<?xml version="1.0" encoding="ISO-8859-1"?><article xmlns:mml="http://www.w3.org/1998/Math/MathML" xmlns:xlink="http://www.w3.org/1999/xlink" xmlns:xsi="http://www.w3.org/2001/XMLSchema-instance">
<front>
<journal-meta>
<journal-id>0009-6725</journal-id>
<journal-title><![CDATA[Ciência e Cultura]]></journal-title>
<abbrev-journal-title><![CDATA[Cienc. Cult.]]></abbrev-journal-title>
<issn>0009-6725</issn>
<publisher>
<publisher-name><![CDATA[Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência]]></publisher-name>
</publisher>
</journal-meta>
<article-meta>
<article-id>S0009-67252005000200031</article-id>
<title-group>
<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Prosa]]></article-title>
</title-group>
<contrib-group>
<contrib contrib-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Polito]]></surname>
<given-names><![CDATA[Ronald]]></given-names>
</name>
</contrib>
</contrib-group>
<aff id="A">
<institution><![CDATA[,  ]]></institution>
<addr-line><![CDATA[ ]]></addr-line>
</aff>
<pub-date pub-type="pub">
<day>00</day>
<month>06</month>
<year>2005</year>
</pub-date>
<pub-date pub-type="epub">
<day>00</day>
<month>06</month>
<year>2005</year>
</pub-date>
<volume>57</volume>
<numero>2</numero>
<fpage>64</fpage>
<lpage>64</lpage>
<copyright-statement/>
<copyright-year/>
<self-uri xlink:href="http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=S0009-67252005000200031&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri><self-uri xlink:href="http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?script=sci_abstract&amp;pid=S0009-67252005000200031&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri><self-uri xlink:href="http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?script=sci_pdf&amp;pid=S0009-67252005000200031&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri></article-meta>
</front><body><![CDATA[ <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v57n2/prosa.gif"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><font size="3">RONALD POLITO</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><font size=5> <b>O SR. K.</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3">Os resultados que alcan&ccedil;ou em sua investiga&ccedil;&atilde;o    foram n&atilde;o s&oacute; inconcludentes, como tamb&eacute;m serviram para    tornar as coisas mais incompreens&iacute;veis. Sabia que se tratava de um escritor    ou funcion&aacute;rio p&uacute;blico, sobre o qual pairava a suspeita de que    teria conseguido se transformar ou f&ocirc;ra transformado em um inseto, e cujo    nome se iniciava com K, ou Ca. Mesmo o nome, nos raros registros documentais    que descobriu (sobraram poucos pap&eacute;is depois das guerras), n&atilde;o    era freq&uuml;ente, ou melhor, para ele era dif&iacute;cil saber se estava reunindo    as pe&ccedil;as da vida de uma &uacute;nica ou diversas pessoas, pois parecia    um caso de ortografia inst&aacute;vel. Seus pontos de partida eram fr&aacute;geis:    inicialmente, havia localizado refer&ecirc;ncias a um certo Sr. Kaf&#91;...&#93; (e    a&iacute; havia uma falha no manuscrito), formado em advocacia e funcion&aacute;rio    do Estado; em outro fragmento textual deparou-se com uma alus&atilde;o a &#91;...&#93;fka,    que durante algum tempo teria sido m&eacute;dico em uma aldeia, sem que pudesse    concluir com seguran&ccedil;a que Kaf&#91;...&#93; e &#91;...&#93;fka eram partes de um mesmo    nome e, sobretudo, de uma mesma biografia. Em conseq&uuml;&ecirc;ncia de deriva&ccedil;&otilde;es    de letras ramistas, tamb&eacute;m passou a achar registros de um Sr. Kavka,    C&aacute;vca, ou Qavqa, havendo mesmo uma ocorr&ecirc;ncia de Kaphka, o que    talvez fosse um erro do copista. Kavka (e variantes) foi o inventor de uma m&aacute;quina    utilizada durante algum tempo, sup&otilde;e-se, numa col&ocirc;nia penal, sem    que se saiba o destino que teve. Vistoriando de novo os pap&eacute;is, localizou    um escriv&atilde;o chamado C&aacute;fica, que se suicidou ap&oacute;s uma discuss&atilde;o    com o pai, o que se depreende de um registro de ocorr&ecirc;ncia policial que    foi preservado. E a descoberta de outros ma&ccedil;os de pap&eacute;is s&oacute;    tornou sua investiga&ccedil;&atilde;o ainda mais confusa, com o surgimento de    Kfk – ou Kffk, dependendo da transcri&ccedil;&atilde;o manuseada –, presente    em v&aacute;rios diplomas, mas que provavelmente se referia a diversos indiv&iacute;duos,    j&aacute; que eram muito distintas as informa&ccedil;&otilde;es sobre eles:    um trabalhou na constru&ccedil;&atilde;o de uma muralha no Oriente, outro parece    ter sido domador de macacos ou ter vivido em um castelo, um terceiro exerceu    a profiss&atilde;o de faquir, um quarto n&atilde;o se assemelhava a algo humano    (e aqui os relatos s&atilde;o obscuros e truncados), mas a um rato ou mesmo    a um bicho maior (h&aacute; men&ccedil;&atilde;o a uma toca e a caminhos de    fuga que teria constru&iacute;do). Em outro c&oacute;dice, aparece um tal Sr.    Cafca – e este &eacute; o documento mais estranho que desenterrou dos arquivos.    A parte inferior da p&aacute;gina que sobrou pode ter pertencido a um depoimento    extenso, n&atilde;o se sabe se ficcional, e nela consegue-se apenas ler duas    linhas quase apagadas com as palavras: ‘‘&#91;...&#93; ao v&ecirc;-lo, horrorizada,    atirou-lhe uma ma&ccedil;&atilde; que o atingiu nas costas quando Cafca se voltou    &#91;...&#93;’’. N&atilde;o havia mais livros para prosseguir a busca, depois de ainda    ter identificado em um ant&iacute;grafo os Srs. Kafika e K&aacute;fika, em tudo    distintos biograficamente, e sem nenhuma rela&ccedil;&atilde;o com o homem que    precisava encontrar. N&atilde;o sai mais de seu quarto desde que come&ccedil;ou    a sentir que est&aacute; se transformando. Assusta-se quando a irm&atilde; abre    a porta e grita sufocadamente, deixando cair o saco cheio de legumes e frutas,    que rolam no ch&atilde;o.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><FONT SIZE="3"><b>Ronald Polito</b> (Juiz de Fora, 1961) &eacute; professor    do Departamento de Hist&oacute;ria da UFOP. Preparou edi&ccedil;&otilde;es de    <i>A Concei&ccedil;&atilde;o: o naufr&aacute;gio do Marialva</i>, de Tom&aacute;s    Ant&ocirc;nio Gonzaga (Edusp), <i>O Caramuru</i>, de Santa Rita Dur&atilde;o    (Martins Fontes), <i>O desertor</i>, de Silva Alvarenga (Ed. da Unicamp) e <i>Considera&ccedil;&otilde;es    sobre a nostalgia</i>, de Joaquim Manuel de Macedo (Ed. da Unicamp). Traduziu    do catal&atilde;o <i>O porqu&ecirc; de todas as coisas</i>, de Quim Monz&oacute;    (Globo).</FONT></p>      ]]></body>

</article>
