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</front><body><![CDATA[ <p align="center"><img src="/img/revistas/cic/v57n3/a02img01.gif"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><font size=5><b>O Estado e o multiculturalismo</b></font>    <br>   <font size="3"><b><i>Livio Sansone</i></b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3"><b><font size=5>N</font></b>o Brasil, o debate sobre o multiculturalismo    tem sido o palco de dist&acirc;ncia entre discurso e pr&aacute;tica social.    Precisamos contextualizar tal discurso, hist&oacute;rica e sociologicamente.    Uma forma de fazer isso &eacute; analisar como este fen&ocirc;meno surgiu enquanto    ideal de sociedade em alguns pa&iacute;ses europeus, que h&aacute; muito tempo    est&atilde;o tentando lidar com diferen&ccedil;a &eacute;tnica, racial e cultural    a partir de um conjunto de medidas p&uacute;blicas. Nas considera&ccedil;&otilde;es    sobre o multiculturalismo e o Brasil, &eacute; importante aproveitar tanto o    debate como o olhar "de fora", sem reduzir a reflex&atilde;o, comparando apenas    Estados Unidos e Brasil. Interessa enfocar os pa&iacute;ses europeus que receberam    uma forte imigra&ccedil;&atilde;o, sobretudo a partir do segundo p&oacute;s-guerra,    as assim chamadas sociedades multiculturais, nas quais existe uma rela&ccedil;&atilde;o    org&acirc;nica entre discursos, leis e pr&aacute;ticas multiculturais. Refiro-me    concretamente a Alemanha, Fran&ccedil;a, B&eacute;lgica, Holanda e Inglaterra.    Nesses pa&iacute;ses, na base do multiculturalismo encontram-se tr&ecirc;s fontes    cl&aacute;ssicas.</font></p>     <p><FONT size="3"><b>PACTO SOCIAL</b> Em primeiro lugar, h&aacute; o pacto social     o compromisso do Estado e parte das elites de cuidar dos exclu&iacute;dos    e dos pobres. Nesse sentido, se pensa os pobres  as categorias de exclu&iacute;dos     como pass&iacute;veis de medidas legislativas particulares, como redistribui&ccedil;&atilde;o    de renda, mas num processo de incorpora&ccedil;&atilde;o seletiva de uma parte    dos pobres. Nem todos os pobres podem e devem ser ajudados, somente aqueles    que se submetem &agrave;s regras do conv&iacute;vio estabelecidas pelo pacto    social. Na Holanda, o primeiro seguro-desemprego foi institu&iacute;do em 1522    e logo foi preciso definir quem era digno de receb&ecirc;-lo. Para isso, institu&iacute;ram-se    direitos especiais, mesmo dentro do contexto da legisla&ccedil;&atilde;o universalista.    O objetivo substancial era  e ainda &eacute;  prevenir ou, pelo menos, administrar    o conflito.</font></p>     <p><FONT size="3"><b>PASSADO COLONIAL</b> A segunda fonte importante &eacute;    o passado colonial. Nesse sentido, pode-se falar de diferentes estilos de colonialismo:    a) o sistema brit&acirc;nico do <i>indirect rule</i>, ou governo indireto; b)    o sistema das sociedades plurais como, por exemplo, a do Imp&eacute;rio holand&ecirc;s,    que se baseia na exist&ecirc;ncia de um direito &eacute;tnico. Assim, no Suriname,    at&eacute; os anos 1930, o direito civil e, em alguns casos, o penal variavam    segundo o grupo &eacute;tnico. Um sistema n&atilde;o muito diferente valia na    &Aacute;frica do Sul sob o regime do <i>apartheid</i>  n&atilde;o por acaso,    uma palavra holandesa; e c) no extremo oposto, existia a vers&atilde;o do colonialismo    do Imp&eacute;rio franc&ecirc;s, que era baseada na no&ccedil;&atilde;o de <i>francit&eacute;</i>,    de universalismo na "boca do fuzil" e na atratividade de uma ocidentaliza&ccedil;&atilde;o    poss&iacute;vel, embora a altos custos (ou duras penas), para uma parcela da    popula&ccedil;&atilde;o "nativa". Pr&aacute;ticas e teorias divergiam em muitos    casos e todo colonialismo, pelo menos na &Aacute;frica, em algum momento lan&ccedil;ou    m&atilde;o de ambos os tipos de dom&iacute;nio, o direto e o indireto.</font></p>     <p><font size="3"> Todos esses estilos de colonialismo previam a institucionaliza&ccedil;&atilde;o    de algum tipo de etnicidade dos direitos e deveres, embora muitas vezes associados    a um discurso de igualdade e de respeito &agrave; diferen&ccedil;a. De qualquer    forma, os tr&ecirc;s estilos levaram a h&aacute;bitos &eacute;tnicos e culturais,    e a consensos que se mostraram tenazes e capazes de influenciar bastante a &eacute;poca    p&oacute;s-colonial. Nos &uacute;ltimos anos, por&eacute;m, esses sistemas est&atilde;o    sendo colocados em discuss&atilde;o pelo contexto de internacionaliza&ccedil;&atilde;o    que altera a rela&ccedil;&atilde;o entre col&ocirc;nia e metr&oacute;pole a    partir das grandes migra&ccedil;&otilde;es e da globaliza&ccedil;&atilde;o das    culturas. Nas &uacute;ltimas duas ou tr&ecirc;s d&eacute;cadas, &eacute; a col&ocirc;nia    que vem &agrave; metr&oacute;pole e, ao mesmo tempo, a metr&oacute;pole permanece    na col&ocirc;nia, at&eacute; se enraizando nela mais ainda. Nunca se falou tanto    o holand&ecirc;s no Suriname e o franc&ecirc;s no Mali como hoje em dia.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><FONT size="3"><b>REGIONALISMO</b> A terceira fonte cl&aacute;ssica &eacute;    a tradi&ccedil;&atilde;o que diz respeito &agrave;s formas de se lidar com as    diferen&ccedil;as &eacute;tnicas e regionais internas desses pa&iacute;ses europeus.    Trata-se do assim dito "regionalismo" de alguns pa&iacute;ses que se afirmam    como Estados-na&ccedil;&atilde;o na Europa a partir de um compromisso com as    diferen&ccedil;as culturais regionalizadas, redistribuindo recursos e poder    pol&iacute;tico para minorias e "col&ocirc;nias" internas. Refiro-me aos catal&atilde;es,    bascos, bret&otilde;es, galeses, sardos, corsos etc. </font></p>     <p> <font size="3">&Eacute; evidente que nem todo pa&iacute;s da Europa &eacute;    atingido da mesma forma por esses tr&ecirc;s fen&ocirc;menos: pacto social,    passado colonial e regionalismo. Um determinado pa&iacute;s pode dar prova de    generosidade e toler&acirc;ncia com rela&ccedil;&atilde;o ao pacto social, mas    n&atilde;o ao regionalismo. E vice-versa. </font></p>     <p><font size="3">O Conselho da Europa, num esfor&ccedil;o de pragmatismo e postura    ecum&ecirc;nica, optou por dividir, de outra forma, os pa&iacute;ses europeus    com rela&ccedil;&atilde;o &agrave; multiculturalidade, salientando o fator variedade.    Por um lado, haveria os pa&iacute;ses nos quais a nacionalidade &eacute; vista    como o come&ccedil;o da integra&ccedil;&atilde;o, como a Fran&ccedil;a e, por    outro lado, pa&iacute;ses, como a Alemanha, onde a nacionalidade &eacute; vista    como o resultado final do processo de integra&ccedil;&atilde;o. Na Alemanha,    Su&iacute;&ccedil;a e Fran&ccedil;a, a &ecirc;nfase seria na cidadania, enquanto    na Holanda, Su&eacute;cia, Noruega e Dinamarca, no pluralismo cultural. A Inglaterra    &eacute; um caso a parte, pois a &ecirc;nfase n&atilde;o &eacute; no pluralismo    cultural, mas na luta contra o racismo. Nesse sentido, a Inglaterra &eacute;    o &uacute;nico pa&iacute;s europeu onde as ag&ecirc;ncias governamentais falam    de rela&ccedil;&otilde;es raciais, em lugar de rela&ccedil;&otilde;es inter&eacute;tnicas.    </font></p>     <p><font size="3">De qualquer forma, em todos esses pa&iacute;ses, a diversidade    &eacute;tnica, resultado da imigra&ccedil;&atilde;o, apresentou-se como um choque    porque colocou em discuss&atilde;o o pacto social. Nesse sentido, a imigra&ccedil;&atilde;o    de massa tem tido um efeito quase revolucion&aacute;rio sobre a realidade social    dos pa&iacute;ses em quest&atilde;o. </font></p>     <p><font size="3">Depois da Segunda Guerra Mundial, nos pa&iacute;ses analisados,    a Inglaterra foi a que primeiro recebeu uma imigra&ccedil;&atilde;o maci&ccedil;a,    j&aacute; a partir dos anos 1940 e 1950. Nesse pa&iacute;s, j&aacute; no final    dos anos 1960 chega &agrave; idade adulta a "segunda gera&ccedil;&atilde;o"    de descendentes de imigrantes do p&oacute;s-guerra  os filhos dos trabalhadores    contratados no Caribe angl&oacute;fono. Na Holanda, somente em 1978 o governo    reconhece, pela primeira vez, que o pa&iacute;s &eacute; de imigra&ccedil;&atilde;o.    Na Fran&ccedil;a, isso se d&aacute; nos anos 1980, com Mitterand. E, no final    dos anos 1990, na Alemanha, finalmente, a legisla&ccedil;&atilde;o &eacute;    alterada para permitir a dupla nacionalidade. </font></p>     <p><FONT size="3"><b>O PAPEL DA ESCOLA P&Uacute;BLICA</b> Al&eacute;m de se tratar    de pa&iacute;ses com culturas distintas, &eacute; preciso acrescentar que, hoje,    as pol&iacute;ticas que dizem respeito &agrave; diferen&ccedil;a etnocultural    mostram, em cada pa&iacute;s, com rela&ccedil;&atilde;o ao passado e &agrave;s    tr&ecirc;s fontes cl&aacute;ssicas mencionadas antes, tanto continuidade como    descontinuidade. Um forte elemento de continuidade depende do "enraizamento"    do multiculturalismo na hist&oacute;ria do estado social e do ensino obrigat&oacute;rio.    Se o servi&ccedil;o p&uacute;blico &eacute; o &acirc;mbito em que se experimentam    medidas em prol de minorias, como quotas, programas de treinamento e planos    de carreira, a escola p&uacute;blica &eacute; o palco principal do discurso    pr&oacute;-diversidade do multiculturalismo. Sobretudo na Holanda, na Alemanha    e na Inglaterra, os respectivos minist&eacute;rios da educa&ccedil;&atilde;o    investiram muito dinheiro e recursos na implementa&ccedil;&atilde;o de medidas    multiculturalistas, implementando pol&iacute;ticas afins nas escolas e estimulando    os professores a formarem uma vis&atilde;o de mundo um pouco mais tolerante    e cosmopolita do que antes (embora com princ&iacute;pios discut&iacute;veis,    nos quais as culturas de maioria e minoria coexistem em estilo mosaico ou <i>patchwork</i>).    Na maior parte dos casos, trata-se de um esfor&ccedil;o feito com grande seriedade.    Nesses cinco pa&iacute;ses  Holanda, Fran&ccedil;a, Alemanha, Inglaterra e    B&eacute;lgica  o Estado gerencia as medidas e articula os discursos acerca    do multiculturalismo. De fato, este surge como vontade e resposta do Estado,    muitas vezes at&eacute; contra os interesses da iniciativa privada. Hoje, a    efetiva&ccedil;&atilde;o do multiculturalismo est&aacute;, muitas vezes, colocada    em discuss&atilde;o pela pr&oacute;pria crise da m&aacute;quina estatal, caracter&iacute;stica    desta &eacute;poca nos cinco pa&iacute;ses mencionados. Embora, neles, o Estado    continue muito presente nas pol&iacute;ticas sociais e n&atilde;o pare&ccedil;a    estar transformando-se em uma m&aacute;quina punitiva com rela&ccedil;&atilde;o    &agrave; pobreza  ao contr&aacute;rio do que parece acontecer nos Estados Unidos     seu poder de interven&ccedil;&atilde;o &eacute; severamente afetado pelos    cortes dos gastos p&uacute;blicos e a privatiza&ccedil;&atilde;o de servi&ccedil;os.    </font></p>     <p><font size="3"> Os efeitos das medidas e pr&aacute;ticas multiculturalistas,    ademais, s&atilde;o diferenciados. Podem ser um, com rela&ccedil;&atilde;o aos    trabalhadores imigrados, outro, com rela&ccedil;&atilde;o &agrave;s minorias    origin&aacute;rias das ex-col&ocirc;nias  que, na maioria dos casos, est&atilde;o    mais familiarizadas com a l&iacute;ngua, a religi&atilde;o e a cultura da metr&oacute;pole     e ainda um terceiro, no caso das minorias regionais. Assim, um pa&iacute;s    pode ser generosamente multicultural com uma minoria e pouco tolerante com uma    outra. </font></p>     <p><font size="3">Finalizando, hoje a integra&ccedil;&atilde;o dos "estrangeiros"    nesses pa&iacute;ses se d&aacute; em um contexto mais fluido com rela&ccedil;&atilde;o    ao passado, definido por cidades e regi&otilde;es mais do que por Estados, e    caracterizado tanto pela hetero quanto pela homogeneiza&ccedil;&atilde;o cultural.    </font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3"><i><b>Livio Sansone </b>&eacute; coordenador de p&oacute;s-gradua&ccedil;&atilde;o    em estudos &eacute;tnicos e africanos do Centro de Estudos Afro-Orientais da    Universidade Federal da Bahia (UFBA) </i></font></p>     ]]></body>
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