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</front><body><![CDATA[ <P align="center"><img src="/img/revistas/cic/v57n2/linguabr.gif"></P>     <P>&nbsp;</P>     <P><font size=5><b><a name="tx"></a>AS FORMAS DE EXPRESS&Atilde;O NA "L&Iacute;NGUA"    AFRICANA DO CAFUND&Oacute;<a href="#nt"><sup>*</sup></a></b></font></P>     <P><font size="3"><b>Carlos Vogt     <br>   Peter Fry</b></font></P>     <P>&nbsp;</P>     <P><font size=5><b>O</b></font><font size="3"> Cafund&oacute; &eacute; um bairro    rural situado no munic&iacute;pio de Salto de Pirapora. Est&aacute; a doze quil&ocirc;metros    dessa cidade, a trinta de Sorocaba e a n&atilde;o mais de cento e cinq&uuml;enta    quil&ocirc;metros de S&atilde;o Paulo. Sua popula&ccedil;&atilde;o, predominantemente    negra, divide-se em duas parentelas: a dos Almeida Caetano e a dos Pires Pedroso    (1). Cerca de oitenta pessoas vivem no bairro. Destas, apenas nove det&ecirc;m    o t&iacute;tulo de propriet&aacute;rios legais dos 7,75 alqueires de terra que    constituem a extens&atilde;o do Cafund&oacute;. S&atilde;o, conforme voz corrente    na comunidade, terras doadas a dois ancestrais escravos de seus habitantes atuais    pelo antigo senhor e fazendeiro, pouco antes da Aboli&ccedil;&atilde;o, em 1888.    A doa&ccedil;&atilde;o feita &agrave;s duas irm&atilde;s – Ifig&ecirc;nia    e Ant&ocirc;nia, que est&atilde;o na origem das duas parentelas – teria    sido muito maior. A especula&ccedil;&atilde;o imobili&aacute;ria, a ambi&ccedil;&atilde;o    dos fazendeiros circunvizinhos e a falta de documenta&ccedil;&atilde;o legal    por parte de seus leg&iacute;timos donos foram encolhendo a propriedade para    as propor&ccedil;&otilde;es que hoje tem. Nela, seus moradores plantam milho,    feij&atilde;o e mandioca principalmente. Nela, criam galinhas e porcos. Tudo    em pequena escala, apenas para atender parte de suas necessidades de subsist&ecirc;ncia.    Fora dela, trabalham como diaristas, b&oacute;ias-frias e, &agrave;s vezes,    no caso das mulheres, como empregadas dom&eacute;sticas. Assim, participam de    uma economia de mercado. Sua l&iacute;ngua materna &eacute; o portugu&ecirc;s,    uma varia&ccedil;&atilde;o regional que sob muitos aspectos poderia ser identificada    ao chamado dialeto caipira, tal como o apresenta, por exemplo, Amadeu Amaral    (1976). Usam, al&eacute;m disso, um l&eacute;xico de origem banto, quimbundo    principalmente, cujo papel social &eacute;, sobretudo, de represent&aacute;-los    como africanos no Brasil.</font></P>     <P><FONT SIZE="3">Em rela&ccedil;&atilde;o aos usos que ainda se fazem de vocabul&aacute;rios    africanos no Brasil, a "l&iacute;ngua" do Cafund&oacute; mostra um    aspecto ativo que esses outros usos, em geral muito cerimoniais, n&atilde;o    oferecem. A "l&iacute;ngua" do Cafund&oacute; &eacute; utilizada em    situa&ccedil;&otilde;es sociais mais ou menos corriqueiras, de forma que o seu    emprego independe de um calend&aacute;rio de festas ou comemora&ccedil;&otilde;es.    A pergunta que imediatamente o leitor dever&aacute; estar se fazendo &eacute;    de que modo, com o vocabul&aacute;rio t&atilde;o limitado, &eacute; poss&iacute;vel    ser efetivamente ativo nessa l&iacute;ngua? O que imediatamente sobressai quando    se ouve o pessoal do Cafund&oacute; falando "africano" &eacute; que    as estruturas gramaticais que sistematizam o uso do vocabul&aacute;rio, dando-lhe    uma certa consist&ecirc;ncia de emprego, s&atilde;o estruturas tomadas emprestadas    do portugu&ecirc;s.</FONT></P>     <P><FONT SIZE="3">Os quinze verbos que integram o vocabul&aacute;rio s&atilde;o    todos morfologicamente marcados pela desin&ecirc;ncia da primeira conjuga&ccedil;&atilde;o,    e s&atilde;o flexionados tanto nas formas normais como nas formas propriamente    verbais segundo o paradigma dessa conjuga&ccedil;&atilde;o. Al&eacute;m disso,    onze dos quinze verbos incorporam no seu radical a forma nominal - cu - que    aparece de modo geral nas l&iacute;nguas da fam&iacute;lia banto.</FONT></P>     <P><FONT SIZE="3">Do ponto de vista sint&aacute;tico propriamente dito, esse aportuguesamento    se manifesta de v&aacute;rias formas. Transcrevemos abaixo alguns exemplos de    frases do Cafund&oacute; em que as palavras e os morfemas grifados pertencem    ao portugu&ecirc;s:</FONT></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<P><FONT SIZE="3"><b>1.</b> <i>Vimbundo est&aacute; cupopiando no inj&oacute;    do tata.</i>    <br>   O homem preto est&aacute; falando na casa do pai.    <br>   <b>2.</b><i> O nhamanhara cuendou para cu&ccedil;umbar a cup&oacute;pia.</i>    <br>   O homem andou para ouvir a conversa.    <br>   <b>3.</b><i> O cafombe cuendou da ambara para cunuar avero com nhapecava.</i>    <br></font>    O homem branco veio da cidade para beber caf&eacute; com leite.</P>     <P><FONT SIZE="3">As varia&ccedil;&otilde;es de tempo na "l&iacute;ngua" do Cafund&oacute;    reduzem-se &agrave;s formas do pret&eacute;rito perfeito, do presente e do futuro    do indicativo. As duas primeiras recebem as marcas morfol&oacute;gicas caracter&iacute;sticas    do pret&eacute;rito perfeito e do presente pr&oacute;prias da primeira conjuga&ccedil;&atilde;o.    O futuro &eacute; expresso atrav&eacute;s de uma forma perifr&aacute;stica,    formada pelo auxiliar <i>ir</i> mais o ger&uacute;ndio do verbo principal. Outra    ocorr&ecirc;ncia que ainda se verifica no Cafund&oacute; &eacute; o uso desse    esquema para expressar tamb&eacute;m o presente cont&iacute;nuo. Neste caso,    o auxiliar &eacute; <i>estar</i> e o verbo principal aparece tamb&eacute;m na    forma do ger&uacute;ndio. As express&otilde;es abaixo constituem exemplo desses    procedimentos:</FONT></P>     <P><FONT SIZE="3"><b>4.</b><i> Nhamanhara cuendou no ngombe do andaru.</i>    <br>   O homem foi de carro.    <br>   <b>5.</b><i> Curimei vavuro.</i>    ]]></body>
<body><![CDATA[<br>   Trabalhei muito.    <br>   <b>6.</b><i> O m&eacute;dico &eacute; o que cu&ccedil;umba o maiembe.</i>    <br>   O m&eacute;dico &eacute; aquele que receita o rem&eacute;dio.    <br>   <b>7.</b><i> O delegado fica bravo e cuenda ele pro chitungo.</i>    <br>   O delegado fica bravo e o leva para a cadeia.    <br>   <b>8.</b><i> No quilombo que vai cuendar.</i>    <br>   No dia que vai vir (amanh&atilde;).    <br>   <b>9.</b><i> Hoje eu vou cu&ccedil;umbar o mambi no orofim.</i>    <br>   Hoje eu vou passar o machado no mato (cortar lenha).    <br>   <b>10.</b><i> Angutu est&aacute; cuendando mafingue.</i>    ]]></body>
<body><![CDATA[<br>   A mulher est&aacute; vertendo sangue (menstruada).    <br>   <b>11.</b><i> Vimbundo est&aacute; cupopiando na marrupa.</i>    <br>   O homem preto est&aacute; falando no sono (est&aacute;    sonhando).</FONT></P>     <P><FONT SIZE="3">Outras formas parafr&aacute;sticas tamb&eacute;m s&atilde;o    utilizadas. Assim, o pret&eacute;rito perfeito do verbo ir (auxiliar) mais o    infinitivo do verbo principal:</FONT></P>     <P><FONT SIZE="3"><b>12.</b><i> Eu fui cuendar.</i>     <br>   Eu fui ir (eu fui).    <br>   <b>13.</b><i> Ele foi cuendar orofim l&aacute; no sengue.</i>    <br>   Ele foi buscar lenha l&aacute; no mato.</FONT></P>     <P><FONT SIZE="3">Uma varia&ccedil;&atilde;o do presente cont&iacute;nuo &eacute;    aquela em que o verbo auxiliar aparece no imperfeito:</FONT></P>     <P><FONT SIZE="3"><b>14.</b><i> O cumbe j&aacute; estava cuendando.</i>    ]]></body>
<body><![CDATA[<br>   O sol j&aacute; estava indo (se pondo).</FONT></P>     <P><FONT SIZE="3">Quanto &agrave; varia&ccedil;&atilde;o de pessoa, as formas    verbais em geral aparecem sistematicamente na distin&ccedil;&atilde;o de primeira    e terceira pessoas do singular, estendidas quando necess&aacute;rio para a express&atilde;o    das demais pessoas. Todos esses fatos, aqui apresentados de maneira puramente    exemplificadora, s&atilde;o, quanto &agrave;s caracter&iacute;sticas gramaticais    que os distinguem, pr&oacute;prios n&atilde;o apenas da "l&iacute;ngua    africana" do Cafund&oacute;, mas mais genericamente do portugu&ecirc;s    falado na regi&atilde;o. Nas grava&ccedil;&otilde;es que fizemos, os dois verbos    mais utilizados e com maior abrang&ecirc;ncia de significa&ccedil;&otilde;es    s&atilde;o em primeiro lugar o verbo <i>cuendar</i> e, em segundo lugar, o verbo    <i>co&ccedil;umbar</i>. As formas perifr&aacute;sticas com <i>ir</i> e <i>estar</i>    s&atilde;o tamb&eacute;m muito freq&uuml;entes.</FONT></P>     <P><FONT SIZE="3">Apesar do l&eacute;xico extremamente limitado, o sistema do    Cafund&oacute; &eacute; vivo e produtivo. Do ponto de vista estritamente lexical,    observa-se de fato uma constante expans&atilde;o do vocabul&aacute;rio atrav&eacute;s    do uso de express&otilde;es formadas por processos metaf&oacute;ricos e anal&oacute;gicos.    Essa expans&atilde;o se d&aacute; em geral atrav&eacute;s do uso de palavras    do l&eacute;xico africano, que concorrem para a forma&ccedil;&atilde;o de novas    express&otilde;es cuja estrutura gramatical &eacute;, grosso modo, a de nome    + preposi&ccedil;&atilde;o + nome. Para expressar um novo significado, parte-se    de um nome e particulariza-se, atrav&eacute;s do genitivo portugu&ecirc;s, gramaticalmente    falando, um novo significado.</FONT></P>     <P><FONT SIZE="3"><b>15.</b><i> tenhora da mucanda</i>    <br>   enxada da escrita (caneta)    <br>   <b>16.</b><i> camberer&aacute; do vava</i>    <br>   carne da &aacute;gua (peixe)    <br>   <b>17.</b><i> mutombo do injequ&ecirc;</i>    <br>   mandioca do saco (amendoim)    <br>   <b>18.</b><i> inj&oacute; da marrupa</i>    ]]></body>
<body><![CDATA[<br>   casa do sono (quarto)    <br>   <b>19.</b><i> ngombe do andaru</i>    <br>   boi de fogo (carro)    <br>   <b>20.</b><i> nanga do vis&oacute;</i>    <br>   roupa dos olhos (&oacute;culos)    <br>   <b>21.</b><i> injequ&ecirc; do vava</i>    <br>   saco de &aacute;gua (nuvem)    <br>   <b>22.</b><i> obiquanga do avero</i>    <br>   tijolo de leite (queijo)    <br>   <b>23.</b><i> obiquanga do vava</i>    ]]></body>
<body><![CDATA[<br>   tijolo de &aacute;gua (sabonete)    <br>   <b>24.</b><i> sanje do t&eacute;qui</i>    <br>   frango da noite (morcego)    <br>   <b>25.</b><i> obiquanga do pepa</i>    <br>   tijolo de farinha (p&atilde;o)    <br>   <b>26.</b><i> obiquanga do ture</i>    <br>   tijolo de terra (tijolo)    <br>   <b>27.</b><i> injequ&ecirc; do andaru</i>    <br>   saco de fogo (panela)    <br>   <b>28.</b><i> injequ&ecirc; do variar</i>    ]]></body>
<body><![CDATA[<br>   saco de comida (panela)    <br>   <b>29.</b><i> co&ccedil;umbador do cup&oacute;pia</i>    <br>   fazedor de fala (l&iacute;ngua)    <br>   <b>30.</b><i> pepa da cuipa</i>    <br>   p&oacute; de matar (veneno em p&oacute;)    <br>   <b>31.</b><i> vava do cuipa</i>    <br>   &aacute;gua de matar (veneno l&iacute;quido)</FONT></P>     <P><FONT SIZE="3">Em outras express&otilde;es al&eacute;m do esquema gramatical    do portugu&ecirc;s, um dos itens lexicais &eacute; tamb&eacute;m tirado dessa    l&iacute;ngua como, por exemplo, em:</FONT></P>     <P><FONT SIZE="3"><b>32.</b><i> respeito do ngombe</i>    <br>   respeito do boi (arame farpado)    ]]></body>
<body><![CDATA[<br>   <b>33.</b><i> chamar no quinamba</i>    <br>   chamar na perna (levantar e ir embora)</FONT></P>     <P><FONT SIZE="3">Em (33) aparece a preposi&ccedil;&atilde;o <i>em</i>, que &eacute;    tamb&eacute;m muito freq&uuml;ente como recurso formador de express&otilde;es    e de novas significa&ccedil;&otilde;es na "l&iacute;ngua africana"    do Cafund&oacute;. Assim, por exemplo:</FONT></P>     <P><FONT SIZE="3"><b>34.</b><i> tata vavuro no godema</i>    <br>   homem forte no bra&ccedil;o    <br>   <b>35.</b><i> tata vavuro no orongombi</i>    <br>   homem forte no dinheiro (rico)    <br>   <b>36.</b><i> tata n&acirc;ni no orongombi</i>    <br>   homem fraco no dinheiro (pobre)    <br>   <b>37.</b><i> no quilombo que vai cuendar</i>    ]]></body>
<body><![CDATA[<br>   amanh&atilde;    <br>   <b>38.</b><i> no quilombo que j&aacute; cuendou</i>    <br>   ontem    <br>   <b>39.</b><i> n&acirc;ni de co&ccedil;umbar no quinamba</i>    <br>   usar pouco a perna (perto)</FONT></P>     <P><FONT SIZE="3">Al&eacute;m desse fen&ocirc;meno de expans&atilde;o, a limita&ccedil;&atilde;o    do vocabul&aacute;rio est&aacute; na base de um outro fen&ocirc;meno caracter&iacute;stico    da "l&iacute;ngua africana" que &eacute; o da homon&iacute;mia bastante    generalizada. Al&eacute;m dos verbos que t&ecirc;m significa&ccedil;&atilde;o    muito variada, principalmente <i>cuendar</i> e <i>co&ccedil;umbar</i>, outros    itens lexicais apresentam tamb&eacute;m mais de uma significa&ccedil;&atilde;o,    em geral determinada ou pelo contexto mais amplo do uso, ou pelos mecanismos    de qualifica&ccedil;&atilde;o dos quais o genitivo &eacute; o principal. Assim,    <i>cam&eacute;ria</i> significa 'rosto', 'l&aacute;bio' e 'boca'; <i>mutombo</i>    significa 'mandioca', cabe&ccedil;a'; <i>godema</i> significa 'bra&ccedil;o',    'm&atilde;o', 'dedo' e 'medida'; <i>n&acirc;ni</i> significa 'n&atilde;o', 'perto',    'pouco', 'fraco', 'magro', 'baixo', 'quase', 'menos' e, em geral, tudo que &eacute;    negativo. Por outro lado, <i>vavuro</i> significa 'sim', 'longe', 'muito', 'forte',    'gordo', 'alto', 'mais' e, em geral, tudo que &eacute; positivo. <i>N&acirc;ni</i>    e <i>vavuro</i>, al&eacute;m de servirem para refor&ccedil;ar a nega&ccedil;&atilde;o    e a afirma&ccedil;&atilde;o respectivamente, s&atilde;o usados como elementos    que exprimem a restri&ccedil;&atilde;o e a amplia&ccedil;&atilde;o do que se    est&aacute; dizendo. Assim, na express&atilde;o</FONT></P>     <P><FONT SIZE="3"><b>40.</b><i> cumbe n&acirc;ni do t&eacute;qui</i></font></P>     <P><FONT SIZE="3">que significa 'lua nova', o morfema <i>n&acirc;ni</i>, embora    invari&aacute;vel quanto ao g&ecirc;nero e ao n&uacute;mero, parecendo ser dessa    forma adv&eacute;rbio, funciona como um adjetivo. A tradu&ccedil;&atilde;o literal    de (40) seria 'sol pequeno da noite'; a tradu&ccedil;&atilde;o literal de</FONT></P>     <P><FONT SIZE="3"><b>41.</b> <i>cumbe vavuro do t&eacute;qui</i></font></P>     <P><FONT SIZE="3">seria 'sol grande da noite', isto &eacute;, 'lua cheia'. Outras    vezes, atrav&eacute;s de mecanismos de restri&ccedil;&atilde;o, como por exemplo    em</FONT></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<P><FONT SIZE="3"><b>42.</b> <i>nhamenhara curima n&acirc;ni</i></font></P>     <P><FONT SIZE="3">cujo sentido literal &eacute; 'o homem trabalha pouco', o que    se expressa &eacute; uma nega&ccedil;&atilde;o, ou seja, 'o homem n&atilde;o    trabalha'. Para dizer algo de positivo ou de negativo, muitas vezes basta usar    <i>vavuro</i> ou <i>n&acirc;ni</i> depois de um nome. Em</FONT></P>     <P><FONT SIZE="3"><b>43.</b> <i>palul&eacute; vavuro</i></font></P>     <P><FONT SIZE="3">e em</FONT></P>     <P><FONT SIZE="3"><b>44.</b> <i>palul&eacute; n&acirc;ni</i></font></P>     <P><FONT SIZE="3">o sentido &eacute; respectivamente 'sapato bom' e 'sapato ruim'.    O uso de <i>vavuro</i> e de <i>n&acirc;ni</i> permite tamb&eacute;m fazer uma    outra observa&ccedil;&atilde;o sobre a concord&acirc;ncia de g&ecirc;nero na    "l&iacute;ngua" do Cafund&oacute;. J&aacute; dissemos que <i>vavuro</i>    e <i>n&acirc;ni</i> mesmo quando usados como adjetivos, s&atilde;o invari&aacute;veis.    Em muitas express&otilde;es h&aacute; contudo concord&acirc;ncia de g&ecirc;nero,    concord&acirc;ncia esta calcada sobre o g&ecirc;nero da palavra que d&aacute;    em portugu&ecirc;s o significado da express&atilde;o na "l&iacute;ngua"    do Cafund&oacute;. &Eacute; o que ocorre em <i>mutombo do injequ&ecirc;, tenhora    da mucanda, obiquanga do avero</i>. N&atilde;o &eacute; o que ocorre em express&otilde;es    <i>como s&acirc;nji do t&eacute;qui, obiquanga do pepa e inj&oacute; da marrupa</i>.    Os mecanismos de concord&acirc;ncia de g&ecirc;nero tendem a obedecer aos padr&otilde;es    do portugu&ecirc;s, embora o que se possa de fato dizer &eacute; que eles s&atilde;o    bastante aleat&oacute;rios e que isto talvez tenha a ver com a conflu&ecirc;ncia    de dois tipos diferentes de l&iacute;ngua na "l&iacute;ngua africana"    do Cafund&oacute;: uma opera a concord&acirc;ncia atrav&eacute;s de prefixos    classificat&oacute;rios (banto) e a outra atrav&eacute;s de sufixos de 'masculino'    e 'feminino', com varia&ccedil;&otilde;es de singular e plural (portugu&ecirc;s).</FONT></P>     <P><FONT SIZE="3">Algumas vezes os processos metaf&oacute;ricos de express&atilde;o    s&atilde;o mais sofisticados, como por exemplo na express&atilde;o</FONT></P>     <P><FONT SIZE="3"><b>45. </b><i>o que cuenda vavuro no vis&oacute;</i>    <br>   o que anda muito nos olhos</FONT></P>     <P><FONT SIZE="3">que tanto pode se referir a uma regi&atilde;o montanhosa como    a um dia claro. A met&aacute;fora, como se v&ecirc;, &eacute; constitu&iacute;da    sobre a possibilidade de se enxergar &agrave; dist&acirc;ncia. Neste sentido,    associa elementos de altura e de luz. Figuras por associa&ccedil;&atilde;o de    utilidade, de contig&uuml;idade, de funcionalidade, de localiza&ccedil;&atilde;o,    constru&iacute;das sobre o universo da experi&ecirc;ncia do meio rural s&atilde;o    tamb&eacute;m comuns. Assim, a palavra <i>chipoqu&ecirc;</i> significa 'feij&atilde;o'    e a express&atilde;o para 'garganta' &eacute;</FONT></P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<P><FONT SIZE="3"><b>46.</b><i> o que cuenda o chipoqu&ecirc;</i>    <br>   o que anda o feij&atilde;o (o que engole o feij&atilde;o).</FONT></P>     <P><FONT SIZE="3">Neste caso poder-se-ia falar mais apropriadamente de processos    meton&iacute;micos de expans&atilde;o do l&eacute;xico. Sem sombra de d&uacute;vida    &eacute; um processo desse tipo que permite, a partir da palavra <i>chipoqu&ecirc;</i>    estender o significado de feij&atilde;o para a palavra <i>chipocu</i> e com    ela significar '&acirc;nus'. A explica&ccedil;&atilde;o de Ot&aacute;vio Caetano,    j&aacute; falecido e l&iacute;der na &eacute;poca dos Almeida Caetano, para    essa palavra descreve a meton&iacute;mia de que estamos falando. Segundo ele,    <i>chipocu</i> significa '&acirc;nus' porque "ele toma conta do feij&atilde;o,    porque o feij&atilde;o sai por ali". Da mesma forma, a palavra <i>arambu&aacute;</i>    significa 'c&atilde;o' e, metonimicamente, 'rabo', ou vice-versa. Mas a extens&atilde;o    aqui vai mais longe. Quando perguntamos aos Almeida Caetano como era 'n&aacute;degas'    na "l&iacute;ngua", eles nos disseram a mesma palavra <i>arambu&aacute;</i>,    e Ot&aacute;vio se apressou em dar um exemplo:</FONT></P>     <P><FONT SIZE="3"><b>47.</b><i> cuendar o godema no arambu&aacute; do camanaco</i>    <br>   andar o bra&ccedil;o no traseiro do menino (bater    na bunda)</FONT></P>     <P><FONT SIZE="3">Mais uma vez, Ot&aacute;vio se encarregou de explicitar o mecanismo:    "Arambu&aacute; &eacute; bunda porque &eacute; a maneira que um cachorro    carrega para tr&aacute;s. Ele carrega para tr&aacute;s, n&eacute;? Da&iacute;    fica cachorro. Vavuro assim de bunda, da&iacute; tratam ela o cachorr&atilde;o,    quando &eacute; grande".</FONT></P>     <P><FONT SIZE="3">A sintaxe dessa "l&iacute;ngua" procede na maior parte    das vezes por simples justaposi&ccedil;&atilde;o de palavras invari&aacute;veis.    Assim:</FONT></P>     <P><FONT SIZE="3"><b>48.</b> <i>Nhamanhara n&acirc;ni de anguto</i>    <br>   homem sem mulher (solteiro)</FONT></P>     <P><FONT SIZE="3"><b>49. </b><i>Anguto n&acirc;ni de nhamanhara</i>    ]]></body>
<body><![CDATA[<br>   mulher sem homem (solteira).</FONT></P>     <P><FONT SIZE="3">Esse procedimento, aliado ao recurso constante a figuras de    linguagem como a met&aacute;fora e a meton&iacute;mia, torna muitas vezes dif&iacute;cil    acompanhar o que &eacute; que os moradores do Cafund&oacute; est&atilde;o dizendo,    mesmo quando j&aacute; se conhece o vocabul&aacute;rio e os mecanismos estruturais    de sua expans&atilde;o. &Eacute; verdade que em v&aacute;rias ocasi&otilde;es    tivemos a impress&atilde;o de que, falando entre si, eles tamb&eacute;m n&atilde;o    se compreendiam e o uso da l&iacute;ngua parecia ser, nessas ocasi&otilde;es,    um exerc&iacute;cio l&uacute;dico para divertir o pesquisador ou para que eles    se divertissem com o pesquisador. Mas o mais prov&aacute;vel &eacute; que, dadas    as caracter&iacute;sticas apontadas para essa l&iacute;ngua como homon&iacute;mia,    significa&ccedil;&otilde;es metaf&oacute;ricas, eles mesmos tenham dificuldades    de detectar imediatamente as inten&ccedil;&otilde;es do falante e os contextos    que permitiriam descodificar adequadamente o que ele pretende dizer. Sempre    se chega a esses contextos, n&atilde;o sem passar por uma grande variedade de    circunl&oacute;quios que d&atilde;o a impress&atilde;o de uma verdadeira ciranda    de obs&eacute;quios e de comportamentos rituais ligados &agrave;s formas de    representa&ccedil;&atilde;o de sua "africanidade" e de sua "brasilidade"    pela linguagem.</FONT></P>     <P>&nbsp;</P>     <P><FONT SIZE="3"><i><b>Carlos Vogt</b> &eacute; professor titular de sem&acirc;ntica    do Departamento de Ling&uuml;&iacute;stica, e coordenador do Laborat&oacute;rio    de Estudos Avan&ccedil;ados em Jornalismo (Labjor) da Unicamp; &eacute; presidente    da Fapesp e vice-presidente da SBPC.    <br>   <b> Peter Fry</b> &eacute; professor titular de antropologia do Instituto de    Filosofia e Ci&ecirc;ncias Sociais da UFRJ. Foi tamb&eacute;m professor de antropologia    da Unicamp.</i></FONT></P>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><FONT SIZE="3"><b>NOTA</b></FONT></p>     <P><FONT SIZE="3">1. O termo "parentela" traduz a express&atilde;o    e o conceito em ingl&ecirc;s <i>descending kindred</i>, de acordo com o trabalho    de Freeman (1961). Refere-se a um grupo corporativo (<i>corporate group</i>),    no qual a inclus&atilde;o dos membros depende, em primeiro lugar, de sua descend&ecirc;ncia    do antepassado fundador (neste caso, Joaquim Congo) e tamb&eacute;m do fato    de seus membros permanecerem moradores nas terras pertencentes ao grupo.</FONT></P>     <P>&nbsp;</P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<P><FONT SIZE="3"><b>BIBLIOGRAFIA CITADA</b></FONT></P>     <!-- ref --><P><FONT SIZE="3">Amaral, A. <i>O dialeto caipira</i>. 3ª edi&ccedil;&atilde;o.    S&atilde;o Paulo: Hucitec, 1976.</FONT><!-- ref --><P><FONT SIZE="3">Freeman, D. "The concept of the kindred". <i>Journal    of the Royal Antropological Institute</i>, vol. 91, Londres, 1961.</FONT><P>&nbsp;</P>     <P>&nbsp;</P>     <P><FONT SIZE="3"><a name="nt"></a><a href="#tx">*</a> Este artigo &eacute; uma    refus&atilde;o de parte de cap&iacute;tulos do livro <i>Cafund&oacute; – a &Aacute;frica    no Brasil</i>, S&atilde;o Paulo: Companhia das Letras, 1996, de nossa autoria.</FONT></P>      ]]></body><back>
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