc;ncia a pesquisa cient&iacute;fica    que visa &agrave; documenta&ccedil;&atilde;o, an&aacute;lise, classifica&ccedil;&atilde;o    e interpreta&ccedil;&atilde;o te&oacute;rica dessas l&iacute;nguas, que em sua    grande maioria s&oacute; existem aqui. Igualmente priorit&aacute;ria &eacute;    a promo&ccedil;&atilde;o de a&ccedil;&otilde;es que visem a assegurar aos povos    ind&iacute;genas as condi&ccedil;&otilde;es necess&aacute;rias para continuar    transmitindo suas l&iacute;nguas &agrave;s novas gera&ccedil;&otilde;es.</FONT></P>     <P><FONT SIZE="3"><b>A DOCUMENTA&Ccedil;&Atilde;O CIENT&Iacute;FICA</b> As l&iacute;nguas    s&atilde;o objetos fugidios, cujas manifesta&ccedil;&otilde;es faladas s&atilde;o    moment&acirc;neas e se sucedem em alta velocidade, de modo que sua observa&ccedil;&atilde;o    e sua an&aacute;lise cient&iacute;fica dependem normalmente de uma fixa&ccedil;&atilde;o.    Esta &eacute; obtida mediante a escrita, que se desenvolve primeiramente como    fiel transcri&ccedil;&atilde;o fon&eacute;tica dos enunciados ouvidos pelo pesquisador,    freq&uuml;entemente gravados eletronicamente para poderem ser repetidos com    precis&atilde;o, e progride para uma representa&ccedil;&atilde;o fonol&oacute;gica    mais abstrata, que permite registrar com fidelidade os dados relevantes para    a an&aacute;lise gramatical e a interpreta&ccedil;&atilde;o sem&acirc;ntica.    O ling&uuml;ista treinado para efetuar essas opera&ccedil;&otilde;es tem de    ter acesso a falantes nativos da l&iacute;ngua e, para l&iacute;nguas ainda    desconhecidas, esse &eacute; um processo que demanda, em condi&ccedil;&otilde;es    boas de pesquisa, quatro ou mais anos para produzir uma boa descri&ccedil;&atilde;o    gramatical e um dicion&aacute;rio com registro amplo do vocabul&aacute;rio que    cubra todos os dom&iacute;nios sem&acirc;nticos relevantes da cultura nativa.    Para documentar adequadamente a l&iacute;ngua de um povo culturalmente t&atilde;o    diferente quanto os &iacute;ndios, o ling&uuml;ista precisa de uma percep&ccedil;&atilde;o    etnol&oacute;gica, raz&atilde;o por que sua pesquisa &eacute; tamb&eacute;m    denominada etnoling&uuml;&iacute;stica.</font></P>     <P><FONT SIZE="3">Devido ao grande n&uacute;mero de l&iacute;nguas faladas pelos    povos ind&iacute;genas do Brasil e &agrave; grave amea&ccedil;a de desaparecimento    que incide sobre a maioria delas, sua documenta&ccedil;&atilde;o cient&iacute;fica    requer grande n&uacute;mero de pesquisadores em condi&ccedil;&otilde;es favor&aacute;veis    de dedica&ccedil;&atilde;o continuada. Em 1987, quando s&oacute; uma universidade    brasileira, a Unicamp, estava formando pesquisadores para trabalhar com l&iacute;nguas    ind&iacute;genas, foi criado no CNPq, como programa especial, o PPCLIB - Programa    de Pesquisa Cient&iacute;fica das L&iacute;nguas Ind&iacute;genas Brasileiras,    destinado a fomentar tanto a pesquisa como a forma&ccedil;&atilde;o de pesquisadores.    N&atilde;o foi destinada nenhuma verba espec&iacute;fica para esse fim, mas    foi adotada uma pol&iacute;tica de prefer&ecirc;ncia a projetos que se enquadrassem    nas prioridades definidas pelo programa. Tamb&eacute;m foi obtida a colabora&ccedil;&atilde;o    da Finep, que se disp&ocirc;s a apoiar ajustes de instala&ccedil;&otilde;es.    Deste apoio s&oacute; p&ocirc;de beneficiar-se uma institui&ccedil;&atilde;o,    j&aacute; que outras n&atilde;o o solicitaram, ou n&atilde;o puderam satisfazer    as condi&ccedil;&otilde;es m&iacute;nimas da Finep. Entretanto, com o apoio    do CNPq foi poss&iacute;vel motivar alguns programas de p&oacute;s-gradua&ccedil;&atilde;o    em letras a abrirem espa&ccedil;o para pesquisas sobre l&iacute;nguas ind&iacute;genas,    al&eacute;m do programa de ling&uuml;&iacute;stica da Unicamp: UFG, UFPE, UFRJ,    UFSC, UnB. Al&eacute;m de bolsas concedidas a alunos dessas universidades, principalmente    em n&iacute;vel de mestrado, foi poss&iacute;vel tamb&eacute;m outorgar bolsas    para o doutorado no exterior, tanto nos Estados Unidos, como na Europa. Durante    o governo Collor foram cancelados os programas especiais, inclusive o PPCLIB,    mas felizmente a &aacute;rea de Ci&ecirc;ncias Humanas manteve informalmente    as defini&ccedil;&otilde;es de prioridade para bolsas e aux&iacute;lios na &aacute;rea    de l&iacute;nguas ind&iacute;genas. Assim, novos estudantes continuaram recebendo    apoio do CNPq para investigar essas l&iacute;nguas. O clima criado pelo PPCLIB    estimulou tamb&eacute;m apoio de algumas funda&ccedil;&otilde;es estaduais,    como a Faperj e a Fapesp.</FONT></P>     <P><FONT SIZE="3"><b>A FORMA&Ccedil;&Atilde;O DOS PESQUISADORES</b> Entretanto,    o n&uacute;mero de pesquisadores &eacute; ainda muito pequeno, e isso n&atilde;o    se deve ao CNPq, mas a outros fatores. Dentre os mais fortes cabe mencionar    a organiza&ccedil;&atilde;o das universidades brasileiras e a posi&ccedil;&atilde;o    que tem nelas a ling&uuml;&iacute;stica. No n&iacute;vel de gradua&ccedil;&atilde;o    a ling&uuml;&iacute;stica &eacute; ensinada nos cursos profissionalizantes de    licenciatura em Letras, destinados basicamente &agrave; forma&ccedil;&atilde;o    de professores para o ensino m&eacute;dio, e na maioria dos curr&iacute;culos    seu papel &eacute; apenas ancilar. No n&iacute;vel de p&oacute;s-gradua&ccedil;&atilde;o,    poucas universidades t&ecirc;m programas espec&iacute;ficos de ling&uuml;&iacute;stica,    pois a maioria dos programas s&atilde;o proje&ccedil;&otilde;es mais avan&ccedil;adas    dos cursos de gradua&ccedil;&atilde;o, s&atilde;o programas simplesmente "de    letras". Isto reflete em boa parte a organiza&ccedil;&atilde;o departamental    das faculdades de letras, das quais muito poucas t&ecirc;m departamentos de    ling&uuml;&iacute;stica. E mesmo estes, onde existem, s&atilde;o compelidos    a preocupar-se maximamente com a forma&ccedil;&atilde;o de professores para    a l&iacute;ngua majorit&aacute;ria, a portuguesa, e suas express&otilde;es liter&aacute;rias.    Uma outra caracter&iacute;stica desfavor&aacute;vel da atual organiza&ccedil;&atilde;o    universit&aacute;ria &eacute; a compartimenta&ccedil;&atilde;o estanque dos    departamentos e dos cursos, n&atilde;o s&oacute; na gradua&ccedil;&atilde;o,    mas tamb&eacute;m na p&oacute;s-gradua&ccedil;&atilde;o. Em geral n&atilde;o    existe espa&ccedil;o para curr&iacute;culos diferenciados e interdisciplinares.    Um estudante de ling&uuml;&iacute;stica n&atilde;o pode integrar em seu curr&iacute;culo    os cr&eacute;ditos que necessita de antropologia ou de sociologia ou de estat&iacute;stica    ou de hist&oacute;ria ou de inform&aacute;tica, etc. Um orientador n&atilde;o    pode dirigir o estudante para a integra&ccedil;&atilde;o de conhecimentos complementares,    porque os requisitos dos cursos s&atilde;o estreitamente limitadores. Na p&oacute;s-gradua&ccedil;&atilde;o,    onde deveria haver mais flexibilidade, a imposi&ccedil;&atilde;o, pela ag&ecirc;ncia    reguladora do Minist&eacute;rio da Educa&ccedil;&atilde;o, de prazos m&iacute;nimos    r&iacute;gidos com a previs&atilde;o de penalidade aos cursos que os deixem    ultrapassar, somada &agrave; exig&ecirc;ncia de est&aacute;gio docente dentro    desses m&iacute;nimos, desestimula, se n&atilde;o impossibilita, a realiza&ccedil;&atilde;o    do trabalho de campo ling&uuml;&iacute;stico que pode demandar um esfor&ccedil;o    e um tempo que n&atilde;o s&atilde;o levados em conta pelos avaliadores ministeriais.    </font></P>     <P><FONT SIZE="3">Somando professores e estudantes, temos hoje no Brasil perto    de uma centena de pessoas envolvidas em pesquisa de l&iacute;nguas ind&iacute;genas,    a maioria ainda estudantes, mas cerca de quarenta doutores. Com o apoio da Associa&ccedil;&atilde;o    Nacional de Programas de Pesquisa e P&oacute;s-Gradua&ccedil;&atilde;o em Letras    e Ling&uuml;&iacute;stica (Anpoll), veio consolidando-se, desde 1985, um Grupo    de Trabalho sobre L&iacute;nguas Ind&iacute;genas (GTLI), o qual promoveu, em    2001, o primeiro encontro internacional, ao qual compareceram 90 pesquisadores,    dos quais 12 estrangeiros (Cabral e Rodrigues, 2002). Dos brasileiros, 23 eram    doutores e os demais, estudantes de gradua&ccedil;&atilde;o e p&oacute;s-gradua&ccedil;&atilde;o.    Destes &uacute;ltimos, alguns j&aacute; conclu&iacute;ram o doutorado nos &uacute;ltimos    dois anos, no Brasil ou no exterior, alguns destes ainda como reflexos do PPCLIB.    </FONT></P>     <P><FONT SIZE="3"><b>CONCLUINDO</b> Embora, como se depreende deste hist&oacute;rico,    o n&uacute;mero de pesquisadores venha crescendo, esse crescimento n&atilde;o    se correlaciona diretamente com a cobertura das necessidades mais urgentes da    pesquisa das l&iacute;nguas ind&iacute;genas. Os trabalhos realizados s&atilde;o    em grande parte fragment&aacute;rios, associados a disserta&ccedil;&otilde;es    de mestrado, sem que tenha havido oportunidade, para os respectivos autores,    de dar continuidade &agrave; pesquisa. Tamb&eacute;m projetos de maior f&ocirc;lego    t&ecirc;m ficado inconclusos, ou passaram a alongar-se excessivamente, devido    a conting&ecirc;ncias profissionais e outras, inclusive &agrave;s dificuldades    de financiamento. Certamente, dez anos ap&oacute;s a desativa&ccedil;&atilde;o    do PPCLIB, torna-se necess&aacute;rio pensar em novo programa especial de fomento    &agrave; documenta&ccedil;&atilde;o, an&aacute;lise e descri&ccedil;&atilde;o    das l&iacute;nguas ind&iacute;genas, que, por um lado, contemple n&atilde;o    s&oacute; o est&iacute;mulo para o ingresso de novos pesquisadores nessa &aacute;rea,    mas tamb&eacute;m a sustentabilidade dos bons projetos dentro de prazos razo&aacute;veis,    em conjuga&ccedil;&atilde;o com as atividades de p&oacute;s-gradua&ccedil;&atilde;o    e com a necessidade de coordenar a pesquisa ling&uuml;&iacute;stica com o apoio    a projetos de revitaliza&ccedil;&atilde;o e promo&ccedil;&atilde;o do uso das    l&iacute;nguas nativas nas comunidades ind&iacute;genas. </font></P>     <P>&nbsp;</P>     <P><FONT SIZE="3"><i><b>Aryon Dall'Igna Rodrigues</b> foi professor titular do    Departamento de Ling&uuml;&iacute;stica da Unicamp; &eacute; professor do Laborat&oacute;rio    de L&iacute;nguas Ind&iacute;genas da UnB; s&oacute;cio fundador da Associa&ccedil;&atilde;o    Brasileira de Ling&uuml;&iacute;stica (Abralin); e pesquisador 1A do CNPq.</i></FONT></P>     <P>&nbsp;</P>     <P>&nbsp;</P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<P><FONT SIZE="3"><b>BIBLIOGRAFIA CITADA</b></FONT></P>     <!-- ref --><P><FONT SIZE="3">Anchieta, J. de. (1595). <i>Arte de grammatica da l&iacute;ngua    mais usada na costa do Brasil</i>. Coimbra.</FONT><!-- ref --><P><FONT SIZE="3">Nantes, Bernardo de. (1709). <i>Katecismo indico da l&iacute;ngua    Kariris</i>. Lisboa.</FONT><!-- ref --><P><FONT SIZE="3">Cabral, A. S. A. C., e A. D. Rodrigues. <i>L&iacute;nguas ind&iacute;genas    brasileiras: fonologia, gram&aacute;tica e hist&oacute;ria</i>. Atas do I Encontro    Internacional do Grupo de Trabalho sobre L&iacute;nguas Ind&iacute;genas da    Anpoll. 2 volumes. Bel&eacute;m: Edufba. 2002.</FONT><!-- ref --><P><FONT SIZE="3">Cardim, F. <i>Tratados da terra e gente do Brasil</i>. 3ª edi&ccedil;&atilde;o.    S&atilde;o Paulo: Companhia Editora Nacional/MEC. 1978.</FONT><!-- ref --><P><FONT SIZE="3">Mamiani, L. V. (1699). <i>Arte de grammatica da l&iacute;ngua    bras&iacute;lica da na&ccedil;am Kiriri</i>. Lisboa.</FONT><!-- ref --><P><FONT SIZE="3">Rodrigues, A. D. "L&iacute;nguas ind&iacute;genas: 500    anos de descobertas e perdas". <i>D.E.L.T.A.</i> 9.1:83-103. S&atilde;o    Paulo. 1993a.</FONT><!-- ref --><P><FONT SIZE="3">Rodrigues, A. D. "L&iacute;nguas ind&iacute;genas: 500    anos de descobertas e perdas". <i>Ci&ecirc;ncia e Cultura</i> 95:20-26.    1993b.</FONT> ]]></body><back>
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